III. DOS DISCURSOS FUNDADORES DOS MOVIMENTOS DE NARRAÇÃO ORAL
2. O VETOR UTILITARISTA
2.4. A utilidade social
As aplicabilidades terapêuticas, que visam o indivíduo, e aquelas que visam os grupos, as dinâmicas sociais e o trabalho em comunidade, por vezes, misturam-se, como reconhece Michael Wilson (2006: 103). No entanto, tratando-se de compreender as consequências práticas e poéticas de um discurso utilitarista, a distinção deverá estar nos objetivos expressos. De qualquer modo, salienta-se que o presente estudo não pretende categorizar projetos de narração oral, diferenciando os que visam uma aplicabilidade terapêutica dos que perseguem resultados sociais. A questão fundamental da análise de correntes específicas dentro de um vetor utilitarista é reconhecer as consequências dessas motivações e desses entendimentos na prática dos artistas, no sentido de enquadrar a análise das suas performances.
O campo de ação da narração oral com objetivos sociais é imenso. Como nas suas outras potenciais aplicações, é necessário distinguir o recurso ao ato de “contar” (modelo comunicacional não mediado sob o paradigma do homo narrans), da utilização das “histórias”, neste caso, dos contos ditos tradicionais (repertório muitas vezes utilizado em projetos dessa natureza). Naturalmente convergentes, estas duas linhas podem apresentar especificidades e autonomias. Iniciativas centradas no ato de contar podem não incluir contos tradicionais, centrando-se, por exemplo, na partilha de vivências individuais. Do mesmo modo, metodologias centradas no conto dito tradicional podem não incluir práticas de narração oral, investindo de forma mais direcionada na literacia. Tendo em conta o objeto do presente estudo, interessa reconhecer esses limites.
Apesar do protagonismo da “história” no contexto destes movimentos, conforme tem sido referido, o aspeto essencial da aplicabilidade da narração oral no âmbito do trabalho social é, de forma muito expressiva, o modelo de relação proposto pelo ato de contar e ouvir histórias. Segundo esses discursos, promove a comunicação e a partilha de experiências entre grupos socialmente desvinculados. Nesse campo, a dinamização de relações intergeracionais e a integração cultural de minorias são dois objetivos recorrentes nos projetos de narração oral com uma vertente utilitarista. Nesses casos, as narrativas ditas tradicionais podem ter um papel central, especialmente enquanto instrumento facilitador do diálogo entre gerações e culturas distintas.
Assim, essa corrente do vetor utilitarista, apesar das abordagens distintas, veicula os mesmos princípios das perspetivas pedagógicas e terapêuticas: o paradigma do homo
narrans, a questão não está necessariamente na narrativa enquanto modo de pensar e
entender o mundo, mas enquanto modelo de comunicação, de proximidade e de partilha por excelência. Afinal, como se tem referido, este paradigma estabelece que “todos somos contadores de histórias”:
The mantra that “everybody tells stories” is one that is often quoted by all kinds of storytellers. I have even used it myself a number of times. Community Storytelling attempts to put it into action (Wilson 2006: 115).
Por outro lado, e no que diz respeito aos relatos ditos tradicionais, os discursos dessa corrente não se centram tanto na convicção de que os “contos” encerram verdades simbólicas, como as perspetivas terapêuticas. Antes de mais, é na sua capacidade de guardar e representar uma cultura, de promover diálogos (já que narrativas de origem distinta apresentam paralelismos) que a reverência pela “história” se faz sentir nesses discursos. O “conto” permite um reconhecimento, uma afirmação identitária que traz evidentes estímulos e benefícios aos envolvidos no processo comunitário:
Storytelling is a way of keeping alive cultural heritage of a people. It is akin to the folk dance and the folk song in preserving traditions of a country for the foreign-born child and of building appreciation of another culture for the native-born child. Storytellers find that whenever they tell a story from the background of their listeners, there is an immediate excitement (Green 1996: 38). Exemplar desta abordagem é, por exemplo, o trabalho realizado pelo Centre de
Formation et d´Information pour la Scolarisation des Enfants de Migrant à lÉcole Normal de Lyon, relatado por Nadine Decourt durante o colóquio Le Renouveau du Conte (Calame-Griaule 2001: 313-318). Perseguindo simultaneamente objetivos
pedagógicos e sociais, este trabalho inclui a comparação entre versões de contos tradicionais, ora provenientes da europa, ora dos países de origem dos alunos pertencentes a famílias imigradas. Decourt salienta um aspeto fundamental desse tipo de trabalho:
Et comment ne pas souligner leur joie et leur fierté à conter ou à lire une transcription parfois chèrement arrachée à un père, une mère ou une grand-mère, telle élève allant jusqu’à signer sa traduction? Joie et fierté aussi à afficher leur bilinguisme (bien souvent considéré comme suspect, voire interdit), à pouvoir dire para exemple: “Moi, je suis kabylienne” (Calame Griaule 2001: 315). Por outro lado, o conto dito tradicional, ao mesmo tempo que permite uma identificação e uma afirmação identitária, permite também estabelecer paralelismos culturais. Nesse sentido, permite identificar temas e imaginários comuns entre grupos
distintos, ponto de apoio para o diálogo. Decourt descreve esse processo no caso específico do seu projeto:
A force de miser sur les variantes pour valoriser tant les uns que les autres, à force de toujours encourager les efforts dans le sens de l’ouverture, condition même du dialogue, nous avons pu constater l’aptitude d’enfants, même jeune, à la comparaison [...] Ainsi des enfants, qui, jusque-là, ne supportaient que la réitération du même et refusaient à l´enseignant la moindre entorse à la version familiale ou familière du conte, se sont mis à savoir accueillir la différance, à se montrer au contraire friands de toutes ses manifestations (Calama-Griaule 2001: 317).
Em Portugal, um exemplo da narração oral no trabalho com a comunidade, numa abordagem e num contexto distinto do caso anterior, foi a programação Estória, História
– Encontro de Contadores, Lareiras e Sabores, desenvolvida entre 2007 e 2009 em
aldeias do Maciço da Gralheira. Este encontro anual, que resultava do trabalho continuado do projeto Criar Raízes nas aldeias serranas de São Pedro do Sul, propunha um modelo particular de evento, que investia na interação entre os visitantes e os locais, ao valorizar a cultura e o património de cada uma das partes através do diálogo. A aposta num número reduzido de participantes, numa programação de proximidade, na realização de atividades em espaços privados, centrada nos fazeres tradicionais e na transmissão das histórias do lugar e da sua gente, bem como de patrimónios orais, determinava um evento singular. No programa de 2007, a abordagem do Criar Raízes e dos Contabandistas de Estórias, as duas entidades responsáveis, está manifesta nos materiais de divulgação:
A partir do desejo que a arte de contar histórias fosse promovida e partilhada na região, decidimos a partir desta ideia, (re)descobrir a serra. Entre a Tradição Oral e o Património Local. Num ambiente acolhedor e de partilha, integrado num projecto de promoção de inclusão e desenvolvimento, trazemos o conto de novo para a lareira, para o sítio onde nasceu, nas longas noites de frio e chuva, à volta do lume, em casa das pessoas. A ideia é que os participantes descubram as aldeias e suas gentes, ao circular de casa em casa para ouvir um contador diferente (Sousa 2012: 1).
É visível, no discurso do projeto, a presença das ideias estruturantes do vetor revivalista, e são evidentes os seus objetivos sociais. Outra iniciativa com uma abordagem semelhante surge da parceria entre Elisabete Paiva, então responsável pelo Serviço Educativo do Centro Cultural Vila Flor, e o narrador António Fontinha. Trata-se de um projeto realizado para a programação de Guimarães 2012 – Capital Europeia da
Cultura, denominado Histórias do Princípio do Mundo. A aplicabilidade da narração
oral no contexto de uma programação cultural com evidentes preocupações sociais está implícita na programação e explícita no discurso da programadora:
Num primeiro momento, os propósitos que transmiti ao meu artista-duplo-programador eram três: gerar um projeto específico para os públicos da periferia de Guimarães de pertença marcadamente
rural; produzi-lo num modelo próximo do contexto de origem da tradição oral, os serões à volta da lareira, salvaguardando a sua escala e cenário; contribuir para a revelação de narradores locais (Serviço Educativo do CCVF 2012: 5).
Outro projeto semelhante é o festival Contos da Avó, produzido pelo Teatro Didascália, em Joane, Vila Nova de Famalicão, já referido a propósito das representações da “comunidade” nos discursos revivalistas. Estes projetos são apenas exemplos de uma profícua abordagem utilitarista que tem dado azo a inúmeras experiências, como aquelas referidas por Michael Wilson (2006: 110-115) ou Anne-Sophie Haeringer (2011: 173- 246). Em comum, legitimam a narração oral enquanto instrumento de dinamização das relações sociais, graças, por um lado, à sua ubiquidade e, por outro, aos patrimónios culturais que permite transmitir.
Desta forma, seja para a comunidade escolar, nos processos de inclusão de estudantes imigrantes, seja para determinada comunidade rural, na dinamização e valorização dos seus patrimónios culturais e humanos, entre muitas outras possibilidades, esses projetos promovem um reconhecimento das singularidades ao afirmar, simultaneamente, a possibilidade de uma inclusão igualitária. É nesse sentido que a narração oral serve os seus propósitos.