Capítulo 1 – MARC BLOCH E A GRANDE GUERRA (1914-1918)
1.6 As marcas do trauma
Há tantas coisas que não ouso dizer Tantas coisas que não me deixaríeis dizer Tende piedade de mim (Guillaume Appolinaire)173
A Grande Guerra nunca deixou Marc Bloch. É bastante evidente que a experiência acompanhou as suas posteriores reflexões historiográficas. A vida entre 1914 e 1918 foi um mergulho profundo na terra que seria um de seus objetos de estudos. Observar por tanto tempo aquela paisagem do campo, mesmo que destruído, possibilitou importantes reflexões acadêmicas.
La Terre et le Paysan174 não podia ser um título mais representativo dessa conjunção entre o soldado e o historiador. Ele trouxe para os estudos acadêmicos aquilo que mais o moveu ao longo da batalha: a “verdadeira França”, representada pelos campos e pelos camponeses (ideais). Les Rois Thaumaturgues175, da mesma forma, é uma obra
cuja faísca primordial veio da observação da força das crenças populares nas trincheiras. Não esqueçamos da mais óbvia das correlações: “Reflexões de um historiador sobre as falsas notícias de guerra”176, artigo publicado em 1921 na Revue de synthèse historique,
cujas considerações sobre o efeito cascata do erro/mentira, bem como o seu caráter representativo de dado conjunto de valores historicamente localizados, guardam íntimas relações com aquelas que fará sobre os reis medievais com capacidades curativas.
O próprio Bloch aponta essa ligação que o soldado estabeleceu com a terra ao longo do conflito. Numa pequena resenha escrita nos Annales d’histoire sociale em 1940, ele comentava:
Um de meus camaradas de trincheira, há pouco mais de vinte anos, gostava de dizer que a guerra possuía ao menos uma vantagem: a “de se realizar no campo”. [...] É inegável que a mais de um cidadão os anos passados sob o uniforme azul marinho forneceram a ocasião de penetrar [...] na intimidade da natureza e do campo.177
173 Do original: “Il y a tant de choses que je n’ose dire / Tant de choses que vous ne me laisseriez pas dire
/ Ayez pitiez de moi.” Citado em: Silvana Vieira da Silva Amorim. Guillaume Appolinaire: fábula e lírica. São Paulo: Editora UNESO, 2003, p. 239.
174 Marc Bloch. La terre et le paysan : agriculture et vie rurale aux 17e et 18e siècles. Paris: Armand Colin,
1999.
175 Idem. Les rois thaumaturges, étude sur le caractère surnaturel attribué la puissance royale,
particulièrement en France et en Angleterre. Strasbourg et Paris: Librarie Istra, 1924.
176 Idem. “Réflexions d’un historien sur les fausses nouvelles de la guerre”. Paris: Éditions Allia, 2007. 177 Do original : “Un de mes camarades de tranchée, il y a un peu plus de vingt ans, aimait à dire que la
65 Para além dessa característica, resta a construção de uma imagem de si em conjunto com a exaltação de alguns valores que teria presenciado nas trincheiras. Não são poucos os momentos nos quais coragem, honra, senso de dever e patriotismo são destacados como qualidades a serem reafirmadas. Em seus testamentos, tais traços sempre serão sublinhados como um resumo de sua trajetória178: queria ser lembrado por ter seguido esses princípios até o fim. Em cartas de condolências e relatórios oficiais, também são essas as qualidades ressaltadas.
Percebemos isso em Souvenirs. Não são raros os momentos nos quais ele ressaltou a sua capacidade de dar exemplo de sangue frio e coragem aos seus homens, bem como a de sua autêntica firmeza pessoal que teria garantido uma passagem bastante honrosa a ele e aos seus nas trincheiras. Também procurou deixar marcada a qualidade de não temer o perigo, por mais intenso que ele fosse. Todo o relato é permeado por um sentimento profundo de estima por si mesmo, e da necessidade de servir como modelo aos outros, que não poderia perder lugar. Mesmo a ideia de registrar os acontecimentos vividos “para não deixá-los sucumbir aos caprichos da memória”179 seria um movimento nesse sentido, de tomar para si a missão de apresentar uma vida exemplar.
Marc Bloch seria recompensado por tal postura. Ao fim da guerra, somava quatro citações militares e uma Cruz de Guerra, uma escalada na hierarquia relativamente bem sucedida (terminara a guerra como “capitão Bloch”), com a posterior nomeação para a Legião de Honra. Também seria nomeado para um cargo na Universidade de Estrasburgo, cuja missão central era a de recuperar a identidade francesa àquela região da Alsácia recém reincorporada. Até o fim da vida, ele atribuiria grande valor a essas honrarias.
Porém, nem todas as marcas deixadas foram carregadas de positividade. Podemos afirmar com segurança que o historiador não passou psiquicamente incólume por uma experiência como a da Grande Guerra. Uma ferida o impediu de prosseguir a escrita do diário em 1915. Ele atribui à preguiça o seu abandono até 1916. Na retomada,
citadin les années passées sous l’uniforme bleu horizon ont fourni l’occasion de pénétrer […] dans l’intimité de la nature et des champs”. Marc Bloch. “La forêt et les champs”, Annales d’histoire sociale, 1940, vol. 2, nº2, p. 165. Disponível em: <http://www.persee.fr/web/revues/home/prescript/article/ahess_ 122563_1940_num_2_2_3051_t1_0165_0000_2>. Acesso em 10 dez. 2014.
178 Escreveu um em 1915, confiado a sua irmã, e outro em 1917. Durante a Segunda Guerra Mundial, em
1941, escreveu aquele que seria o testamente definitivo, o mais conhecido e publicado nos Annales em 1945. No último capítulo de nossa tese, analisaremos todos com mais cuidado.
66 poucas páginas e, novamente, finda o manuscrito. Para Stéphane Audoin-Rozeau, a questão ia além da preguiça: era como se Bloch começasse a “reter” a Guerra180. Por mais
escassos que fossem os registros a partir de então, um pequeno episódio relatado por seu filho Étienne é incrivelmente revelador. Ele diz que o pai nunca evocava a guerra – o assunto era quase tabu no meio familiar. Um dia, porém, ao entrar em uma loja em sua companhia, imediatamente Bloch sentiu a necessidade de sair do recinto: a imagem de manequins entulhados o relembraram do espetáculo de cadáveres do primeiro conflito mundial181. Repetimos, plenos de segurança: a Grande Guerra nunca abandonou Marc Bloch.