Capítulo II ─ Sobre o ritmo
2.2 O ritmo e o som
O ritmo é também um som ou, mais exatamente, ele faz parte do som. O ritmo se articula com o som na medida em que ele é produtor e produto do som. O som possui uma freqüência de ondas sonoras, e essas mesmas ondas também são produzidas nas batidas rítmicas. O som envolve uma gama maior de elementos como timbre, altura, volume e intensidade, além do ritmo.
24 Para ler mais sobre esse tema, recomendamos: SODRÉ, Muniz. Samba: o dono do corpo. 2ª ed. Rio de
A teorização sobre o som envolve uma série de aspectos concernentes a outras disciplinas, como Acústica, Música, Física, e outras que não fazem parte de nosso domínio de conhecimento, assim como os elementos do som citados no parágrafo anterior também nos são um pouco estranhos e alheios à nossa formação, de modo que pensamos em articular esse subcapítulo concernente mais ao ritmo e suas estruturas.
O ritmo é um elemento importante do som, pois é através do ritmo que se estabelece a periodicidade do tempo na música. O ritmo, como já exposto, pode ser classificado de acordo com sua velocidade (lento, rápido), de acordo com o andamento, de acordo com o swing e o balanço, no sentido de produzir um ritmo que não seja “quadrado”, mas sim redondo e capaz de provocar nos ouvintes certo balanço, flutuação ou leveza. O ritmo para ser forte deve ter a marca da sutileza; ao mesmo tempo, deve ser “poderoso”, “potente”, no sentido de preencher os espaços e formar uma base sólida e consistente para a música fluir. O ritmo deve obedecer aos efeitos de reverberação que a música, como um todo, produz. O ritmo é um elemento musical que não se sobressai como um agudo ou um solo de uma soprano, embora haja também solos de bateria e acentuações que exigem decibéis mais elevados. Em todo caso, o ritmo é, muitas vezes, um elemento despercebido para o público leigo. No entanto, será aquele cuja ausência será mais facilmente percebida pelo público. Tome-se, por exemplo, o acompanhamento que a bateria realiza numa música. Ela pode, muitas vezes, nem ser percebida para o leigo, mas na ausência desta ou em caso de falha na execução de uma condução, essa lacuna será facilmente percebida, mesmo pelo público leigo, com muito mais facilidade do que se fosse uma falha na afinação ou na mudança de tom de uma música. O ritmo tem um papel preponderante na execução de uma música.
O ritmo é entendido, para muitos, como condição para que a melodia e a harmonia coexistam de forma a proporcionar uma configuração musical capaz de desenrolar sua seqüência de notas e arranjos. O ritmo não deve ser entendido única e exclusivamente como uma forma de marcação de tempo e andamento musical, pois ele é muito variável e entremeado de oscilações de tempos e contratempos que o tornam progressivo e avançado, no sentido de promover uma ritmicidade sincopada ou mesmo um ritmo que não se enquadra nessa definição “tradicional” de ritmo, enquanto marcação de tempo, mas sim estruturação de tempos capazes de provocar efeitos de suspense, leveza, poder e andamento.
O ritmo, dentro dessa perspectiva progressiva, pode ainda se caracterizar por avanços e recuos nos seus tempos e contratempos que podem proporcionar um fluxo contínuo e cadenciado, mas também uma tensão que aponta para uma falha que efetivamente não se realiza. É como se houvesse sempre uma expectativa de que algo vai falhar, mais isso nunca
ocorre. É um ritmo sincopado que pressiona em contratempo e gravita de forma centrifuga sobre um ponto que está sempre em fuga, mas ao mesmo tempo retornando e fazendo com que a música não perca seu ritmo, nem se quebre por atravessamentos. Esses tipos de ritmos tendem a provocar certa ansiedade nos ouvintes, na medida em que dão a entender que sempre há algo para acontecer.
O ritmo também pode ser subtraído do som, sendo que o som não é condição para a existência do ritmo. Pode-se encontrar ritmo sem som, como por exemplo, nos gestos, no andar, na respiração, no movimento; enfim, em cada um dessas manifestações o ritmo pode ser um elemento que demarca, sem, no entanto, requisitar a presença de som.
2.2.1 A Síncope
Uma técnica rítmica muito interessante é a síncope, ou também denominada síncopa. Trata-se, etimologicamente, de uma palavra derivada do grego synkopé, e também do latim tardio syncope ou syncopa, que convergem para um mesmo sentido: “ação de cortar”. Esse termo tem, no mínimo, três utilizações diferentes (na Gramática, na Medicina e na Música), mas com uma mesma base que justamente remonta o sentido de “ação de cortar”. Na gramática, síncope é supressão de fonemas no interior de uma palavra, por exemplo: mor ao invés de maior. Na Medicina, é uma perda temporária da consciência, um desfalecimento, um desmaio, uma supressão, ainda que temporária, do corpo e da vigília. Na Música, é a alternância entre uma acentuação fraca e outra forte num determinado contratempo. É quase como se a música, ou mais exatamente, o ritmo perfizesse um “desmaio” repentino e uma “retomada de consciência” logo em seguida, dando lugar a certo swing ou requebra. Vejamos o que Ferreira (2004, p.1850) nos diz no Dicionário Aurélio a respeito da síncope:
1. Med. Perda temporária de consciência devida a má perfussão sangüínea encefálica, e que pode ser em razão de causas diversas [...] 2. Ling. Supressão de fonema(s) no interior da palavra [...] 3. Mús. Som articulado sobre um tempo fraco ou parte fraca de um tempo, prolongado ou prolongada sobre o tempo forte ou a parte forte do tempo seguinte [...]
Há ainda um outro sentido para síncope que não consta no Dicionário Aurélio, mas que é, de certo modo, herdeiro de todos esses sentidos anteriormente colocados. Trata-se da síncope na Psicanálise, pois nesse domínio, ela é entendida como um descentramento do sujeito. Não é, necessariamente, um desfalecimento ou um desmaio, no sentido literal da palavra, o que não exclui que isso ocorra. No entanto, esse “desfalecimento” é um descentramento na medida em que os efeitos da palavra sobre o sujeito fazem com que ele se
perca no discurso consciente, ao mesmo tempo em que os efeitos da palavra sobre o corpo o fazem esmorecer. Há uma espécie de estranhamento consigo mesmo, que ocorre quando o sujeito se depara com Das Unheimliche (o estranho) que lhe habita. Isso lhe causa certa perplexidade, um fading, uma supressão de seu próprio eu, um abalo na consistência imaginária e uma oscilação numa determinada acentuação, seja na voz ou na fala, que provoca uma quebra de um sentido preexistente. Diante do não-sentido, o sujeito perde seu referencial, o chão desaparece sob seus pés25 e seu corpo dá sinais de uma falha repentina que retorna ao estilo da síncope musical. Aqui também aparece a etimologia de síncope: “ação de cortar”, no sentido que o sujeito é castrado, bífido, barrado no seu gozo e decepado em suas certezas. Apenas para ilustrar a dimensão disso na clínica, trago um exemplo de minha própria análise em que, por diversas vezes e após uma intervenção de efeito, levantei zonzo do divã. É evidente que o eu do sujeito, por seu próprio trabalho, junta os “cacos” e refaz a consistência imaginária necessária para seguir sua vida. No entanto, essa síncope, esse corte no discurso e na subjetividade provoca diferenças no sujeito o que constitui uma das direções da cura analítica. A síncope na Psicanálise apresenta relações com o sentido que este termo tem na Gramática, na Medicina e também na Música, mas ao mesmo tempo se diferencia dessas por se tratar de uma questão muito particular e relativa ao tratamento psicanalítico, enquanto um efeito do retorno da palavra sobre o sujeito, que o deixa em suspenso, que lhe tira o chão, que o descentra, para que, no momento seguinte, possa se centrar novamente, só que de uma outra maneira, não como a anterior. Algo se passou e foi capaz de provocar minimamente, mudanças da ordem subjetiva. Não se trata de uma “super” mudança, embora que isso também possa ocorrer, mas de uma mudança na posição do sujeito que não faz mais exatamente o mesmo. O corte traz efeitos, e isso é, com certeza, um avanço no tratamento psicanalítico.
Mas retomemos o sentido de síncope para a Música, pois queremos explorar um pouco mais essa técnica musical que mantêm inúmeras articulações com a Psicanálise. Podemos, ao melhor estudá-la, avançar na repercussão que isso tem para a Psicanálise.
A síncope é uma técnica rítmica que rompe o limiar entre o tempo e o contratempo, insere a contraposição entre o simétrico e o assimétrico, entre o corpo e o espírito. Em relação a esta última cisão, percebemos que o corpo entra na defasagem rítmica que a síncope provoca, ocupando um lugar em que se tenta preencher a claudicação inerente a síncope. Para
25 Esse pode também ser um dos motivos do porque se coloca o sujeito deitado no divã; ou seja, para provocar
essa suspensão, sem “fio terra”, sem estar “com os pés no chão” e poder falar sem as referências do discurso social.
Wisnik (1999, p. 68), a síncope é “[...] a alternância entremeada de dois pulsos jogando entre o tempo e o contratempo, e chamando o corpo a ocupar esse intervalo que os diferencia através da dança”.
Muniz Sodré (1998, p.07), parte de um ponto considerado obscuro por Mário de Andrade: “[...] a questão da síncope iterativa nas músicas da diáspora negra ─ e que nos pareceu, este sim, o verdadeiro ‘mistério do samba’”; porém não permanece paralisado diante dessa obscuridade. Muito pelo contrário, conduz seu leitor a uma excursão pelos mistérios e fascínios do corpo e do ritmo, em que a síncope ocupa um lugar de destaque.
Parafraseando o band-leader Duke Ellington, Sodré (1998, p.11) diz simplesmente: “a
síncope, [é] a batida que falta. Síncope, sabe-se, é a ausência no compasso da marcação de um tempo (fraco) que, no entanto, repercute noutro mais forte”. E, tanto no jazz, quanto no samba, este vazio da falta que a síncope instaura convoca o corpo a tentar preencher o espaço lacunar com palmas, danças e balanços. Mas o corpo não preenche esse vazio, por mais que ele seja requisitado a fazê-lo, pois o corpo também é, junto com as batidas, o que falta, e, por isso mesmo, ele é iterativamente convocado, sem conseguir se fazer inteiramente presente. A repetição mostra a dinâmica iterativa em cujos termos, a cada presença, há uma ausência por vir; afinal, é pela ausência que o corpo se presentifica. Definição simples, porém difícil de ser dita: a síncope é a batida que falta, mostra a relação do ritmo e do corpo com a falta, com aquilo que está por vir, num movimento de demanda e frustração que se alternam sincronicamente. O corpo que é exaltado, também é reprimido. A batida que se destaca também falta. O corpo é presença, mas também ausência.
A falta que a síncope denúncia é, metaforicamente e em última instância, a marca do sujeito humano, inscrito no campo da subjetividade pela falta. Essa falta constituinte do sujeito também mostra suas faces nos produtos simbólicos da cultura como no ritmo, na música, no samba, na dança, no jazz, e também num corpo que apresenta suas facetas imaginárias, simbólicas e reais marcadas pela falta.
Não se sabe exatamente a origem musical da síncope; não há consenso quanto a pensar que ela é oriunda da África, pois os europeus também a conheciam, embora não a explorassem tanto como os africanos. No Brasil, a síncope foi introduzida pelos negros que por um lado se submetiam ao sistema musical tonal europeu, mas por outro, infiltravam suas técnicas nas músicas brancas. A síncope na música é composta pela defasagem de pulsos, como já foi mencionada, que podemos expressar graficamente da seguinte forma:
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Muniz Sodré (1998), ao abordar a questão da síncope, também percorre caminhos que articulam o corpo do negro com a escravização e as violências que este corpo sofreu, e como encontrava no samba um lugar de refugio e acolhimento, um “quilombo musical” que proporciona a formação de uma identidade negra. Numa perspectiva psicossocial, podemos dizer que no samba, o corpo da síncope é o do negro que outrora fora violado e rebaixado apenas como força de produção: uma mercadoria no mercado sexual.