Capítulo III ─ Sobre o inconsciente
3.5 O inconsciente e a voz
O leitor que nos acompanhou no decorrer deste terceiro capítulo pôde perceber os nossos esforços, ainda que insuficientes, para tentar dar conta de uma breve e incompleta retrospectiva da formulação do conceito de inconsciente em Freud e Lacan. Estamos cientes de que não foi possível satisfazer, ao menos não totalmente, o anseio por um histórico mais detalhado dessas formulações. Mas, por outro lado, estamos convencidos de que nosso trabalho nos trouxe, no mínimo, certa noção do avanço do conceito de inconsciente, assim como pudemos perceber as diferenças que foram se constituindo em torno desse conceito no desenrolar dos escritos de Freud e dos seminários de Lacan.
Cabe, ainda, acrescentar que as subseqüentes formulações do conceito de inconsciente não invalidaram as formulações anteriores. Não se trata de pensar que o último Lacan é o atual e o único a ser estudado. Precisamos trabalhar com as formulações a respeito do inconsciente de acordo com o período em que foram propostas, períodos esses que parecem traçar, de forma análoga, o percurso não linear e atemporal de uma análise. Este é um percurso singular, de cada um que se coloca a falar do que lhe angustia, mas que grosso modo segue certos percalços que (re)fazem o próprio traçado do inconsciente, assim como as intervenções do analista. Por exemplo, nas entrevistas iniciais, as intervenções são situadas mais na ordem do imaginário; enquanto que, no processo de análise, elas, embora também estejam presentes, dividem espaço com as intervenções no simbólico e no real. É importante frisar que isso não dá nenhum direcionamento, seqüência lógica ou temporal para análise. Cada percurso será singular e terá seus percalços, o que não nos impede de dizer que determinadas intervenções, sustentações e apostas no inconsciente somente são possíveis de se operar na prática clínica a partir de determinados avanços no percurso da análise e na transferência que possa sustentar essas intervenções. Caso contrário, permaneceremos nas intervenções de cunho imaginário, que tentam organizar esse imaginário da realidade do sujeito, ou mesmo, intervindo ao nível das construções e interpretações. Trata-se de situar, em cada intervenção, qual inconsciente está sendo apostado em ato, na análise, e se há transferência suficientemente estruturada para suportar tais intervenções. É a partir disso que o inconsciente se configura, seja na prática psicanalítica seja na teorização dessa prática.
O mesmo leitor que vem acompanhando nosso texto desde seu início já percebeu que estamos tentando articular a voz e o ritmo com o inconsciente e percebeu também que estamos dedicando um capítulo para cada um desses elementos. Agora, ele não tardará em suspeitar que o quarto capítulo seja uma amarração entre esses três pontos. No primeiro capítulo, ele encontrou o que estamos tratando por voz. No segundo capítulo, o que estamos tratando por ritmo e, neste terceiro, o que é o incosnciente. Porém, acreditamos que, em relação a este terceiro capítulo, uma questão persiste: afinal, de que inconsciente ou qual inconsciente estamos ou estaremos articulando com aquilo que definimos, nos capítulos anteriores, como sendo voz e ritmo? De que inconsciente estamos tratando ao articulá-lo com a voz e com o ritmo?
As articulações entre o inconsciente, a voz e o ritmo perfazem múltiplos caminhos que não se situam numa única definição ─ coesa e fechada ─ dos termos. Podemos dizer que a voz, por exemplo, irá se articular com o inconsciente freudiano da primeira tópica quando ela se presta a ser aquilo que constitui material inconsciente para a formulação dos sonhos.
Podemos dizer, por outro lado, que ela irá se articular com a segunda tópica freudiana, na medida em que consideramos que a voz do psicótico, por exemplo, são as vozes do supereu que, não sendo simbolizadas, retornam no real da alucinação auditiva. As vozes do pai que não foram simbolizadas são, no surto psicótico, imperativos que retornam na voz de um pai despótico e autoritário que impera na ordem dos mandos de forma alucinatória.
Em Lacan, iremos nos deparar com diversos desdobramentos da voz de acordo com os registros. Por exemplo, no registro imaginário, a voz é o elemento da sedução e do encantamento, é a voz feminina que provoca o gozo e encanta pelo seu aspecto especular. É a voz nos seus elementos intrínsecos que nos faz, por exemplo, identificar se se trata de uma voz de mulher, homem ou criança. Já, a voz na sua articulação com o inconsciente, no que concerne aos aspectos simbólicos, será a voz do pai como representante da lei. Aqui a voz se presta ao serviço da fala, como aquela que veicula e instala significantes que representam a lei. A voz será, nesse registro, o que porta a lei, pois a voz sem a lei é puro gozo; não há interdição, esta interdição que a voz porta quando se presta à fala, que vem carregada de significante. E, no real, a voz está desprendida dos significantes, é o puro som, é o grito. Algo que conduz a um sem sentido, uma vez que não se veicula significantes, nem mesmo signos, é um puro som, um grito que desconcerta, sem sentido. A voz, articulada com o real, não é o especular e imaginário campo da identificação vocal, nem mesmo o significante campo simbólico em que a voz se empresta à fala para veicular signficantes. A voz, no real, é o que está fora da cadeia, é o grito, que coloca a dimensão do impossível, do puro som, do canto estridente da soprano que foge da transmissão da palavra e da fala. É o gozo do objeto pulsional que engendra a pulsão invocante, da qual a voz é o seu objeto. A voz real é também aquela do delírio psicótico, em que, uma vez não simbolizada, retorna no real alucinatório da voz do pai.
Desta forma, podemos perceber que a voz se articula com os três registros da experiência psíquica, assim como com os desdobramentos do conceito de inconsciente ao longo da obra freudiana. No decorrer do quarto capítulo, em que tentaremos traçar de forma mais definida as relações da voz e do ritmo com o inconsciente, o leitor será defrontado com articulações que levam em conta esses vários desdobramentos do conceito de inconsciente em Freud e Lacan.
Para concluir este terceiro capítulo, gostaríamos de salientar a articulação especial entre a voz e o inconsciente, que foi definida nos momentos em que Lacan trabalhou com a obra joyceana. Joyce foi um escritor que soube, como ninguém, colocar sons no texto. Não no sentido de fazer o texto falar, isso a maioria dos textos o fazem; mas ele fez, sobretudo, seu
texto vocalizar, gritar. Seus gritos atravessarão séculos e ocuparão os acadêmicos que tentarão, a todo custo, decifrá-lo, segundo a própria profecia joyceana. Neste sentido, a voz se alinha a esta noção de inconsciente que foi trabalhada por Lacan em seus últimos seminários e do qual Joyce foi o “protótipo”. A noção de inconsciente que está aí presente é de um inconsciente polifônico, um inconsciente que se mostra nas suas polifonias, num certo amálgama de sons em que o dizer é esvaziado em seus significantes e significados para que possa emergir algo do som, da voz e do real do corpo. Assim é a clínica psicanalítica, algo que, a partir do significante, o esvazia, busca sua vaicuidade para que possa emergir a voz ─ enquanto corpo ─ que coloca em cena o real do corpo, o real do sujeito, e faz com que as intervenções não sejam apenas no campo das interpretações e construções ─ o que não quer dizer minimizá-las ─, mas também no campo do forçage e do real. Não se trata de menosprezar ou tirar o lugar da importância das interpretações e construções numa análise, mas de poder propor algo, que vai além da interpretação e toca no real da clínica, que é se deparar com os sons, desarticulados de sentido, que constitui o corpo em análise. Dessa forma, buscar o real da clínica é também se defrontar com o real do som, da voz, para além dos significantes e interpretações. Trata-se de se deparar com as polifonias, com os sons que o corpo produz, com os murmúrios, com as fonias, com o ofegar, com os suspiros. Enfim, trata- se de conceber o inconsciente como sonoro (FEINSILBER, 2002), um inconsciente polifônico ─ não somente aquele do significante e do representante da representação; mas um inconsciente sonoro e ritmado, um inconsciente que coloca o sujeito em movimento, em cadência. Neste sentido, é o inconsciente que traz para a análise o som, o corpo, o real, a voz e o ritmo.