9. Concelho de Estremoz
09.13. Reguengo (S Domingos de Ana Loura) CMP 412 / CNS 1
Referência muito antiga, de Henriques da Silveira. Eventualmente duplica o sítio anterior, pois as propriedades são contíguas. Reproduzo a citação: “A Parrochia de S. Domingos de Annaloura [...] está a Herdade da Marinella [...] Nesta Herdade se descobrem muitas Ruinas de povoação antigua, sepulturas, e Medalhas do tempo dos Romanos.”621
09.13. Reguengo (S. Domingos de Ana Loura) CMP 412 / CNS 18570
É localmente bem conhecida, e identificada de há muito, a existência de um sítio romano de grandes dimensões junto ao Monte do Reguengo, pequena construção que se encontra próximo da isolada igreja de S. Domingos de Ana Loura. Curiosamente, sobre os vestígios arqueológicos aqui existentes também existem notícias muito antigas, que entretanto caíram no esquecimento: “Duzentos passos ao Sul da Parochial Igreja de Sam Domingos d' Anna Loira, demora o Oiteiro do Castello, no vertice do qual se fez huma escavação em o mez d' Agosto de 1798 por ordem e curiosidade de João Vasco e Manoel de Braun Governador da Praça d' Estremoz, com a qual se principiou logo a descubrir a sinco palmos de profundidade, hum edificio d' abobeda com seu terrasso superior, ladrilhado este, e formada aquella com pequenos tijollos em figura Rhomboide. Debaixo do mesmo terrasso, se acharão alguns ossos carcomidos, que parecião de Carneiro, e huma
619 Um deles, o mais bem conservado, apresenta um diâmetro de 32cm. 620 Crespo, 1950: 9.
Bilha, ou Urna de barro branco, que por materialidade dos excavantes, se lhe não poude haver mais, q huma aza, e diferentes pedaços.
Com estes indubitaveis Vestigios, fez o dito Governador parar a escavação, bastante a poder com toda a identidade representar ao competente Tribunal esta descuberta, na referida terra, de que he Senhorio Dom Francisco d' Almeyda.
Na falda do mesmo Oiteiro do Castello, pelo Rumo do N. E. junto, e exterior ao vallado d' Assenha das Ferrarias, se acharão tambem duas campas de pedra muito clara e pollida, tendo em pé, e à cabeceira hum pedestal d' Oleos, com a inscripção vista, cuja pedra fez guardar o dito Governador no seu Quartel d' Estremoz.”622 Na ocasião foi
recolhida uma epígrafe funerária623, cuja transcrição o códice também apresenta.
A implantação é típica de uma villa: próxima do leito da ribeira, voltada a sul e este, desfrutando de boa visibilidade, com bons solos agrícolas nas imediações.
As notícias são variadas, embora sempre publicadas em âmbito local:
“[...] Não têm sido raras as escavações que põem à mostra moedas de oiro e de cobre, os mais variados objectos de cerâmica e mosaicos de alto valôr e objectos arqueológicos preciosos que têm ido fazer parte do recheio dos nossos museus; há bem pouco tempo em S. Domingos, muito perto daqui, nos foi dado observar uns tejolos de formas particulares e desusadas que em grande quantidade apareceram numa propriedade, em que havia debaixo duma vinha, uma grande abóbada que foi soterrada e perto da qual há vestígios nitidos duma construção circular; inúmeras pedras de granito com aparelhagem já estragada, mostram indícios de ter havido ali uma povoação antiga. É pena até que uma das pedras - a única encontrada com uma legenda - esteja tão corroída e deteriorada que não se possa ler. [...]”624
“[...] pedras trabalhadas de mármore, tejolos oblongos, tubos para canalização de barro, etc. [...] Da estrada ao sítio, numa extensa e fértil várzea, com um ribeiro à ilharga, limitando-a por terras visinhas, logo à simples vista, apresentava-se-nos uma cova, assim como que um cano que saísse de um tanque (ou balneário?) soterrado a pequena distância. Mas as enxadas arrancavam as lapas e identificavam prestes o molde de uma sepultura de pessoa de grande estatura, já feita terra de óptimos humus, pó e nada. Na varzea, retiravam- se dessa cova macabra, ossos de femures humanos, grossos e quebrados que deviam ter pertencido a homem ossudo e forte. Craneo? Só apareceu um noutra cova dentre muitas que naquela várzea constituiam certamente aglomerado de jazidas de romanos [...] O dr. Assis guardara um pedaço de tejolo de cimalha e um trôço de cano cilindrico de tejolo vermelho e bem cosido - com luz de 0,10 [...].”625
No terreno as informações foram confirmadas pelo proprietário, que gentilmente prestou esclarecimentos adicionais. Assim, confirma-se que o sítio tem características de uma villa, mas também existem indicadores da existência de uma necrópole: aqui foram encontradas sepulturas com bilhas e cobertas com lajes, e segundo menção do próprio, algumas epígrafes foram em tempos enviadas para o bispo de Évora e entretanto perdidas (o que confirma a referência do fundo documental de Frei Manuel do Cenáculo). Próximo do campo de futebol, mas ainda na propriedade, foi encontrada uma sepultura, com cerca de 160cm, forrada com tijolos, contendo um esqueleto pequeno, e no interior, unguentário em vidro e uma taça, ou copo, com duas asas.
622 Museu Sisenando Cenáculo Pacense, Cod. CXXIX 1-13 P.XXXI (1 fl+1b), Biblioteca Pública de Évora.
Também o volume de Correspondência recebida nº II, p. 110 (nº 1525) de 18. Julho 1804 apresenta uma epístola remetida por Filippe Eduardo de Mila (Estremoz) onde se lê: “Exmº e Ilmº Snr. Tenho satisfação depor na prezença de VExª a inscripção deque VExª me fez a honrra de encarregarme na Quinta de Valverde. Remeto tambem a V. Exª dois tijolos dos quais se compoe o terrasso da abobada que menssiona a naração da excavassão; destes ha mtos disperços pelo oiteiro. [...]
O Paroco de S. Domingos de Annaloura”.
623 IRCP nº 464.
624 L. F., Brados do Alentejo de 24-4-1932, nº 65, p. 1. Curiosamente, o título do artigo é o seguinte: “Fundição
de canhões. Seria em S. Domingos de Ana Loura?
Na villa, os elementos são numerosos, aos quais há a acrescentar a recolha de capiteis e colunas em mármore, pedaços de opus signinum e de canalizações, além de moedas e pelo menos uma fíbula, materiais que estarão guardados em colecção particular.
As casas do monte sobrepõem-se em parte às estruturas antigas, observando-se ainda lajeados e canalizações que parecem ser muito anteriores. Quanto ao sítio, são evidentes as valas que o atravessam, resultado de explorações arqueológicas iniciadas nos anos oitenta mas nunca terminadas, alegadamente porque o responsável abandonou os trabalhos a meio. Por aqui encontram-se topos e paredes de muros, para além de abundante cerâmica de construção, estando os perfis das valas a desmoronar-se. Junto à ribeira, as informações apontam para a existência de uma estrutura que, pela descrição, seria em opus signinum.
Na margem oposta, no Monte das Ferrarias teria existido uma forja, sendo abundantes as escórias que por aí se encontravam. De facto, no terreno, a superfície do solo apresenta uma coloração enegrecida. No topo da elevação, cónica e conhecida pelo já referido microtopónimo de “Outeiro do Castelo”, está um provável fortim romano de época republicana.
Outras referências: RP 6/206.
09.14. Senhora da Conceição