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7. Concelho de Crato

07.45. Ribeiro do Freixo CMP

Sítio que se estende por dois concelhos (Crato e Monforte) dado que existem evidências dos dois lados da via, que aqui serve de limite concelhio.

Está mesmo junto à passagem da ribeira. A maior concentração de materiais está próximo de um afloramento, onde inclusivamente se nota uma plataforma. Todavia, os materiais encontram-se também do lado sul da via, indicando uma extensão grande, difícil de avaliar porque o solo está em pastoreio, mas que será certamente em torno a 5000m2. Encontram-se tijolos, imbrices, tegulas, cerâmica comum, fragmentos de ânfora e blocos de

opus signinum. A passagem da ribeira seria feita por um pontão idêntico ao da ribeira da

Navalha, ainda se encontrando uma estrutura pétrea no corte da linha de água. Aqui está um marco com a Cruz de Malta, possivelmente reaproveitando um marco miliário, indicando que este local serviu como termo de confrontação de territórios das ordens militares, como hoje serve de concelhos.

Como o sítio está claramente em relação com a via e com a passagem da ribeira, certamente se poderia tratar de uma mansio.

Referência: Inédito.

Comentários gerais

Em todo o Alto Alentejo, o concelho do Crato assume uma situação algo singular: trata-se de um território onde vários investigadores trabalharam, mas onde nunca houve um esforço sistemático de pesquisa; e por esta via, os dados são soltos e heterogéneos, mas quando os reunimos e pesamos, concluímos que são densos em quantidade e qualidade. Em resumo, o Crato assume uma posição de algum modo privilegiada na contabilização geral dos pontos de povoamento do Alto Alentejo, com mais de quarenta sítios recenseados, mas sobretudo a impressão geral do conjunto é a de um relevante repositório de informação para o futuro. Sítios de grande qualidade, do ponto de vista patrimonial e científica, e que só muito parcialmente são conhecidos, faltando ainda descobrir outros mais.

O Crato é nitidamente um concelho de transição, e a diversidade de paisagens e de ambientes beneficia-o nesta leitura. Atravessando-o abandonamos, por um lado, o espaço da bacia do Tejo (quer de norte para sul, vindos de Nisa, quer de oeste para este, vindos de Gavião e Ponte de Sôr), e por outro, saímos do ambiente serrano de São Mamede (em particular se entrarmos vindos de Alagoa e Fortios) para os grandes espaços do Alto Alentejo central. A paisagem modela-se progressivamente, no sentido da suavidade das ondulações ritmadas dos cabeços que se vão sucedendo, deixando para trás as cristas e as erupções xistosas que até aí reconhecíamos. Em resumo, entramos na paisagem que possibilita mais o otium contemplatório próprio da alma latina, mas também um modelo de exploração agro-pecuária que permite o policultivo e, sobretudo, a base da tríade mediterrânica da vinha, do olival e das extensões de cereais. Em resumo, no Crato entramos no território das grandes villae. Unidades que, especialmente para norte, convivem com os povoados abertos – as designadas moradeias, se seguirmos a linha de Vasconcellos – mas que progressivamente vão dominando a paisagem: sítios como Granja, Couto Vale, Almarjão, Braguinas, Lage do Ouro ou o impressionante sítio de Mosteiros, indiscutivelmente um dos grandes valores patrimoniais do distrito.

O que mais chama a atenção no Crato é portanto esta dupla transição: no quadro fisiográfico, mas também na ocupação humana do território, onde encontramos a passagem de um modelo de povoados para as grandes estruturas latifundiárias que

evidenciam um requinte e uma monumentalidade que indicam o gosto urbano dos seus proprietários.

Este modelo é para já uma hipótese de trabalho, sendo necessária a realização de mais trabalho de campo para determinar a profundidade e validade desta leitura. Em panorâmica geral (muito geral, reforçaria), o que teríamos seria assim, progredindo de norte para sul e simultaneamente de ocidente para oriente, a transição, feita aliás de modo suave: sítios como Rodo ou Sôrinho, ou mais pequenos, como Cem Dias e Colobra, vão lentamente cedendo o passo a estruturas de maior porte. De modo simbólico, penso que o vicus de Chocanal (um local cuja melhor definição do perfil de ocupação seria estratégico para o conhecimento desta classe) parece marcar a fronteira: junto ao itinerário viário, se o percorrêssemos vindos do Tejo seria por estas paragens que o referido modelo começaria a alterar-se, pois de seguida teríamos a Granja, já uma villa pelos padrões clássicos.

Este modelo é sugestivo, mas necessita de ser muito melhor afinado. De muitos destes sítios temos apenas uma sumária caracterização, seja porque alguns deles foram muito afectados pelo plantio de eucaliptos e estão hoje genericamente perdidos, seja porque de muitos temos apenas as crípticas passagens deixadas por Mário Saa, que era particularmente lacónico na descrição de sítios que sabia só ele conhecer. O que dizer de Espadaneira, com os seus “terrenos pejados de detrictos”, por exemplo? Ou da sensação de em locais como Taberna dos Mouros ou Rua de Crasto termos estado no local onde Saa esteve, mas não termos observado o que o autor descreveu? Esta incómoda impressão poderá vir a ser ultrapassada com mais trabalho de campo, que identifique novas realidades, ou então teremos de conformar-nos com a ideia de as realidades se terem perdido. Mas relembro o sucedido em Mosteiros: foi apenas ao fim do terceiro dia de prospecções no local (efectuados em três momentos diferentes do ano) que o mesmo foi relocalizado, e neste caso não estamos propriamente a referir-nos a um sítio arqueológico pequeno, ou de escassas evidências.

Este ponto é relevante e merece ser destacado. Pois apesar dos mais de quarenta sítios constantes do inventário, sempre que podemos realizar algumas prospecções mais intensivas, alguns novos sítios foram identificados. Biscaia, por exemplo, com o vizinho lugar de Couto Vale ou (para não nos centrarmos apenas na época romana) os diversos pontos de Sampaio (com evidências de épocas diferenciadas), são apenas dois exemplos de uma malha de povoamento muito densa e apertada que aflora sempre que existem condições para a realização de um trabalho de campo mais intensivo. Neste sentido, o Crato foi um laboratório muito interessante, onde novas descobertas foram identificadas de modo inesperado, ou onde evidências que julgávamos perdidas foram afinal recuperadas: dou como exemplo a antiga ermida de Santa Eulália, cujos vestígios ainda foi possível recuperar, com a surpresa de se encontrarem restos materiais de época romana. Outro exemplo foi o conjunto de pontos aos quais chegámos por informação oral do proprietário de Braguinas: com ele foi identificado o conjunto de sepulturas escavadas na rocha e depois, em posterior visita para a obtenção de coordenadas geo-referenciadas, foram encontrados os três povoados de Monte da Cunha.

Estes merecem um comentário específico, porque os três pontos situados entre o Monte da Cunha e a povoação de Alagoa são exemplos extremamente relevantes dos conjuntos a que Leite de Vasconcellos chamou de moradeias. Três núcleos dispersos, mas próximos entre si, que se instalam entre afloramentos, delimitando a área edificada por uma cintura de pedras (por vezes visível, mesmo em terreno plano como nos sítios 23 e 24) e onde depois observamos a individualização das presumíveis habitações, com as entradas sinalizadas com pedras fincadas. A novidade, nestes locais, reside na proximidade de sepulturas escavadas na rocha (nos sítios 23 e 24 estão situadas em uma extremidade do povoado) e na existência de habitações (?) que não são rectangulares mas sub-ovais. Trata- se de um modelo de povoamento que encontramos em outras áreas da região: mais a norte, no limite inferior do concelho de Nisa, e ainda nos concelhos da Serra de São Mamede. Estes três povoados estão entre os exemplos mais a sul, registando-se ainda os casos de

Froia em Alter do Chão. Como é evidente, é muito difícil determinar a cronologia destes sítios: a utilização de imbrices e tijolos com uma tipologia perfeitamente idêntica à dos materiais romanos (mas com muito inferior qualidade de fabrico) leva-me a considerá-los como pontos de povoamento da Antiguidade Tardia, mas esta proposta pode ser revista para momentos posteriores, até em função da coabitação com as sepulturas escavadas na rocha.

Estes sítios foram localizados quando o objectivo passava por confirmar a referência oral às sepulturas. Nem todas foram localizadas; o informador mencionou, por exemplo, uma sepultura escavada na rocha que ainda apresentava cerâmica de construção na sua cobertura. Portanto, em toda esta extensa área, hoje pouco povoada, é perfeitamente admissível a existência de mais alguns destes povoados, pelo menos até ao início da mancha de eucaliptos.

Tendo estes pressupostos em mente, regressemos aos modelos de povoamento para concluir que, afinal, este conjunto de sítios, já numericamente substancial, é já, afinal, uma boa base de trabalho para posteriores investigações. Porque certamente uma análise mais apurada permitirá aferir esta hipótese: a de estarmos perante um território de transição, de passagem, onde progressivamente assistimos ao emergir do modelo de exploração centrado nas villae que se sobrepõe aos povoados em espaço aberto. Ou, em outra leitura, estes povoados ficam afinal remetidos para as áreas marginais, enquanto as villae repartem entre si os territórios de mais elevada aptidão agro-pecuária.

Claro que este é um modelo falível, e efectivamente quando olhamos para os dois concelhos limítrofes onde poderíamos esperar uma continuidade deste modelo de povoamento a leitura falha: em Alter do Chão e em Portalegre detectamos extensas áreas vazias, onde as villae parecem ausentes – e no segundo caso estão mesmo, e de modo absoluto. Claro que poderemos sempre culpar a ausência de investigação, e pensar que com mais pesquisa ultrapassaremos este vazio. E sem embargo de tal acontecer, poderemos também olhar para o Crato e pensar que, em concelho que não beneficiou assim de tanta investigação, encontramos uma substancial quantidade de villae e uma já densa malha de povoamento.

A solução deverá residir em outra chave de leitura: a rede viária. Porque quando olhámos para Alter ressalvei que a maior percentagem de sítios se encontra ao longo dos traçados viários, situação mais notória ainda no caso das villae. Em Portalegre, talvez o vazio se deva tão somente a uma generalizada rarefacção dos testemunhos viários – ou, dito de outro modo, ao facto de rede viária parecer aqui substancialmente débil. No Crato, pelo contrário, temos um território de passagem de trânsitos entre gentes das mais variadas paragens. Temos um itinerário que o atravessa em sentido transversal – a via XV -, um outro que o margina a sul – a ligação à via XIV, que sinaliza sítios como Fonte da Figueira, Ribeiro do Freixo ou Almarjão – e vários itinerários que tiveram certamente grande relevância, como pode ser constatado pelo porte dos sítios que deles se aproximam.

A rede viária, seja a principal, sejam os ramais secundários, condiciona de forma clara os modelos de povoamento existentes neste território. Se escalonarmos os sítios pelas categorias mais operacionais, descobrimos que as villae e os sítios directamente relacionados com funções viárias – seja a mansio ou a mutatio – estão no alinhamento dos principais eixos. A sequência de pontos é evidente: a curta distância (até um quilometro) encontramos uma extensa lista: Sôrinho (povoado junto à via), os sítios de Biscaia, Couto Vale (villa), o povoado de Rodo, Monte Velho (villa?), a ermida de Santa Eulália, o povoado de Aguilhão, a villa de Lage do Ouro, o povoado de Colobra, a villa de Braguinas, os sítios indeterminados de Espadaneira, Algarves e Mato Silva, a villa de Mosteiros e o povoado de Rua de Crasto, a ermida de S. Bento, o vicus de Chocanal, a villa de Granja e a possível de S. Lucas, os sítios imperfeitamente caracterizados de Abodaneira, o casal de Aguilhão, Taberna dos Mouros (este em entroncamento viário), a villa de Almarjão, a possível mansio de Ribeiro do Freixo e o sítio indeterminado de Fonte da Figueira.

Ou seja, todas as villae, o vicus, dois hagiotopónimos com antecedente romano, alguns sítios com proximidade evidente à via, e um conjunto de locais insuficientemente caracterizados.

Os restantes locais, longe dos eixos viários, são Cem Dias (“moradeia”), Santo Estêvão (...?), Vale Seco (“moradeia”), Sampaio (pequeno ponto de ocupação), Salgados (...?), Paiola e os diversos locais de Monte das Cunhas, estes últimos que também encaixam no conceito de “moradeias”. Em Sampaio e no núcleo de Monte da Cunha acresce a proximidade a sepulturas escavadas na rocha, podendo aqui tratar-se de sítios de cronologia mais avançada. De qualquer forma, em todos referimo-nos a povoados de segunda ordem, sítios modestos no seu perfil de ocupação e expressão material, remetidos claramente para as franjas do território que então interessava ocupar.

Esta leitura é muito interessante, até porque coincide com outros concelhos onde assistimos a esta, digamos, linearização do povoamento em função dos eixos de circulação. A novidade, em Crato, é o facto de termos uma massa de dados substancialmente superior em relação a, por exemplo, Ponte de Sôr e Alter do Chão. Infelizmente, não conseguimos categorizar estes sítios do Crato de modo sistemático, o que seria particularmente útil para procedermos a uma hierarquização ou escalonamento das cadeias de ocupação do território. Sobre muitos sítios não é possível perceber que tipo de perfil de ocupação ocorreu, nem qual a sua real posição nesta arquitectura de povoamento, que só parcialmente podemos entrever.

Genericamente os mesmos conteúdos são mantidos quando procuramos construir uma leitura diacrónica. É de momento impossível perceber o modo como este elenco de sítios evoluiu ao longo do tempo que aqui nos interessa.

Claramente temos uma malha de pontos de povoamento que em época romana acompanha a rede viária, que por estratégia imperial se consolidou na região. O dado mais interessante, todavia, parece residir no facto de que, pelos escassos dados disponíveis, esses sítios se foram mantendo ao longo do tempo, não havendo substanciais alterações. O que, de modo indirecto, nos indica que a rede viária se manteve até, pelo menos à reorganização pós-Reconquista que os Hospitalários irão empreender a partir de 1232, com a doação de D. Sancho II e, especialmente, com a fundação de Flor da Rosa em 1356. Neste momento podemos supor que a geo-estratégia do território se altera, embora a existência de povoados de larga diacronia próximo de vias, como Sôrinho e Rodo, possa indicar que os principais caminhos se mantiveram em funcionamento. Mas claramente, a partir desta fase, os eixos viários rodam para o sentido norte/sul, abandonando a tradicional orientação noroeste/sudeste que caracteriza a ligação da capital provincial com o Atlântico.