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Conhecimento geracional: Aprendi com a mãe, com o pai

11 Família

11.4 Conhecimento geracional: Aprendi com a mãe, com o pai

Ih, tirar leite? Desde os doze, treze anos eu tirava leite, a mão, com a minha mãe. A mãe fazia queijo pra vender e daí eu aprendi a tirar desde pequena, desde nova, daí até hoje bem dizer, agora a gente tira só pro gasto né, mas antes tinha né a vacaiada de leite. Aprendi tudo em casa. (Flávia)

Também os trabalhos que elas fazem foram aprendidos com as mães, com os pais, avós ou demais familiares, são falas que retornam às situações vividas. Flávia relembra a lida com as vacas na infância e a lida na posteridade, quando adulta utiliza os conhecimentos repassados pela mãe, que também fazia queijo.

I - Ah vem de lá do meu pai ainda, da minha mãe, que eles sempre tiveram os bichinhos, sempre tinham pro gasto, pro consumo...

M - Tu nem saberia dizer que momento exato, pois como tu falou, desde muito cedo tu já acompanhava teus pais no trabalho...

I - É, a gente leva, desde lá dos pais. (Inês)

Os pais, desde pequena sempre lidando né. (Rosa)

O cuidado com os animais e a alimentação para o consumo fazem parte das memórias de Inês, as práticas tanto de seu pai quanto de sua mãe, aprendizados valorizados e ainda utilizados por ela. Igualmente Rosa, que desde pequena esteve envolvida no trabalho rural.

Quando eu tava lá com a mãe, lá, trabalhar com as vacas eu aprendi lá. (Mariana)

Eu também, com a minha família, desde sete anos que ia pra roça, bota adubo, meu pai da terra! Nossa, às vezes a gente tinha que deixar até de ir no colégio pra ir ajudar o pai, porque eu era mais velha né, daí tinha que tá sempre lá”. (Neide)

Flávia especifica o trabalho com o leite, mas em outros momentos também falou do aprendizado com as plantas herdado, Inês reporta ao cuidado com os animais,

e parreirais, as demais referem-se à adubação da terra, as lidas que abrangem todo e qualquer fazer rural, incluindo deixar de ir à escola para trabalhar, enfatizado nas palavras “ajudar o pai”. Afinal no papel de filha mais velha Neide precisou abandonar os estudos para dar continuidade ao trabalho na agricultura. “Desde pequenininha, porque desde pequeninha que eu via meu pai roçando, meu pai e minha mãe plantando, né.” (Inês)

Há no fazer rural o aprendizado mediado pelos saberes dos mais velhos, as gerações vão se utilizando destes através da visualidade e da oralidade, a ponto de não especificarem um marco cronológico referente à quando começaram a trabalhar e em que momentos aprenderam, pois isto passa por uma certa absorção destes saberes- fazeres, sem data e continuamente repassados que dizem respeito aos habitar um espaço para além das atividades, também voltados para a observação do céu, por exemplo.

O aprender sustenta-se e firma os laços de parentesco, produz vinculações entre os adultos e as crianças que através da observação e do acompanhamento vão realizando os trabalhos (Carneiro, 2001).

As facetas do trabalho rural são narradas desde a infância destas mulheres:

M - E tu começou a trabalhar quando?

Desde bem pequena, que nem os filhos de antigamente né, com nove anos nós já trabalhava. (Rosa)

Quando Rosa fala dos filhos de antigamente ela faz uma diferenciação entre os filhos de hoje, pelas alternativas que os últimos possuem.

Ah, des... com minha mãe, com meu pai comecei lá aprender, pequena ainda com onze anos comecei tirar leite e a mãe ainda, não tinha ordenha, não tinha nada, era tudo a mão. E nas lavouras também, naquele tempo não tinha máquina, e daí tinha que plantar soja e milho com máquina à mão. (Neuza)

Neuza remete seu aprendizado aos pais, das atividades externas aos serviços domésticos que concorriam com seu tempo de estudos.

Nas falas seguintes, durantes as visitas, há alusão ao aprendizado com a mãe, o pai, e avós:

Ela diz que sempre morou no interior, e na casa de seu pai eles trabalhavam com o fumo, detalhadamente conta como funcionava o trabalho, desde o plantio, a forma de inserir o agrotóxico após a retirada das flores e o armazenamento nos galpões “ah lidar com fumo é uma trabalheira, e o preço que pagam é muito baixo, é cansativo, sempre tem um monte de coisa pra fazer, tem que cuidar”, pergunto se continuam com este serviço, diz que não, agora plantam amoras. Comento “ah então você já tava costumada com esse serviço do interior, não foi surpresa quando chegou aqui”, concordou comigo, e diz que sempre gostou de trabalhar no interior, nunca pensou em morar em cidades. (Mariana)

Aprendizagem dos fitoterápicos

Ainda que a pesquisa não tenha se proposto a tal análise é importante mencionar o quanto o aprendizado geracional, principalmente àquele relacionado a manipulação das plantas e plantas medicinais, está presente. Os chás para as dores são facilmente preparados pelas mulheres, as queixas dos conhecidos, familiares ou as próprias são prontamente atendidas, sejam dores momentâneas (dores de cabeça, estômago, cólicas, etc.), doenças crônicas ou de ‘nervos’ (desânimo, ansiedades, estresse).

Verifica-se uma relação entre o corpo e a natureza mediada, sobretudo, pelas mulheres que transformam e disponibilizam, conforme o possível, a ‘cura’. Essas pautas encontram no grupo de reuniões maior visualização, trocam receitas, sementes e plantas. Os médicos são visitados esporadicamente e somente se as primeiras não surtirem efeitos.

Hoje participei de um encontro de um grupo de mulheres formado por iniciativa da Emater, que aconteceu na sede do STR, o grupo chama-se: Sementes da Esperança. O objetivo do grupo é a formulação de remédios caseiros a partir de plantas medicinais, suas integrantes têm idades de quarenta até setenta anos. Desenvolvemos uma pomada com fins terapêuticos para rachaduras, machucados, queimaduras e outras dores localizadas, chamada ‘pomada milagrosa’.

Ao chegar cumprimentei as mulheres e logo recebi um abraço de uma das integrantes. Devido ao município ser pequeno algumas pessoas já me conheciam ou ao menos conheciam meus pais, filha de fulano e filha de ciclana, como geralmente as pessoas se reconhecem por aqui. Sobre a mesa estavam

várias plantas, galhos, folhas, sacolas e potes, a coordenadora disponibilizou o passo-a-passo da receita e as mulheres prontamente desenvolviam o solicitado. Inicialmente pensei que minha presença pudesse causar algum estranhamento afinal, o grupo já acontecia há alguns meses e eu nunca houvera participado, porém, isso não ocorreu, cada uma desenvolveu suas atividades e conversou. Resolvi me inserir na atividade de desfolhar um galho cujas folhas seriam matéria-prima da pomada. Logo as mulheres começaram a falar o nome das plantas, para o quê eram boas, como preparar os chás com as ervas. Pude perguntar algumas coisas e anotar dicas. Cada uma conhecia uma erva ou benefício diferente. Notei que o meu interesse em seus conhecimentos e no que estavam fazendo as estimulava a responder as minhas perguntas.

Uma erva para dores de dente, outra para enjoo, cálculos renais ou preparo de filtros solares, dentre os ingredientes, inclusive, cera de abelha. Todas pareciam realmente envolvidas no preparo, cada uma encontrava uma tarefa, e não precisava sequer pedir para que fizessem coisas, elas deliberadamente trabalhavam e compartilhavam seus saberes.

Não sei se era um encontro de produção de pomadas ou antes um encontro entre amigas. Circulei um pouco, conheci algumas pessoas, fui reconhecida também por elas, aos poucos me senti bem-vinda neste espaço. (Diário de Campo)

Obviamente o grupo não restringe seu alcance a produção dos fitoterápicos ou de alimentos, mas é um espaço importante para as mulheres que dele participam (é preciso frisar que não é um grupo aberto, foi promovido através da iniciativa de um grupo de mulheres, a única representante da Emater do município, em parceria com o STR), é um espaço de reunião de pessoas, conversas, aprendizados, além de ser uma alternativa de saída das mulheres das propriedades. Os encontros acontecem uma vez ao mês, e em cada um há atividades variadas programadas. Dois destes encontros foram destinados um à produção do relógio da vida e outro a viagem até Gravataí para que as mulheres conhecessem uma sede de produção de fitoterápicos. Das participantes da pesquisa, três fazem parte deste grupo: Inês, Flávia e Neuza.

As mulheres além do papel de produtoras no trabalho, tem um importante papel na reprodução dos conhecimentos, conjuntos que englobam não somente materialidades, pois são patrimônios simbólicos que encontram expressão na passagem às gerações seguintes, variáveis em cada contexto rural, conforme suas características. (Carneiro, 2001)

A reprodução da cultura tem aspectos sociais, econômicos, técnicos e ambientais, sobre o último o destaque da pertença ao rural como espaço de vida, unido

ao trabalho e aos laços de parentesco e comunitários (Wanderley, M. 2000). Retomando Benjamin (1987), parte do patrimônio além da herança em si e dos aprendizados, está nas narratividades, contações de histórias e na possiblidade de reativá-las.