CAPÍTULO 5. A ARGUMENTAÇÃO
5.2 As contribuições de Perelman e Olbrechts Tyteca para o estudo das técnicas argumentativas: a Nova
5.2.6 Tipos de argumentos
5.2.6.1 Argumentos quase-lógicos
Os argumentos quase-lógicos assemelham-se ao raciocínio lógico, matemático, baseado em premissas demonstráveis. Sua força ou efeitos de persuasão advém, justamente, do fato de apresentarem semelhanças a estruturas lógicas, remetendo, pois, ao âmbito da lógica formal e das ciências exatas. Não obstante, trata-se de argumentos cujo emprego produz efeitos de
verdades aparentemente indiscutíveis. Nesse sentido, os argumentos quase-lógicos assemelham-se a uma forma de pensamento baseada na razão, não se configurando, no entanto, em proposições verdadeiras ou comprováveis, mas, tão somente, verossímeis.
Acerca dos argumentos quase-lógicos, importa observar as asseverações de Fiorin (2016):
Segundo Perelman e Tyteca, a lógica examina as formas de demonstração; a retórica estuda a argumentação[...] Argumentos são razões contra determinada tese ou a favor dela, com vistas a persuadir o outro de que ela é justa ou injusta, moral ou imoral, benéfica ou prejudicial, etc.[...] Os argumentos quase-lógicos são os que lembram a estrutura de um raciocínio lógico, mas suas conclusões não são logicamente necessárias [...] O argumento quase-lógico é um argumento aparentemente lógico (FIORIN, 2016, p. 115-116).
Outro tipo de argumento quase-lógico consiste na argumentação pelo ridículo, segundo a qual se atribui a alguém a ideia de incompetência devido ao fato de cometer um ato incompatível ou não admitido, merecendo, pois, ser sancionado pelo riso. Trata-se de trazer à luz a fragilidade do discurso alheio, em termos argumentativos, conforme ressaltam Perelman e Olbrechts-Tytcea (2005[1958]).
O ridículo é aquilo que merece ser sancionado pelo riso [...] Uma afirmação é ridícula quando entra em conflito, sem justificação, com uma opinião aceita. Fica de imediato ridículo aquele que peca contra a lógica ou se engana no enunciado dos fatos [...] Basta um erro de fato, constata La Bruyère, para lançar um homem sensato no ridículo”. O ridículo se exerce em prol da conservação do que é admitido; uma simples mudança injustificada de opinião, ou seja, uma oposição ao que a própria pessoa havia enunciado, poderá expor a ele (PERELMAN e OLBRECHTS-TYTECA, 2005, p. 234).
De acordo com Perelman e Olbrechts-Tyteca (2005[1958]), há mecanismos pelos quais se procede, assim como na lógica formal, à indicação de que uma determinada proposição, pela qual se sustenta a argumentação do orador, está calcada no absurdo. Ridicularizar “pelo engenho”, isto é, por meio de formas de raciocínio que visam a mostrar uma incompatibilidade no discurso, configura-se, segundo os autores, em um mecanismo argumentativo deveras utilizado na atividade de persuasão. Um exemplo desse tipo de raciocínio – mediante o qual o orador parece admitir certas proposições quando, de fato, opõe-se a elas – diz respeito a um tipo de figura que, conforme ressaltam Perelman e Olbrechts-Tyteca (2005[1958]), inscreve-se em uma forma de argumentação indireta. Trata-se da ironia:
A ironia sempre supõe conhecimentos complementares acerca dos fatos, de normas. [...] A ironia não pode ser utilizada nos casos em que pairam dúvidas acerca das opiniões do orador [...] O uso da ironia é possível em todas as situações argumentativas (PERELMAN E OLBRECHTS-TYTECA, 2005, p. 236).
Ademais, observa-se que a comparação a qual, assim como a argumentação pelo ridículo, configura um argumento quase-lógico, consiste, conforme ressalta Fiorin (2016) em: “Uma maneira de definir e aproximar ou diferenciar um objeto de outros” (FIORIN, 2016, p.122). Nesse sentido, nota-se que a comparação é aplicada, sobremaneira, em discursos diversos, sobretudo, naqueles que visam a instaurar o conflito. Comparando-se, procede-se à polêmica em certos casos. O cotejo de situações, objetos ou pessoas afigura-se, assim, em um mecanismo argumentativo deveras empreendido pelo orador, haja vista o fato de que, segundo Perelman e Tyteca (2005[1958]), a comparação subjaz à própria atividade argumentativa:
A argumentação não poderia ir muito longe sem recorrer a comparações, nas quais se cotejam vários objetos para avaliá-los um em relação ao outro [...] São em geral apresentados como constatações de fato, enquanto a relação de igualdade ou de desigualdade afirmada só constitui, em geral, uma pretensão do orador (PERELMAN e OLBRECHTS-TYTECA, 2005, p. 274-275).
Outro aspecto a ser ressaltado acerca desse argumento reside, segundo os autores, no fato de que o orador procede, em muitos casos, ao ato de cotejar fatos, objetos ou situações diversas, atribuindo-lhes relações de grandezas, tais como de superioridade, desigualdade, dentre outros aspectos, o que não significa que, efetivamente, sejam “constatações de fato”, visto que os critérios pelos quais algo é superior ou inferior são de natureza subjetiva: trata-se de projeções do orador, portanto, não mensuráveis. Em outras palavras, aquilo a que se atribuem valores negativos ou positivos depende dos propósitos argumentativos do orador.
Argumentos de contradição e incompatibilidade
Na atividade argumentativa, recorrer à incompatibilidade ou contradição entre o que se diz e as ações ou posturas tomadas é um dos argumentos quase-lógicos mais comuns. Trata-se de um argumento cujos efeitos de persuasão depreendem-se do fato de que esse tipo de recurso remete à ideia do raciocínio lógico:
Quem critica um argumento tenderá a pretender que o que tem à sua frente depende da lógica; a acusação de cometer uma falta de lógica é, em geral, por sua vez, uma argumentação quase-lógica. A pessoa prevalece, com essa acusação, do prestígio do raciocínio rigoroso. Essa acusação poderá situar-se no próprio nível da argumentação (PERELMAN e OLBRECHTS-TYTECA, 2005, p. 220).
Recorrer à incompatibilidade consiste, pois, em apresentar que não se pode defender duas proposições distintas.
A asserção, dentro de um mesmo sistema, de uma proposição e de sua negação, ao tornar manifesta uma contradição que ele contém, torna o sistema incoerente e, com isso, inutilizável. Trazer a lume a incoerência de um conjunto de proposições é expô-
lo a uma condenação inapelável, é obrigar quem não quer ser qualificado de absurdo a renunciar pelo menos a certos elementos do sistema (PERELMAN e OLBRECHTS- TYTECA, 2005, p. 221).
No entanto, conquanto a força argumentativa, isto é, os efeitos de persuasão sejam decorrentes do apelo ao raciocínio lógico e do modo de organização de proposições com aparência formal, há que se observar que se trata, com efeito, de argumentos que não consistem em demonstrações formais:
O que caracteriza a argumentação quase-lógica é, portanto, seu caráter não formal e o esforço mental de que necessita sua redução ao formal. [...] A incompatibilidade é sempre relativa a circunstâncias contingentes, sejam estas constituídas por leis naturais, fatos particulares ou decisões humanas (PERELMAN e OLBRECHTS- TYTECA, 2005, p. 223).