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TEORIAS E MODELOS NA COMPREENSÃO DO DESENVOLVIMENTO E DAS INTERACÇÕES HUMANAS

2. Desenvolvimento e aprendizagem em contextos naturais

2.1. A natureza ecológica e transaccional do desenvolvimento humano

2.1.3. As causas da variabilidade desenvolvimental segundo Wachs

Inspirando-se em Bronfenbrenner e Sameroff, Wachs (2000) refere a necessidade de recorrer a princípios explicativos de múltiplos níveis, no estudo do desenvolvimento, especialmente quando estamos interessados em encontrar preditores da variabilidade do desenvolvimento humano. Segundo ele, a variabilidade individual é uma consequência necessária das complexas interacções entre

influências múltiplas que são, cada uma delas, contributos necessários mas não suficientes para o desenvolvimento (p.3). No sentido de tentar compreender a etiologia de tal variabilidade, propõe três

linhas de análise: (a) A primeira linha consiste na identificação dos múltiplos tipos de influências relacionadas com a variabilidade individual do desenvolvimento humano e envolve duas grandes classes de determinantes – uma que abrange de factores distais a factores proximais e outra englobando desde factores biológicos a factores culturais. Esta linha de análise evidencia como as influências individuais, embora necessárias11, só raramente podem ser consideradas explicações

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suficientes12 da variabilidade do desenvolvimento humano; (b) A segunda linha assume que os

múltiplos determinantes do desenvolvimento funcionam em conjunto de formas que são específicas, mas que apresentam mecanismos comuns. Estes mecanismos comuns são denominados processos de

nível médio (“midlevel processes”) e podem ser conceptulizados como padrões de associação entre as

múltiplas influências; a especificidade significa que estas influências múltiplas também actuam de forma probabilística e específica de cada domínio; (c) A terceira linha assume que os múltiplos determinantes, ao actuarem em conjunto, formam um sistema. A aplicação de propriedades gerais dos sistemas permite uma melhor compreensão dos processos desenvolvimentais e constitui um enquadramento para futuras investigações.

Wachs (2000) refere implicações a nível da investigação, realçando a utilização de um enquadramento explicativo baseado em processos de nível médio (“midlevel processes”). Estes processos referem-se, como vimos, a mecanismos que são comuns a influências desenvolvimentais específicas de diferentes níveis e funcionam num nível intermédio entre influências específicas de um domínio (e.g., genético, neuronal, ambiental – proximal ou distal – nutricional …) e princípios gerais dos sistemas. Tais

processos de nível médio envolvem padrões de influências desenvolvimentais múltiplas que podem

assumir, entre si, ligações de diferentes tipos: (a) co-actuação aditiva, (b) interacção, (c) co-variação ou (d) relação causal. Wachs (2000) discute ainda as implicações metodológicas para cada um destes diferentes tipos de padrões de influências múltiplas. Voltaremos a estas questões na parte empírica do presente trabalho.

O conceito de processos específicos de nível médio é igualmente importante, quando se pretende planificar uma intervenção. Wachs (2000) realça a necessidade de, antes da intervenção, especificar os objectivos da intervenção, bem como as estratégias específicas mais apropriadas para atingir esses objectivos. Para ilustrar estes conceitos de processos específicos de nível médio, Wachs utiliza os diferentes tipos de intervenção psicossocial descritos por Sameroff – remediação, redefinição e reeducação – e que focam aspectos particulares do modelo transaccional (cf., Sameroff & Fiese, 1990, 2000).

Estas considerações, embora inspiradas em Bronfenbrenner e Sameroff, representam avanços conceptuais importantes no que se refere às influências ambientais proximais e distais, bem como aos processos de transacção e interacção organismo-meio.

2.1.3.1. Influências ambientais proximais

Influências ambientais proximais incluem interacções pais-criança, transacções entre a criança e

outras crianças, transacções entre a criança e outros adultos, tais como os professores, e a relação da

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criança com características físicas do meio imediato, tais como a acessibilidade e a variedade dos objectos, o nível de ruído. São ainda considerados aspectos que, embora possam não ser directamente observáveis, afectam directamente a criança, nomeadamente: características cumulativas do prestador de cuidados, tais como o grau de compromisso ou de abertura na relação com outras pessoas; o estilo educativo parental, tal como um estilo autorizado versus um estilo autoritário, crenças, valores e objectivos parentais.

Ao reflectir acerca dos processos através dos quais os factores ambientais proximais influenciam o desenvolvimento, Wachs (2000) afirma que os múltiplos níveis da estrutura ambiental, já descritos por Bronfenbrenner, podem influenciar o funcionamento dos processos proximais de duas maneiras: (a) características contextuais de um nível mais elevado podem influenciar a natureza do processo proximal – nomeadamente, diversos estudos têm demonstrado que factores macro e exossistémicos de stresse económico e social podem influenciar as características dos pais (e.g., irritabilidade, relações do casal), que por sua vez influenciam as relações pais-criança e que finalmente vão ter um efeito na variabilidade do comportamento da criança; (b) a estrutura hierárquica do ambiente também permite a actuação de processos de moderação, através dos quais o impacto de influências do microssistema é acentuado ou atenuado em função de influências proximais de outros níveis do ambiente – por exemplo, as influências benéficas do autoritarismo parental são acentuadas quando os pais dos pares da criança também têm um estilo parental autoritário. O grau de incongruência entre o que a escola exige da criança e os padrões de comportamento que são ensinados à criança pelos seus pais, é outro exemplo de moderação de um nível superior nos processos proximais.

Salientando que os processos de moderação ambiental têm uma natureza bidireccional Wachs (2000) refere que as influências de um nível superior podem ser moderadas pelas características do microssistema – por exemplo, o impacto negativo de factores macrossistémicos criadores de stress, tais como pobreza ou violência social, podem ser atenuados quando o ambiente familiar próximo da criança é apoiante e quando são utilizadas práticas educativas responsivas e sensíveis. Neste sentido o autor realça a natureza probabilística das influências ambientais proximais e refere ainda quatro aspectos que o levam a considerar estas influências como necessárias mas não suficientes: (a) o impacto das influências ambientais proximais pode ser moderado por factores contextuais de um nível superior, (b) as influências ambientais proximais covariam com uma variedade de influências não ambientais que também podem funcionar para influenciar a variabilidade desenvolvimental, (c) os processos ambientais proximais são transaccionais e (d) as influências ambientais proximais podem interagir com uma variedade de influências não ambientais, de tal forma que, influências ambientais proximais semelhantes podem produzir resultados desenvolvimentais diferentes para diferentes indivíduos com diferentes características.

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das características individuais no ambiente próximo subsequente tem uma natureza probabilística. Conclui, assim, que as influências ambientais proximais são necessárias mas não suficientes e que os processos ambientais proximais devem ser vistos como fazendo parte de um sistema complexo, com diversos níveis.

2.1.3.2. Influências ambientais distais

Influências ambientais distais dizem respeito a características que se integram no exossistema e

no macrossistema do modelo de Bronfenbrenner, nomeadamente: características das culturas e sub- culturas, instituições sociais, perturbações sociais, local de residência, classe social, situação laboral dos pais ou redes sociais de apoio.

Wachs (2000) realça diversos aspectos que o levam a concluir que as influências ambientais distais, tal como as proximais, são necessárias mas não suficientes para compreender a variabilidade individual: (a) existem diferenças individuais na reacção ao ambiente distal, (b) nem todos os resultados desenvolvimentais e comportamentais são afectados da mesma maneira pelas influências ambientais distais, e (c) as características ambientais distais covariam com, ou podem ser moderadas por influências biológicas e ambientais mais próximas.

As perspectivas desenvolvimentais sistémicas de Bronfenbrenner, de Sameroff e de Wachs, permitem a integração de determinantes de múltiplos níveis de análise em diferentes resultados desenvolvimentais, sendo igualmente úteis na operacionalização, tanto desses determinantes, como dos processos em que esses determinantes estão envolvidos. Neste sentido os seus pressupostos e conceitos-chave constituíram um enquadramento geral útil no presente trabalho.

Ao propormo-nos analisar o efeito de características das crianças, da qualidade do ambiente e das interacções educativas no envolvimento das crianças durante as actividades diárias nas salas de creche, adoptamos uma abordagem desenvolvimental-sistémica. Este tipo de abordagem enquadra-se, como vimos, numa perspectiva da criança-em-contexto que tem as suas origens no modelo da aprendizagem socialmente mediada de Vygotsky (1978), e que abordamos na secção seguinte.

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