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CAPÍTULO I. BENEFICIÁRIO EFETIVO NO DIREITO INTERNO E OS

1.3. Beneficiário efetivo no direito interno

1.3.2. Beneficiário efetivo na Inglaterra

1.3.2.6. Beneficial ownership vs equitable ownership

No direito inglês, como visto, as decisões judiciais equiparam e até tomam como sinônimos os termos equitable ownership e beneficial ownership ao analisar os direitos inerentes à propriedade. Por essa razão, é importante analisar a relação entre esses termos e as diferenças em seus significados próprios.

Isto porque a definição de equitable ownership na Inglaterra é bastante específica, ao passo que beneficial ownership não partilha desse atributo. Se essas expressões forem mesmo sinônimas, a definição de beneficiário efetivo tornar-se-á mais restrita, ao menos para o direito interno inglês.

Segundo DAVID et al. equity consiste em uma série de remédios que evoluíram, principalmente, a partir dos séculos XV e XVI aplicados pela court of the chancellor com o objetivo de completar e, ocasionalmente, corrigir a common law, mas que, hoje, integra o direito britânico141.

Para o autor, ao se examinar o sistema de common law e as regras de equity, seria mais apropriado se falar em dois ramos do direito inglês142. Enquanto a common law adota a posição de que a propriedade (ownership) é indivisível, equity permite sua divisão entre

1391968] S.T.C. 45 112 C.A., p. 132.

140ROWLAND, Amanda. Beneficial ownership in a corporate context: what is it? When is it lost? Where

does it go? British Tax Review, n. 3, p. 186, 1997.

141DAVID, René; BRIERLEY, John E.C. Major legal systems in the world today. 3rd ed. London: Stevens &

Sons, 1985. p. 328.

legal title (propriedade legal) em uma pessoa e beneficial owner (ou equitable ownership) em outra143.

Desta forma, não seria correto, propriamente, se referir a beneficiário efetivo como um conceito ou termo pertencente à common law, mas sim, ao equity. Terminologicamente é correto, todavia, dizer que o termo e o conceito de beneficiário efetivo são utilizados no direito interno dos países de tradição de common law144.

Por esse motivo, o termo equitable owner deve ser utilizado em contraste técnico com o termo legal owner. O exemplo clássico de equitable ownership é o caso de um comprador diante de um contrato especificamente exeqüível (i.e., de cumprimento específico), conforme decidido em Sainsbury145.

As decisões em Wood Preservation e Brooklands Selangor Holdings criaram certa incerteza quanto ao caráter equivalente ou não das duas expressões, no que se refere aos seus significados. Na decisão em Sainsbury, que analisa extensamente esses dois casos, além de outros mais, foi consignado o entendimento de que beneficial ownership e equitable ownership seriam a mesma coisa146.

Considera-se, no entanto, que o vocábulo equity não possui apenas um significado, mas quatro distintos, sendo: (i) equitable interest in property, i.e., um dos atributos ou feixes do direito de propriedade assegurado e exequível por equity e não por common law; (ii) um direito acessório procedimental relativo a certo direito de propriedade; (iii) direito de um beneficiário decorrente de testamento sobre uma propriedade do de cujus que ele almeja receber; (iv) direito de obter uma medida liminar (injunction) ou outro remédio de equidade147.

Contudo, em razão da confusão terminológica criada pelas cortes inglesas, bem como por questões de própria dificuldade conceitual, essa questão continua extremamente complicada e diversas autoridades148, além da doutrina149, equiparam beneficial ownership à equitable ownership, apesar das incertezas e problemas inerentes a essa equiparação.

143BELL, Andrew P. op. cit., p. 67 e 155-156; GOODE, Roy. op. cit., p. 42-44.

144KOTZ, K.; ZWEIGERT; H. An introduction to comparative law. 2nd ed. Oxford: Claredon Press, 1992. p. 95. 145TOIT, Charl P. du. op. cit., p. 113.

146Sainsbury, p. 325 e 330.

147BAKER, P. V.; LANGAN, P. St. Snell’s principles of equity. 28th ed. London: Sweet & Maxwell, 1982. p. 23. 148BELL, Andrew P. op. cit., p. 235.

149SPEED, Robin. Beneficial ownership. Australian Tax Review, nr. 3, p. 46-46, 1997; ROWLAND,

Na definição de MEGARRY, a distinção entre legal rights e equitable rights seria a de que os primeiros são oponíveis a todos, ao passo que os segundos são oponíveis a todos, exceto compradores de boa-fé sem ciência prévia (não notificados)150.

BAKER entende que os equitable rights, apesar de poderem ser classificados como direitos in rem, devem ser entendidos como híbridos, por serem claramente mais do que direitos in personam, mas não são exatamente iguais aos direitos in rem151.

Em suma, resta claro que o direito inglês distingue os direitos de propriedade entre legal right e equitable (ou beneficial) right152.

Conforme demonstrado, a utilização de beneficiário efetivo no direito interno da Inglaterra ultrapassa questões exclusivamente relacionadas com trusts. Entretanto, a análise do beneficiário efetivo nas situações envolvendo trusts mostra-se relevante para a compreensão de sua definição para fins de direito doméstico.

Uma das questões fundamentais em se tratando de trusts é a de que o beneficiário de um trust não é, necessariamente, o beneficiário efetivo dos rendimentos auferidos pelo trust. Ainda que o beneficiário possua o futuro direito à renda, ele não pode ser considerado beneficiário efetivo até que o trustee tenha exercido seus poderes, de acordo com os limites concedidos pelo settlor, e decidido sobre a alocação da renda (e em qual momento)153.

Ou seja, até que a renda seja alocada em favor do beneficiário, inexistem direitos à renda auferida pelo trust. O beneficiário não possui direito exeqüível e não pode tratar a renda como sua, mas sim, como sendo do trust154.

Ora, se o beneficiário não é o proprietário da renda até que o trustee exerça seus poderes e realize a alocação da mesma, resta a dúvida sobre quem seria o beneficiário efetivo dessa renda. BAKER é categórico em afirmar que não é o trustee155. TOIT cogita ser o grupo de beneficiários, ao invés de cada um deles individualmente, o beneficiário efetivo de tais rendimentos156. Esse entendimento de TOIT nos parece completamente descabido, uma vez que se os beneficiários não possuem o direito de propriedade,

150MEGARRY, Robert; WADE, H.W.R. The law of real property. 4th ed. London: Steven & Sons, 1975. p. 113. 151BAKER, P. V.; LANGAN, P. St. op. cit., p. 23-24.

152BELL, Andrew P. op. cit., p. 6.

153JONES, John F. Avery. The treatment of trusts under the OECD Model Convention. European Taxation,

Amsterdam, n. 12, p. 392-394, 1989.

154TOIT, Charl P. du. op. cit., p. 116.

155BAKER, Philip. Double taxation conventions and international tax law, cit., p. 230. 156TOIT, Charl P. du. op. cit., p. 116-117.

individualmente considerados, não pode a junção de vários sujeitos não titulares de um direito criar esse mesmo direito, antes inexistente.

Uma terceira alternativa seria sustentar que o beneficiário efetivo dessa renda estaria suspenso – conforme anteriormente analisado no item 1.3.2.5 – até que o trustee realize a alocação, i.e., destine a renda em favor do beneficiário.

Seja qual for a posição adotada sobre essa questão, o importante é esclarecer que, apesar de o trustee ter direitos e exercer o controle sobre como a renda será alocada, investida e quando será resgatada (esclarecendo que os poderes e a discricionariedade do trustee variam de acordo com os poderes a ele concedidos pelo settlor no ato constitutivo do trust), o poder de controle não é exercido em benefício ou proveito próprio, mas em sim favor ou benefício de terceiros. Portanto, o trustee não poderia ser considerado como o beneficiário efetivo, nessas situações157.

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