• Nenhum resultado encontrado

O papel dos processos sociais na formação do funcionamento mental individual: A função mediadora da linguagem

TEORIAS E MODELOS NA COMPREENSÃO DO DESENVOLVIMENTO E DAS INTERACÇÕES HUMANAS

2. Desenvolvimento e aprendizagem em contextos naturais

2.2. Desenvolvimento cognitivo em contextos sociais

2.2.1. A teoria sócio-cultural do desenvolvimento de Vygotsky e continuadores

2.2.1.1. O papel dos processos sociais na formação do funcionamento mental individual: A função mediadora da linguagem

Vygotsky (1978) considera que o ser humano só pode ser entendido quando enquadrado no seu contexto sócio-cultural e que as funções mentais superiores são socialmente formadas e culturalmente transmitidas. Tal como Piaget, Vygotsky encara o desenvolvimento como um processo dialéctico, mas distingue-se dele pela forma como enfatiza a sua origem social e a interpenetração entre processos psicológicos individuais e factores sociais. Na sua perspectiva, a bidireccionalidade entre factores macrossociais (contextos históricos e culturais) e factores microssociais (interacções interpessoais) implica uma transformação mútua, num verdadeiro processo dialéctico em que o ser humano em desenvolvimento aparece simultaneamente como produtor e produto do sistema sócio-cultural em que está inserido.

De forma a explicar a natureza e o funcionamento das funções mentais superiores Vygotsky utiliza o método desenvolvimental ou genético que estuda as raízes biológicas e orgânicas de processos

elementares e analisa a transformação desses processos em comportamentos de natureza cultural. O

desenvolvimento cognitivo resultaria da interacção entre esses processos elementares, a experiência da criança com o meio físico envolvente e os mediadores culturais (sistemas de sinais e padrões de actividades culturalmente definidos), originando as funções mentais superiores, através de um processo dialéctico de transformação. Este processo aparece explicitado na sua lei geral genética do

desenvolvimento cultural:

Toda e qualquer função no desenvolvimento cultural da criança aparece duas vezes, ou em dois planos. Primeiro aparece no plano social, e depois no plano psicológico. Inicialmente aparece entre pessoas como uma categoria interpsicológica e, depois, dentro da criança como uma categoria intrapessoal. Isto também é verdade no que diz respeito à atenção voluntária, à memória lógica, à formação de conceitos e ao desenvolvimento da vontade. . . [a] internalização transforma o próprio processo e muda a sua estrutura e funções. As relações sociais ou relações entre pessoas estão geneticamente subjacentes a todas as funções superiores e às relações entre elas (Vygotsky, 1981, p.163)

As funções mentais superiores começam, assim, por existir no plano social, passando depois a existir no plano individual.

Desenvolvimento e aprendizagem em contextos naturais

constituem o substrato para a formação de funções mentais superiores, é através da interacção com membros mais competentes do contexto, que ela se apropria da actividade social, transformando-a em sistemas intrapessoais. Esta apropriação implica um processo de reconstrução interna do qual resulta algo qualitativamente diferente. Este processo de reconstrução, que Vygotsky (1978) designou como internalização, é mediado pelo contexto histórico e cultural em que a criança se desenvolve. Assim a concepção de Vygotsky sobre internalização, consiste na mestria interna de signos externos. Este processo geral da criança se tornar um membro da sociedade e de desenvolver a mestria dos instrumentos culturais disponíveis (Rogoff, 1990) é certamente um dos mais importantes processos do desenvolvimento da criança.

A função mediadora da linguagem

Na perspectiva de Vygotsky a noção de mediação é central, constituindo a característica que a torna distinta de muitas outras abordagens (Wertsch, 1985). De facto, para Vygotsky (1978) toda a acção humana é mediada por instrumentos (instrumentos técnicos) e por signos – instrumentos

psicológicos ou mediadores semióticos. São os mediadores semióticos ou signos que vão permitir

a transferência da cognição do plano social para o individual, isto é, a transição do funcionamento de um nível interpsicológico para um nível intrapsicológico. Durante esta transição o indivíduo apropria-se, gradualmente, do sistema de signos fornecidos pela cultura, através de um processo de descontextualização progressiva desses signos, descontextualização essa que vai permitir a formação das funções mentais superiores.

Vygotsky (1978, 1981) destaca a linguagem como o mediador semiótico mais relevante, não só como função mental, mas também como mecanismo mediador dos processos psicológicos superiores e de todo o processo de transmissão cultural. Nomeadamente Vygotsky realça a linguagem como instrumento que permite à criança libertar-se das propriedades concretas do contexto imediato, referindo que: o momento

de maior significado no curso do desenvolvimento intelectual, que dá origem às formas puramente humanas de inteligência prática e abstracta, acontece quando a linguagem e a actividade prática, até então duas linhas completamente independentes de desenvolvimento, convergem (Vygotsky, 1978,

p.33). Embora a utilização de instrumentos durante o período pré-verbal seja comparável à acção de outros animais, a incorporação da linguagem à acção, transforma-a e permite ao indivíduo organizar-se em linhas inteiramente novas.

A linguagem verbal para além da função de comunicação tem ainda uma função de regulação e planificação da actividade e, uma vez interiorizada, constitui parte integrante dos processos psicológicos superiores. Wertsch e Stone (1985) referem que o papel fundamental da interacção social entre adultos e crianças não se relaciona tanto com a mestria do significado das palavras, mas antes com o envolvimento mútuo em processos de regulação e de comunicação. Vygotsky (1962) enfatiza a importância do discurso

Desenvolvimento e aprendizagem em contextos naturais

egocêntrico13 que constitui uma ponte entre o funcionamento interpsicológico e o funcionamento

intrapsicológico. Tendo de início uma função social, evolui para uma função reguladora, embora de início a criança não consiga estabelecer essa diferenciação. Estudos experimentais referidos por Vygotsky (1978) revelaram que a quantidade de linguagem egocêntrica aumentava em relação directa com a dificuldade do problema prático enfrentado pela criança. No processo de transição da linguagem do nível interpessoal para um nível intrapsíquico, a criança que não consegue resolver o problema e se dirige a um adulto, começava por lhe descrever a situação e o método que, sozinha não foi capaz de colocar em acção. Mais tarde, com base na participação nestas situações de interacção social verbal, a criança é já capaz de utilizar o discurso egocêntrico, cuja função é regular e planificar a acção, constituindo uma forma intermédia de linguagem internalizada. A criança utiliza-o para dirigir a sua própria actividade não conseguindo distingui-la do discurso social. Quando finalmente o discurso é internalizado, a função intrapessoal da linguagem permite à criança planificar com antecedência e organizar a sua acção de acordo com formas de comportamento socialmente aceites. Assim, tanto o discurso egocêntrico como o discurso interno têm uma natureza social, na medida em que a criança fala consigo própria da forma como anteriormente falava com outros (Vygotsky, 1956; citado por Wertsch & Stone, 1985). O processo de interiorização da linguagem social é também, segundo Vygotsky (1978), o processo de socialização da inteligência prática das crianças, no sentido da convencionalização do seu comportamento, permitindo-lhe uma descontextualização ou distanciamento relativamente às situações concretas e presentes do seu contexto imediato.

Assim, a linguagem, para além da função de comunicação tem, uma vez interiorizada, uma função de regulação, pela criança, do seu próprio comportamento e de planificação da actividade, constituindo parte integrante dos processos psicológicos superiores.

As formas de mediação (e.g., formas de discurso, figuras e gráficos) utilizadas pelo ser humano, por exemplo, para conversar, para resolver problemas, são fundamentalmente moldadas pelos contextos sócio-culturais nos quais as actividades ocorrem. Embora isto não signifique que os indivíduos fiquem reduzidos a um papel condutor dos meios mediadores, implica que não sejam completamente livres na apropriação desses meios (Wertsch & Bivens, 1993). De facto, os meios mediadores que moldam o funcionamento interpessoal (ou interpsicológico) e o funcionamento intrapsicológico são fornecidos, em larga medida, pelos contextos cultural, histórico e institucional nos quais os indivíduos vivem. Neste sentido, os meios mediadores de um contexto social têm simultaneamente a função de dar poder (empower), e de constranger, de formas específicas, a acção individual (ibd.). Esta questão relaciona- se com a convencionalização crescente dos comportamentos interactivos, ao longo do percurso desenvolvimental, de acordo com normas sociais e culturais.

Desenvolvimento e aprendizagem em contextos naturais

Outline

Documentos relacionados