3 PRELÚDIOS DO MOVIMENTO DANÇA CIRCULAR SAGRADA – DE
3.1 Afinal, o que são as danças circulares sagradas?
3.1.1 Bernhard Wosien: o pai das DCS
Bailarino clássico, pedagogo da dança, coreógrafo e artista plástico, essas foram as principais atividades de Bernhard Wosien [1908-1986] o precursor das DCS. Segundo o próprio Bernhard Wosien (2000, p. 17), “[...] meu primeiro encontro com a dança foi ainda na tenra infância”. Nascido na Masuren, antiga Prússia Oriental, na cidade de Passenheim, Bernhard era filho de um pastor evangélico, o qual via em seu filho um futuro pastor e, por esse motivo, a comunidade evangélico-cristã foi seu lar espiritual original. A mãe de Bernhard, Antoinette Linda, foi a filha primogênita do barão Richard von Butler, de Ponarth, de Königsberg. Os Butlers eram descendentes de uma família antiga da nobreza inglesa cujo ramo alemão, no século XI, havia sido aceito entre os cavaleiros de Hessen.
Bernhard cresceu tendo boas referências sobre a dança, afinal seu pai e seu tio Klaus eram exímios dançarinos. Sempre que seu tio os visitava as noites eram festivas, com muita música e dança, das quais participavam, também, os empregados poloneses. Essas foram as primeiras impressões de Bernhard sobre a dança. Já em idade escolar, ele e seu irmão mudaram-se para Breslau, na Silésia. Seu pai os havia colocado em um ginásio humanístico, visando à formação profissional como pastor. Todavia, Bernhard nunca hesitou em ser mestre de balé. Aos quinze anos vivenciou a primeira experiência com o balé clássico, mesmo sendo
um sistema educacional rígido, duro, a dança clássica o tocou pela solenidade e beleza, despertando seu entusiasmo. Como afirma Wosien (2000, p. 18), a dança, para ele, era “uma mensagem poética do mundo divino, o que, até hoje, ficou como uma compreensão para mim”. Para ele o método clássico e a sua disciplina são um caminho para o autoconhecimento.
Após ter cursado seis semestres de Teologia na Universidade de Breslau, Bernhard deparou-se com um sério problema: passou a duvidar, autocriticamente, que pudesse preencher as condições para, algum dia, tornar-se, por toda uma vida, pastor de almas a serviço da igreja. No entanto, seu pai, que sempre fora um modelo de homem de fé, passaria a tornar-se uma medida da própria distância dela, a fé. E passou a viver a indecisão entre o
homo religiosus e a dança. A linguagem sem palavras da música e da dança falou mais alto,
pela harmonia de corpo, espírito e alma, na área poética; na Teologia, a cientificação de antiquíssimas verdades reveladas.
Caminhar foi a solução encontrada por ele para livrar-se de todo o amontoado de conhecimentos desnecessários. Partiu a pé e sozinho pela Suécia, Noruega e Dinamarca. Entre os anos de 1932 e 1933 atravessou o Sul da Inglaterra e caminhou por sobre os Alpes, para Roma. Incitado por um familiar que o havia introduzido aos “Exercícios Espirituais” de Inácio de Loyola2, brincava com a ideia de adentrar em uma Ordem. Ele assim descreve o que viveu:
Neste entretempo, eu queria, contudo, tomar o caminho de pintor e desenhista. Minha mãe, quando jovem, havia tido uma formação como pintora de retratos me aconselhou a entrar para a Academia de Artes de Breslau. Assim, eu apresentei lá os meus desenhos e aquarelas e fui aceito. Esta mudança de rumo agradou a meu pai mais do que uma carreira de bailarino. Porém, depois de pouco tempo neste caminho, eu sofri uma interrupção externa quando nossos mestres, internacionalmente conhecidos, tais como Oskar Schlemmer, Eduard Muche e Oskar Moll, foram estigmatizados como artistas degenerados e despedidos, e a Academia foi fechada. A nós, estudantes, foi recomendado irmos para Berlim. Foi o que eu fiz, mas em breve tive que constatar que a arte idealizada da Escola Superior na rua Grunewald, não me servia (WOSIEN, 2000, p. 20).
A partir de então sua decisão estava tomada: seguiria a profissão de bailarino. Com a recomendação de seu mestre de balé, Bernhard entrou para o Teatro Estadual da Ópera de Berlin onde trabalhou ao lado de vultosos nomes da dança. No entanto, em virtude de uma crise econômica em Berlim, fora demitido. Já em Augsburg assinou seu primeiro contrato como bailarino. Em 1933 mudou-se para Düsseldorf onde atuou como solista adquirindo
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Inácio de Loyola o foi o fundador da Companhia de Jesus, cujos membros são conhecidos como os jesuítas, uma ordem religiosa católica romana, que teve grande importância na Contrarreforma.
experiência de palco, mas queria trabalhar mais a parte técnica e, sendo assim, passou um ano em Paris. Em 1936 regressou a Berlim, mas em uma rápida passagem, pois em 1939 foi nomeado primeiro bailarino solista do Teatro Estadual de Berlim e coreógrafo na Escola Estadual de Teatro. Foi em uma festa na casa de uma pintora que fazia seu retrato que Bernhard conheceu Elfriede, baronesa de Ellrichshausen, a qual viria a tornar-se sua futura esposa. Bernhard e Elfriede tiveram três filhos: duas meninas e um menino. Gabriele e Christof nasceram durante a guerra e Antoinette nasceu em 1948, quando ele ainda era coreógrafo no Teatro Estadual de Stuttgart (WOSIEN, 2000).
A coroação e o auge de sua carreira como bailarino e coreógrafo ocorreram entre os anos de 1948 e 1958, quando teve a oportunidade de trabalhar com grandes nomes do balé e da música. O encontro com Jurij Winar representou para Bernhard o encontro com a dança popular, com a arte popular, enfim. “Desde essa época fui dirigindo meu amor e meu prazer cada vez mais para as danças dos povos, para a riqueza em mitos e poesia” (WOSIEN, 2000, p. 24). Sobre arte popular descreve:
A arte popular nasceu da comunidade social, autóctone. Ela surge na região, nas casas e nos campos das famílias, fora, nos lugares comuns a toda a comunidade. Esta arte é introvertida. As pessoas se encontram num círculo, se olham. Eles não precisam e expectadores nem tão pouco contam com eles. Logo reconheci o fundo religioso e ritual dessas danças e essa compreensão foi ficando cada vez mais forte (WOSIEN, 2000, p. 109).
Aos 52 anos, despediu-se definitivamente das danças de palco e, a partir de então, idos dos anos 60, passou a dedicar-se completamente à Pedagogia. Deu aulas na Escola Técnica para Estudos Sociais em Munique. Criou um grupo na Escola Popular Superior com o qual passou a viajar regularmente nas férias para países do Sudeste Europeu. O primeiro encontro com as velhas danças de roda que ainda se mantinham vivas foi em 1966, em Creta.
Em 1965 passou a exercer a docência na Universidade de Marburg, na área de Ciências Educacionais do Departamento de Pedagogia para Escola para Excepcionais, sob a designação “Procedimentos Especiais da Pedagogia da Cura”, onde ensinou as danças de roda como meio da Pedagogia do grupo. Essa função foi exercida até 1986. Bernhard classifica o trabalho realizado em Findhorn como um exemplo internacional de meditação pela dança.
A “Sacred Dance” espalhou-se por uma grande parte da Europa e pelo Ocidente. Para Bernhard, a dança como manifestação artística mais antiga do homem, “é um caminho esotérico” (WOSIEN, 2000, p. 26). Partindo da frase esotérica “assim em baixo como em cima”, a dança possibilita ao ser humano exprimir todos os altos e baixos de suas sensações.
Em especial, na dança sagrada, como “oração e conversa sem palavras com Deus, o bailarino encontra o recolhimento” (WOSIEN, 2000, p. 26). Gabriele, uma de suas filhas e seguidora, conta que certa vez Bernhard, ao contatar com um monge católico, disse que ficar sentado e meditar não funcionavam para ele. Descobriu a partir de então a meditação no movimento usando o seu vocabulário da dança. Sábio em suas palavras, Bernhard também questionou a irreligiosidade de nossos tempos e em tese procurou explicar: não é mais fácil exprimir este bater de asas da alma primeiramente “sem palavras”?
Wosien, durante as décadas de 50 e 60, dedicou-se a viajar pelo mundo recolhendo e resgatando as danças de diferentes povos. Essas danças trazem em seu bojo as raízes e o passado distante dos povos, sua ancestralidade, tendo como características principais o caráter comunitário e gregário. Bernhard identificou na dança popular alemã um inquebrantável espírito aldeão e comunitário continuamente vivo. O lado poético da educação apoiada pela juventude e dirigida por personalidades dentro da comunidade exerceu fascínio e amor pela dança, pois a vivacidade, a alegria, o prazer e a precisão do compasso eram uma constante em suas danças. Na Grécia, a dança continua sendo uma expressão espontânea de um estado de ser. Foi lá que a dança se revelou como algo sagrado.
Deixou um profícuo legado aos seus seguidores. Morreu em 29 de abril de 1986 em Munique. Em 75º aniversário Bernhard escreveu: “Eu vim à dança. Como isto aconteceu, nenhuma fantasia o diz. Contudo, todo o meu Desejar e todo o meu Querer oscilavam com o Amor nos mesmos círculos que conduzem nosso sol e todas as estrelas” (WOSIEN, 2000, p. 16).
Bernhard assim é considerado por muitos o PAI das Danças Circulares Sagradas e a Comunidade de Findhorn, a mãe.