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Arbitragem e princípio do juiz natural

2. ELEMENTOS DO PRINCÍPIO DO JUIZ NATURAL E SUA EXTENSÃO NA

2.5 Arbitragem e princípio do juiz natural

No Brasil, como é cediço, o Poder Judiciário é sobrecarregado com o

excessivo número de demandas, oriundas da alta litigiosidade com a qual o cidadão

brasileiro se habituou. Em consequência desse fato, tem-se que o referido Poder

muitas das vezes não consegue, em tempo razoável, julgar as demandas que lhe são

diariamente propostas.110

Esse cenário, evidentemente, traz significativo prejuízo para a cidadania no

Brasil, ao se considerar que não poucas vezes os processos judiciais se arrastam por

demasiado tempo, violando o direito fundamental à razoável duração do processo111,

e, consequentemente, obstando a adequada perseguição da justiça112.

Nesse contexto, medidas alternativas à judicialização como a conciliação, a

mediação e a arbitragem113 ganham cada vez mais destaque e importância, tendo em

110Sobre esse dilema José Carlos Francisco pondera:“[...] A verdade é que a realidade brasileira mostra

um alto índice de judicialização. O pensamento comum ordinariamente se volta para o Judiciário todas

as vezes que surge um litígio, o que encontra respaldo jurídico na garantia fundamental de livre acesso

à busca de solução judicial prevista no art. 5º, XXXV, da Constituição de 1988 [...]. Cada vez mais esse

quadro se agrava com a tendência natural à judicialização de todas as questões, em especial as

matérias pertinentes às políticas públicas, tais como obras de construção civil (usinas, estádio, etc.),

redistribuição de rendas e tributação e saúde. O índice de litigiosidade é expressivo para um número

de juízes também importante mas notoriamente incapaz de dar conta dessa avalanche de ações com

qualidade e com quantidade num ambiente globalizado e de risco.” (FRANCISCO, José Carlos. Busca

por alternativas à judicialização e possibilidades, in Arbitragem em Geral e em Direito Tributário:

Soluções alternativas de resolução de conflitos. Belo Horizonte: Ed. Del Rey, 2013, p. 14-15).

111 Art. 5º, LXXVIII, da Constituição Federal: a todos, no âmbito judicial e administrativo, são

assegurados a razoável duração do processo e os meios que garantam a celeridade de sua tramitação.

112 A respeito da demora no processo, Rui Barbosa disse outrora que: “A justiça atrasada não é justiça,

senão injustiça, qualificada e manifesta. Porque a dilação ilegal nas mão do julgador contraria o direito

escrito das partes, e assim, as lesa no patrimônio, honra e liberdade.” (BARBOSA, Rui. Elogios

acadêmicos e orações de paraninfo. Revista da Língua Portuguesa. São Paulo, Ed. Seguimento, 1924,

p. 381.)

113 Athos Gusmão Carneiro subdivide os meios alternativos de solução de conflitos em

“autocomposição” (conciliação e mediação) e “heterocomposição” (arbitragem) e explica que: “Na

vista que, geralmente, são menos burocráticas e mais céleres do que o processo

judicial. Ao mesmo tempo, o incentivo de ampliação dessas medidas alternativas

contribui para desafogar o Poder Judiciário, de modo que a sociedade aufere ganhos

de todas as perspectivas expostas.

Aqui, vale trazer a ponderação de Cândido Rangel Dinamarco, que chama

atenção para as vantagens de se solucionar conflitos por meio da conciliação e da

mediação, que, em muitos casos, trazem satisfação e pacificação para as partes com

melhor qualidade e rapidez do que os meios judiciais ordinários. Conforme ressaltou

a própria Exposição de Motivos do Código de Processo Civil: “entendeu-se que a

satisfação efetiva das partes pode dar-se de modo mais intenso se a solução é por

elas criada e não imposta pelo juiz”. 114

No que afeta ao presente trabalho, deve-se expor a relação do procedimento

arbitral, que possui caráter jurisdicional115, com o princípio do juiz natural, visto que,

numa análise superficial dos institutos, poder-se-ia vislumbrar eventual

incompatibilidade.

Com efeito, Carlos Alberto Carmona define arbitragem como:

[...] uma técnica para a solução de controvérsias através da

intervenção de uma ou mais pessoas que recebem seus poderes de

uma convenção privada, decidindo com base nesta convenção sem

intervenção do Estado, sendo a decisão destinada a assumir eficácia

de sentença Judicial.116

autocomposição, os próprios interessados, com eventual colaboração de um terceiro, obtêm a solução

de seu conflito. Na heterocomposição, quando não realizada pelas vias jurisdicionais estatais, um

terceiro, escolhido pelos interessados, ‘substitui o juiz’ na missão de efetuar o julgamento.”

(CARNEIRO, Gusmão Athos. Jurisdição e competência. São Paulo: Saraiva, 2012, p. 78).

114 DINAMARCO, Cândido Rangel. Instituições de direito processual civil: vol. I. 8 ed. São Paulo:

Malheiros, 2016, p. 486.

115 Nesse sentido: “Os árbitros, sim, decidem imperativamente com apoio em um poder que não vem

da soberania como sucede com os juízes estatais, mas é um autêntico poder pelos litigantes outorgado

a eles quando manifesta a vontade de valer-se dos caminhos da arbitragem. É indiscutivelmente

jurisdicional a atividade do árbitro, como vem sendo reconhecido pela doutrina moderna.”

(DINAMARCO, Cândido Rangel. Instituições de direito processual civil: vol. I. 8 ed. São Paulo:

Malheiros, 2016, p. 487).

116 CARMONA, Carlos Alberto. Arbitragem e processo: um comentário à Lei 9.307/96. 3ª ed. São Paulo:

Atlas, 2009, p. 15.

Dessa forma, o árbitro, nomeado pelas partes, substitui o juiz togado para

instruir e julgar o procedimento arbitral, proferindo, ao final, sentença arbitral a qual

possui força de verdadeiro título executivo judicial.117

A hipótese de o árbitro ser nomeado após o acontecimento dos fatos que

deram ensejo ao conflito entre as partes poderia configurar um juízo de exceção,

violando o princípio do juiz natural.

Essa eventual violação ao princípio do juiz natural não subsiste, contudo, a

uma análise mais cuidadosa do procedimento arbitral. Isso porque, em primeiro lugar,

tem-se que a arbitragem não pode ser instituída obrigatoriamente, sendo um

compromisso realizado por mera liberalidade das partes que se valem de sua

autonomia contratual. Aqui, deve-se frisar que apenas pessoas capazes podem

recorrer a esse método de resolução de conflitos.118

Em segundo lugar, tem-se que a arbitragem só poderá versar sobre direitos

disponíveis, sendo vedada para matéria atinente aos direitos indisponíveis. Nesse

sentido, veja-se o entendimento de Nelson Nery Júnior:

Com a celebração do compromisso, as partes não estão renunciando

ao direito de ação nem ao juiz natural. Apenas estão transferindo,

deslocando a jurisdição, que, de ordinário, é exercida por órgão

estatal, para um destinatário privado. Como o compromisso só pode

versar sobre matéria de direito disponível, é lícito às partes assim

proceder.119

Ademais, a própria imparcialidade e independência do árbitro é devidamente

assegurada pela Lei nº 9307 de 1996 que regulamenta a arbitragem, ao afirmar em

seu artigo 13º, § 6º o seguinte:

117 Conforme dispõe o artigo 515 do Código de Processo Civil: Art. 515. São títulos executivos judiciais,

cujo cumprimento dar-se-á de acordo com os artigos previstos neste Título: [...]

VII - a sentença arbitral; [...].

118 É como dispõe o artigo 1º da Lei nº 9307 de 1996 que regula a arbitragem: Art. 1º As pessoas

capazes de contratar poderão valer-se da arbitragem para dirimir litígios relativos a direitos patrimoniais

disponíveis.

119 NERY JUNIOR, Nelson. Princípios do processo na Constituição Federal. 12. Ed. São Paulo: Editora

Revista dos Tribunais, 2016, p. 200.

Art. 13. Pode ser árbitro qualquer pessoa capaz e que tenha a

confiança das partes. [...]

§ 6º No desempenho de sua função, o árbitro deverá proceder com

imparcialidade, independência, competência, diligência e discrição.

Sobre a imparcialidade e independência ao árbitro, Carlos Alberto Carmona

faz adequada ponderação, comparando com os deveres dos juízes togados:

A primeira qualidade que se exige do árbitro é a imparcialidade, ou

seja, a equidistância que o julgador deve guardar em relação às

partes. O árbitro, da mesma forma que o juiz, coloca-se entre as partes

e acima delas: esta condição básica para que o árbitro possa exercer

sua atividade, garantindo justiça para os contendentes. [...] Espera-se

que o julgador seja autônomo e livre, não tenha laços de subordinação

espiritual, financeira ou política com qualquer dos litigantes.120

Destarte, tem-se que tais elementos – a imparcialidade e a independência do

julgador – garantidos pelo princípio do juiz natural e essenciais para a cidadania,

também estão devidamente assegurados no procedimento arbitral, de modo que o

cidadão que optar por esse meio alternativo de resolução de conflitos terá, igualmente,

o direito de obter um julgamento independente e imparcial.

Logo, tem-se que a arbitragem não viola, seja qual for a perspectiva adotada,

o princípio do juiz natural, coexistindo em harmonia com o determinado na

Constituição Federal.