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CAPÍTULO 5. A ARGUMENTAÇÃO

5.2 As contribuições de Perelman e Olbrechts Tyteca para o estudo das técnicas argumentativas: a Nova

5.2.6 Tipos de argumentos

5.2.6.2 Argumentos baseados na estrutura do real

Os argumentos baseados na estrutura do real apoiam-se na realidade ou em fatos que se inscrevem no real. Sua força ou seus efeitos de persuasão advêm, efetivamente, da relação entre esses argumentos e aos valores e crenças admitidos por uma maioria. Trata-se de estabelecer relações entre argumentação e valores que se supõe serem assumidos pelo auditório, depreendendo-se - dessa relação - o fomento de uma determinada ideia.

Há dois tipos de argumentos baseados na estrutura do real: os fundamentados em relações de sucessão e aqueles que se apoiam em relações de coexistência. Dentre os argumentos fundados em relações de sucessão, considerar-se-ão os que relacionam um determinado acontecimento a um vínculo causal, bem como os que promovem a relação entre um dado acontecimento e os efeitos que dele decorrem. No primeiro caso, conforme ressaltam Perelman e Olbrechts-Tyteca (2005[1958]), observam-se as seguintes considerações:

Se um exército, dotado de um excelente serviço de informações alcança sucessos, pode-se querer descobrir a causa deles na eficácia do serviço em questão, pode-se de seus sucessos atuais, inferir que ele possui um bom serviço de informações (PERELMAN e OLBRECHTS- TYTECA, 2005, p.302).

Ainda no que diz respeito às relações de sucessão por meio dos efeitos ou consequências decorrentes de um fato em particular, importa assinalar o argumento pragmático, meio de prova por meio da qual um determinado evento é avaliado em função das consequências que dele se depreendem:

Denominamos argumento pragmático aquele que permite apreciar um ato ou um acontecimento consoante suas consequências favoráveis ou desfavoráveis (PERELMAN e OLBRECHTS- TYTECA, 2005, p.302).

Há que se acrescentar que, conforme assevera Fiorin (2016): “No caso dos argumentos pragmáticos, defende-se uma dada ação, levando em conta os efeitos que ela produz”. O autor ainda assinala, em se tratando desse tipo de argumento, que as consequências indesejadas não determinam que uma dada proposição deva ser concebida como falsa:

O argumento ad consequentiam deve ser utilizado com cuidado, porque quando é levado ao extremo, sem que seja balizado por valores, a especulação sobre as consequências, pode-se justificar tudo, mesmo as ações mais repulsivas: por exemplo, “ O turismo sexual deve ser incentivado, porque cria postos de trabalho”; “Deveríamos matar os velhos, porque isso resolveria o problema do déficit da Previdência Social” (FIORIN, 2016, p. 165-166).

No que concerne aos argumentos constituídos por relações de coexistência, considerar- se-ão, neste estudo, os argumentos de autoridade e os argumentos fundados nas relações entre a pessoa e seus atos, dentre os quais, considerar-se-á o argumento ad hominen. Observem-se algumas considerações acerca do segundo tipo de mecanismo de persuasão:

A reação do ato sobre o agente é capaz de modificar constantemente a nossa concepção da pessoa, em se tratando de atos novos que lhes atribuímos ou de atos antigos aos quais nos referimos. [...] Um ato é, mais do que um indício, um elemento que permite construir e reconstruir nossa imagem da pessoa, classificar esta em categorias às quais se aplicam certas qualificações [...] (PERELMAN e OLBRECHTS-TYTECA, 2005, p.338).

De fato, o apelo, por parte do orador, às relações que se estabelecem entre uma pessoa e seus atos, novos ou antigos, visa a assegurar a ideia de identificação segundo a qual os atos cometidos por alguém refratam sua imagem e, por conseguinte, os atributos ou predicados que operam em um complexo processo de representações. O ato configura-se, nesse sentido, em um indicativo de futuras ações ou mesmo na constituição da imagem217, positiva ou negativa, que se atribui aos sujeitos. De acordo com Fiorin (2016), os argumentos ad hominen atuam no discurso de três maneiras: por meio de ataques pessoais diretos, ataques pessoais indiretos ou mediante o apelo à existência de contradições entre as proposições do alvo do ataque e seu discurso e modos de agir. Neste estudo, consideramos, sobretudo, os ataques ad hominen diretos.

O ataque pessoal emerge de situações discursivas regidas pelo conflito, sobretudo. Observam-se ataques relativos a valores do oponente, tais como: a honra, a capacidade e a confiabilidade. Sustenta-se uma proposição mediante a acusação do outro.

217 Esse argumento, em que não se discutem os méritos intrínsecos do ponto de vista ou da dúvida do oponente,

mas se desqualifica o adversário como interlocutor sério, apresentando-o como alguém incompetente, não confiável ou inconsequente, recebe o nome latino de argumentum ad hominen (argumento dirigido à pessoa). Essa forma de resposta dirige-se à audiência e não ao oponente. Ela busca silenciá-lo, ao pôr em dúvida sua confiabilidade. Nesse argumento, confrontam-se a pessoa com seus discursos ou atos (FIORIN, 2016, p.171).

Trata-se de atitudes que visam a questionar a honestidade, a ética, bem como sua integridade moral. Seus argumentos são refutados em decorrência da imagem negativa que lhe é atribuída, em função dessas acusações ou argumentos ad hominen. Quanto ao ataque indireto, importa ressaltar que se configuram em atos pelos quais se questiona uma determinada posição em função da ausência da imparcialidade no que diz respeito a crenças, visões de mundo, bem como concepções políticas que subjazem a um discurso parcial. Por meio desse tipo de argumento, refuta-se uma dada proposição devido ao fato de que, quem a defende se apresenta de modo tendencioso acerca do assunto, conforme ressalta Fiorin (2016). No terceiro caso, a contradição entre as propostas de um sujeito e suas ações é o alvo da crítica. Os argumentos ad

hominen atuam de modo a convencer mediante ataques que, embora não sejam corroborados

por dados, afiguram-se como argumento em situações em que não se apresentam provas. No que diz respeito ao argumento de autoridade218, cumpre assinalar que seu uso se relaciona ao ato de apresentar instituições, autores, citações – dentre outras formas de oferecer suporte ao discurso – com vistas a obter a confiança do auditório. Trata-se de fundamentar, isto é, de alicerçar o discurso em bases que inspirem certa legitimidade, a partir das quais o orador procede, pois, à persuasão mediante a apropriação de proposições ou assunções alheias.

O argumento de prestígio mais nitidamente caracterizado é o argumento de autoridade, o qual utiliza atos ou juízos de uma pessoa ou de um grupo de pessoas como meio a favor de prova [...] As autoridades invocadas são muito variáveis: ora será o “parecer unânime” ou “a opinião comum”, ora certas categorias de homens, “os cientistas”, “os filósofos”, “os padres da igreja”, “os profetas”, por vezes a autoridade será impessoal: “a física”, “a doutrina”, “a religião”, “a bíblia”, por vezes se tratará de autoridades designadas pelo nome (PERELMAN E OLBRECHTS-TYTECA, 2005, P.348-350).

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