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3 NORMAS DE PROTEÇÃO DO CONSUMIDOR NO COMÉRCIO

3.1 REGULAMENTAÇÃO INTERNACIONAL DO COMÉRCIO

3.2.2 Código de Defesa do Consumidor e Comércio Eletrônico

3.2.2.2. Consumidor virtual

Por visar amparar todas as pessoas envolvidas direta ou indiretamente nas relações de consumo, o Código de Defesa do Consumidor apresenta o conceito de consumidor padrão ou standard e ainda traz o conceito de consumidores por equiparação: a coletividade de pessoas, ainda que indetermináveis; as vítimas do acidente de consumo; e aqueles que estiverem expostos às práticas comerciais, conforme veremos.

Logo no início do Código de Defesa do Consumidor, em seu art. 2°, o legislador se preocupou em conceituar o que considera como consumidor padrão ou standard: “toda pessoa física ou jurídica que adquire ou utiliza produto ou serviço como

destinatário final”.

De acordo com o dispositivo acima transcrito, qualquer pessoa, física ou jurídica, poderá ser considerada consumidora, desde que assuma a posição de destinatária final do produto ou serviço na relação de consumo.

No entanto, conforme bem ressalta Roberto Pfeiffer, existem duas teorias que dividem a interpretação do conceito de consumidor como destinatário final: a teoria

finalista ou subjetiva e teoria maximalista. O autor ensina que “a teoria finalista

preconiza que o consumidor é apenas aquele que utiliza o produto ou serviço adquirido para seu uso próprio, sem utilizá-lo com fins econômicos, seja para revenda, transformação ou como insumo para produção de outros produtos ou serviços161.

Neste sentido, também é o posicionamento de José Geraldo de Brito Filomeno, o qual defende que o conceito de consumidor adotado pelo Código de Defesa do Consumidor foi exclusivamente de caráter econômico, levando-se em consideração tão-somente o indivíduo que, no mercado de consumo, adquire bens ou então contrata prestação de serviços, como destinatário final, pressupondo-se que, assim, age com vistas ao atendimento de uma necessidade própria e não para o

desenvolvimento de uma outra atividade negocial162.

Destinatário final para a teoria finalista é, portanto, o consumidor final que retira o produto do mercado de consumo e, ao mesmo tempo, o retira da cadeia de produção, ou seja, é aquele que não utiliza o bem adquirido para continuar a produzir, mas em proveito próprio.

161 PFEIFFER, Roberto Augusto Castellanos. Convenção Coletiva de consumo. Revista de Direito

do Consumidor, São Paulo, vol. 56, p. 347 – 354, out. 2005, p.347.

162 FILOMENO, José Geraldo Brito. Código Brasileiro de Defesa do Consumidor Comentado

Por outro lado, foi desenvolvida a teoria maximalista, que amplia o conceito de consumidor. Para essa corrente, o Código de Defesa do Consumidor tem o objetivo de regular todo o mercado de consumo e não apenas para proteger o consumidor não profissional, defendendo que a definição de consumidor preconizada no artigo 2° do diploma legal possui um conteúdo objetivo, sendo indiferente se quem o retira do mercado consome ou não para a realização de uma atividade econômica. Portanto, o consumidor seria o destinatário final fático do produto ou do serviço, aquele que o retira do mercado e o consome, ainda que seja para realizar uma

atividade produtiva163. Deste modo, sintetiza Roberto Pfeiffer para explicar a duas

teorias que definem consumidor final para o Código de Defesa do Consumidor:

Para a teoria maximalista haveria relação de consumo, uma vez que o produto é retirado da escala de produção, sendo, assim, o seu adquirente o destinatário fático do produto. Já para a teoria finalista, não haveria relação de consumo, uma vez que os produtos em questão foram adquiridos em razão do desenvolvimento de uma atividade empresarial e, assim, a empresa adquirente não será o seu destinatário econômico164.

Entretanto, a jurisprudência dos Tribunais Superiores, após calorosos debates, adotou a teoria finalista para pautar suas decisões, permitindo, no entanto, a extensão da aplicação do Código de Defesa do Consumidor nas hipóteses de reconhecida vulnerabilidade técnica, jurídica ou econômica no caso concreto, o que

vem sendo denominado de mitigação da teoria finalista165.

No comércio eletrônico, realizado entre fornecedor e consumidor final, quando este adquire o bem ou serviço pela Internet para seu próprio uso, sem visar a uma atividade empresarial, tem-se a figura do destinatário final. Portanto, enquadra-se

163 PFEIFFER, Roberto Augusto Castellanos. Aplicação do Código de Defesa do Consumidor aos

administradores de fundos de investimento. Revista de Direito do Consumidor, São Paulo, vol. 61, p. 190 – 199 jan., 2007, p. 190.

164 PFEIFFER, Roberto Augusto Castellanos. Aplicação do Código de Defesa do Consumidor aos

administradores de fundos de investimento. Revista de Direito do Consumidor, São Paulo, vol. 61, p. 190 – 199 jan., 2007, p. 190.

165 CIVIL. RELAÇÃO DE CONSUMO. DESTINATÁRIO FINAL. A expressão destinatário final, de que

trata o art. 2º, caput, do Código de Defesa do Consumidor abrange quem adquire mercadorias para fins não econômicos, e também aqueles que, destinando-os a fins econômicos, enfrentam o mercado de consumo em condições de vulnerabilidade; espécie em que caminhoneiro reclama a proteção do Código de Defesa do Consumidor porque o veículo adquirido, utilizado para prestar serviços que lhe possibilitariam sua mantença e a da família, apresentou defeitos de fabricação. Recurso especial não conhecido. (REsp 716.877/SP, Rel. Ministro ARI PARGENDLER, TERCEIRA TURMA, julgado em 22/03/2007, DJ 23/04/2007, p. 257)

perfeitamente no conceito de consumidor para os fins de aplicação do Código de Defesa do Consumidor.

Nesse sentido, considera-se consumidor virtual a pessoa física ou jurídica que adquire produtos ou utiliza serviços fornecidos na Internet, como destinatário final. Como exemplo, podemos citar as compras realizadas em site de comércio eletrônico de CD's, vídeos, livros, produtos alimentícios, programas de computador, eletrônicos, sem, no entanto, o intuito de revendê-los, assim como a utilização de

serviços bancários, criação de sites, contratação de seguros e viagens166. O

consumidor virtual é um sujeito à frente de um dispositivo eletrônico, com qualquer idade, identificável apenas por uma senha, número, assinatura eletrônica ou impressão biométrica.

O Código de Defesa do Consumidor traz, ainda, os conceitos de consumidores por equiparação, consubstanciados nos seguintes dispositivos: parágrafo único do artigo 2º, que aborda as pessoas equiparadas a consumidores; artigo 17, que destaca o consumidor enquanto vítima, ou seja, atingido pelos acidentes de consumo; e artigo 29, que enfatiza o consumidor exposto às práticas comerciais.

Trata-se de consumidor equiparado tal como descrito no parágrafo único do artigo 2º do Código de Defesa do Consumidor, a coletividade de pessoas que, de alguma forma, tenha participado nas relações de consumo. Esclarece o parágrafo único do

artigo 2º que “equipara-se a consumidor a coletividade de pessoas, ainda que

indetermináveis, que haja intervindo nas relações de consumo”.

Desta forma, o Código de Defesa do Consumidor amplia o conceito de consumidor, uma vez que equipara à condição de consumidor a coletividade de pessoas, ainda que indetermináveis, no entanto estabelece a necessidade de que tenham participado, de alguma forma, na relação de consumo. Conforme ensina Patrícia

Caldeira167, “o ponto de partida da extensão do campo de aplicação do CDC é a

166 BARBIERI, Diovana. A proteção do consumidor no comércio eletrônico: estudo comparado á

luz dos ordenamentos jurídicos brasileiro e português. Curitiba: Juruá, 2013, p. 64.

167 CALDEIRA, Patrícia. Caracterização da Relação de Consumo. Conceito de

observação de que muitas pessoas, mesmo não sendo consumidores stricto sensu, podem ser atingidas ou prejudicadas pelas atividades dos fornecedores no mercado”.

Portanto, a coletividade também pode ser tida como consumidor virtual, nos termos no parágrafo único do artigo 2º do Código de Defesa do Consumidor. Tomemos

como exemplo a seguinte hipótese – se um site de um fornecedor divulgar uma

publicidade enganosa ou inserir cookies nos computadores dos usuários, nesses dois casos, a coletividade, potencialmente consumidora e sujeita a sofrer o dano,

pode ser equiparada a figura do consumidor virtual168.

O artigo 17 do Código de Defesa do Consumidor, por sua vez, equipara à qualidade de consumidor as vítimas de acidente de consumo, que, mesmo não tendo sido consumidores diretos, foram atingidos pelo evento danoso. Determina o artigo 17

que “equiparam-se aos consumidores todas as vítimas do evento”. Importante

esclarecer que o conceito de consumidor trazido pelo artigo 17 do CDC aplica-se somente a Seção III do Código que cuida da responsabilidade civil objetiva do produto ou serviço.

Observa-se que, nesta passagem, o legislador preocupou-se com a responsabilidade perante terceiros, protegendo os denominados bystanders, ou seja, aquelas pessoas estranhas à relação de consumo, mas que, no entanto, sofreram prejuízos em razão dos defeitos intrínsecos ou extrínsecos do produto ou

serviço169. Dessa forma, o fornecedor de produtos ou serviços também possui

responsabilidade perante terceiros, já que os danos causados por vícios de qualidade dos bens ou dos serviços não afetam somente o consumidor, mas podem afetar terceiros estranhos à relação de consumo. Portanto, basta ser vítima de um produto ou de um serviço para assumir a posição de consumidor legalmente protegido, nos termos do artigo 17 do Código de Defesa do Consumidor.

CDC, p. 11 – 33. In: SODRÉ, Marcelo Gomes; MEIRA, Fabíola; Caldeira, Patrícia (orgs.).

Comentários ao Código de Defesa do Consumidor. São Paulo: Editora Verbatim, 2009, p. 21.

168 BARBIERI, Diovana. A proteção do consumidor no comércio eletrônico: estudo comparado à

luz dos ordenamentos jurídicos brasileiro e português. Curitiba: Juruá, 2013, p. 65.

169 FILOMENO, José Geraldo Brito. Código Brasileiro de Defesa do Consumidor Comentado

Assim sendo, os terceiros, vítimas de acidente de consumo, também podem ser enquadrados como consumidor virtual, como preconiza o artigo 17 do Código de Defesa do Consumidor. Imaginemos a situação em que um indivíduo utiliza um provedor de acesso contratado por um membro da sua família e quando da realização de uma contratação eletrônica há uma interrupção culposa do serviço, gerando danos patrimoniais ao usuário. Nesse caso, o terceiro, ainda que não possua vínculo contratual com o fornecedor (provedor), por ser caso de acidente de consumo, pode ser equiparado ao consumidor, e, portanto, ser ele um consumidor virtual.

O Código de Defesa do Consumidor determina, ainda, um último conceito de consumidor por equiparação quando exposto às práticas comerciais, no seu artigo

29, o qual prevê que “equiparam-se aos consumidores todas as pessoas

determináveis ou não, expostas às práticas nele previstas”. Ressalta-se que o

conceito de consumidor referido no artigo 29 do código consumerista é aplicável unicamente às situações inseridas nos capítulos "Das Práticas Comerciais" e "Da Proteção Contratual".

De acordo com o conceito apresentado no dispositivo legal acima citado, basta que a pessoa esteja exposta às práticas comerciais, dentre elas a publicidade, para ser enquadrada como consumidor. Portanto, não há necessidade de a pessoa ter participado efetivamente da relação de consumo ou, ainda, ter sido atingida por evento danoso, sendo necessário, apenas, estar exposta às práticas comerciais para receber a tutela concedida pelo Código de Defesa do Consumidor. Assim, ensina Patrícia Caldeira em relação ao conceito de consumidor previsto no artigo 29 do Código de Defesa do Consumidor.

Trata-se, portanto, de um conceito difuso de consumidor, na medida em que todas as pessoas são consumidoras por estarem potencialmente expostas a toda e qualquer prática comercial. É, como já dito, o aspecto mais abstrato da definição, que partindo do elemento mais concreto – daquele que adquire ou utiliza o produto ou serviço como destinatário final – acaba fixando de forma objetiva que se respeite o consumidor potencial. Daí, ter-

se que dizer que o consumidor protegido pela norma do artigo 29 é uma potencialidade. Sequer precisa existir170.

Dessa forma, sendo a oferta e a publicidade uma das atividades incluídas nas práticas comerciais contempladas pelo Código de Defesa do Consumidor, todas as pessoas expostas a tais práticas, ainda que no meio virtual, são consideradas consumidoras, de acordo com artigo 29. Assim sendo, os usuários expostos à publicidade e às ofertas on line, spam's e cláusulas contratuais abusivas podem ser enquadradas como consumidoras virtuais e fazem jus às proteções do Código de Defesa do Consumidor.