12 Trabalho e gênero
12.3 Infância: estudos e trabalho
A questão da escolarização denota também as dificuldades existentes para que as participantes estudassem. A conclusão de seus estudos deu-se no ensino fundamental, variando de até a 4ª para até a 8ª série.
Por meio das próprias experiências, compreende-se o incentivo que oferecem para que, principalmente, as filhas sigam estudando. O desejo destas mulheres que são mães de que os filhos estudem, e aqui especificamente de que as filhas estudem, é contornado pelas suas próprias histórias com o objetivo de superá-las. Hoje, entre o estudo, o trabalho e o casamento, o incentivo é direcionado para o trabalho e/ou o estudo, mesmo causando o afastamento destas filhas dos territórios rurais. Quando isso acontece, algumas retornam após os estudos, outras não.
Estudei até a 4ª série, não tinha como eu estudar mais porque minha mãe teve meus dois irmãos, mais novos do que eu, e eu sou a mais velha e daí não teve mais como eu estudar, eu tive que parar e ficar cuidando dos irmãos mais novos, não teve mais como eu ir... em compensação também que o colégio era
longe, daí dependia de ônibus (...) tinha ônibus que passava né, mas daí eu tinha que sair de casa e a mãe com dois pequenos, diferença de um ano (...) eu ia completar 11 anos quando minha mãe ganhou um e logo depois já ganhou o outro, daí ficou os dois juntos. (Inês)
Até a quinta série. Nós ia a pé [para a escola], eu tinha irmãos mas minha hora de ir na aula era sozinha, daí eu ia a pé sozinha (...) Desde os onze anos que eu comecei mais no pesado né porque se não antes era limpar a casa, já fazia antes, eu sempre me lembro que eu tinha o quê? Nove, dez anos e eu ia na aula, tinha que fazer, primeiro limpar a cozinha que diziam, tinha que varrer fora a cozinha, limpar o fogão e depois ir pro colégio, era sempre chegar atrasada lá... (Neuza)
O trabalho é incorporado desde muito cedo e varia conforme a idade, as crianças têm suas tarefas, consideradas ‘ajuda’, a fim de contribuir com as dos adultos. Na agricultura estas práticas fazem parte de um conjunto que envolve a aprendizagem e a socialização, a última ancorada numa rede de interação entre pessoas, iniciada ainda em terna infância onde são ensinadas às crianças alguns padrões sociais prenhes de significados, transmitidos pelos cuidadores ou grupos próximos. Partem do macro ao microcosmo individual, é através destes modelos que a criança toma contato com o mundo ensinado para ela, tornando-se então o seu mundo (processo não totalmente passivo, pois também encontra maneiras de resistências das crianças), no momento de seu ingresso, a criança não só participa dele, mas o transforma (Berger & Berger, 1977).
Com base nas experiencias de Inês e Neuza, e as observações feitas durante a estada com as famílias, as atividades das crianças são uma constante, e distribuídas com base na divisão sexual do trabalho. Os meninos são convocados para os serviços externos e as meninas para os serviços domésticos e que envolvam o cuidar. Conforme o passar do tempo estas determinações são flexibilizadas especificamente para as mulheres que passam a executar quaisquer atividades na propriedade.
Estas divisões embasadas e reafirmadas nas discursividades de modelos de gênero, com especificidades e restrições, dizem de um processo educativo e geracional que coloca as mulheres em condições de subordinação. Podemos também recorrer a Bordieu (2002) quando do ‘adestramento dos corpos’ (p.35) e suas inserções paulatinas nas predeterminações, nos ‘jogos sociais’ (p.35), com maiores ou menores performances instituídas pelo poder.
Os modos de socializações são marcantes ao longo do desenvolvimento das crianças, de forma a demarcar atribuições daquilo que é desejável para os filhos: o montante de características que atendam aos padrões esperados entre eles e elas, as masculinidades e feminilidades, os trabalhos aprendidos desde cedo, as permissões e as restrições também impostas atendendo certo caráter assimétrico de gênero.
A conciliação entre a educação formal e o trabalho em outros tempos era tão dificultosa que de todas as participantes da pesquisa nenhuma pode continuar seus estudos para além do período fundamental em virtude dos trabalhos, dentre eles o cuidado dos irmãos mais novos.
Rosa contou que quando criança estudavam até a 5ª série e não mais. Além do trabalho em casa e o cuidado dos irmãos [ela tem nove irmãos], havia o trabalho na roça, e a falta de energia elétrica (Diário de Campo).
A inclusão da parte dos estudos não visa demonstrar a escolaridade das participantes, mas propor questionamentos às futuras problematizações concernentes ao quanto o contexto escolar nas áreas rurais é algo de constituição recente.
O acesso à escola fora marcado pelas distâncias que precisavam percorrer, totalmente ou, ao menos a maior parte do trajeto a pé, nos dias de calor e nos dias de frio, sem calçados apropriados, sem segurança, com acesso restrito aos materiais didáticos, somados às cargas de trabalho em casa (principalmente no caso das meninas que desde cedo conciliavam afazeres externo e internos). Todos estes elementos foram responsáveis pelo impedimento de dedicarem-se aos estudos e conteúdos que requeriam um tempo que elas não dispunham.
Esta foi a realidade da educação no interior para tais agricultoras, para as quais a continuidade na formação nunca fora uma opção. Algumas delas relataram a saída dos irmãos para estudar, e para estes fenômenos, gênero e classe se interseccionam, quem sai e porquê sai, e quem fica e porquê fica.
O rural de hoje é diferente do rural de 40 ou 80 anos atrás, e as gerações quando invocadas nos relatos: as avós, mães e filhas, possibilitam que olhemos atentamente estas dinâmicas e suas novas produções.