8. Concelho de Elvas
08.46. Alfarófia CMP 414 / CNS
Relevante local, ocupando uma posição privilegiada. Muito próximo do provável itinerário da via XII, está em pequena elevação na extremidade de terraços fluviais muito extensos, e muito próximo do leito do Caia. O sítio foi severamente afectado pela terraplanagem devido ao plantio de arrozais, mas uma extensão indeterminada ainda se conserva.
O sítio já aparecera em notícias antigas, com a “descoberta em 1895 [de] uma sepultura romana de alvenaria ordinária coberta por três pedras e sem inscrição funerária. Dentro da sepultura apenas se encontrou uma panela em barro grosseiro de cor vermelha, partida na parte superior com vestígios de ter havido asa, e com indícios do uso da roda de oleiro; está no Museu Arqueológico elvense”488. Em 1990 dá-se então a detecção de
vestígios devido à destruição do local:
“[...] A prospecção permitiu determinar uma vasta área, a NE do Monte de Alfarófia, com vestígios arqueológicos tais como materiais de construção romanos (tijolos, tegulae, blocos de granito) de cerâmica comum e terra sigillata.
[...] Posição geo-estratégica - pequena elevação sobranceira ao Rio Caia (entre o talude e uma casota de madeira) onde se evidenciavam blocos de granito, que correspondem a uma construção, que poderá eventualmente ser a casa do proprietário de uma ‘villa’ rustica.
Área limítrofe a esta pequena elevação, com maior incidência de materiais arqueológicos e vestígios de pavimentos, manifestados pela concentração de seixos do rio e fragmentos de ‘opus signinum’.”489
No terreno encontram-se silhares e elementos de granito, alguns de grande dimensão490, cerâmica comum e de construção. Realce para um bordo de terra sigillata clara
D Hayes 91. Encontram-se ainda terra sigillata clara A (um bordo de Hayes 15), hispânica decorada (Dragendorff 27), cerâmica de paredes finas, asas de ânfora (fabricos béticos) e grandes fragmentos de dolia, além de cerâmica de construção; placas de mármore lisas; pavimentos de opus signinum; paredes em estuque branco; vêem-se vários restos de muros, com grande percentagem de seixos de rio e cerâmica de construção. Alguns destes poderão estar in situ, mas as condições de visibilidade são precárias. Há tegulas e imbrices; cerâmica comum, com potes e panelas com marcas de fogo. Fauna malacológica de ostra denuncia consumos sumptuários.
Como refere Maria José de Almeida, “A árula funerária da herdade das Caldeiras (nº45), bem como a ponte soterrada sob os arrozais do Caia referida por Justino e Tarcísio Maciel devem relacionar-se directamente com este sítio, embora actualmente se encontrem noutra propriedade.”491
488 Pires, 1931: 9.
489 Ana Carvalho Dias, Informação de IPPC/SRAS de 27 Novembro 1990 em Processo IPPAR nº 4.07.007.
Existem mais dois processos relativos ao sítio: IPA 78/1(94): devido à recolha em 1972 de 3 fragmentos de mosaico levantados por uma charrua, oferecidos para o MNA em 1978; e IPA JN8/1(33), processo relativo a moedas modernas (D. Manuel I; D. João II , D. João III) - CNS 3742 (com indicação de “conjunto de moedas de prata e ouro; tesouro, cronologia indeterminada).
490 Com 60x90x45cm, bem como uma coluna em granito de 0.35m diamêtro e quase um metro de altura
conservada.
Em resumo, todos os indicadores apontam para uma villa em implantação privilegiada, em íntima relação com a via.
Outras referências: Processo IGESPAR S-3742; RP 6/232; [s.a.], 1978.
08.47. Terrugem
CMP 427 CNS 4599 e 5700
Trata-se de um ponto de povoamento dotado de conteúdos muito relevantes, e que ainda aguarda uma análise atenta, quer a nível dos elementos aqui exumados, quer nas realidades de terreno, que ainda aguardam uma intervenção.
Relembrem-se os dados postos a descoberto por Henrique Louro (que, pároco no local, identificou o sítio), Abel Viana e Dias de Deus492. Os testemunhos de uma “povoação
romana que existiu no cabeço de Santo António em cuja falda assenta a aldeia da Terrugem” são inequívocos, pois “Uma notável extensão de terreno acompanha os vestígios que se vêem ainda, tais como: tijolos, telhas, cubos de granito, ferro, cerâmica, vasos de cobre, um fragmento de lousa sepulcral com letras, uma coluna de mármore, uma linda rosácea em granito, fragmentos de mosaico, um amuleto, etc.”493 Em determinado
ponto, não especificado, “vêem-se os arcos de tijolo que suportaram o pavimento de um
caldarium”494, indicando a presença de um estabelecimento termal, além de canalizações em
cerâmica. Talvez aqui se situasse um edifício, onde no seu interior jazia uma coluna de mármore lisa com 1,80m de altura, próximo do caldarium. Mas sobre a presença romana, alegadamente de uma villa com numerosos testemunhos de superfície495, mais nenhuma
notícia é deixada, sendo todavia o espólio revelador de um sítio com elevados índices de conforto.
O feixe de informações mais relevante diz respeito a uma mudança no perfil de ocupação do local, ocorrida em momento tardio. Aqui instala-se uma necrópole de inumação com 22 sepulturas recenseadas496, de planta trapezoidal, com variadas tipologias
construtivas utilizando tegulas, lajes de xisto e placas de mármore. Estas “rodeiam por três faces os alicerces de um edifício de planta rectangular, quase quadrada, feitos de blocos de granito”497, e efectivamente a planta publicada deixa perceber que este funcionou como
elemento polarizador do espaço sepulcral. Entre as sepulturas, merece destaque a que forneceu uma colher litúrgica com uma inscrição cristã, aparecida em “sepultura da criança, onde apareceu a colher, tinha ao que parece 1,10m”498, embora todo o espólio recolhido
seja muito interessante.
Desta forma, a intervenção foi muito sectorial e deixou a maior parte dos testemunhos ainda por identificar no terreno. Hoje, no local, encontra-se um significativo conjunto de testemunhos: a densidade de materiais é por vezes impressionante, mas ressalta a ausência de cerâmica de importação. Vários blocos de escória e cerâmica de construção muito variada, incluindo tegulas de secção muito arredondada. Muitos materiais estão vitrificados: tijolos, tegulas e imbrices. Nas zonas onde existe menos vegetação, a meia-encosta, encontra-se uma apreciável densidade de materiais arqueológicos. No moroiço central está uma coluna fracturada499 e lateres inteiros500. Há ainda a registar a
492 Deus, Louro & Viana 1955: 571-572; Louro 1948: 347-348; Louro 1964.
493 Louro, 1948: 347. Surge também mencionado, de forma mais detalhada, em Deus, Louro & Viana, 1955:
572.
494 Deus, Louro & Viana 1955: 572. Nos seus apontamentos de campo, Manuel Heleno indica que um arco
de fornalha havia sido destruído.
495 Incluindo em outros pontos, pois “fizeram-se algumas ligeiras sondagens que acusaram a presença de
alicerces de outros edifícios” em zonas distanciadas da necrópole (Deus, Louro & Viana, 1955: 572).
496 Todavia, Manuel Heleno deixou registado nos seus cadernos de campo que na necrópole as sepulturas
eram “mais de 30 e não está esgotada”.
497 Deus, Louro & Viana 1955: 572.
498 Cadernos de Campo de Manuel Heleno. A colher litúrgica apresenta a inscrição AELIAS.VIVAS IN
(chrismon).
499 Na altura e no diâmetro. Este, conservado, tem 36cm.
presença de opus signinum e de algumas tesselas brancas. Foi também encontrado um vidro de vidraça de tom verde-garrafa, com tonalidades mais claras, plano e espesso.
A área é muito extensa, com cerca de dois hectares. A meia encosta notam-se duas plataformas, divididas por uma crista do afloramento. Portanto, a que está mais alta pode ser natural (devido ao transporte e acumulação de terras), mas a segunda será seguramente de origem antrópica. Os materiais vão diminuindo para norte, na aproximação da EN4 e do depósito de água.
Outras referências: RP 6/217; TIR J-29: 152; Heleno 1948; Almeida 1962: 202, 235; Gorges 1979: 466-467; Almeida, 2000 nº 51; Reis, 2004: nº 89.
08.48. Camugem