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PARTE I. MOBILIDADE URBANA SUSTENTÁVEL E ACESSIBILIDADE

2. Acessibilidade: Os transportes como fator de inclusão social

2.3 Os cenários no contexto dos future studies

2.3.1 As abordagens Forecasting e Backcating

Ao longo do tempo a análise sobre a evolução futura dos fenómenos passou de uma vertente mais determinista para uma mais probabilística. A abordagem forecasting tem sido das mais utilizadas devido à tradição preditiva que predominou nas décadas de 70 e de 80, do século XX, nomeadamente, para modelar os setores da energia e dos transportes (Robinson, 2003; Geurs e Wee, 2004b). Esta abordagem, tipicamente apelidada de predict-to-provide é mais apropriada quando o contexto a analisar é simples, previsível e controlável (Dreborg, 1996; Chatterjee e Gordon, 2006) e caracteriza-se pela natureza preditiva focada na monitorização de tendências e na análise de dados históricos. Os métodos exploratórios, nomeadamente a análise de impactos cruzados, a análise de tendências, delphy (método sistemático e interativo de estimação que se baseia na experiência independente de um painel composto por vários especialistas, selecionados criteriosamente para cada temática) e forecasting são apelidados de outward bound (European Commission Joint Research Centre, s/d). Estes partem da compreensão da situação atual em

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direção à(s) situação(ões) futura(s), extrapolando as tendências do passado, procurando-se identificar os pontos de inflexão em relação à situação atual (Miola, 2008).

Porém, quando se procura analisar as situações futuras em domínios mais complexos como o desenvolvimento sustentável, onde as ações são delineadas a longo prazo, estas pautam-se por um elevado grau de incerteza. Também requerem alterações profundas de caráter sócio-cultural, económico e ambiental deixando a abordagem forecasting de ser a mais apropriada (Rotmans et al., 2000; Rotmans et al., 2001; Vergragt e Quist, 2011). Tal deve-se ao facto de em muitas situações os resultados das previsões falharem devido a não se considerarem as alternativas desejáveis (Robinson, 2003). Para Chatterjee e Gordon (2006) os métodos para a criação de cenários são uma boa alternativa à abordagem tradicional. Para estes autores, o objetivo dos cenários é desenvolver, para um dado horizonte temporal, várias descrições distintas a partir da situação atual. Para o efeito, devem ser criados vários cenários com base em alterações no comportamento das várias forças motrizes que influenciam a situação presente.

Na década de 70, do século XX, desenvolveu-se a abordagem backcasting mais centrada na análise qualitativa que se instituiu como uma alternativa à abordagem forecasting que nesta altura se baseava na extrapolação dos dados atuais e na projeção do aumento do consumo de energia (Quist e Vergragt, 2006). A origem do termo backcasting ficou associada aos nomes de Lovins que após a crise energética de 73, propôs uma técnica de planeamento alternativa aplicada à procura/oferta de energia que denominou de Backwards looking analysis (Van de Kerkhof, 2006).

Em 1982 foi publicado outro estudo Energy backcasting a proposed method of policy analysis onde o termo se consolidou (Robinson, 1982). Robinson (1982) definiu a abordagem como um método de análise de políticas que parte de uma alternativa de futuro desejável para solucionar um determinado problema a partir da qual se identificam os pressupostos necessários para a alcançar. Para este autor a abordagem backcasting não se centra na preocupação de como o futuro vai acontecer, mas antes em como podemos alcançar o futuro desejável, constituindo-se como uma ferramenta de apoio à decisão promissora em circunstâncias de incerteza a longo-prazo (Dreborg, 1996; Hickman e Banister, 2007). A Figura 13 procura ilustrar a relação entre ambas as metodologias.

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Figura 13 - Enquadramento da abordagem backcasting

Fonte: Hickman e Banister, 2007: 379.

A questão essencial que prevalece numa abordagem backcasting é a seguinte: se queremos atingir um determinado objetivo, que ações devem ser implementadas para o alcançar? Contrariamente, a abordagem forecasting procura prever o que acontecerá no futuro, com base na extrapolação das tendências passadas. Nas últimas décadas têm-se desenvolvido vários estudos com recurso a cenários backcasting (Partidario e Vergragt, 2002; Observatório Português dos Sistemas de Saúde, 2004; Hickman e Banister, 2007; Carlsson-Kanyama et al., 2008; Ebert et al., 2009; Vergragt e Quist, 2011). Inicialmente, na década de 70 predominaram os estudos relacionados com o consumo energético tendo-se alargado a estudos de sustentabilidade na década de 80. Na Suécia realizaram-se vários estudos aplicados aos sistemas de transportes sustentáveis e foi utilizada como uma metodologia de planeamento estratégica desenvolvida pela empresa IKEA à semelhança do que tem ocorrido noutras empresas (Miola, 2008).

Nos países baixos, durante a década de 90, prosperou uma abordagem backcasting participativa mais centrada na cooperação com os stakeholders que serviu de base para a elaboração do programa nacional Sustainable Technology Program (S.T.D.). Com base neste enfoque também se elaboraram na Europa vários projetos de investigação, tais como, o SusHouse e o Policy Scenarios for Sustainable Mobility (EU-POSSUM), que foi o primeiro estudo europeu orientado para avaliar as políticas de transportes (Geurs e Wee, 2004b).

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Mais recentemente a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (O.C.D.E.) desenvolveu o projeto Environmentally Sustainable Transport (E.S.T.) e no Reino Unido o projeto Visioning and Backcasting for U.K. Transport Policy (V.I.B.A.T.), cujo principal objetivo é a redução de 60% de CO2 proveniente dos transportes no Reino Unido (Hickman e Banister, 2007; Miola,

2008). Em França estes estudos encontram-se bem desenvolvidos e estão associados à corrente La prospective (Dreborg, 1996). Gaston Berger é considerado por muitos autores como o “pai” da prospetiva francesa à qual se encontram associados autores como Jouvenel, Lesourne, Godet e Gonod (Alvarenga e Carvalho, 2007). Na Alemanha a visão Leitbilder também tem sido fonte de inspiração para criar imagens futuras (Dreborg, 1996). A Figura 14 procura sintetizar as características do estudo dos futuros na perspetiva dos cenários forecasting e backcasting.

Figura 14 - Classificação do estudo dos futuros segundo as principais abordagens

Fonte: Elaboração própria com base nas ideias de Banister e Stead, 2004b; Börjeson et al.,2006.

Apesar de não existir uma metodologia standard para a criação de cenários, tradicionalmente a abordagem forecasting tem-se identificado mais com o recurso a métodos quantitativos e a

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abordagem backcasting com os métodos qualitativos, embora se considere que ambas as abordagens são complementares (Höjer e Mattsson, 2000; Banister e Stead, 2004; Börjeson et al., 2006). Para estes autores a abordagem forecasting é importante para informar o investigador quando uma abordagem backcasting é necessária. Esta posição está em linha com a opinião de outros autores que advogam a necessidade de integrar nas abordagens backcasting as componentes quantitativa e qualitativa, a perspetiva de curto-prazo e de longo-prazo e os graus de certeza e de incerteza (Rotmans et al., 2000; Quist e Vergragt, 2006; Quist et al., 2011; Van Berkel et al., 2011).