• Nenhum resultado encontrado

Critério de aferição da compreensibilidade

No documento Os Estados Passionais nos Homicídios (páginas 122-127)

Parte II: Abordagem jurídica

1. Abordagem jurídica aos crimes passionais

1.1. Homicídio privilegiado

1.1.4. Compreensível emoção violenta

1.1.4.5. Critério de aferição da compreensibilidade

265

Cit. Ac. do STJ de 26-10-2006, processo n.º 183/06 - 5.ª.

266

Cit. Ac. do STJ de 15-03-2007, processo n.º 160/07 - 5.ª.

267 Cit. Ac. do STJ de 03-10-2007, processo n.º 2791/07 - 3.ª. 268 Cit. Ac. do STJ de 12-06-2008, processo n.º 1782/08 - 3.ª.

UNIVERSIDADE LUSÓFONA DE HUMANIDADES E TÉCNOLOGIAS FACULDADE DE DIREITO

122

I. Em relação à questão de saber como ajuizar o poder das razões que ocasionaram a emoção violenta, desenham-se na doutrina duas linhas, sendo uma que entende que este critério deve ser concretizado por referência à personalidade daquele agente que actua; outra que defende que a compreensibilidade há-de aferir-se, não em relação às particularidades concretas daquele agente, mas em relação a um homem médio com certas características que aquele agente detém.

FIGUEIREDO DIAS269, seguindo a primeira orientação, refere que na visão do art. 133º, que assenta na valoração da situação psíquica que leva o agente ao crime, o que interessa é “compreender” esse mesmo estado psíquico, no contexto em que se verificou, a fim de se poder simultaneamente “compreender” a personalidade do agente manifestada no facto criminoso e, assim, efectuar sobre a mesma o juízo de culpa com base no desvalor da acção.

Para TERESA SERRA270a emoção violenta só é compreensível em face das razões que lhe deram origem e do sujeito particular que as sofreu, especificando que o critério para aferir da diminuição sensível da culpa provocada por uma emoção violenta deve ser concretizado por referência à personalidade do agente individual que actua.

AMADEU FERREIRA271 entende que a emoção só poderá ser correctamente avaliada se tomarmos como medida o próprio agente emocionado. É em relação a ele, e não em abstracto ou de acordo com qualquer homem médio, que deve poder dizer-se se a emoção é violenta e o domina. A emoção é um facto e não pode confundir-se a determinação da sua existência com a sua avaliação ou valoração normativa do ponto de vista da culpa do agente.

TERESA QUINTELA DE BRITO272 refere que a existência de uma emoção violenta dominadora perfila-se como matéria de facto e deve ser apurada por referência à concreta personalidade do agente. Contudo, por via da exigência de compreensibilidade da emoção violenta, a lei quer destrinçar a reacção emocional normal da patológica. Por conseguinte, a compreensibilidade constitui uma questão de direito que não pode ser solucionada atendendo apenas à personalidade do agente em concreto, porque, caso contrário, inutilizar-se-ia esta exigência, já que, à luz da

269

Cf. FIGUEIREDO DIAS, “Colectânea de Jurisprudência”, Tomo IV (1987), p. 55.

270

Cf. TERESA SERRA, “Homicídios em Série” (1998), pp. 166-168.

271

Cf. AMADEU FERREIRA, “Homicídio privilegiado” (1991), p. 99.

272 Cf. TERESA QUINTELA DE BRITO, “Liber Discipulorum para Jorge Figueiredo Dias” (2003), p.

UNIVERSIDADE LUSÓFONA DE HUMANIDADES E TÉCNOLOGIAS FACULDADE DE DIREITO

123

personalidade de cada agente em concreto, quase todas as emoções são compreensíveis ou racionalmente explicáveis. Por esse motivo, a compreensibilidade deve ser avaliada na perspectiva de um observador objectivo, correspondente ao tipo social do agente. Ou seja, por uma pessoa proveniente do mesmo meio social do autor, com uma educação e uma mentalidade análogas às dele, conhecedora de todas as circunstâncias do facto.

AUGUSTO SILVA DIAS273 defende o critério do tipo social, para aferir da compreensibilidade da emoção, que consistente em saber se a situação vivida é adequada a produzir uma emoção violenta numa pessoa do tipo social do agente, sendo o tipo social um modelo ou padrão reconstruído a partir das características sociais do agente: idade, grau de cultura, profissão, meio em que vive, formas ou níveis de participação social, etc., tratando-se de um mediador normativo particularmente idóneo para a individualização e por isso para resolver questões de culpa. Daí o afastamento do critério do padrão do homem médio ou do papel, que considera perder ligação com a pessoa do agente, ser excessivamente abstracto para a individualização e acabar por ditar a equivalência entre ilicitude e culpa.

Por seu turno, FERNANDO SILVA274 defende a avaliação em função de um padrão de homem médio (diligente, fiel ao direito, bom chefe de família), colocado nas condições do agente, com as suas características, o seu grau de cultura e formação.

II. Na jurisprudência têm sido seguidos os dois critérios. Assim, nos acórdãos de 29-03-2000, de 03-05-2007, de 01-03-2006, de 29-03-2006, e de 12-6-2008, defende-se que a compreensibilidade e perceptibilidade deve ser aferida em função do padrão de um homem médio, colocado nas circunstâncias do agente, com as suas características, o seu grau de cultura e formação, intentando saber-se se esse, nesse exacto contexto, também reagiria assim, incapaz de se libertar dessa emoção, matando ele próprio.

O mesmo critério foi também seguido, mas reportado ao requisito da proporcionalidade, nos acórdãos de 19-04-1989, de 28-09-1994, de 11-12-1996, de 11- 06-1997, onde foi referido que a invocação de emoção violenta e proporcionada para enquadramento dos factos no tipo de homicídio privilegiado previsto no artigo 133.º do

273 Cf. SILVA DIAS, “Crimes contra a vida e a integridade física” (2007), p. 41.

UNIVERSIDADE LUSÓFONA DE HUMANIDADES E TÉCNOLOGIAS FACULDADE DE DIREITO

124

Código Penal, deve fazer-se na perspectiva do homem médio suposto pela ordem jurídica, sem haver que atender a reacções particulares ou ao temperamento do agente275.

No acórdão de 23-06-2005, defende-se que a menor exigibilidade tem de ser vista à luz do comportamento de um homem normal, respeitador das normas jurídicas, e não do particular ponto de vista do agente276.

Já no acórdão de 03-10-2007 defendeu-se que a ponderação da diminuição sensível da culpa, da diminuição da exigibilidade de conduta diferente, terá de ser realizada à luz do que seria exigível a alguém colocado naquelas circunstâncias concretas277.

Finalmente para o acórdão de 17-09-2009, o elemento de referência é um homem comum e fiel ao direito278.

III. Penso que a posição que deve ser seguida pelos tribunais em matéria de homicídio privilegiado e também em todas as questões relacionadas com a culpa do agente e o grau de exigibilidade de comportamento de acordo com a lei, deverá ter por base a figura do homem fiel ao direito. Esta figura tem em conta a situação global onde a emoção se gerou, qual o seu grau de intensidade e as características pessoais do agente o que permite aferir se naquele determinado momento lhe era possível ter um comportamento diferente ou, mesmo sendo- lhe exigível um comportamento diferente, se a sua conduta não poderá ser desculpada tendo em contas os restantes factores.

1.1.5. Desespero

O desespero é o estado de afecto que suscita no agente impotência diante de uma situação pessoal, de terceiro ou da vítima279. Assim, há desespero quando o agente não vê outra saída para a situação que está a viver senão a morte daquela determinada pessoa. O desespero não tem de ocorrer numa situação imediata ou espontânea, normalmente estas situações, em que o agente não vê outra saída, estão associadas a uma certa reflexão: a pessoa reflecte durante determinado tempo, concluindo ser aquela

275

Cf. Acs. do STJ de 19-04-1989, BMJ n.º 386, p. 222; de 28-09-1994, CJSTJ, ano 1994, tomo 3, p. 206; de 11-12-1996, BMJ n.º 462, p. 207; de 11-06-1997, CJSTJ, ano 1997, tomo 2, p. 228.

276

Cf. Ac. do STJ de 23-06-2005, processo n.º 1301/05 - 5.ª.

277

Cf. Ac. do STJ de 03-10-2007, processo n.º 2791/07 – 3.ª.

278 Cf. Ac. do STJ de 17-09-2009, processo n.º 434/09.5YFLSB-3.ª.

UNIVERSIDADE LUSÓFONA DE HUMANIDADES E TÉCNOLOGIAS FACULDADE DE DIREITO

125

uma situação para a qual não existe outra saída. Deste modo, Os actos de desespero, de que é exemplo típico o suicídio alargado (a mãe que tenta matar-se com os filhos, para lhes poupar o sofrimento posterior, mas que acaba ela por sobreviver), são, frequentemente, o fruto de uma prolongada reflexão.

Não se exige que o desespero se baseie num motivo de relevante valor social ou moral, como fundamento geral da atenuação. Seguindo a posição de FERNANDA PALMA, o que torna o desespero fundamento de atenuação espec ial só podem ser as limitações da capacidade psicológica do agente que vive um estado emocional e não a configuração ética desse estado. O que identifica socialmente um homem desesperado não é o valor social ou ético dos seus motivos, mas a estrutura comportamental, independente das suas causas280. Tem de se aferir da posição e do entendimento que o agente tinha naquela concreta situação. Daí falar-se em imputabilidade diminuída: por exemplo, a mulher frequentemente agredida pelo marido, normalmente, não se e ncontra num estado psicológico que lhe permita avaliar friamente o seu acto. O juízo de culpabilidade terá de ser feito, não com recurso à figura do homem fiel ao direito, mas com recurso à situação daquele agente em concreto naquela situação.

1.1.6. Compaixão

A compaixão é a motivação que suscita no agente a comiseração e solidariedade com a situação de um terceiro ou da vítima. Trata-se de um sentimento de piedade, de altruísmo, de consideração pelo bem daquele que se vai matar. No fundo, ter compaixão por uma pessoa é ter pena dessa pessoa; é matar por achar que a morte para essa pessoa é melhor do que a vida.

Não basta, contudo, que haja compaixão: é indispensável que haja uma diminuição sensível da culpa do agente, caso contrário, como refere EDUARDO CORREIA281, haveria o risco de se institucionalizar os homicídios por piedade, ou seja, bastaria que se tivesse pena de alguém para que, se se matasse, já se beneficiasse de uma moldura penal bastante mais reduzida. Deste modo, não é toda a compaixão que é relevante para estes efeitos, mas apenas aquela suficiente para levar o agente a vencer determinadas barreiras ético-sociais, e isto num sentido menos censurável que o dos

280

Cf. FERNANDA PALMA, “Direito Penal. Parte Especial. Crimes contra as Pessoas” (1983), pp. 82- 83.

UNIVERSIDADE LUSÓFONA DE HUMANIDADES E TÉCNOLOGIAS FACULDADE DE DIREITO

126

comportamentos tidos como normais. Terá de se provar haver sobre o agente uma pressão tal que faça do seu comportamento um comportamento menos culposo (menor exigibilidade).

No documento Os Estados Passionais nos Homicídios (páginas 122-127)