12 Trabalho e gênero
12.6 Mudanças ao longo tempo: direitos e conquistas
“Na época a mulher não tinha direito nenhum.” “Não recebia um centavo.”
Ao contarem histórias de suas mães e avós reiteram que na época destas havia diferenças radicais nas relações com os maridos, pais e irmãos. Algumas falas, como as acima apresentadas, trazem à tona certas modificações que ocorreram há pelo menos trinta ou quarenta anos, demonstrando que a diferença geracional alude às diferentes formas de aprendizagens e sociabilidades ao longo do tempo.
Ressalta-se aqui os movimentos de mulheres que despontaram em todo o Brasil, e também àqueles a partir de 1980 após a redemocratização, acrescidos dos direitos concedidos pela constituição, dentre os quais: aposentadoria, assistência referente aos acidentes de trabalho e o salário maternidade. Somente após as conquistas e regulamentações trabalhistas que as pautas de gênero entram efetivamente em cena, ainda que estas mesmas pautas tenham influenciado as primeiras, principalmente as que dizem respeito a: licença maternidade, reconhecimento profissional e a fundação de creches.
Como bem coloca Paulilo (2004) essas são garantias que beneficiam a todas as pessoas e não somente as mulheres, e para além do grupo familiar. Sobre o último, é
justamente esta coesão, a noção grupal (de ‘familiar’) que possibilita ao movimento uma ferramenta importante na reivindicação de direitos, ainda que seja neste mesmo ponto que as pautas feministas esbarram, no obstáculo da ideia de família como algo enrijecido, baseada num modelo ainda patriarcal, e que, portanto, precisa ser debatido, refletido e questionado.
A família organiza-se de modo a considerar os saberes compartilhados entre as gerações passadas para as atuais, saberes estes que compõem um conjunto de conhecimentos, de ‘herança simbólica’ que participa na subjetivação das pessoas e em seus modos de socialização. Mas há também a presença da hierarquia constituída por meio de gênero.
As famílias das participantes visitadas, e também suas famílias de origem, conhecidas através das histórias por elas contadas, seguem um padrão cisheteronormativo (relacionamentos heterossexuais, designação automática de certa identidade de gênero, atribuída por vezes antes do nascimento, em relação a características corporais, e a condição de normalidade atribuída a tal perspectiva em detrimento de outras possíveis), patriarcal e monogâmica.
Sobre as vivências de sexualidade ainda é um tema velado, o trato com o assunto adentra no universo do casamento, território íntimo demais.
Se não era possibilitado à mulher o direito de decidir ou contar com a remuneração por seus trabalhos, hoje as participantes não se veem assim, mencionam que as relações com os maridos estão mais igualitárias, ainda que algumas não participem das decisões financeiras da propriedade e desempenhem suas duplas e triplas jornadas, igualmente a suas mães, ou avós também agricultoras.
Mas, no universo da vida privada, consomem horas decisivas no trabalho doméstico, este que fornece e cria, numa esfera de trabalho não diretamente mercantil, condições indispensáveis para a reprodução da força de trabalho de seus maridos, filhos/as e de si própria (Antunes, p. 108).
Os discursos são enfáticos quando partem do pressuposto da mudança em relação às antecessoras:
Aquela época a mulher era submissa, não podia falar nada, não é como hoje. Não, uma vez não era, era bem difícil, bem diferente no tempo da... hoje não, hoje mudou bastante pra melhor, pras mulher né... (Diário de Campo, Rosa)
Sobre se há alguma diferença entre o tratamento dados aos homens e mulheres no interior:
No meu ponto de vista eu acho que não, até não vejo isso, hoje em dia mudou um monte né, as mulheres têm o mesmo direito dos homens. (Rosa)
Seguindo raciocínio semelhante, Neide conta:
Agora não mais né porque esses anos já foi bem pior, mas agora a gente tem quase igualdade do homem, acho que... agora não, eu penso assim, eu acho que não né porque uma vez né, as mulheres eram umas escravas, hoje não. Nossa uma época as mães, as mulheres não viam um centavo, tinha que ser tudo com os maridos, agora não, hoje em dia a gente... (Neide)
Se hoje elas consideram portar “quase igualdade do homem” é porque foram espectadoras das vidas destas outras, “as escravas”. Ainda que as palavras quase e escravas pesem: o quase é um sinal de avanço, mas também de falta, da carência, de um certo atraso na busca do mínimo: direitos garantidos, que para as mulheres estão distantes; escravas é da ordem do trabalho e da ausência de retorno financeiro, da desvalorização, da privação da liberdade, da sujeição a um outro, um outro que seria um homem, o pai ou o marido.
Porém suas falas provocam a reflexão acerca das enfáticas metamorfoses no rural, e estas comparações com as mulheres do passado torna isso acessível. Atualmente as participantes não se posicionam neste lugar, mas num outro, com possibilidades, e porque não, com autonomia?
É neste sentido que Mariana faz uma torção na resposta esperada, quando perguntada se sentia algum tipo de diferença ou preconceito por ser mulher “Agora não... às vez, por ser mulher a gente é melhor reconhecida que um homem”. (Mariana)
Há na sua resposta uma referência ao tempo em que as mulheres eram desvalorizadas e ao tempo atual que com suas transformações garantem à mulher o reconhecimento, podendo este ser superior ao dos homens. Sua reflexão é rica, pois fala da sua experiência enquanto uma mulher que é reconhecida.
As relações ao longo do tempo ficam evidenciadas nas falas, mas as relações de gênero no trabalho não são pautas discutidas nas famílias embora aparecem nas práticas e enunciados.
Em nenhum momento qualquer tipo de violência foi mencionada, os ‘agora não mais’, ‘hoje é diferente’, demarcam a distinção historicamente percebida no tratamento dos homens para com as mulheres, os discursos tangenciam as violências sentidas ou presenciadas, mas não adentram à discussão. O que não é mais como era no passado? A resposta está nos silenciamento entre as frases. A violência contra a mulher não aparece diretamente nos discursos. O que cabe às mulheres é o que cabe as normas de socialização geracionalmente atualizadas, ainda que haja modificações, que são evidenciadas como potentes neste estudo de caráter exploratório, a rigidez da aprendizagem do que condiz a um certo papel historicamente construído para as mulheres, ainda persiste.
As definições de trabalho e cuidado estão envolvidas de forma tão híbrida, que como propõe Hirata (2014), pode contribuir para certa romantização, através da obrigatoriedade de execução de tarefas como formas de demonstração de afeto pela família, novamente, demarcadas por gênero.