• Nenhum resultado encontrado

Capítulo I ─ Sobre a voz

1.6 As vozes do sintoma

1.6.1 A voz perversa

Não está bem clara a articulação da perversão com o sintoma. No entanto, o perverso se constitui em torno da voz, na medida em que ela o invade provocando uma pulsação tal que o faz atuar, que o faz dizer, por exemplo, obscenidades ao telefone. O perverso coloca a sexualidade na voz para, através dela, sexualizar o corpo infantil que se encontra do outro lado da linha. Gozar com sua própria voz naquilo que retorna pelo espanto do outro. Se Freud abordou a relação exibicionismo-escopofilia, podemos, com Lacan e pela mesma via freudiana, abordar a atividade/passividade do perverso no par “falante/ouvinte”. Não é pela sua voz que o sujeito goza ao dizer obscenidades ao telefone, por exemplo. Não é o gozo pela sua voz, da mesma forma que o exibicionista não goza por se mostrar. O gozo aparece naquilo que se ouve do outro a partir do que lhe foi dito. É o retorno da voz do sujeito pela voz do outro; da mesma forma que o exibicionista goza por ver que o outro está lhe vendo. O gozo não está nas vocalizações que são proferidas, mas nas que são ouvidas a partir daquilo que foi falado, ou seja, goza-se pelo retorno da voz no outro. Na pulsão invocante, o gozo está em ouvir do outro aquilo que lhe foi dito. Aquilo que se mostra como passividade é atividade; ou se faz ouvir, na medida em que ativamente provoca uma passividade. É uma terceira voz (reflexiva), para além das coincidências das vozes do verbo na gramática, a voz ativa, passiva e reflexiva parece soar de outro modo.

O perverso goza por colocar o neurótico em falta e goza ao sexualizar o corpo do outro, do mesmo modo que sexualiza seu próprio corpo, que, desta forma, também foi sexualizado. E a voz é o “instrumento” pelo qual ocorre essa sexualização, pois os sons vocais penetram no sujeito, fazendo circuito, mas também saindo dele pela sua vocalização, invadindo o corpo alheio para também sair desse e retornar em direção ao sujeito para novamente lhe penetrar pelos ouvidos. A voz, para a perversão, pode assumir o “brilho” de um fetiche, ou seja, de um objeto catexizado e investido de atributos fálicos que provoca um gozo no sujeito, não como um “aquecimento” para a relação sexual, que seria característica da condição fetichista, mas como a própria “relação” sexual. O sujeito goza com o par

ouvir/falar, com o espectro vocal e não com outra coisa. A língua francesa nos ajuda a ilustrar as relações do gozar e do ouvir com os termos: Jouis! (Goza!) e J’ouis (Ouço!), que possuem a mesma fonética. Temos então, no mínimo, dois dos destinos pulsionais: a reversão ao seu oposto, de ativo para passivo e de passivo para ativo; e o retorno em direção ao próprio eu, isso que volta pela voz do outro. “A voz responde ao que se diz, mas ela não pode responder. Dito de outra maneira, para que ela responda, devemos incorporar a voz como a alteridade do que se diz” (LACAN, 2002, p.317).

A partir dessas colocações, parece ficar mais inteligível o enunciado lacaniano: “O inconsciente é parte do discurso concreto, como transindividual, que falta à disposição do sujeito para restabelecer a continuidade de seu discurso consciente” (LACAN, 1998, p.260, grifo nosso). O inconsciente é esse transindividual que não é propriedade do sujeito, tal como alguns denominam: “o inconsciente do sujeito” ou “o meu inconsciente”. Se há uma relação de propriedade é o sujeito que é do inconsciente e não o contrário, pois este último não está circunscrito a uma pessoa, indivíduo, indivisível. Tal como o inconsciente, a voz, na perspectiva psicanalítica, também não é do sujeito, pois quem goza com ela é o Outro. Poderíamos nos perguntar: A voz é de quem fala ou de quem ouve? Uma vez que aquele que ouve é afetado pelo retorno da voz, ela também não se situa como propriedade e sim nesse espaço transindividual. Ademais, o sujeito que a profere não tem nenhum controle sobre ela. Ela sai em direção ao outro, mesmo que retorne, não será mais a mesma. A voz situa-se entre aquele que profere e aquele que ouve, mas estes sujeitos não são as figuras de emissor e receptor da teoria da comunicação.

O que se passa no parágrafo anterior é uma espécie de perversão do circuito saussureano da fala, na medida em que Saussure postulava que para haver tal circuito era necessário, no mínimo, duas pessoas A e B:

Suponhamos que um dado conceito suscite no cérebro uma imagem acústica correspondente: é um fenômeno inteiramente psíquico, seguido, por sua vez, de um processo fisiológico: o cérebro transmite aos órgãos da fonação um impulso correlativo da imagem; depois, as ondas sonoras se propagam da boca de A até o ouvido de B: processo físico. Em seguida, o circuito se prolonga em B numa ordem inversa: do ouvido ao cérebro, transmissão fisiológica da imagem acústica; no cérebro, associação psíquica dessa imagem com o conceito correspondente. Se B, por sua vez fala, esse novo ato seguirá – de seu cérebro ao de A – exatamente o mesmo curso do primeiro [...] (SAUSSURE, 1983, p.19).

Esse processamento psicolingüístico é pervertido pelo sujeito na medida em que é sexualizado, e os conceitos e imagens acústicas envolvidos no processo se descolam de seus atributos lingüísticos para assumirem conotações próprias daquele sujeito que transforma

aquilo que é da língua em lalangue8, desprendendo-se da fala, enquanto esse “[...] ato individual de vontade e inteligência [...]” (SAUSSURE, 1983, p.22), para prender-se a voz, naquilo que ela produz gozo no sujeito. O sujeito perverte a voz, pois faz uma outra versão dos sons, transformando-os de um estado mais sublimatório, como é na fala, para um estado mais sexual e carnal, como é nos gemidos, nos sussurros, na afonia, na gagueira, em que essas manifestações provocam, de algum modo, certo gozo com a voz. Por isso o objeto a, causa de desejo, é a voz e não a fala. A fala é a articulação individual que o falante faz dos signos de uma língua (Lingüística), e aí temos um estado mais sublimatório e simbólico; já a voz é o objeto pulsional, que enquanto faltante, provoca desejo e um mais gozar no sujeito (Psicanálise). Podemos nos arriscar a dizer que a perversão do circuito da fala em Saussure é, na verdade, uma metáfora, às avessas, do circuito pulsional da voz, em que a voz é ativa – vocalizada, passiva – ouvida e reflexiva – fazer-se ouvir; perdendo, no circuito pulsional, as referências. Quem é o emissor? Quem é o receptor? Uma vez que essas duas “figuras” podem ser um mesmo sujeito ou que o outro (interlocutor) não é tomado em sua alteridade, mas enquanto Outro. Uma vez que é a sua própria que retorna pela boca do outro, qual é a mensagem? Qual é o canal e o código? Uma vez que a voz não está comunicando e sim fazendo função sexual.

O circuito pulsional contorna o objeto da mesma forma que a pulsão invocante contorna a voz, fazendo perder qualquer função comunicativa para ganhar a função sexual. O ponto central é que os falantes falam porque gozam com a voz ao falar e não por querer comunicar algo ou cumprir alguma função de interlocução. O sujeito fala para tentar suprir uma falta, um buraco que tenta tampar com palavras, da mesma forma que elege um objeto como forma de aplacar a falta radical de objeto. Além disso, o sujeito fala para gozar do sentido, para gozar com as palavras, da mesma forma que fala para gozar com a fálica significação do dizer. Falar é forma de gozar, uma vez que não foi possível, ao menos totalmente, suprimir a falta, e o possível entendimento entre os falantes surge por uma suposição, totalmente imaginária, em que o outro supõe ter compreendido o que o sujeito falou. A pretensa comunicação surge de uma suposição imaginária de que algo foi comunicado pelo sujeito ao gozar com a fala. O lapso, o engano, o ato falho surgem nesse descompasso entre o querer dizer, o querer comunicar algo e o gozo ao dizer, que em nada tem de comunicativo.

8 Neologismo lacaniano que trata não da língua enquanto idioma, mas da língua singular de cada um, ou a língua

inconscinte que rege o sujeito. A rigor a expressão é: lalangue dite maternelle, para dizer que é a lalação da mãe; a língua que vêm da mãe e que vai fundamentalmente constituir o infans, esse pré-sujeito, para que a partir daí possa se constituir o sujeito.

O perverso é aquele que sabe que a lei existe e está aí, mas tenta transgredi-la, não reconhecendo os limites. Faz da voz uma maneira de burlar a lei, ultrapassar os limites do próprio corpo, sexualizando a voz em prol de seu gozar. Ouvir os gemidos, os sons do sexo, provocá-los no infantil, colocar os sons como uma transgressão daquilo que se escuta, para poder ouvir aquilo que é o retorno de sua própria voz. A voz atua provocando a excitação sexual, como na cena em que um desconhecido ao telefone, através da sua voz, excita o ouvinte ao dizer coisas; gozar com alguém que não se vê, não se conhece, não se toca. A voz também pode atuar no descompasso prazer/desprazer, tensão/alívio, prazer/gozo, provocando o contrário da excitação, que é o relaxamento, o adormecimento. Isso é muito comum em conferências e palestras em que a voz do conferencista serve como um “cafuné” para a platéia, que se entrega na cadência tônica e rítmica da voz do orador. Embalando os ouvintes, como uma mãe cantaria uma canção de ninar para seu filho, o orador conduz ao sono e ao inevitável adormecimento. Quer seja na excitação ou no relaxamento, o princípio pulsional da voz é o mesmo, apenas possue polaridades diferentes que são marcadas pelo tom de voz, pelo ritmo, pela cadência, pelo volume. Conforme nos diz Parret (2002, p.142, tradução nossa): “[...] o tom da voz, com seus acentos, pulsões e ritmos, pode ferir e acariciar”9. A excitação ou o relaxamento são desdobramentos da sexualidade presente na voz e nos seus elementos (tom, ritmo, volume, etc.). Aqui temos uma pura voz, desabonada do significado e do sentido.

O que discorremos a respeito do circuito pulsional da voz e sua relação com a atividade e passividade não é referente somente à perversão, pois isto faz parte da constituição subjetiva pela sexualidade. Haverá, evidentemente, diferenças de sujeito para sujeito, uns ficam mais fixados nessa pulsão invocante, outros menos. No entanto, esse caráter perverso está presente em todos os sujeitos na mais tenra infância, pois, segundo Freud (1905, v.7, p.225), a formação de uma neurose é apenas uma reversão de um quadro perverso: “[...] uma reversão devida ao recalcamento, e a partir daí a neurose toma o lugar da perversão sem que se extingam os antigos impulsos [e, neste sentido] a neurose é o negativo da perversão”. Mais tarde, no texto Uma criança é espancada: uma contribuição ao estudo da origem das

perversões sexuais, Freud (1919) volta a enfatizar que a neurose origina-se pela repressão

dessas pulsões sexuais, que, no perverso, atuam sem sofrer, com tanto rigor, os efeitos da repressão.