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Findhorn: a mãe/ o berço das DCS

No documento 2016RodrigoMadaloz (páginas 60-67)

3 PRELÚDIOS DO MOVIMENTO DANÇA CIRCULAR SAGRADA – DE

3.1 Afinal, o que são as danças circulares sagradas?

3.1.2 Findhorn: a mãe/ o berço das DCS

Findhorn está localizada ao norte da Escócia. É uma fundação em forma de vilarejo, uma comunidade espiritual, uma Ecovila e um centro internacional de educação holística, localizada nas proximidades do Mar do Norte, onde oferece um extenso programa de cursos voltados para o desenvolvimento humano, com a missão de ajudar a revelar uma nova consciência humana e criar um futuro positivo e sustentável. “Vivem em Findhorn pessoas de todos os continentes, reunidas em uma experiência ímpar de amorosa convivência e de interesse comum pelo estabelecimento de valores mais humanos na vida pessoal e coletiva” (CARVALHO, 1998, p. 7).

A Fundação Findhorn tem como princípios: auxiliar na escuta interior e autoconhecimento através da oferta de um ambiente favorável em que a consciência e modos de ser pode ser desenvolvido para alcançar uma maior compreensão da finalidade e natureza espiritual da vida; amor em ação por se envolver com espírito em nossas atividades cotidianas e demonstrando alegria de estar a serviço; cooperação com a natureza e sustentabilidade em todos os níveis por informar, inspirar e capacitar os sujeitos e grupos para experimentar e praticar formas sustentáveis de viver em harmonia com toda a vida (FINDHORN FOUNDATION, 2015).

O nascimento da Comunidade de Findhorn ocorreu de forma inusitada. Tudo começou com Peter e Eileen Caddy e Dorothy Maclean. Peter Caddy, um inglês que viveu de 1917 a 1994, chegou a Findhorn Bay com 45 anos e desempregado. Foi um oficial da força aérea britânica, nos serviços alimentares. Era espiritualista e foi membro da Ordem Rosacruz Crotona Fellowship, sentia-se atraído pelo ocultismo e pelo mundo espiritual. Eileen Caddy foi sua terceira esposa (WOSIEN, 2000).

Eileen Caddy nasceu no Egito em 1917 e viveu até 2006. Seu primeiro marido, um oficial da Força Aérea, a apresentou a Peter Caddy, em 1952. Foi educada em regime de internato na Inglaterra e era dedicada à leitura da Bíblia. Em 1953, Eileen começou a receber orientação pessoal de uma serena e pequena voz interior, uma fonte que ela chamava de “o Deus interior” que a conduziu à criação da comunidade de Findhorn (WOSIEN, 2000). Publicou vários trabalhos e obras, algumas traduzidas para português, das quais se destaca

Opening Doors Within – “Abrindo portas interiores – 366 mensagens diárias”.

A terceira pessoa envolvida na criação da Comunidade nasceu no Canadá, em 1920. Dorothy Maclean, bacharel em artes, trabalhou para o Serviço Secreto Britânico em Nova Iorque e, também, no Panamá. Escritora e educadora, no Canadá, em assuntos espirituais. Na década de 50 passou a integrar as práticas espirituais de Sheena – segunda esposa de Peter Caddy. Sheena Govan era “mestra espiritual de origem Quaker”, filha dos fundadores da Missão de Fé. Ela recebia mensagens interiores e acreditava que seu papel era ajudar pessoas no nascimento do Cristo interior. Divorciou-se de Peter em 1957, conforme relata Berni (2002). Tornou-se conhecida por falar sobre Devas. Segundo Wosien (2000), ela permaneceu na Fundação até 1973.

Os três fundadores da Comunidade trabalhavam no Hotel Cluny Hill, próximo de Forres, Moray, na Escócia. Peter e Eileen foram indicados para gerenciar o hotel e Doroty se juntou a eles como secretária. Em comum cultivavam uma vida voltada aos interesses espirituais, o que motivaria o início da Comunidade de Findhorn.

Em 1961, Peter foi demitido do Hotel Cluny Hill, e Eileen e Doroty, em 1962, também foram desligadas de suas funções, pois o hotel passou a receber poucos clientes. Em novembro de 1962, Peter, Eileen Caddy e Doroty mudaram-se para um parque de trailers próximo da vila de Findhorn, em Moray Firth. “Eles foram levados para lá por um forte sentimento de propósito, embora aparentemente toda a aventura parecesse ilógica e muitos achassem que eles tinham perdido a noção das coisas” (LINDFIELD, 1992, p. 193).

Para sobreviver, eles praticavam jardinagem orgânica. Num solo muito pobre, a partir de compostos feitos em casa, produziram legumes e vegetais muito grandes e de qualidade incomparável (WALKER, 1998). A horta atraiu a atenção das autoridades locais e se tornou famosa. Em 1965, num programa de rádio na BBC, a convite do assessor de Horticultura do Condado, Peter falou sobre a notabilidade de sua horta. Durante a entrevista, Peter “atribuiu o sucesso da horta a bons métodos de fabricação de adubo e ao trabalho duro; ele achava que os horticultores escoceses tampouco aceitariam a ideia de uma ajuda por parte dos anjos” (MACLEAN, 1997, p. 71). Porém, tanto Peter, Eileen, como Dorothy concordavam que o sucesso da horta devia-se às práticas espirituais.

Dorothy recebeu um chamado interior de que deveria cooperar de forma mais direta à natureza, pois isso atrairia a atenção dos espíritos das nuvens, da chuva e dos vegetais. Esses “seres” ficariam muito felizes por estabelecer novamente contato com os seres humanos. Dorothy focou sua meditação na horta de ervilhas, vegetal que escolheu por gostar muito dele. Em uma de suas meditações teria feito contato com uma presença que representava a essência da ervilha (LINDFIELD, 1992). A presença teria dito ainda que no reino vegetal não há rancor daqueles que alimenta, já os humanos pegam o que podem como algo lógico e natural e não agradecem. Essas “vozes iluminadas” Dorothy chamou de “devas”, que, em sânscrito, significa “aqueles que brilham”.

Ao longo dos primeiros nove anos da Comunidade de Findhorn, Peter Caddy esteve à frente, liderando seu funcionamento. “Eileen recebia mensagem diária de seu Deus interior e Peter transformava essas orientações em ações. Não havia discussões nem hesitações” (LINDFIELD, 1992, p. 193).

Em 1970, um anúncio feito por Eileen provocou uma mudança no comportamento de seus membros: não recebia mais orientação diariamente para a Comunidade. David Spangler e Myrtle Glines, então membros responsáveis pela Comunidade, passaram a estimular os participantes para que compreendessem os princípios espirituais, fomentando neles a responsabilidade por ela.

A Comunidade, com o tempo, foi adquirindo magnitude e seu funcionamento caminhando sob o princípio da cooperação. O foco no espiritualismo e na escuta interior norteou o crescimento do projeto enquanto Comunidade. Somente em 1972 a Comunidade foi formalmente registrada como instituição de caridade escocesa, passando a chamar-se Fundação Findhorn. No período compreendido entre 1970 e 1980, o número de membros cresceu para aproximadamente 300. Em 1997, foi reconhecida como organização não governamental (LIMA, 2014).

O crescente desenvolvimento da Comunidade levou Peter Caddy a descentralizar as decisões, a compartilhar com outras pessoas as responsabilidades, sem perder o foco, mantendo a missão inicial e as qualidades indispensáveis a cada grupo de trabalho. Essas pessoas foram denominadas “focalizadores”, designação dada a quem leva adiante um grupo de DCS. Na Comunidade, o focalizador não tem como função comandar as pessoas, mas manter a referência espiritual e o sentido cooperativo do grupo. Nos anos 80, a Fundação adquiriu terras em seu entorno. Aos poucos a Comunidade foi solidificando-se em seus princípios e valores, baseada no compartilhar e no compromisso com a espiritualidade não doutrinária. São “leis de Findhorn”: o pensamento positivo; o domínio da consciência, nunca utilizar a palavra “se”, mas a palavra “quando”; não se projetar num futuro imaginário irrealista e sim no aqui e no agora, na totalidade da realidade presente; sinergia criativa.

A relação de Bernhard Wosien com a Comunidade de Findhorn teve seu apogeu a partir de um convite feito por Peter Caddy, um dos fundadores da comunidade, “para compartilhar seus conhecimentos das tradições da Dança Sagrada do leste europeu durante a Conferência da Renovação Espírita Europeia”, momento em que passaram a conhecer-se (BARTON, 2012, p. 15). Era outubro de 1976, Bernhard, acompanhado de sua filha Maria- Gabriele, ensinou um conjunto de danças circulares.

Como fora abordado em alguns parágrafos anteriores, Bernhard após muito tempo dedicado ao ballet clássico, vislumbrou-se pelas danças dos povos, pois elas vinham da sabedoria da Alma dos Povos e de suas qualidades espirituais, contrapondo-se à rigidez e ao mecanicismo do método clássico. Ele encontrou nas danças um solo fértil para desenvolver seu trabalho: uma forma corporal mais orgânica de expressar os sentimentos. Nesse sentido,

a impressão do Professor era de que a dança folclórica tradicional estava começando a mudar e suas raízes estavam sendo esquecidas. Antigamente, a aldeia toda dançava junto com um objetivo: celebrar um nascimento ou casamento, pedir chuva para as plantações, agradecer uma boa colheita etc. Mas, ultimamente, as danças estavam sendo executadas por lindos jovens bailarinos para demonstrar sua cultura para os turistas e visitantes. Um dos desejos de Wosien era trazer de volta um tempo em que

as pessoas reconheciam o valor espiritual de dançar junto e onde velhos e jovens pudessem dançar juntos outra vez (BARTON, 2012, p. 16, grifo meu).

De todas as danças que havia estudado, as preferidas de Bernhard Wosien eram aquelas que ainda tinham suas raízes na fé, como ele mesmo deixou registrado (2000). E complementa: “nas formas mais antigas das danças circulares encontrei o caminho para a meditação da dança, como um caminhar para o silêncio. Esta meditação tornou-se para mim e meus alunos uma oração sem palavras. Sintonia de acordes harmônicos do espírito, do corpo e da alma” (WOSIEN, 2000, p. 117).

Nos anos seguintes, ele voltou para a Comunidade levando consigo mais danças, muitas delas coreografadas por ele mesmo, como o Cânon em Ré Maior de Pachelbel, a Allemande de Bohm, entre várias peças de Bach. Foram de sua autoria, também, danças rituais, usando danças tradicionais e recém-criadas, poesia e prosa. Dentre elas pode-se citar Teseu e o Minotauro, o Hino de Jesus e O Pentagrama, todas apresentadas no Universal Hall, na Fundação Findhorn (BARTON, 2012).

Grande parte das danças encontradas por Bernhard era de natureza alegre e vibrante, as quais denominou de “solares”. Coreografou e difundiu, também, as danças introspectivas, chamadas de “lunares”, pois constatou que elas haviam desaparecido.

Bernhard batizou o conjunto de suas danças de “Dança Sagrada”, do alemão Heilige

Tanze. Passados alguns anos, ele mesmo passou a questionar se sua escolha por Sagrada teria

sido a escolha certa, pois a palavra apresenta conotações de cunho religioso e o que queria expressar era a espiritualidade das danças. Cogitou a mudança para “Cura Holística”, mas era impossível mudar o nome, então, envolvido pelo discurso de muitos de seus seguidores, manteve a palavra Sagrada, pois as danças não representavam somente atividade física, mas um cingir dos corpos mental e emocional, (re) ligando-os e alinhando-os com a terra e o espírito.

É preciso dançar essas danças, para descobrir isso; é preciso se tornar muito presente para nos apropriarmos delas, para sentir e vivenciar seu efeito curativo e terapêutico. Então se abre, para o bailarino, a sua origem religiosa, o caminho para a unidade e a solução da passagem do singular para o comunitário, para um estar junto em vibração. E fluem, então, energias dos dançarinos, vindas de uma fonte que continuamente se regenera (WOSIEN, 2000, p. 109).

A proposta das Danças Circulares na Fundação Findhorn era desfrutar o dançar junto de forma não competitiva, sentindo-se confiante no grupo, agindo de forma mais solidária do que crítica, sentindo o contato com a terra, com o espírito e com cada participante a partir das

qualidades que compõem cada dança, utilizada, também, como ferramenta para canalizar a energia de cura para os dançarinos e para o Planeta. A Dança Sagrada de Findhorn diferencia-se de qualquer outro tipo de Dança Sagrada pela alta energia concentrada em algumas danças que evocam sentimentos, concebendo a unidade, a harmonia do grupo, a alegria, a paz, entre outros. “O que eu vivenciei foi a força da roda” (WOSIEN, 2000, p. 106). A frase de Bernhard Wosien expressa o caráter esotérico da dança, outra característica identificada por ele.

No caminho da maestria da dança cheguei à conclusão básica de que a dança, como a manifestação artística do homem, é um caminho esotérico. O trabalho do bailarino acontece no seu instrumento, ou seja, no seu próprio corpo. Trata-se do trabalho a partir da base, a partir do interior da imagem perfeita de Deus [...] o trabalho está nos fundamentos de nossa autocompreensão, no ser humano como imagem de Deus (WOSIEN, 2000 p. 26).

Em Findhorn, como em qualquer outro lugar do Planeta, as Danças Circulares Sagradas permitem, assim como na música, que o ser humano possa manifestar os altos e baixos de seus sentimentos. Como oração e conversa com Deus sem o uso de palavras, o dançarino encontra o silenciar e o recolhimento para o deleite da alma: “a nossa dança deveria ser a nossa oração, porém, não só no caminhar silencioso do andante, mas também nos saltos alegres do alegro vivo” (WOSIEN, 2000, p. 119).

Milhares de pessoas contagiadas com a proposta difundida em Findhorn passaram a dançar juntas as danças de rodas, encontraram o caminho para a meditação da dança, fazendo desta prática um momento de elevação do espírito em busca da paz interior, reverberando a antiga tradição de “ao dançar, o mundo é de novo circulado e passado de mão em mão. Cada ponto na periferia do círculo é ao mesmo tempo um ponto de retorno” (WOSIEN, 2000, p. 120).

As Danças Sagradas iniciadas em Findhorn e hoje espalhadas pelo mundo reúnem inúmeras qualidades e seus significados podem ser imensuráveis, pois para cada praticante a dança proporciona uma experiência singular. É como se fôssemos tocados pela mão de Deus; no embalo da roda, aquele que busca Deus é um homem cujo pensamento acerta o passo com o seu pé – dito de um mestre sufi do início da idade média (WOSIEN, 2002b). Ao dançarmos percorremos o caminho inverso ao nosso tempo e ao momento presente, na intenção de acertar o que ficou errado, de organizar o que permaneceu fora do lugar, de perdoar e consertar o estrago, de afinar o instrumento desafinado, para poder, enfim, continuar a fazer parte da totalidade e caminhar como os antigos povos, reverenciando a vida. “Nas Danças

Circulares não há plateia. Qualquer um pode dançar. Basta entrar na roda e abrir-se para o encontro além da palavra” (OSTETTO, 2006, p. 73), para além do gesto, do som, do número, da imagem, para além do corpo e da mente.

No documento 2016RodrigoMadaloz (páginas 60-67)