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Capítulo I ─ Sobre a voz

1.3 A voz como objeto

Quanto à pulsão invocante ─ objeto de nossas investigações ─ tratamos da dimensão vocal ou (a)fônica: os sons do corpo e o silêncio, uma vez que o objeto a se mostra na alternância entre presença e ausência. Desde já, vale uma observação que pretendemos detalhar mais adiante: trata-se de entender a voz diferentemente da fala, para não correr o risco de cair em uma lingüística da fala. A voz, enquanto objeto a da pulsão invocante, não articula significantes lingüísticos, não está necessariamente no campo simbólico dos sentidos. Se formos aproximá-la de algo, ela estaria mais perto do grito do que da fala, na medida em que a voz é um traço que marca a ausência de sentidos ao mesmo tempo em que pode demandá-los. A ausência de voz; afonia, por exemplo, tão recorrente nas sessões psicanalíticas, denota um silêncio que grita por significação. Essa ausência da voz explicita, em ato, a falta do objeto faltante, a retenção deste objeto como forma de não dar ao outro o objeto que também lhe falta. Quando nos referimos ao objeto a, estamos nos referindo a um objeto que está sempre em falta, não se tratando de um objeto perdido, no sentido de que em algum lugar existiu e foi, posteriormente, perdido; mas de um objeto que é, na sua propriedade mesmo, em falta. Por isso ele também é denominado objeto causa de desejo, uma vez que ele é um objeto faltoso. O objeto causa de desejo (objeto a) deve ser diferenciado do objeto de desejo, que, ao contrário do objeto a, é um objeto de presença e não de ausência (ou falta), pois o objeto de desejo tenta suprir a falta primordial do objeto a que causa o desejo. Em outras palavras, há uma falta primordial, esta do objeto a, que causa o desejo e este tenta eleger um objeto que aplaque esta falta.

A voz e o olhar se constituem, pulsionalmente, por uma característica que poderíamos, com todo cuidado, dizer “virtual”, na medida em que são objetos que escapam do campo do apreensível e do palpável, diferentemente das pulsões freudianas, cujos objetos se constituem de um modo mais palpável e carnal, como as fezes e o seio. Embora todos sejam, na verdade, representantes da falta, o olhar e a voz estão circunscritos numa dimensão espectral, cuja volatização é claramente perceptível. É o que referencia Harari (1997, p.194): “Por outro lado, ambos os objetos a ‘surgem’ mais velados, em uma primeira aproximação; a relação com o corpo, a relação ‘carnal’, manifesta-se mais problemática para seu entendimento, diferentemente dos a freudianos”. No entanto, não podemos igualar voz e olhar. O olhar parece ter uma concretude ainda mais representativa do que a voz: é comum ouvirmos as pessoas afirmarem, com veemência, utilizando-se de um pleonasmo: “mas eu vi com meus próprios olhos”; para justamente diferenciar do “ver” com os ouvidos, os quais, segundo este

ditado, não mereceriam o mesmo crédito. Da mesma forma, a expressão: “sou como São Tomé, só acredito vendo”, demonstra certo afã e a primazia do olhar em detrimento da voz e do ouvir.

O olhar é valorizado pelo humano, dada a dimensão da presença que se faz necessária, o olhar somente se dá na presença, na imagem que se descortina, tal como no teatro charcotiano, em que a histérica encenava aos élèves que a observavam de olhos bem abertos. Esta cena foi modificada com a inserção da Talking Cure, ou mais propriamente, a escuta freudiana nos colocou frente a uma outra posição que quebrou com a imagética do olhar. Com Freud, tratava-se de falar de algo que incomoda para alguém que não se vê. Neste sentido, das quatro pulsões, a voz é a mais espectral e volátil, porque parece estar, a todo tempo, no jogo da presença/ausência. Poderíamos inclusive, arriscar a dizer que a voz é o objeto faltante por excelência, na medida em que se perde no tempo e no espaço e na medida em que entra no jogo a continuidade/descontinuidade característica do inconsciente.

Ademais, a voz é penetrante por condição, mesmo que não se queira ouvir, ela entra pelo orifício auditivo com toda sua força pulsional. O Outro ao proferir ou pró-ferir sua enunciação provoca a violência da linguagem sobre o sujeito (bebê), fazendo a voz penetrar no infans para colocá-lo no circuito pulsional do desejo, para fazer emergir aí um sujeito. A voz é o objeto da pulsão invocante, essa pulsão que se inscreve no que invoca, convoca, evoca, faz sujeito através da voz. A voz se instala nesse corpo pulsional na medida em que faz do corpo algo além da carne; na medida em que engendra o vazio angustiante do silêncio de uma boca aberta. Não ao acaso, a voz é, para a Psicanálise, a via pela qual acessamos o inconsciente, dada a sua proximidade com a falta e com a aposta em ato no desejo. Com a Psicanálise, a prática da escuta passou a ser o seu centro gravitacional, não mais o olhar romântico do flerte, nem mesmo o “olhar nos olhos” do paciente, tal como na hipnose ou em situações sociais em que alguém diz: “olhe para mim enquanto lhe falo”; mas a vocalização dos suspiros, espasmos, fala, evocam aquilo que é do inconsciente.

A voz parece então paradoxalmente como o objeto penetrante da pulsão, assim como o mais volátil e inapreensível; aquilo que está sempre em falta, por mais que os analisantes falem e vocalizem mais e mais; há um silêncio nesta lalação, um silêncio que demonstra a fugacidade do objeto, a perda sideral dos sons, aquilo que soa (des)aparece no que ecoa. Neste sentido, o que é vocalizado é da ordem do chamamento, da (pro)clamação; em que há um sujeito que clama por algo, demanda ser amado, demanda algo que aplaque a dor de existir. Essa é a condição do humano, dado o caráter de falta e de ausência. Na continuidade sonora das vogais se interpõe a descontinuidade consonantal, condição para o advento do sujeito

sideral do inconsciente. É frustrando a demanda que emergirá o sujeito, é quebrando com o clamar que se dará lugar ao desejo. A voz está no centro da constituição do sujeito por onde perpassam as questões vinculadas à demanda e ao desejo. A voz é uma imaterialidade que ressoa no sujeito, de modo a inscrever marcas no corpo, marcas que produzem imperativos, pausas vazias, pausas preenchidas, afonia, disfonia, cacofonia. As vozes do psicótico, por exemplo, são, como veremos adiante, recheadas de imperativos, os quais ele terá que cumprir, em geral, para evitar um grande mal à civilização ou uma catástrofe mundial. Seja na abundância de vozes, como no psicótico, seja na escassez, como na afonia histérica, o que se constitui de forma diferente, evidentemente, é o circuito vocal na sua relação com o sujeito, o fantasma e o corpo. A voz, ao fazer circuito no sujeito, articula-se de tal maneira com o fantasma, de modo a produzir, no corpo, abundância ou escassez.

A rigor, a voz, ao menos na neurose, sempre é do Outro, na medida em que isso fala no sujeito, apesar dele. As vozes brotam das cordas vocais, mobilizando laringe, glote, boca, dentes, ar, pulmões, e pervertendo as funções biológicas destes órgãos, dado que não foram feitos naturalmente para a função da fala. “A fala não é uma atividade simples executada por um ou mais órgãos biologicamente a ela destinados” (SAPIR, 1985, p.15). As vozes escapam ao controle dos falantes, elas emitem sons, talvez os mais esdrúxulos possíveis, como um espirro, um sopro, uma tosse, uma gargalhada que insiste em colocar o sujeito numa articulação singular com o inconsciente e o sintoma.

A voz, como pulsão invocante, evoca o sujeito por via da invocação do grande Outro. Ela é, neste sentido, penetrante e violenta, pois é necessário operar um corte, uma fissura que deve ser aberta, para a entrada dos significantes, da falta e do desejo. A voz da mãe, que tranqüiliza e seduz a criança, é a mesma que a violenta, por sexualizar o corpo do infans (etimologicamente, aquele que não fala); por instalar a voz nos circuitos pulsionais do sujeito que está por vir. A voz da mãe, envolta de picos prosódicos, do cântico de ninar, ou se quiserem, de uma lalação, de um “manhês”, instala, no sujeito, a pulsão invocante com o objeto voz. Mais tarde, o sujeito fala por ter sido falado, vocaliza, por ter sido vocalizado, convocado a ser sujeito, invocado deste lugar; e a partir de então, a voz será isso, que como sempre, fala nele, apesar dele.

A alusão aos assim chamados sinais extralingüísticos, como por exemplo: flatos, suspiros, tosses ou soluços ⎯ é ainda mais ilustrativa. Por terem sofrido menos as insígnias da repressão e por terem uma relação mais tênue com a ordem significante da linguagem, quando comparados com a fala, por exemplo, os sinais extralingüísticos nos mostram a voz nua e crua em toda a sua fugacidade, nos mostram a voz na sua relação com o corpo

pulsional. Quanto mais o sujeito tenta controlar essa “exalação” da voz, mais longe ela fica de seu controle. O sujeito tenta controlar essas protuberâncias da voz, e quanto mais se esforça para isso, menos sucesso alcança em seu intento. Na fala, tanto os sinais “extralingüísticos” como os denominados de paralingüísticos7 são marginalizados pela Lingüística e recuperados pela Psicanálise como manifestações de um corpo pulsional inscrito numa ordem imaginária, simbólica e real.

A voz que vem do Outro está inscrita na lei do significante. Dadas as características do supereu presentes na voz, a voz é do Outro; logo, dita uma lei, porta uma ordem, e será esta voz que limitará o excesso de gozo na sedução musical do canto materno. A voz do Outro é a da linguagem parental da exigência, da lei, do pai. É aquela que constitui sujeito, por barrar o gozo da sonata materna que, se levado aos seus extremos, provoca uma sedução tal que conduzirá o sujeito à morte, sendo necessário que a lei intervenha através do significante veiculado pela voz. “A voz da qual se trata é a voz enquanto imperativa, enquanto ela reclama obediência ou convicção, enquanto ela se situa, não em relação à música, mas em relação à palavra” (LACAN, 2002, p.317).