Fronteiras rígidas Limites normais Fronteiras difusas
Figura 16 - Representação gráfica das fronteiras
Não sendo pacífica, esta atribuição de funcionalidade/disfuncionalidade, sobretudo se não se atender à idiossincrasia de cada sistema, parece, no entanto, ser possível estabelecer alguns parâmetros gerais de distinção entre famílias mais ou menos disfuncionantes (quadro 1).
Sistema familiar funcionante Sistema familiar disfuncionante Limites entre
Gerações Nítidos Cada geração adulta é responsável por si
Individualização precária dos pais em relação aos seus próprios pais. Filhos devendo ocupar-se dos problemas dos pais.
Limites entre Indivíduos Alianças Relações simbióticas Autonomização Casamento dos filhos Chefia Responsabilidade Claros
Sólida entre os pais
Limitadas aos primeiros meses da vida
Adolescência dos filhos bem localizável na vida da família
Diz sobretudo respeito aos dois interessados
Bem aceite
Assumidas. Partilhadas em situações difíceis
Confusos
Fraca entre os pais. Coligação dum dos pais com um filho.
Aquisição de autonomia dos filhos (aprendizagem da marcha, da fala, escola, adolescência) provocam crises que afectam toda a família.
Assuntos da família, sobretudo necessidades e capacidades de autonomização dos membros da família, não reconhecidos.
Atribuídas a pessoas exteriores à família ou aos acontecimentos, ao "destino"
Comunicações Cada um fala de si. Comunicações claras . Recepção das mensagens bem assinaladas.
Se a comunicação é pouco clara, possibilidade de metacomunicação
Tendência para falar em nome dos outros, sem exprimir os seus próprios sentimentos ou opções. Comunicações pouco claras. Mensagens contraditórias.
Desqualificação das mensagens recebidas
Resposta a modificações ou a
situações difíceis
Feedback positivo , adaptação à mudança .
Modificação das regras de funcionamento interno e externo.
''Feedback" negativo, oposição à mudança.
Rigidificação das regras de funcionamento .
Luta pela homeostasia por todos os meios
Funcionamento global ao serviço de: (Finalidade)
Do crescimento, da realização pessoal e da maturidade dos diversos membros que compõem a família
Dum equilíbrio familiar rígido e imutável que dificultará o crescimento e o enriquecimento individual dos membros , em nome duma "união" indiferenciada do bloco familiar
Quadro 1 - Sistema familiar funcional e disfuncional Fonte: adaptado de RELVAS, 1982, p.318
Na análise da estrutura da família surge, assim, a necessidade de observar ou colher dados sobre cada um dos sub-sistemas, bem como acerca dos limites entre eles e entre
cada um dos indivíduos, estes podem ser um contributo favorável não só à prestação de cuidados, mas também à compreensão das reacções familiares durante o internamento..
Como diz MINUCHIN (1990), todas as famílias podem ser concebidas como incidindo em algum lugar do continuum desmembramento-emaranhamento. Contudo, é importante realçar que estes tipos de interacção não são necessariamente exclusivos. Com efeito, nas famílias podem coexistir subsistemas emaranhados e desmembrados, como é o caso de uma relação emaranhada entre a mãe e os filhos, que podem levar a um afastamento do pai, ao ponto de este se sentir excluído da sua família. A mesma pessoa pode, também, em alguns momentos, ter necessidade de tornar rígidos os seus limites para crescer, enquanto que, noutros momentos, pode atenuar as suas fronteiras para a mesma finalidade.
Nas situações de internamento surge com ênfase a compreenção destes tipos de famílias. Será de esperar uma reacção diferentes quando solicitados a participar durante o internamento nos cuidados aos seus membros, em causa não está apenas a situação particular do seu membro mas também, a forma como cada um funciona na sua família. Se a análise dos limites nos possibilita a classificação familiar já referida, uma ponderação mais lata do sistema familiar permitiu a MINUCHIN e FISHMAN (1990) proporem uma outra tipologia que poderemos utilizar, pelo menos em parte, na investigação ou na intervenção de cuidados. Atendendo aos elementos que compõem o núcleo familiar, ao seu funcionamento estrutural e às suas necessidades e dificuldades, podemos distinguir as famílias pas de deux, de três gerações, de suporte, acordeão, flutuantes, hospedeiras, de segundo casamento, psicossomáticas, com fantasma, descontroladas.
A família pas de deux é normalmente constituída por dois elementos. O que a caracteriza é a mútua dependência e o mútuo ressentimento dos seus elementos. Algumas vezes os casais de meia idade, em situação de ninho vazio, tendem a desenvolver uma família deste tipo mas também os casais sem filhos ou ainda a situação de um pai ou mãe que ficou com apenas um filho.
Neste tipo de família será de esperar que a relação fusionai desenvolvida entre os dois membros da família, tenha repercursões na sua participação e na presença durante o internamento. Será, ainda, de esperar um tipo de exigência e avaliação diferente face aos cuidados que prestamos, pois a proximidade desenvolvida entre estes dois elemento é tal que provávelmentes eles são capazes de se antecipar às necessidades básicas do próprio doente. Todos recordamos situações particulares de cuidados, em que
sistematicamente os acompanhantes nos colocam uma situação de poder ser diferente ou melhorada a actuação, ou ainda depois de se despedirem do seu familiar ainda têm necessidade de mais uma recomendação.
A família de três gerações, também chamada alargada, é constituída pelos avós, pais e seus filhos. A organização da cooperação, o apoio nas tarefas domésticas e a convivência de várias gerações são as principais vantagens desta família. No entanto, e para que tal aconteça, é necessário manter bem clara a hierarquia dentro da família. Os grandes problemas são as coligações transgeracionais e a perversão das hierarquias e do exercício da autoridade.
Uma família com estes recursos, em elementos, poderá indicar facilidade na parceria de cuidados não só durante o internamento mas também para a continuidade de cuidados. A postura dos profissionais, face a esta família, terá que ter em conta que nos podem aparecer como parceriros o marido ou mulher do doente, o filho ou a filha, a nora ou o genro mas também os netos, o que pode prever alguma complexidade no relacionamento com a mesma e, um trabalho acrescido, particularmente quando fazemos ensinos.
As famílias de suporte são famílias nucleares grandes com muitos filhos, sem apoio da família extensa. O que caracteriza esta família é haver irmãos de idades muito variadas, o que leva frequentemente à parentificação. O problema destas famílias não está tanto na delegação de certas responsabilidades num dos irmãos mais velhos, mas sim na apropriação, por parte deste, de um lugar no sub-sistema parental. Esta problemática fica agravada quando o filho ou filhos mais velhos são de tal forma tidos pelos restantes irmãos como detendo uma função parental, que estes os excluem do sistema fraternal, o que os pode tornar sintomáticos, especialmente quando recebem responsabilidades com as quais não conseguem lidar. Será de esperar que esta forma de estar em família se reproduza nas situações de internamento.Recordamos uma situação paticular, de um internamento em cirurgia, onde uma mãe de família nunca teve a visita do marido (mesmo este estando com saúde e disponibilidade) alegando a que a filha mas velha poderia decidir tudo e, a visita dos filhos era sempre com consentimento da referida filha.
A família acordeão é uma família com ausências prolongadas de um elemento que depois regressa (por exemplo marinheiro, caixeiro viajante, militares em comissão de serviço, deputados , particularmente em funções na Europa, etc.). O que caracteriza esta família é a ausência prolongada do pai ou da mãe, o que leva a que o elemento que
permanece ha família tenha que assumir temporariamente asfunções do ausente. No seu regresso, este pode ser mantido na periferia do sistema face às dificuldades de reorganização estrutural experimentadas por todos, ao nível dos diferentes sub-sistemas. Em situações extremas, este tipo de sistema pode cristalizar na configuração de família com pai singular.A vivência de um internamento nesta família dependerá, primeiro se a pessoa è a que se ausenta, e nesta particularidade a família continua a sentir a ausência, mas já faz parte da organização habitual, situação diferente, é quando o doente é o que dá continuidade às funções familiares, então, estamos perante um caso problemático. A família monoparental caracteriza-se pelo facto de a geração dos pais estar apenas representado por um único elemento. ALARCÃO enumera dentro desta situação, aquelas famílias em que o progenitor abandona a casa, o que fica não volta a casar-se, ou ainda porque se trata de uma mãe solteira. Recordemos que muitas vezes esta família não vive a conjugalidade ou esta perdesse, com implicações no desenvolvimento da família. Nesta famílias pode haver o perigo de investir num filho uma dimenção de
"par conjugar o que perturba o desenvolvimento e a forma de respoder a situações de
stress, recordemos que o espaço conjugal de "distensão e suporte emocional para a
resolução de certos problemas intra e extra familiares, de articulação da comunicação simétrica e complementar e de um sentimento de individualidade e de pertença, de modelação das relações heterossexuais dos filhos ficam perturbadas'" (ALARCÃO,
2000:212).
Podemos afirmar que numa visão global, nesta família, será de prever dificuldades que se colocam face às tarefas familiares quando o membro internado é o do sub-sistema parental, que até então provavelmente teve dificuldades na partilha das tarefas familiares e agora acresce o está limitado. Problema diferente é a forte ligação que se establece entre o progenitor e o(s) filho(s) configurando-se assim uma família com fortes probabilidade de se apresentar emaranhada e com as carateristicas de pás de deux, já referidas.
A família flutuante é aquela que muda constantemente de domicílio, ou ainda a que muda de estrutura (por exemplo as famílias de trabalhadores de circo, ou mesmo dos militares, ou de outros trabalhadores que, temporariamente, mudam de residência). As famílias que mudam de domicílio têm geralmente poucos apoios comunitários, o que lhes dificulta a sua inserção. Contudo, face à crise externa, nem sempre se desestruturam, podendo funcionar bem ao nível da competência interna. As famílias que mudam de estrutura são aquelas que .casam e recasam. Algumas vezes, as crianças
destas famílias não só ganham uma madrasta ou padrasto, como mudam de residência, deixando o seu grupo de amigos. Num e noutro caso, o mais importante é a capacidade de adaptabilidade dos membros da família.
As famílias flutuantes tornam-se problemáticas nas situações de internamento, quer porque carecem de apoio social, quer porque por vezes se tornam fechadas, exemplo deste tipo de família são as das etnias ciganas. Estas famílias têm características particulares que tornam o seu internamento de alguma complexidade, por exemplo muitos deles exigem que os seus familiares não façam a alimentação do hospital, não respeitam as horas de visitas e, muita vezes, transferem a seu local de acampamento para junto da unidade de saúde.
A família com padrasto ou madrasta é uma família reconstituída, também chamada de recasada. O grande problema desta família reside na integração dos seus elementos e no funcionamento do sub-sistema conjugal, pois muitas vezes há uma questão de lealdade em relação aos elementos da família anterior. Apesar disso, esta família pode ser muito rica no desenvolvimento dos seus membros, pois a experiência anterior pode funcionar no sentido de rectificar experiências negativas.
A fase em que se encontra esta família, em relação à família anterior, pode ser um dado significativo na compreensão da vivência do internamento para os adultos, contudo não podemos deixar de referir, que situação diferente, é viver a doença dos filhos, particularmente se o progenitor apenas é um desta família. Recordemos como nos refere ALARCÃO (2000:204) na actual configuração, existem pessoas que, num passado mais ou menos próximo, tiveram outras famílias, por outro lado é de recordar que alguns dos elementos desta família podem ainda estar a fazer o luto da família anterior.
A família hospedeira, também chamada de colocação, é aquela onde é colocada transitoriamente um elemento. O grande problema desta família reside na paradoxalidade do pedido de integração afectiva de um elemento a prazo, isto é, que estará presente apenas por um período de que se desconhece, muitas vezes, a duração.Estas famílias, por vezes são problemáticas no internamento devido ao doente contar em demasia com a colaboração do hospede.
A família com fantasma é aquela que perdeu um elemento importante, mas que continua a funcionar como se essa pessoa estivesse presente. O grande problema desta família é a sua reorganização, pois as funções que pertenciam ao ausente são, muitas vezes, dificilmente tomadas por outrem. Os elementos presentes consideram um acto de deslealdade a tomada de decisão que até aí cabia ao ausente, comportando-se, então,
como se ele estivesse presente. Os elementos desta família vivem, nestes casos', um luto incompleto, podendo cristalizar a situação em vez de se organizarem na sua nova condição. Em situações não patológicas, aquela configuração pode ser considerada de transição, pois, após a vivência do luto, a família reorganiza-se em função da sua nova composição.
A família descontrolada é caracterizada por ter um membro com problemas de comportamento, gerando-se grandes dificuldades de organização hierárquica (por exemplo delinquente, marginal). O seu grande problema é a dificuldade de se organizar devido à não existência de um poder parental forte. Muitas vezes assistimos à expulsão precoce de um dos seus membros de dentro para o exterior da família.
A família psicossomática caracteriza-se por um elevado grau de emaranhamento e pela ênfase colocada no papel educativo e cuidados a desempenhar, bem como na afirmação do mito da família ideal. A não existência de conflito aberto e a afirmação da união são a regra número um. A triangulação é frequente para assegurar um funcionamento mais unido do sistema, o que perpetua a situação sintomática do paciente identificado.
Depois de uma reflexão sobre os vários tipos de família, podemos dizer que a análise da estrutura, desenvolvimento e funcionalidade da família constituem parâmetros de avaliação interessante, porquanto nos permite compreender a organização hierárquica da família, nos possibilita a clarificação dos papéis e das relações intra e inter sub- sistemas e nos pode informar sobre a qualidade e quantidade dos movimentos individuais e neste sentido constituirmos dados fundamentais para proporcionar ajuda ao doente e suporte à família.