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2.1.1 AS LISTAS NOMINATIVAS DE 1830/31 E DE 1838/

No documento S OB OB ADALAR DOS (páginas 118-128)

Após sua independência de Portugal, o Estado nacional brasileiro tratou de se organizar administrativamente. Esse processo fortaleceu-se no decorrer da década de 1830, com o estímulo à maior autonomia dos governos provinciais, que aprovavam leis que visavam à “organização do aparelho burocrático e constituição de um sistema de fluxo de informações estatísticas”.177 A preocupação com o recenseamento da população que se consolida nessa época já acontecia anteriormente. De acordo com Herculano Mathias, ao apresentar-nos o Censo de 1804, referente ao núcleo urbano de Vila Rica,

as razões que determinaram esse trabalho demográfico residiram na necessidade urgente de recolher fundos – proporcionados à situação individual de cada morador – destinados a aliviar as pesadas despesas de Portugal durante os primeiros anos do século XIX, às voltas com a inquieta situação gerada pelos conflitos militares, com a Espanha e às constantes e insuportáveis pressões napoleônicas, que iriam se traduzir, em 1807, na invasão pelas tropas francesas sob o comando de Junot.178

176 BERGAD, Laird W. Escravidão e história econômica... p. 98. 177

BOTELHO, Tarcísio Rodrigues. Família escrava em Catas Altas do Mato Dentro (MG) no século XVIII. V Jornada Setecentista, 2003, Curitiba. Anais... Curitiba: CEDOPE, 2003. p. 8.

178 MATHIAS, Herculano Gomes. Um recenseamento na capitania de Minas Gerais: Vila Rica – 1804. Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 1969. p. VII.

Além do objetivo tributário, podemos considerar que esses levantamentos da população atendiam também aos objetivos de convocação militar e organização administrativa. Serviram ainda como base para diversas mudanças nos limites dos distritos e vilas e elevação de vilas à condição de cidades, modificando constantemente os limites das bases eleitorais. Ao trabalharmos com as fontes paroquiais, temos como referência a freguesia; ao lidarmos com a documentação civil, temos como base territorial o distrito. A diferença entre o território de uma determinada freguesia e seu equivalente distrito também nos é esclarecida pelo próprio Mathias. O recenseamento do núcleo urbano de Vila Rica, em 1804, cobre seis distritos: Ouro Preto, Antonio Dias, Cabeças, Morro, Alto da Cruz e Padre Faria. No entanto, para o mesmo território, só há duas freguesias: Ouro Preto e Antonio Dias. Os demais distritos são pertencentes a uma ou outra, sendo que o Morro (de São Sebastião) tem parte de sua área pertencente a cada uma delas. A saber: Cabeças pertence a Ouro Preto; Alto da Cruz e Padre Faria pertencem à paróquia de Antonio Dias.

Em 1837, Raimundo José da Cunha Matos nos permite a visualização da divisão administrativa no início do período proposto para o presente trabalho:

dou o nome de “grande distrito” ao território compreendido nos limites de uma paróquia; e de “pequeno distrito” àquele que, por ora, tem comandante de ordenanças subordinado ao comandante paroquial. Deve, contudo, reformar-se esta classificação logo que estejam demarcados os círculos dos juízes de paz na maneira que se acha projetada.179

Portanto, para a freguesia de Nossa Senhora do Pilar do Ouro Preto, temos os seguintes distritos: Ouro Preto e Cabeças, parte do arraial de São Sebastião, arraial da Boa Vista, e arraial do Rodeio. Enquanto a paróquia tratava da divisão eclesiástica, no aspecto civil, as vilas e cidades eram dividias em distritos. Nas localidades maiores, nem sempre as freguesias e os distritos se equivaliam, diferentemente dos núcleos urbanos menores, que tinham o território civil e eclesiástico equivalentes.

179 MATOS, Raimundo José da Cunha. Corografia histórica da província de Minas Gerais. v. I. Belo Horizonte: Publicações do APM, 1979. [1837]. p. 70.

Até a promulgação da lei imperial que institui o cargo de juiz de paz,180 em 15 de outubro de 1827, os distritos eram administrados pelos capitães de distrito. Estes tiveram a incumbência de realizar os primeiros recenseamentos, sob a responsabilidade de um capitão-mor. Para o Censo de 1804, é-nos esclarecido que “o Capitão-Mor era, como ficou indicado, Antonio Agostinho Lobo Leite Pereira. Os seis capitães ou comandantes de distrito estavam a ele diretamente subordinados”. A função de recensear os fogos e seus moradores era ainda entregue a outro funcionário, pois

o alferes José Antonio da Assumpção entregou no dia 10 de setembro a ‘relação das pessoas existentes no Distrito de Ouro Preto’ a seu comandante, José Bento Soares”. [...] “O capitão do distrito do Alto da Cruz, Francisco Caetano Ribeiro encarregou do serviço ao seu imediato, alferes José Soterio de Jesus, que encerrou o trabalho no dia 31 de agosto.181

Cada distrito, por sua vez, era constituído por quarteirões. Nesse processo, os párocos tiveram destaque, pois, na falta do juiz de paz, atuavam como funcionários do governo no fornecimento de informações. Nos locais onde ainda não se haviam constituído distritos de paz, a unidade administrativa permanecia sendo a freguesia. Além disso, devemos lembrar que, em logradouros pequenos, freguesias e distritos se equivaliam. Além das funções religiosas, cabia aos párocos a responsabilidade por encaminhar, semestralmente, ao presidente da província, os mapas de população de sua freguesia, que deviam complementar as informações recolhidas pelos censos periódicos. Em 13 de dezembro de 1832, o Conselho Geral da província, considerando sua vastidão e as grandes distâncias das povoações e dos moradores, que tornavam difícil aos povos o conhecimento das leis e ordens a que deviam obedecer, resolve, em seu art. 1º, que “as leis e decretos tanto gerais como peculiares, serão publicadas na província de Minas

180 GRAHAM, Sandra Lauderdale. Caetana diz não: histórias de mulheres da sociedade escravista brasileira. São Paulo: Companhia das Letras, 2005. p. 36: “O cargo de Juiz de Paz foi criado pela primeira Constituição do Brasil, em 1824, e com seus poderes especificados e ampliados três anos depois, era ao mesmo tempo uma maneira de evitar o atravancamento dos tribunais com pequenas querelas e um contrapeso liberal à autoridade central e deliberadamente separado dos canais das nomeações e do clientelismo pelo qual o imperador concentrava e distribuía seu poder. Sua criação foi uma tentativa de tornar as autoridades locais sensíveis às necessidades locais. Sem formação específica, mas muito bem pago com o mesmo salário de um magistrado de alta hierarquia formado em direito o juiz de paz era responsável pela conciliação de disputas entre membros da comunidade, brigões e desordeiros, antes que seus conflitos chegassem aos tribunais, o que fazia dele uma figura bastante conhecida no município”.

pelos párocos e curas182 na estação da missa conventual”. O art. 2º complementa tal lei, pois, “remetidas as leis e decretos às Câmaras Municipais, estas farão imediatamente remessa delas aos párocos e curas dos seus municípios, exigindo as declarações necessárias depois da publicação”.183

Já em 18 de março de 1836, a Lei Mineira nº 46 provê sobre o registro dos nascimentos, casamentos e óbitos e acerca do arrolamento decenal de todos os habitantes da província. No entanto, esta, como outras leis “que foram decretadas na primeira legislatura da Assembléia Mineira, que legislou com admirável critério e patriotismo sobre as mais palpitantes necessidades da província, [...] teve apenas deficiente execução, e por pouco tempo”.184

Confirmamos a brevidade da obediência às leis postuladas acima, pois observamos que os registros de casamentos elaborados pelo pároco da matriz do Pilar, em Ouro Preto contêm referências sobre a idade dos noivos, sua cor e ocupação, no período de 1836 a 1841, sendo que essas informações específicas passam a ser esparsas, até desaparecerem dos documentos. Os mapas de população que estão preservados no Arquivo Público Mineiro também se referem a um período limitado, desaparecendo no transcorrer da segunda metade do século XIX.185 Em outubro de 1851, os párocos são desincumbidos da tarefa de enviarem os quadros-resumo dos batismos, casamentos e óbitos para os presidentes da província.

Dessas e outras orientações do governo provincial, temos mapas de população, que são quadros-resumo dos nascimentos, casamentos e óbitos que deveriam ser encaminhados pelo pároco ao presidente da província a cada seis meses. Temos, também, as listas nominativas, que tratam de recenseamentos das populações igualmente por freguesias ou distritos, nas quais temos registrado o nome de cada habitante, por domicílio, agrupados por quarteirões. Cada domicílio, ou fogo, é encabeçado por seu chefe, seguido pelo cônjuge, filhos, parentes, agregados, parentes

182 Curas: o termo se refere aos párocos ou capelães fixos em determinada matriz ou capela. O significado vem de “cura da alma”, designando como função do sacerdote ser o pastor espiritual de seu rebanho.

183 VEIGA, José Pedro Xavier. Efemérides mineiras: 1664-1897. p. 1050. 184 VEIGA, José Pedro Xavier. Efemérides mineiras: 1664-1897. p. 299.

185 Cf.: <http://www.siaapm.cultura.mg.gov.br/modules/fundos_colecoes/brtacervo.php?cid=61>. Coleção MP, de 1826 a 1863.

dos agregados, escravos e parentes dos escravos. Aos nomes dos membros de cada fogo são acrescidas outras informações, como cor, idade, estado civil, nacionalidade e ocupação.186 Pelo posicionamento na lista, foram deduzidas a condição social e a relação de cada membro daquele domicílio com o chefe, já que essa informação não está presente de forma sistemática. Nas listas de 1838, foram acrescentadas as informações quanto a cada sujeito ser ou não alfabetizado, aspecto que, até então, não era solicitado pelas autoridades. O significado de algumas variáveis constitutivas das listas nominativas merece algumas observações, antes que iniciemos a análise sobre Ouro Preto.

O quarteirão referia-se a conjunto de domicílios deixados a cargo do inspetor de quarteirão. Os dados de cada um eram recolhidos e completavam o recenseamento de cada distrito ou freguesia. O brigadeiro Raimundo José da Cunha Matos enfatiza a advertência de que “a divisão dos distritos paroquiais não é a mesma dos distritos municipais, e que algumas paróquias pertencem a termo diverso”. Com esse comentário, o autor nos esclarece um dos objetivos dos diversos recenseamentos provinciais propostos na primeira metade do século XIX: “o que prova a necessidade de se fazer uma demarcação paroquial mais interessante aos povos da província do que aquela que atualmente se acha estabelecida pelo direito de antigas posses”.187 Em cada quarteirão, há um conjunto de fogos. Ao refletir sobre o conceito de fogo e/ou família, a professora Clotilde Paiva conclui que:

fogo e família são termos que tem sido usados como sinônimos nas listas de habitantes mineiras, tanto nos casos onde há relações consangüíneas explícitas quanto nos demais casos. A presença de pessoas ligadas por relações de parentesco, juntamente com agregados e escravos dentro de uma mesma unidade sugere que os critérios usados para definir fogo ou família iam além da presença ou não das relações consangüíneas.188

186 Nas listas originais de Ouro Preto, de 1838, as categorias utilizadas são: número do quarteirão, fogo, idade, qualidade (branco, preto, crioulo, pardo ou cabra), condições (livre, cativo, liberto), estado (casado, solteiro ou viúvo), sabe ler ou não, e empregos.

187 MATOS, Raimundo José da Cunha. Corografia histórica da província de Minas Gerais... p. 419. 188 PAIVA, Clotilde Andrade. População e economia nas Minas Gerais do século XIX. 1996. (mimeo). p.

A professora nos alerta, também, sobre o critério de co-residência, stritu sensu, isto é, viver sob o mesmo teto, que deve ser repensado a partir das listas nominativas mineiras. São identificados vários exemplos de fogos ou famílias em que parte dos integrantes residia em local distinto daquele do chefe, como no caso da presença de muitos escravos. Portanto, embora todas as pessoas tenham sido listadas naquela “caza”, não necessariamente residiam na mesma “morada”.189

Baseada nas premissas citadas acima, a professora propõe o conceito de fogo como sendo “um grupo doméstico, com ou sem a presença de relações de parentesco, sob a autoridade de um mesmo chefe. Residir em um fogo não significava necessariamente estar vivendo sob o mesmo teto”. O indivíduo, portanto, identificava-se com o fogo por sua articulação com os demais membros coordenados pelo chefe.190

Após a identificação dos fogos, as listas nos trazem os nomes de seus ocupantes, encabeçados sempre por seu chefe. A seguir, vem o nome do cônjuge, quando é o caso, dos filhos, parentes, agregados, parentes dos agregados, escravos e parentes dos escravos, nessa ordem. Muitas vezes, os critérios utilizados pelos recenseadores para considerar a relação dos moradores de determinado fogo com seu chefe nos fogem à compreensão, por serem constitutivos daquela sociedade. Aventamos, por exemplo, a possibilidade da presença, em determinados fogos, da mulher concubinada, resguardada sob a referência de agregada, ou mesmo pela falta de identificação sobre sua relação com o chefe do domicílio. Outro conceito complexo refere-se ao significado de agregado.191 Sob essa alcunha, podem estar empregados, hóspedes, parentes e

aprendizes.

Como era preocupação das autoridades administrativas a caracterização da população da província, é dada grande importância à identificação da cor, ou da qualidade, termo que aparece originalmente nas listas. As pessoas eram identificadas como brancas, pretas, crioulas, pardas ou mestiças, que englobavam os cabras e caboclos. Podemos conferir aos pretos a origem africana, sendo que os crioulos eram

189 PAIVA, Clotilde Andrade. População e economia nas Minas Gerais do século XIX. p. 60. 190

PAIVA, Clotilde Andrade. População e economia nas Minas Gerais do século XIX. p. 61.

191 Sobre o significado de agregados, para o ambiente urbano oitocentista, ver: LOTT, Mirian Moura. Na forma do ritual romano: casamento e família em Vila Rica (1804-1839). São Paulo: Annablume, 2008. p. 113-115.

seus descendentes, ou seja, aqueles já nascidos no Brasil, porém, sem o componente da miscigenação. A subjetividade do conceito de pardo é bem estudada pela professora Hebe de Mattos, que analisa seu componente social. São encontradas pessoas, na documentação da época, identificadas como pardas, em alguns momentos de sua vida, mas que têm sua origem miscigenada ocultada devido à melhora de sua condição social. O significado do termo cabra ainda é, para os historiadores mineiros, um grande enigma a ser decifrado, devido à sua complexidade. Em seu Dicionário da terra e da gente de

Minas, Waldemar de Almeida Barbosa nos confirma tal complexidade: “Um cruzamento considerável tem lugar entre os mulatos e os pretos e cujo produto se denomina cabra. A cor destes costuma ser um pardo amarelado [...]. Este é o significado mais generalizado do termo”.192 Para outros autores, o cabra poderia ser identificado com o mulato, ou, ainda, teria o mesmo significado que “cabore”, isto é, “indivíduo proveniente da união entre pretos e ameríndias”.193 Já caboclo, que, de início, designava pejorativamente o índio, passa a referir-se, no século XIX, ao mameluco ou, ainda, como definiu Freireyss, “a raça proveniente do cruzamento da caucásica com americana. Para Teodoro Sampaio, o termo é de origem tupi e significa ‘tirado, ou procedente do mato’”.194 Fazia-se uma nítida distinção entre os índios “mansos” e os “selvagens”. Os primeiros eram relacionados como aldeiados, enquanto os demais eram os temidos tapuias.195 Ao se inserirem na cultura dominante ou ao se unirem aos brancos, passavam a ser caboclos.

Como, na década de 30 do século XIX, o conceito de raça ainda não havia sido enrijecido pelas teorias científicas racialistas,196 podemos indicar que a identificação da cor era dada a partir de critérios extremamente subjetivos, baseados na observação dos recenseadores e do posicionamento social de cada indivíduo.

192 BARBOSA, Waldemar de Almeida. Dicionário da terra e da gente de Minas. p. 40. Nessa consideração, Barbosa remete a: FREIREYSS, G. W. Viagem ao interior do Brasil. São Paulo: Itatiaia; USP, 1982. p. 110.

193 BARBOSA, Waldemar de Almeida. Dicionário da terra e da gente de Minas... p. 40. 194 BARBOSA, Waldemar de Almeida. Dicionário da terra e da gente de Minas... p. 39. 195 BARBOSA, Waldemar de Almeida. Dicionário da terra e da gente de Minas... p. 180.

196 Para análise da construção do conceito de raça, na Europa, a partir do século XVIII, ver artigo de FELIPE, Sônia T. Vicissitudes do pensamento racialista na filosofia. UFSC, UL (Lisboa). Disponibilizado no site: <http://www.neabbrasil.com.br/revista/index.php/neabbrasil/article/view/8/9> Acessado em 26/12/2008.

No que se refere à condição social, os habitantes dividiam-se entre os livres, forros e escravos. O número de forros é pequeno, visto que o termo está incorporado somente a uma geração. Além disso, pode estar subdimensionado, devido à sua posição intermediária entre o cativeiro e a liberdade.

A população também se dividia por estado conjugal, sendo que, entre os solteiros, estariam aqueles que constituíam a família concubinada ou fruto de uniões consensuais. Estas se caracterizariam, basicamente, por uniões entre desiguais, e formariam a família mestiça.197

Nas listas de 1838/40, temos como novidade a questão sobre o estado de alfabetização dos habitantes, não sendo possível, contudo, análise sobre o grau considerado para essa categoria, visto que somente é informado se o sujeito é alfabetizado ou não. O período regencial e os governos provinciais de Minas se preocuparam com a elevação do nível escolar da população livre, e a inserção desse elemento nos recenseamentos nos mostra a intenção de, a partir da pesquisa demográfica, aumentar seus índices. O nível de escolaridade era considerado elemento fundamental para o progresso e desenvolvimento da nação. Por isso, se, durante o período colonial, a educação fora deixada a cargo da Igreja, já na década de 20 do século XIX, observamos a instalação de estabelecimentos de instrução pública nas principais vilas e cidades, em acordo com o art. 179, que, em seu item XXXII, previa como garantia da Constituição a instrução primária e gratuita a todos os cidadãos.

De acordo com Cunha Matos, em 1826,

existiam nas aulas públicas da província (exclusas as dos termos de Mariana e Jacuí, das quais não se fizeram relações), 1.107 alunos de primeiras letras, 233 estudantes de latim, 9 de filosofia, 3 de anatomia e 6 de desenho. Além desses, havia, nos dois seminários e aulas particulares (ainda excluídos os números de Mariana e Jacuí), 2.940 alunos de primeiras letras, 68 ditos de latim e 7 estudantes de filosofia. No Seminário de Nossa Senhora Mãe dos Homens, na Serra do Caraça, havia 143 jovens. Professores recebiam vencimentos por conta da Fazenda Nacional, sendo que a província de Minas contava, no ano de 1831, com uma cadeira de filosofia racional e uma de

197 Para estudo verticalizado sobre o concubinato e suas tipologias, ver: CERCEAU NETTO, Rangel. Um em casa do outro: concubinato, família e mestiçagem na Comarca do Rio das Velhas (1720-1780). São Paulo: Annablume, 2008.

anatomia. Os professores de primeiras letras somavam 46 e os de língua latina, 16.198

Já em 1840, de acordo com o relatório do Presidente da província, havia, em Minas Gerais, “180 cadeiras de instrução primária, sendo 126 do 1º grau, 35 do 2º e 19 para o sexo feminino”, sendo que “as aulas foram habitualmente freqüentadas no último ano por 5.844 alunos e 650 alunas”. Esses números não incluíam as escolas particulares, das quais “não tem sido possível obter notícias exatas e circunstanciadas”.199

Aurélio Pires, que residiu em diversas cidades mineiras, é testemunha da situação de escolaridade em Minas, em fins da década de 60 do oitocentos:

Aprendi primeiras letras aqui, ali, acolá, em aulas de ensino público de diversas cidades por onde íamos peregrinando. [...] Tenho, porém a impressão de que, se cheguei a aprender a ler e a escrever aos sete anos de idade, não foi, propriamente, naquelas aulas, confiadas, em geral, a professores brutais e ignorantes, mas graças às pacientes lições que me eram dadas, em casa, por meu pai e por minha mãe.200

Ainda se referindo à sua formação, Aurélio Pires relata que, se pouco aprendera, não foi por falta de esforços seus ou de seu mestre, em cujo domicílio residiu por um tempo, mas pela imperfeição do método de ensino adotado, “o qual consistia, quase exclusivamente, em decorar regras de gramática, sem explicação prática, e em repeti-las servilmente e sem assimilá-las”. O intelectual se lembrava, ainda, que a memória, não raro, era “aguçada e estimulada pelo espocar odioso dos bolos aplicados pela horrenda palmatória”.201

O recenseamento também fazia referência à nacionalidade, vinculada à preocupação em se traçar o perfil dos habitantes da província e em acompanhar a chegada de forasteiros. Porém, o silêncio impera em praticamente toda a lista ouro- pretana, com exceção dos africanos, que são designados, de forma abrangente, como “pretos de nação”.

198 MATOS, Raimundo José da Cunha. Corografia histórica da província de Minas Gerais... v. II. p. 90-92. 199 Os relatórios dos presidentes da província nos mostram a preocupação da administração pública com a

situação da educação em Minas. Ver: <http://www.brazil.crl.edu/bsd/bsd/hartness/index.html>.

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