2.4 Problematizando algumas categorias
2.4.1 A luta de sentidos
Com muito orgulho serei MST sempre na vida agora. Eu disse que quando eu for fazer minha casa eu vou desenhar a bandeira do MST bem na área aí. Quero desenhar a bandeira. E não tenho vergonha de dizer que eu fui Sem Terra e sempre digo pros outros que não tem um pedacinho de terra, vão acampar, vão lutar que nem eu lutei. Se pra vocês ficarem ali, se os pais não têm condições de comprar um pedacinho de terra, vão lutar que nem eu lutei. Eu sempre digo, eu levei os dois pequenininhos para debaixo da lona... de certo eles
sofreram, mas é pro bem deles né.104
A palavra “Luta” é recorrente no universo pesquisado. Seus sentidos são variados105 e aparece inserida em frases a partir de diferentes conjunções: “fugir à luta”, “lutas sociais”, “luta que altera o poder”, “luta pela terra”, “autenticidade da luta”, “sindicato como ferramenta de luta”, “abraçar a luta”, “organizar e lutar”, “luta do povo”, “com muita luta”, “continuar na luta”, “luta que vai do campo para a cidade”, “divergência como parte da luta”, “nossa luta é justa”, “participar da luta”, “se engajar na luta de corpo e alma”, “luta de classe”, “luta política”, etc. Todas essas conjunções estavam presentes em uma única entrevista com um membro da Frente de Massa do MST. Ao longo de pouco menos de uma hora de entrevista, ele utilizou 36 vezes a palavra luta (luta, lutar e lutas). A partir de um breve apanhado, percebi que essa palavra está muito mais presente entre as lideranças do MST e, sobretudo, dentre aqueles que estão no acampamento. Mesmo quando aparece na fala dos assentados ela está mais associada ao período do acampamento. Portanto, pode-se deduzir que o acampamento é o local privilegiado da “luta” e são as suas lideranças as que mais formulam certas compreensões nas quais a “luta” tem centralidade. Mas, quais os sentidos notados para esta palavra?
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Fala da Dona Catariana, assentada no assentamento novo.
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Sobre os vários sentidos da categoria “luta” ver Comerford (1999). Ver também suas análises concernentes à sociabilidade agonística em comunidades do interior de Minas Gerais: Comerford (2003).
No sentido corrente entre as lideranças do MST, a participação nas lutas é como um ritual iniciático. Todo acampado é iniciado em um processo de identificação do inimigo e de auto-identificação como Sem-terra, e passam a compreender as relações sociais a partir de um sentido agonístico muito importante nos discursos e nas ações do MST. Também por aí faz sentido as análises de Thompson (1987), ao observar que não existe a classe antes da luta de classes. Deve ser considerado que é a partir da sua experiência que os agentes aqui analisados “aprenderam a ver suas vidas como parte de uma história geral de conflitos” (Thompson, 1987 p.304) e assim se constituíram enquanto agentes em lutas.
Nesse sentido, as lutas são formadoras de consciências. Formar a consciência dos acampados é um “empreendimento” prioritário para as lideranças do MST. Como se verá em outras partes dessa tese, a tomada de consciência que estas lideranças supostamente já possuem, tem nas lutas seu principal fundamento. Em um trabalho de conclusão do curso “Realidade Brasileira”, promovido a partir de uma parceria do MST com a UFRGS, Anita, uma liderança do acampamento sobre a qual já comentei e voltarei ao longo da tese, fez a seguinte consideração em um texto que ela intitulou “Perspectivas da consciência de classe
para os acampados do Jair Antonio da Costa, região metropolitana de Porto Alegre”:
Conforme o tempo e os processos de luta contra o capital vão acontecendo, iremos perceber se esta família está de fato conseguindo assimilar todos os processos de elevação de ser sujeito de sua própria história. Percebemos isso quando começam a questionar sobre, primeiramente, suas dúvidas e, após, começam a elaborar suas próprias opiniões. Desta forma, se a organicidade do acampamento esta realmente funcionando ela consegue ser um dos agentes desta transformação de consciência de classe. (ênfases acrescentadas). Nesse processo, o tempo está intimamente conjugado com a luta. Não se chega à consciência sem uma dinâmica de luta duradoura. O papel da organicidade nessa dinâmica é fundamental e seu poder de transformar consciências deve ser medido periodicamente. Portanto, nesse sentido de luta, há uma conjunção de vários elementos: o tempo, as lideranças, a organicidade, a consciência política e as ações. É a eficiência dessa luta que evitará, conforme Anita, “que após anos de luta esta base, antes acampada e futuramente assentada
se transforme em pequena burguesia do campo”. (ênfases acrescentadas). “Luta”, nessa
acepção, é utilizada como força de expressão, próximo ao sentido de “causa”: a luta do MST, a causa do MST. Estão visando, com tal expressão, designar, de maneira ampla, uma situação ou engajamento com vistas a um tipo de conquista. Ou seja, quer definir muito mais um estado, uma adesão ideológica, do que uma ação prática.
Um outro sentido mais prático e relacionado com o sentido anterior é aquele em que a luta faz referência a uma ação pontual: “vamos fazer uma luta”. Fazer uma luta pode significar a ocupação de uma prefeitura, por exemplo, ou, neste mesmo sentido, dizer que se está num “período de lutas”, sinal de que viverão períodos de intensificação das ações de impactos: marchas, ocupações de terra, manifestações, etc. Nesse caso, a luta tem uma objetividade quase quantificável e é tomada como um critério para o acampado ser contemplado com um lote de terra em um futuro assentamento organizado pelo MST. Tal participação nas lutas pode estar, inclusive, descrita no “cadastro” que cada acampado possui e que é gerenciado pelo Setor da Secretaria.
Estes dois sentidos são, digamos, os sentidos mais usuais entre os sem-terra e, especialmente entre suas lideranças. A noção de “luta de classes” também é freqüente e
denota um nível mais elevado de incorporação do linguajar político. É como uma etiqueta simbólica, percebida naquele que está investido da “consciência política”.106
Esse sentido da luta como ação, constantemente verificado ente os Sem-terra, acinou um outro sentido que foi expressado por um acampado. Quando lhe disseram que deveria participar das lutas como contrapartida para conquistar um lote de terra, ele demonstrou preocupação e receio, pois supunha que a luta da qual tratavam era aquela física, “das vias de fato”. Esse, seguramente, é o sentido mais comum entre aqueles que saem das periferias das grandes cidades e vão para o acampamento. Não há nenhuma dimensão política subjacente. A recorrência ao uso da palavra luta quando lançada entre pessoas com tal proveniência também se associa mais diretamente à imagem comumente colada ao MST como uma “organização criminosa”. Dessa forma, luta como transgressão da ordem social – e não da ordem política – é o sentido mais plausível.
A luta no sentido de enfrentar as dificuldades também está presente especialmente na fala daqueles que recordam o período difícil em que permaneceram no acampamento:
Eu sempre tô falando para o pessoal que não pode comprar um pedacinho de terra, vão acampar... “ah, mas é difícil, não tem luz, não tem casa, tem que morar debaixo de uma lona” mas eu também fui, eu também sofria, não é fácil... mas tem que lutar, tem que enfrentar. Luta como trabalho, como labuta.
- Daí eu pensei “será que eu vou viver minha vida inteira assim e minha filha também?” Sempre trabalhando aqui, trabalhando ali. Daí eu pensei “eu vou acampar e vou tirar um pedacinho de terra pra parar essa luta de correr aqui, correr ali”.
- Eu fazia cachaça e trabalhava num restaurante. Quarta-feira, sábado e domingo eu trabalhava de churrasqueiro num restaurante. Fiquei 4 anos nessa luta
Estes últimos sentidos da palavra luta estão, ao contrário dos dois primeiros, mais relacionados com o universo do pobre, daquele sem terra que luta por sua sobrevivência e enfrentam toda sorte de infortúnios. Lutam contra a polícia nos despejos urbanos, lutam embriagados no bar, lutam contra os criminosos, lutam no trabalho, lutam para se manterem no acampamento.... São pessoas que passaram a vida lutando e, sem cessar a luta, encontraram no MST novos sentidos para sua luta e novos sentidos para a palavra luta.
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