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saúde mental em unidade de saúde da família

DISCUTINDO A LOUCURA

Para viabilizar a experiência, algumas estudantes de Psicologia, inseridas no Programa de Educação pelo Trabalho para a Saúde (PET-Saúde), na tentativa de solidificar os princípios da reforma psiquiátrica, propuseram aos usuários da unidade de saúde da família da Urbis V, em Vitória da Conquista – BA, a exibi- ção de filmes com temas relacionados a inserção social do indivíduo com trans- torno mental.

Os filmes foram empregados como formas de expressão artística com a fi- nalidade de usar a potencialidade transformadora inerente à arte. Moura (2011) fala da possibilidade da arte como linhas subjetivas, para expressar e criar um mundo. A arte com a potencialidade de fomentar processos de resistência às adversidades, de modo que a arte inerente à sensação atua na constituição da subjetividade, e inventa modos de vida e resistência em meio à crise, ao caos, e a adversidade. O estudioso sugere, ainda, olhar e compreender os sintomas do sofrimento mental não de forma reducionista, mas sim integral.

Os filmes foram exibidos mensalmente pelas alunas com a participação, em algumas sessões, da preceptora ou tutora do programa na Unidade de Saúde da Família (USF) em questão. O local escolhido para esses momentos foi um salão paroquial que fica próximo à unidade de saúde. Esse salão é rotineiramente uti- lizado para realizar atividades do PSF devido à falta de sala disponível para ati- vidades em grupo na unidade de saúde.

Inicialmente, o objetivo era abarcar familiares de indivíduos com transtor- no mental, para que pudessem compartilhar as experiências, vivências, angús- tias, e discutir a necessidade de inclusão e aceitação do indivíduo com transtor- no. Entretanto, devido à baixa adesão, as exibições dos filmes foram abertas para toda a comunidade, com o intuito de abranger um maior contingente de pessoas e despertar reflexão, sensibilidade, indignação e participação coletiva e corresponsável no engajamento afetivo e político para romper com condições de encarceramento, estigmas e preconceitos em toda comunidade, na tentativa

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de que o portador de transtorno mental seja tratado com humanidade, respeito e que seja acolhido pela própria comunidade.

Como estratégia de divulgação da ação, foram confeccionados convites in- dividuais contendo as informações sobre data, horário e local de cada sessão, e entregues aos usuários da unidade de saúde por profissionais, especialmente agentes comunitários de saúde, enfermeiras e médicas, além das próprias estu- dantes envolvidas.

Após a exibição dos filmes, era aberto um momento de discussão espontâ- nea sobre variados temas os quais emergiam da relação entre a experiência de cada espectador com o filme assistido.

Rainone e Froemming (2008) relatam atividade semelhante: a experiência de utilizar o cinema como abertura de um espaço para a problematização de- sencadeadora de processos discursivos e criativos em usuários do Centro de Atenção Psicossocial (Caps). Os autores destacam que o filme implica um ape- lo narrativo, visual e auditivo, estabelecendo uma comunicação singular com cada espectador, que, por sua vez, preenche as lacunas com os pensamentos e experiências próprias, transformando significados e deixando se transformar na relação com a arte, gerando expressões, projeções e identificações, median- te as cenas cinematográficas.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

O primeiro filme exibido foi A Garota Ideal, o qual retrata a história de um ho- mem solitário que tinha delírios e lidava com uma boneca de silicone como se fosse real. Ao invés de estigmatizá-lo, toda a comunidade se mobilizou para acei- tar o seu delírio e passou a tratar a boneca como se, de fato, nela houvesse vida.

A partir da produção, foi possível mencionar, na discussão, a aceitação so- cial do indivíduo com transtorno mental, o envolvimento comunitário necessá- rio na luta antimanicomial, bem como o compartilhamento de experiências dos familiares com o transtorno. A médica da USF e preceptora do PET também contribuíram para complementar a discussão trazendo relatos e experiências.

O filme apresentado na comunidade posteriormente foi Bicho de Sete Cabe- ças. Ele aborda assuntos como o uso de drogas, a vida no hospital psiquiátrico, o abuso do poder, o uso irresponsável de medicamentos, a internação compulsó- ria, as relações familiares etc., e foi possível abrir uma discussão que envolvesse todos esses assuntos.

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Menos que Nada foi o filme seguinte. A produção conta a história de um indivíduo com transtorno psiquiátrico internado em um hospital, e transcor- re através de uma longa investigação feita pela psiquiatra da instituição sobre a vida do paciente. Através dessa investigação, surgiram diferentes problemá- ticas, como sexualidade e luta antimanicomial. No grupo, esses temas foram abordados a partir de reflexões e questionamentos levantados pelos partici- pantes. Priorizou-se a conversa horizontal pautada na escuta e considerando as contribuições trazidas pelos integrantes do grupo, o que aconteceu também nas demais sessões.

O quarto filme foi Uma Mente Brilhante, o qual apresenta uma história, baseada em fatos reais, de um homem diagnosticado com esquizofrenia que, apesar dos sofrimentos enfrentados, com o apoio da esposa, consegue lidar com a angústia mental e desenvolver suas potencialidades, tornando-se um professor universitário vencedor do premio Nobel. Com esse filme, emergi- ram temáticas relacionadas às potencialidades artísticas, culturais e cogniti- vas das pessoas em sofrimento psíquico, além disso, fortaleceu-se a compre- ensão relacionada à importância do acolhimento e apoio familiar em situa- ções de crise e sofrimento psíquico.

O Lado Bom da Vida também foi exibido. O filme mostra a história de um homem diagnosticado com transtorno bipolar, que, após uma separação ma- trimonial, desencadeada por suas situações de crise, consegue ressignificar sua história e encontrar novas possibilidades de amor com o apoio de amigos, fa- miliares e terapeuta. Desse filme, surgiu a discussão sobre as consequências do sofrimento mental nas relações interpessoais afetivas, despertando nos partici- pantes declarações acerca da necessidade de empatia, coexistência, compreen- são e amizade para com as pessoas em situação de sofrimento psíquico.

Estiveram presentes nas exibições cerca de oito pessoas de ambos os sexos e diferentes idades. Em um dos dias, porém, apenas uma pessoa, além dos or- ganizadores, participou. Mesmo nesse dia, a discussão, com base nas falas dos participantes, foi intensa.

Através do cinema, foi possível proporcionar momentos de conversa e escu- ta das percepções dos participantes sobre os transtornos mentais, assim como momentos de democratização do conhecimento relacionado à reforma psiqui- átrica brasileira.

Logo após a exibição, os participantes manifestavam suas impressões so- bre o filme, gerando uma conversa entre eles com intervenções das estudantes

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e profissionais, no sentido de favorecer a compreensão dos princípios da refor- ma psiquiátrica, especialmente no que se refere ao acolhimento das diferenças. Agregou-se a arte cinematográfica, a expressão das diferenças e a voz de pesso- as da comunidade para contribuir no acolhimento das pessoas em sofrimento psíquico e seus cuidadores, assim como desconstruir a ideia de exclusão, discu- tindo as possibilidades de vida em comunidade e em família dos portadores de transtornos mentais.

A experiência aqui relatada foi criativa, protagonizando ações rumo à pro- dução de novos sentidos quanto a forma de ver, compreender e se relacionar com as pessoas em sofrimento psíquico, usando o cinema como ferramenta. Portanto, considera-se que a dimensão sociocultural atingida pela exibição e discussão de filmes, com temática relacionada à reforma psiquiátrica, tenha fa- vorecido a produção de sentidos e significado para os participantes.

Consideramos que as sessões de cinema seguidas de discussão podem ser classificadas como tecnologia leve de trabalho em saúde, que, de acordo com Merhy (2007a), são tecnologias pautadas na produção de vínculos. Por isso, entendemos que tais tecnologias podem abrir possibilidades de cuidado para pessoas em sofrimento mental, as quais envolvam a comunidade. Além disso, durante a realização dos momentos de encontro para discussões fílmicas, cria- -se um ambiente propício ao movimento da vida, como proposto por Merhy (2007b), indo além dos limites do instituído, propiciando aos usuários maior grau de liberdade e autonomia nos seus modos de caminhar no mundo, assim como o respeito pela vida, a motivação criadora e o empenho improvisador a favor da vida.

Desse modo, as discussões temáticas relacionadas à reforma psiquiátrica possibilitaram democratização do entendimento relacionado ao sofrimento mental e as necessidades de inclusão social, contribuindo para atenuar o sofri- mento e marcas de exclusão resultantes das estruturas sociais opressoras e pa- togênicas (AMARANTE, 2007), em um processo social aberto e dialético, o qual visa à valorização das vivências, tanto das pessoas em sofrimento mental, quanto dos seus familiares e demais membros da comunidade.

Assim, com o uso da imagem cinematográfica, atrelada à escuta qualifica- da e o olhar ampliado, ficaram evidentes muitas potencialidades no campo da saúde mental, mostrando que, através do cinema, é possível trabalhar a reelabo- ração de complexos temas em saúde psíquica, resultados esses também aponta- dos por Rainone e Froemming (2008).

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CONSIDERAÇÕES FINAIS

Esse trabalho foi uma tentativa de fortalecer a participação da comunidade na luta pela consolidação dos princípios da reforma psiquiátrica a partir de: a) co- nhecimento dos princípios da reforma a partir das falas dos participantes esti- mulados pela exibição dos filmes; b) maior compreensão por parte dos partici- pantes da situação de sofrimento mental; c) estímulo ao respeito às diferenças e singularidades, dignidade, cidadania. Foi o início de um processo de superação da intolerância quanto ao sofrimento mental.

Assim, dentro das possibilidades limitadas, esse trabalho favoreceu a des- construção de representações equivocadas e rotuladas sobre o sofrimento men- tal, modos de preconceitos, estigmas, cárceres e marginalização que perduram, no contexto da reforma psiquiátrica: tendência perigosa que há tempos gerou, e continua a gerar, profunda exclusão e intenso sofrimento. Com tudo isso, pode- mos dizer que o nosso esforço contribuiu para a participação da comunidade na inclusão social dignidade e saúde das pessoas em sofrimento mental.

REFERÊNCIAS

AMARANTE, P. Psiquiatria social e reforma psiquiátrica. Rio de Janeiro: Fiocruz, 2010. AMARANTE, P. Saúde mental e atenção psicossocial. Rio de Janeiro: Fiocruz, 2007. BASAGLIA, F. A instituição negada. Rio de Janeiro: Graal, 2001.

BRASIL. Presidência da República. Lei n. 10.216, de 6 de abril de 2001. Dispõe sobre a proteção e os direitos das pessoas portadoras de transtornos mentais e redireciona o modelo assistencial em saúde mental. Diário Oficial [da] República Federativa do Brasil, Brasília, DF, 9 abr. 2001.

CUNHA, T. C. A construção da clínica ampliada na atenção básica. São Paulo: Hucitec, 2005. FRANCO, T. B. et al. O acolhimento e os processos de trabalho em saúde: o caso de Betim MG. In: MERHY, E. E. O trabalho em saúde: olhando e experienciando o SUS no Cotidiano. São Paulo: Hucitec, 2007.

FOUCAULT, M. Doença mental e psicologia. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1975. FOUCAULT, M. História da loucura. São Paulo: Perspectiva, 2009.

MOURA, A. Linhas da diferença em psicopatologia. Salvador: Cian, 2007. MOURA, A. Trair a psiquiatria. Vitória da Conquista, 2011.

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MERHY, E. E. Saúde a cartografia do trabalho vivo. 3. ed. São Paulo: Hucitec, 2007a. MERHY, E. E. Em busca do tempo perdido, a micropolítica do trabalho vivo em saúde. In: MERHY, E. E.; ONOCKO, R. Agir em saúde um desafio para o público. São Paulo: Hucitec, 2007b.

RAINONE, F.; FROEMMING, L. S. As potencialidades das imagens cinematográficas para o campo da atenção em saúde mental. Latin American Journal of Fundamental Psychopathology On Line, São Paulo, v. 5, n. 1, p. 69-83, maio 2008.

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RODRIGO SANTOS DAMASCENA, MARIA DE LOURDES FREITAS FONTES, NÍLIA MARIA DE BRITO LIMA PRADO

INTRODUÇÃO

O tabagismo é considerado, pela Organização Mundial da Saúde (OMS), a principal causa de morte evitável em todo o mundo, e um dos mais importantes fatores de risco para doenças cardiovasculares, câncer e doenças respiratórias. A OMS estima que um terço da população mundial adulta, isto é, 1 bilhão e 200 milhões de pessoas – entre as quais 200 milhões de mulheres, sejam fumantes. (WORLD HEALTH ORGANIZATION, 2011)

Alguns estudos comprovam que aproximadamente 47% de toda a popula- ção masculina e 12% da população feminina no mundo fumam. Enquanto nos países em desenvolvimento os fumantes constituem 48% da população mascu- lina e 7% da população feminina, nos países desenvolvidos, a participação das mulheres mais do que triplica: 42% dos homens e 24% das mulheres têm o com- portamento de fumar. (AZEVEDO E SILVA, 2014) O total de mortes devido ao uso do tabaco atingiu a cifra de 4,9 milhões de mortes anuais, o que corres- ponde a mais de 10 mil mortes por dia. (BRASIL, 2004a)

No Brasil, a prevalência de fumantes vem reduzindo desde os anos 1980. Da- dos de inquéritos nacionais mostram a importante queda do tabagismo nas últi- mas décadas: em 1989, a prevalência era de 34,8%, passando para 17,2% em 2008.

A “LUDICIDADE EM SAÚDE”