3 NORMAS DE PROTEÇÃO DO CONSUMIDOR NO COMÉRCIO
3.1 REGULAMENTAÇÃO INTERNACIONAL DO COMÉRCIO
3.1.1 Lei Modelo da UNCITRAL sobre comércio eletrônico
A UNCITRAL (United Nations Comission on International Trade Law)119 é a
Comissão das Nações Unidas para o Direito do Comércio Internacional, criada pela Assembleia Geral das Organização das Nações Unidas (ONU) em 1966. Tem como função realizar convenções, elaborar normas, leis-modelos e guias legais que visam à universalização e à harmonização das contratações internacionais para facilitar o comércio mundial.
Nesse contexto, diante das transformações comerciais advindas com os avanços da Internet, os países integrantes da Organização das Nações Unidas abriram uma discussão acerca da importância do comércio eletrônico para promover o desenvolvimento do comércio global e os inúmeros aspectos legais sobre o tema. A preocupação inicial era quanto à obrigatoriedade de os documentos serem assinados fisicamente, por meios baseados apenas no papel, o que atravancava a comunicação eletrônica no comércio internacional, sendo, então, recomendada a permissão do uso de meios eletrônicos de autenticação quando fosse apropriado. Em seguida, tendo em vista a permanente ausência de harmonização das regras aplicáveis ao comércio internacional, em 14 de julho de 1996, a UNCITRAL elaborou a Lei Modelo sobre o Comércio Eletrônico (UNCITRAL Model Law on Eletronic
118 Diretivas são fontes formais secundárias do direito comunitário produzidas no âmbito das
instituições comunitárias.
119 UNITED Nations Comission on International Trade Law. About UNCITRAL.Disponível em:
Commerce), com o objetivo de fornecer diretivas para os países desenvolverem
suas próprias leis voltadas a regulamentar o comércio eletrônico em cada nação. A Lei Modelo da UNCITRAL destina-se às relações resultantes de intercâmbio eletrônico de dados no contexto de atividades comerciais e inclui, portanto, desde as formas menos avançadas de comunicação como o fax, por exemplo, até o comércio eletrônico. Assim, tem-se que a lei não exclui nenhuma técnica de comunicação do seu âmbito de aplicação, abarcando qualquer forma de mensagem eletrônica em que se produzam, arquivem ou comuniquem informações.
Segundo Jorge José Lawand120, a Lei Modelo da UNCITRAL pode ser vista como o
primeiro grande texto jurídico que estabelece uma disciplina normativa para o comércio eletrônico, tendo como base três fundamentos: oferecer aos legisladores a possibilidade de utilizar a mesma lei nacional e internacionalmente, não modificar as normas jurídicas de tutela dos consumidores e tratar somente das relações eletrônicas envolvidas pela área contratual.
Assim sendo, destaca-se, como principal objetivo da Lei Modelo da UNCITRAL, oferecer aos legisladores nacionais um conjunto de regras internacionalmente aceitáveis que lhe permitam eliminar alguns obstáculos jurídicos, proporcionando um ambiente legal confiável para o desenvolvimento mais seguro do comércio eletrônico, aplicando-se a qualquer tipo de informação na forma de mensagem de dados usada no contexto de atividades comerciais realizadas no âmbito digital. Quanto ao seu conteúdo, primeiramente a Lei Modelo regula o comércio eletrônico de uma forma genérica e, em seguida, disciplina o seu emprego em determinadas áreas específicas da atividade mercantil, como o transporte de mercadorias. Inicia, no Capítulo I, determinando o seu âmbito de aplicação e definindo o que seria mensagem eletrônica; transmissão eletrônica de dados; remetente e destinatário;
intermediário e sistemas de informação.121
120 LAWAND, Jorge José. Teoria geral dos contratos eletrônicos. São Paulo: Editora Juarez de
Oliveira, 2013, p. 66.
121 Artigo 1º - Âmbito de aplicação. Esta Lei aplica-se a qualquer tipo de informação na forma de
No seu Capítulo II, a Lei Modelo especifica um importante princípio para pautar as atividades no comércio eletrônico, o princípio da não-discriminação, disposto no seu art. 5º, ou seja, determina que não serão negados efeitos jurídicos, validade ou eficácia à informação na forma de mensagem eletrônica.
Com efeito, a lei enumera diversas regras que definem quais seriam os equivalentes aos documentos escritos, à assinatura e ao original no meio digital, assim como apresenta regras quanto à importância das mensagens eletrônicas, à retenção de dados das mensagens, à formação e à validade dos contratos eletrônicos. Trata-se de regras que dispõem sobre os requisitos de forma que são aceitáveis no comércio eletrônico. As regras contidas no Capítulo III da Lei Modelo tratam da formação e da validade dos contratos eletrônicos, o reconhecimento da eficácia das declarações de vontade das partes feitas por meio eletrônico e as demais regras aplicáveis ao reconhecimento das mensagens de dados no meio eletrônico.
A Resolução n. 51/162 da Assembleia Geral das Nações Unidas, de 16 de dezembro de 1996, publicada em Nova York em 1997, recomenda que todos os Estados considerem, de maneira favorável, a Lei Modelo quando promulgarem ou fizerem a revisão de suas leis, tendo em vista a necessidade de promover a uniformidade do direito aplicável aos métodos de comunicação e de armazenamento de informações que substituam aqueles que utilizam papel. Integra seu texto o guia para incorporação ao direito interno da Lei Modelo da UNCITRAL sobre comércio eletrônico, que tem como objetivo primordial oferecer a orientação aos usuários dos
Artigo 2º – Definições. Para os fins desta Lei: Entende-se por "mensagem eletrônica" a informação gerada, enviada, recebida ou arquivada eletronicamente, por meio óptico ou por meios similares incluindo, entre outros, "intercâmbio eletrônico de dados" (EDI), correio eletrônico, telegrama, telex e fax; Entende-se por "intercâmbio eletrônico de dados" (EDI) a transferência eletrônica de computador para computador de informações estruturadas de acordo com um padrão estabelecido para tal fim, Entende-se por "remetente" de uma mensagem eletrônica a pessoa pela qual, ou em cujo nome, a referida mensagem eletrônica seja enviada ou gerada antes de seu armazenamento, caso este se efetue, mas não quem atue como intermediário em relação a esta mensagem eletrônica; "Destinatário" de uma mensagem eletrônica é a pessoa designada pelo remetente para receber a mensagem eletrônica, mas não quem atue como intermediário em relação a esta mensagem eletrônica; "Intermediário", com respeito a uma mensagem eletrônica particular, é a pessoa que em nome de outrem envie, receba ou armazene esta mensagem eletrônica ou preste outros serviços com relação a esta mensagem; "Sistema de Informação" é um sistema para geração, envio, recepção, armazenamento ou outra forma de processamento de mensagens eletrônicas.
meios eletrônicos de comunicação e aos operadores do direito no tocante aos aspectos jurídicos provenientes do emprego do comércio eletrônico.
Assim, muitos países têm usado a Lei Modelo da UNCITRAL como parâmetro para criação de suas próprias leis, uma vez que a consideram satisfatória para as principais questões relativas ao comércio eletrônico.
Seguindo na linha de regulamentar as atividades na Internet, em 2001, a UNCITRAL editou a Lei Modelo sobre Assinaturas Eletrônicas (UNCITRAL Model Law on
Eletronic Signature), com o objetivo de conceder um suporte legal aos processos de
certificação e de aplicabilidade das assinaturas digitais e autoridades certificadoras. Estabeleceu-se que as assinaturas digitais deveriam ser consideradas como equivalentes às manuscritas e, ainda, devem existir regras básicas de conduta a serem cumpridas pelas partes envolvidas no processo da assinatura eletrônica. Além da UNCITRAL, a OECD (Organization for Economic Co-operation and
Decelopment), a OMC (Organização Mundial do Comércio) ou WTO (Word Trade Organization) e, ainda, a WIPO (World Intellectual Property Organization) têm
contribuído e implementado esforços para disciplinar as atividades realizadas no âmbito do comércio eletrônico.
A OECD é uma organização internacional que fornece aos governos parâmetros para discutir, desenvolver e aperfeiçoar a economia e a política social, tendo atuado fortemente no desenvolvimento de pesquisas referentes aos impactos social e econômico do comércio eletrônico nas mais diversas nações. A OMC, por sua vez, está voltada a criar regras a respeito do comércio internacional e, com elas, assegurar o desenvolvimento de um comércio mais livre entre as nações. Foi, neste contexto, que a OMC elaborou uma declaração sobre comércio eletrônico, em 1998, que estabelece diretrizes envolvendo as principais questões apontadas no comércio eletrônico. Por fim, a WIPO atua na tutela da propriedade intelectual também no ambiente do comércio eletrônico, contribuindo para a aplicação das leis de propriedade intelectual nas transações realizadas via Internet.