6 COMPONDO AS RODAS DA TESE
6.3 Sobre as rodas e prosas
6.3.1 Primeira roda: Eu & Nós: compondo a roda da vida
O centro foi constituído por uma planta com flores de cor amarela, um recipiente contendo água e uma vela flutuante também de cor amarela, a qual foi acesa anteriormente à sensibilização. O amarelo é a cor mais quente, a mais expansiva, a mais ardente das cores, é a cor da eternidade; a água significa a fonte da vida, o meio de purificação e o centro de regenerescência e a vela “o simbolismo da vela está ligado ao da chama. A cera, a mecha (pavio ou torcida da vela), o fogo, o ar, que se unem na chama ardente, móvel e colorida, são eles próprios uma síntese de todos os elementos da natureza” (CHEVALIER; GHEERBRANT, 1992, p. 933).
No grupo de idosos do projeto institucional, os dançantes foram chegando aos poucos. Alguns olharam com estranheza o centro, vinham me cumprimentar, alguns muito falantes e sorridentes, outros mais comedidos. Com o grupo de educadoras na escola, a primeira roda também causou certa estranheza, principalmente em virtude de que DCS era uma prática até então nova. Alguns participantes fizeram questão em destacar o aroma “gostoso” que sentiam, queriam saber do que se tratava. Disse-lhes que era camomila. Antes de iniciar com o momento de sensibilização agradeci a presença de todos e o aceite para participar da oficina de DCS. Expliquei a eles novamente – pois já havia feito isso no momento do convite – sobre a estrutura, os procedimentos e a metodologia da oficina. Não houve objeções de ambos os grupos.
A sensibilização: convidei todos para que formássemos uma coluna a certa distância
do centro, momento em que aproveitei para explicar sobre a simbologia do centro e o porquê da escolha da cor amarela. Disse a todos que a cada encontro teríamos uma cor predominante e que se sentissem a vontade poderiam vir com peças de roupa desta cor, livre de qualquer obrigação. Esse momento foi fundamental para explicar a posição de pegar as mãos. Solicitei que unissem as palmas das mãos na frente corpo e, logo após, virassem o dorso da mão direita para baixo, voltando os polegares para a direita, tendo o dorso da mão esquerda voltado para cima. Em seguida, solicitei que afastassem as mãos em direção às laterais do corpo, encontrando as mãos dos companheiros: a mão direita pegando a mão esquerda do companheiro à direita e a mão esquerda pegando a mão direita do colega à esquerda. Conforme Wosien1,
1 Artigo escrito por Bernhard Wosien em One Eart, volume 3, edição 5, The Arts. O conteúdo do artigo encontra-se publicado no Apêndice da obra de BARTON, Anna. Danças circulares: dançando o Caminho Sagrado. São Paulo: TRIOM, 2012.
nós dançamos no sentido anti-horário, na direção do sol, da luz. A nossa mão direita com a palma para cima é a mão que recebe; a nossa mão esquerda com a palma para baixo é a mão que doa. A mão direita recebe a luz e a mão esquerda passa a luz, enquanto que ao mesmo tempo, isso nos liga com o passado, que em latim é religio. Desta forma nós formamos uma cadeia representando nossa origem sagrada (apud BARTON, 2012, s/p).
A dança escolhida para a formação do círculo foi “Alma”, música de Zélia Duncan, com coreografia adaptada de Shephard’s Dance2. A formação é em roda aberta, voltados para o centro, braços em “V”. A coreografia original fala da celebração de Natal, todavia foi adaptada no Brasil para a canção “Alma”. Inicialmente demonstrei os passos, realizando sua contagem para que ambos os grupos fossem adquirindo o senso rítmico. Essa forma de apresentação ocorreu ao longo de todos os encontros para todas as danças: demonstrar os passos, ouvir a música e posteriormente executá-las. O grupo apresentou dificuldades na execução da trajetória no espaço até constituir a roda, mas como eu estava à frente deles, tinham-me como uma referência. Após esse momento e já na roda, falei sobre as emoções que vibram a partir da cor amarela como otimismo, foco, comunicação, inspiração, fidelidade, entre outras. Como primeira roda disse ser fundamental que essas emoções permanecessem conosco ao longo das demais rodas. Abordei o chacra do plexo solar localizado acima do umbigo. O umbigo recebe o significado de centro espiritual de um mundo, o microcosmo humano, segundo Chevalier e Gheerbrant (1992). Em seguida convidei a todos para fechar os olhos e realizar inspirações (pelo nariz) e expirações (pela boca) exalando e relaxando, convocando os anjos da dança para se fazerem presentes, guiando e conduzindo a roda da dança, bem como a tomada de consciência do estado atual de cada um ao pertencer à roda. Para Chevalier e Gheerbrant (1992, p. 60), os anjos são “seres intermediários entre Deus e o mundo”, “seres puramente espirituais”, para Deus ocupariam a função de ministros: “mensageiros, guardiões, condutores de astros, executores de leis, protetores dos eleitos etc.”.
Antes de iniciar a vivência das danças, propus uma dinâmica chamada “mantra dos nomes”, na qual, como forma de apresentação, cada participante, sem desfazer o círculo e sem soltar as mãos dos companheiros, dá um passo à frente e diz em voz alta seu nome, retornando ao seu lugar. Nesse momento todos os demais componentes da roda dão um passo à frente
2 As informações técnicas sobre as danças foram retiradas da apostila do Curso de Formação em Danças Circulares Sagradas: introdução e instrumentalização, ocorrido entre os meses de maio a dezembro de 2014. Realização Ánandam yoga e cultura e Corpo Alegre, sob a coordenação de Walkiria Grehs.
repetindo o nome do companheiro em voz alta e, assim, sucessivamente até chegar ao último. Mantra é
a fórmula ritual sonora, dada pelo Mestre ao seu discípulo no hinduísmo e no budismo, cuja recitação tem o poder de pôr em ação influência espiritual que lhe corresponde. Ela permite entrar no jogo das vibrações que constituem o universo, segundo a cosmologia hindu, e participar da direção de sua energia. O símbolo toma aqui a força de um sacramento de comunhão com o cosmo (CHEVALIER; GHEERBRANT, 1992, p. 589).
As rodas: as danças realizadas neste encontro foram Agalá, de origem israelita, a
dança fala do cavalinho e sua carruagem. Os passos simples resgatam o espírito de confraternização. Dança-se em círculo fechado, no sentido anti-horário, com os braços em “V”. Em ambos os grupos essa dança foi muito apreciada, senti que os participantes puderam realmente confraternizar, olharam nos olhos dos companheiros, saudaram o céu e a terra. Solicitaram que a repetíssemos. Al Achat, também de origem israelita, é uma dança tradicional israelita de celebração. A formação é em círculo fechado e os braços em “V”. A dança foi escolhida pela simplicidade dos passos e pela mensagem significativa que transmite celebração. Observei que os participantes sentiram-se muito à vontade, uma vez que o ritmo da música contribuiu para o andamento da dança. É uma dança com andar fluido, e os giros formam o símbolo do infinito. Ao término da dança muitos participantes aplaudiram felizes;
Cocek de Lune é uma dança cigana dos Bálcãs, muito popular na Macedônia e no Sul da
Sérvia. A formação é em círculo aberto, mãos em “W”. Em ambos os grupos a dança não fluiu como o esperado, em virtude da falta de coordenação motora no momento de realizar o passo de cruzar o pé atrás. Repetimos a dança duas vezes, porém a maioria dos participantes, de ambos os grupos, perdia-se com frequência, o que gerou inicialmente um desconforto, sendo motivo de risos e gargalhadas ao final. No grupo com as educadoras, Ártemis tentou várias vezes auxiliar Brígida, sem sucesso. Em sua entrevista, Ártemis disse: “tu percebeu isso né, tinha que acertar o passo e, além de me preocupar comigo eu me preocupava com as outras, que as outras tinham que acertar o passo, tanto que muitas vezes eu parei a dança para ensinar né, principalmente ali pra Brígida”. No grupo de idosos do projeto institucional essa situação não se repetiu, cada um e cada uma a sua maneira tentou acertar o passo sem interferência do colega ou do focalizador. Sempre que necessário, parava a dança e me colocava em várias posições na roda para retomar o passo e utilizando-me da linguagem verbal e corporal procurava esclarecer as dúvidas e os insucessos dos dançantes na roda. Como dança final, a coreografia de Cristiana Menezes para a música Madre Tierra, canção
recolhida e adaptada do folclore ameríndio. A formação se dá com os braços em “V” de frente para o centro. A dança apresenta uma característica meditativa e sua mensagem nos remete ao acolhimento e o alimento da Mãe Terra conosco.
A Deusa Mãe Terra, que por sua fertilidade gera o alimento de todas as espécies, possibilitando assim a existência da vida, é vista, por conta disso, como a criadora dos povos. Se uma mulher gera uma nova vida em seu ventre através de sua fertilidade e sua capacidade de criar um novo ser, é simplesmente óbvio que toda vida surge de um princípio feminino. Assim, temos a noção de que a vida surge e é mantida pela Mãe Terra (QUINTINO, 2002, p. 133).
Percebi que os dançantes envolveram-se na dança e na sua mensagem, porém uma minoria levou mais tempo para acertar o passo.
A despedida: ao término das danças dirigi-me ao centro, abri o livro “Abrindo portas
interiores”, de Eillen Caddy (2009), no dia correspondente ao encontro e realizei a leitura da mensagem3 em voz alta. Em ambos os grupos os dançantes escutaram atentos e, ao término alguns participantes expressaram seu contentamento dizendo: amém, assim seja. Solicitei que fechassem os olhos e orientei um relaxamento final através de uma breve visualização mental – uma caminhada pela areia em uma praia. Ao término solicitei que um a um expressasse com uma palavra o significado daquela vivência. As palavras mais utilizadas foram: ENCANTAMENTO, PAZ, TERNURA, HARMONIA, DESAPEGO, UNIÃO, ALEGRIA, FELICIDADE, AMOR, SERENIDADE e ÊXTASE. Apagamos a vela no centro da roda e despedimo-nos. Anunciei a próxima roda na cor laranja.
Figura 1 - Primeira roda: Eu & Nós: compondo a roda da vida
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