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Capítulo I ─ Sobre a voz

1.8 A voz e a fala

Poderíamos partir do pressuposto, quase universal, de que a voz é condição para a fala, e que esses dois objetos estão intimamente relacionados. Podemos dizer que a fala necessita da voz, mas a voz não é necessariamente uma fala. Neste sentido podemos ter vozeamento sem ter efetivamente uma fala. A voz precede a fala e é domesticada por ela. Isto pode ser

observado tanto do ponto de vista ontogênico como filogênico. A voz humana pode ser identificada na ausência de fala, como por exemplo, no grito: é voz, no entanto, não é fala. Por um lado, a fala e a voz estão intimamente relacionadas, na medida em que a primeira requer a segunda, por outro, fala e voz são totalmente opostos, na medida em que na primeira é um exercício lingüístico individual que o falante realiza quando inserido numa língua ou, dito de outra forma, é a articulação singular do sujeito na língua. Na voz, o que está em jogo é a execução de um som, não natural, pois os “órgãos” envolvidos na fonação não foram constituídos biologicamente para esse fim. “[A fala] Tira proveito que pode de órgãos e funções nervosas e musculares, que se criaram e se mantêm para outros fins muito diversos.” (SAPIR, 1985, p.15). De modo que, a partir desse som, cola-se um sentido, que pode, a qualquer momento, descolar-se. É o caso quando a voz nos soa com algum estranhamento ou quando repetimos várias vezes uma palavra ao ponto dela soar de um modo muito esquisito, perdendo o seu sentido na língua para emergir apenas o som. Para melhor diferenciar fala e voz, tentaremos defini-los um a um, de modo um pouco mais claro.

Segundo Saussure (1983, p.22), e como já foi citado:

A fala é [...] um ato individual de vontade e inteligência, no qual convém distinguir: 1º, as combinações pelas quais o falante realiza o código da língua no propósito de exprimir seu pensamento pessoal: 2º, o mecanismo psico-físico que lhe permite exteriorizar essas combinações.

Embora esse segundo item pareça estar mais apropriado para a voz do que para a fala, percebemos que a noção saussureana funda a fala como um ato cognitivo e consciente, em que o próprio sujeito se realiza, enquanto um sujeito cognitivo e consciente, na execução singular dos códigos de uma língua socialmente estabelecida. A fala mantém, nesta concepção, uma forte relação com o sistema simbólico que rege a língua e, neste sentido, articula-se com o social. Mantém, ainda, igualmente forte, relações com a cognição e o pensamento, e neste sentido, articula-se com o indivíduo.

A questão radicalmente diferente que se desenha entre a concepção saussuriana e a psicanalítica, é que a Psicanálise vai retirar esse poder de volição e cognição envolvida na fala para colocá-la a serviço de mecanismos inconscientes, dos quais o sujeito não exerce volição alguma. Para a Psicanálise, o sujeito, ao falar, diz muito mais ou menos, ou ainda outra coisa do que pensa ter dito, dada a relação com o inconsciente. O ponto central, aqui, no entanto, não é opor a fala em Saussure e na Psicanálise, mas sim diferenciar fala e voz, mesmo que para isso seja necessário diferenciar a fala para a Lingüística e para a Psicanálise.

A fala, tanto na Psicanálise como em Saussure, estará fundada num campo predominantemente simbólico, em que o que está sendo articulado de forma singular são os

significantes de uma língua. A fala é o que coloca em marcha a articulação desses significantes formando a chamada cadeia discursiva.

A fala para a Psicanálise remete ao inconsciente. A fala é um dos meios pelos quais se passam as formações do inconsciente: sonhos, lapsos, atos falhos, chistes, sintomas. A fala toma um ponto central na Psicanálise não somente por constituir, enquanto linguagem, o sujeito inconsciente, mas como “ferramenta” de trabalho dos psicanalistas. Ela constitui a regra fundamental da Psicanálise, que pode ser ilustrada através da frase: “fale-me tudo que lhe vem a mente sem censuras”. A partir disso, inicia-se uma análise e a fala toma um ponto central no processo de associação. Lacan (1998) discorreu amplamente em Função e campo

da fala e da linguagem em Psicanálise sobre a fala, mas para nossos propósitos não iremos

nos adentrar nesta questão, dado que ela é extremamente espinhosa e foge aos nossos objetivos neste trabalho.

Para a Lingüística, ao menos a saussureana, a fala é tomada como um meio de articulação de signos e que se restringe à produção oral, que toma um lugar especial na Lingüística em função da grande maioria das línguas existentes serem de tradição oral e não escrita. Ademais, a fala parece ocupar a mais importante forma de comunicação e expressão humana. Saussure priorizou o estudo da fala em detrimento de outros meios como a escrita, e até mesmo de outras formas de linguagem, que não a língua, como os sinais, gestos, desenhos, códigos, proxêmica e outros. Foi o primeiro a estabelecer a cadeia e o circuito da fala, que, aliás, já foi abordado aqui neste texto, e dedicou atenção especial à fala, mas não à voz, por mais que elas estejam conectadas. O que Saussure demonstrou é um primado da fala e não da voz.

A voz para a Lingüística circunscreve-se, ainda sob resistências, no domínio da Fonética e da Fonologia. No entanto, isso ocorre de uma forma extremamente positivista, o que torna as possíveis articulações que poderiam se estabelecer com a Psicanálise um tanto quanto melindrosas. Nestes campos, a voz é tratada como um objeto científico passível da experimentação, da averiguação de hipóteses de pesquisa, bem como da tentativa de traduzir a voz em elementos que se pode decompor em unidades menores. Para isso, essas áreas vêm, há tempos, articulando-se com a Física, através da disciplina da acústica, bem como com a Fisiologia do nervo auditivo e a Neurofisiologia da condução do impulso nervoso, até as áreas de processamento ao nível do sistema nervoso central. Elas vêm se aproximando, também, da Psicologia e da Psicolingüística, no que tange à percepção do sinal acústico e das funções psicológicas superiores envolvidas no processo de percepção e associação das idéias com os fonemas. E, de forma mais recente, a Fonética e a Fonologia têm se aproximado das

engenharias com o intuito de sofisticar máquinas, eletrodos e espectogramas capazes não só de captar com maior precisão a recepção do sinal acústico da voz, mas também de processar a produção da voz e da fala humana: é possível, com inúmeras e infindáveis limitações, realizar um processo de produção lingüística por emparelhamento. Ademais, temos que salientar que o “carro chefe” da Fonologia não é a voz, mas a noção de fonema, o que vem a ser algo inteiramente diferente da voz. Podemos dizer que se trata de um objeto mais científico e que mantém fortes relações com o sistema lingüístico; o que não ocorre, ao menos não da mesma forma, com a voz, uma vez que ela pode se desvincular do sistema lingüístico para ganhar o corpo e a pura realidade sonora, como no canto, por exemplo. A voz não se resume a um objeto científico, lingüístico ou fonológico. Embora possa manter relações com esses campos, também pode se distanciar e cair na arte lírica, no balbuciar, no grito e em outros que não possuem função lingüística, mas um puro som.

A rigor, a Lingüística refuta a voz como um objeto central de estudo, os trabalhos que existem nessa área não são tomados como tema central. A voz não tem sido um tema primordial nos estudos lingüísticos. Ademais, não são muitos os trabalhos que se dedicam especialmente a voz. Em verdade, a Fonologia não se ocupa com a voz, ao contrário, dejeta-a por estar extremamente centrada sobre a noção de fonema, um objeto mais “sublime” que mantém relações mais duradouras com a linguagem, não havendo, portanto, espaço para o estudo da voz. Nossa argumentação a este respeito é sustentada com a dura crítica que o respeitado professor de Filosofia da Linguagem, Herman Parret (2002, p. 51, tradução nossa), faz à Lingüística estrutural. Diz ele: “A voz, em Lingüística estrutural, não é nem mais nem menos que um indefinível, e a sonoridade específica das vozes é considereda como uma ‘matéria’ sem estrutura, uma vez que se está na pura variabilidade”13. E mais adiante:

De fato, para o fonólogo, a voz não passa de um conjunto frouxo, uma silhueta informe, de particularidades acústico-articulatórias que, tudo como o ‘corpo das palavras’, não pode nem mesmo ser considerada como o resíduo da forma fonemática. Assim a voz é um conjunto caótico de imagens fônicas que não tem nenhuma pertinência fonológica [...] Um fonema não é jamais um som produzido por uma voz.14

Curiosamente, o termo voz não é encontrado uma única vez nos Principes de

Phonologie de Troubetzkoy (1970, p. 40, tradução nossa). Lá, encontramos a seguinte

13 “La voix en Linguistique structurale, n’est ni plus ni moins qu’un indéfinissable, et la sonorité spécifique des

voix y est considérée comme une ‘matière’ sans structure puisqu’on est dans la pure variabilité.” (Texto original).

14 “La voix n’est en fait, pour le phonologue, qu’un ensemble flou, une silhouette informe, de particularités

acoustico-articulatoires qui, tout comme le ‘corps des mots’, ne peut même pas être considérée comme le résidu de la forme phonématique. Ainsi la voix est um ensemble chaotique d’images phoniques qui n’ont aucune pertinence phonologique [...] Un phonème n’est jamais un son produit par une voix”. (Texto original).

definição de fonema: “[...] é a soma das particularidades fonologicamente pertinentes que comporta uma imagem fônica.”15 Ou seja, Troubetzkoy se preocupava essencialmente com o fonema, mas não com a voz. Esta sequer é mencionada em seu texto. O fonema mantém relações com a voz, mas essas relações são permeadas pela fala, ou mais precisamente, é a fala que efetivamente se articula com o fonema, este também não é um conceito acústico, mas ligado à semiótica, ao psiquismo e, talvez, ao discurso. Ainda que nossa definição de fonema, até então esboçada neste texto, seja superficial e aproximativa, ela também nos é suficiente, ao nosso entender, para argumentarmos que a noção de fonema se distancia bastante do entendimento de voz que estamos tentando traçar. Isso porque se trata de uma noção que se articula com o significante e com a fala negando a voz enquanto corpo, ausência, ritmo e sexualidade.

Saussure também não escapa à crítica de Parret (2002), pois a preocupação dele estava centrada, sobretudo, na questão da língua cujo estudo da voz e de sua materialidade fônica em nada iria contribuir para o esclarecimento acerca da semiologia da língua. Saussure era um semiólogo e oscilava em alguns momentos entre dar alguma importância à substância fônica e ao ato articulatório, ou simplesmente dizer que eles em nada proporcionavam novidades acerca do fenômeno lingüístico. Saussure, nos Manuscritos que atualmente se encontram em Harvard, faz várias considerações ao sistema articulatório, à cooperação entre o sistema fisiológico e o acústico, bem como à importância da escuta no processo articulatório. Saussure toma elementos do processo fonatório e a partir disso discute algumas questões ligadas com o fonema, com o processo fisiológico, articulatório e acústico. Efetivamente, não aborda a voz em sua plenitude, ou seja, não trabalha a voz enquanto corpo em todas as manifestações. Trabalha apenas uma parte dela, a parte que está em sincronia e sintonia com a fala, com o processo articulatório e semiótico. Neste sentido, a voz em Saussure está restrita à fala e aos mecanismos aí envolvidos, havendo um recalcamento da voz na condição de corpo.

Por fim, voz e fala, como já pontuamos, são objetos que estão intimamente relacionados, mas que também se separaram, na medida em que a voz é condição para a fala, mas a voz não é necessariamente fala e envolve outros aspectos. Ademais, a voz parece ter uma maior proximidade com o real, na medida em que ela é um som, muitas vezes desarticulado de todo e qualquer sentido. A fala parece ter uma maior proximidade com o simbólico, na medida em que ela articula os sons da voz com os sentidos e as idéias numa determinada língua e cultura.

15 “[...] est la somme des particularités phonologiquement pertinentes que comporte une image phonique.”

A voz ruge na pressão expiratória que faz o corpo vocalizar, e é assim que “[...] o choque do ar inspirado, produzido pela alma que anima o corpo, constitui a voz.”16 (PARRET, 2002, p. 26, tradução nossa). A voz é aquilo que anima, que faz o corpo extremecer em sons numa cacofonia que mostra o quanto este corpo é inscrito na sexualidade, o quanto se trata de um corpo pulsional. Isto quer dizer, inscrito na pulsão, tendo a voz como representante do objeto perdido, daquilo que faz do corpo despedaçado. O corpo é isso que se quebra e cai em pedaços, tal como a voz que o deixa, que é dejetada por ele, que se desprende do corpo, demonstrando que se trata de um corpo em falta, onde não há completude. A voz é a prova dessa incompletude, uma vez que ela é um conjunto dissociado de sons, gemidos, murmúrios, risos, espasmos, suspiros, ofegações, enfim, toda sorte de produtos vocais que dão provas da precariedade do ser falante.

Já a fala vem a ser um “projeto ambicioso” ─ em parte bem sucedido, em parte mal sucedido ─ de uma eufonia vocal. Uma tentativa de domesticar a voz, com o intuito de bani-la de todos os seus ruídos, rumores, balbucios, enfim todos os seus elementos cacofônicos para que emerja uma consonância vocal. Como foi dito, este “projeto” teve sua parte bem sucedida, pois a fala ocupa o pedestal mais alto da erudição e da riqueza cultural de um povo. A fala é a mais rica de todas as produções humanas, um tesouro de significantes, conteúdos e sentidos. Mas, também há uma parte mal sucedida, pois tudo aquilo que se tenta forcluir desse belo mundo simbólico retorna, com maior força, no real, e com a voz isso não é diferente. Suportar as cacofonias da voz que, por vezes, impedem o falar; e conviver com o efêmero da voz e os sintomas que ela causa no corpo é o preço que se paga por almejar um universo simbólico, do qual a fala e linguagem são seus principais frutos. Se Freud (1930[1929]) nos diz em Mal-estar na cultura que a neurose é o preço que pagamos pela cultura, podemos muito bem transpor essa colocação dizendo que o padecimento da voz ─ em todas as suas “disfunções” possíveis ─ é o preço que pagamos por falar. É o preço que pagamos por havermos tentado limpar a voz de seus ruídos e imprecisões, mas isso que foi dejetado como lixo vocal retorna no real do corpo e da voz sintomática.

A fala tenta limpar o som e articulá-lo com o sentido, com o significado, para inscrevê-lo no ápice das produções sonoras e vocais. Mas, como domesticar esse objeto perdido, essa voz arredia a toda forma de inscrição no nível simbólico? A voz é o real do corpo, e enquanto tal é aquilo que “[...] não cessa de não se inscrever” (LACAN, 1973). A voz é pura desmesura, ela é indomável, imediata, fugaz, invisível, inapreensível. Um som sem domínio, um vento impetuoso, um sopro forte que se esvai. A voz é impetuosa, cadente,

arrítmica, uma presença intocável, polifônica, uma fonte fluída, aquilo que é transitório e que ecoa em pluralidades.