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5 OS EUA COMO INTEGRANTES DO COMMON LAW

5.1 A Doutrina do Stare Decisis

Como cediço, os Estados Unidos da América são considerados integrantes do sistema do common law. Nesse particular, uma questão importante a ser analisada é a origem da força vinculante dos precedentes judiciais, resultando na aplicação da denominada doutrina do stare decisis.

Como visto anteriormente, desde sua gênese, o common law possui aptidão para ser um sistema de case law – que tem como regra fundamental a ser seguida o conjunto de casos já decididos, os precedentes. Entretanto, não havia qualquer preceito que impusesse efeito vinculativo aos julgados, existindo tão-somente uma preocupação com a coesão do sistema.77

Veja-se que a sobredita tendência à adoção das próprias decisões como regramento não é outra coisa senão a própria essência do sistema do common law, sendo inerente à sua própria conceituação. Nos dizeres de André Gustavo Corrêa de Andrade78:

A expressão common law, dentre outras acepções, é designativa de um sistema jurídico em que uma das fontes primárias do Direito é a decisão ou o precedente judicial (precedent). O conjunto dessas decisões (case-law), vinculadoras do julgamento de casos futuros, constitui o "Direito comum", aplicável preferencialmente em relação às normas estabelecidas abstratamente em leis ou outros diplomas emanados de órgãos com competência legislativa. A característica desse sistema, portanto, é a criação do Direito pelo juiz (judge-made law), em contraposição ao Direito estabelecido por órgão não integrante do Poder Judiciário (statute law).

E a imposição da decisão do caso julgado a situações futuras de forma obrigatória é a chamada doctrine of stare decisis, também chamada de doctrine of precedents, expressão última que, traduzida para o português, seria regra do precedente.79

77TUCCI, José Rogério Cruz e. Precedente judicial como fonte do Direito. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2004. p. 154.

78ANDRADE, André Gustavo de. Dano moral e indenização punitiva. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2009. p. 174.

79SOARES, Guido Fernando Silva. Common law - Introdução ao Direito dos EUA. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2000. p. 40.

A expressão stare decisis é o remanescente da expressão latina stare decisis et non quieta movere, que significa: que as coisas permaneçam firmes e imodificadas, em razão das decisões.80

Superada a origem histórica da nomenclatura, temos que, ontologicamente, a doctrine of stare decisis é a regra jurídica segundo a qual uma decisão tomada por uma corte de justiça mais elevada deve ser seguida pelas cortes inferiores da mesma jurisdição quando as circunstâncias de fato no caso subsequente sob análise forem as mesmas do caso precedente, que atua como paradigma. Para André Gustavo Corrêa de Andrade, “[...] busca-se, pois, aplicar as razões de decidir de casos passados”.81

Também nesse sentido é a conceituação de Guido Fernando Silva Soares82:

Na verdade, o precedente não é uma regra abstrata, mas uma regra intimamente ligada aos fatos que lhe deram origem, razão pela qual, o conhecimento das razões da decisão é imprescindível; não se pode aplicar um precedente fixado em matéria de motivos para divórcio, por exemplo, à resolução de uma questão que verse sobre contratos ou obrigações alimentícias!

A seu turno, José Rogério Cruz e Tucci assevera que “[...] o precedente então nasce como uma regra de um caso e, em seguida, terá ou não o destino de tornar- se a regra de uma série de casos análogos”.83

A justificativa para predileção à adoção da regra do precedente é de que há maior segurança para o desenvolvimento de relações jurídicas em virtude de saber- se, de antemão, o posicionamento judicial a ser exarado sobre determinado conjunto de fatos para o caso de conflito, já que fatos idênticos ou análogos foram submetidos a julgamento anterior. Assim, um conjunto de precedentes obrigatórios confere consistência ao sistema jurídico, seja pela antecipação na direção dos pronunciamentos judiciais, seja pelo sentimento de justiça, afastando, em muito, a possibilidade de que casos iguais ou análogos sejam resolvidos de formas diferentes.84

80SOARES, Guido Fernando Silva. Common law - Introdução ao Direito dos EUA. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2000. p. 35.

81ANDRADE, André Gustavo de. Dano moral e indenização punitiva. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2009. p. 171-172.

82SOARES, op. cit., p. 41.

83TUCCI, José Rogério Cruz e. Precedente judicial como fonte do Direito. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2004. p. 11-12.

Anote-se que referidos precedentes podem ser originados de uma única ou várias decisões, desde que emanadas por um órgão coletivo de segundo grau, sendo obrigatório para o mesmo tribunal e juízes que lhes são subordinados, salientando-se que as decisões de órgãos de primeiro grau não se constituem em precedentes.85

No que tange à autoridade dos precedentes, ou seja, a força de impor-se a casos futuros, André Gustavo Corrêa de Andrade86, numa acepção mais restrita, menciona como obrigatório apenas o binding precedent − prévia decisão proferida por um tribunal em relação a órgão judicante de primeiro grau ou prolatada por tribunal superior em relação a um colegiado inferior, pontuando que:

Entre órgãos judiciários de igual hierarquia, os precedentes não têm força obrigatória, mas meramente persuasiva (persuasive precedent), o mesmo ocorrendo com decisões de uma corte estadual em relação a órgãos judiciários de outro estado.

Um outro fator de importância vital à força que se confere aos precedentes liga-se à maneira como são encarados os litígios perante a Justiça americana, que procura, mais do que julgar as lides, determinar, a partir delas, enunciados normativos para as situações semelhantes que ocorrerão no futuro, como nos dá conta Odete Novais Carneiro Queiroz, pontuando que:

Comparando-se decisões jurisprudenciais americanas e brasileiras, haveremos de perceber que o direito americano tem procedido de duas maneiras; na primeira soluciona o caso sub judice, na segunda oferece nortes, fixando regras para deslindes de casos que ainda virão. Já o Supremo Tribunal Federal, guardião da Constituição, criado de modo similar à Suprema Corte americana, tem deixado a desejar, pois se prende unicamente ao julgamento que está a fazer, não se preocupando com uma interpretação normativa que pudesse oferecer parâmetros para demandas futuras.87

85SOARES, Guido Fernando Silva. Common law - Introdução ao Direito dos EUA. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2000. p. 40.

86ANDRADE, André Gustavo de. Dano moral e indenização punitiva. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2009. p. 172.

87QUEIROZ, Odete Novais Carneiro. O devido processo legal. Revista dos Tribunais, São Paulo, n. 748, p. 50-51, fevereiro 1998.

Não obstante a recorrente necessidade de adequação do sistema à dinâmica social, o abandono de um precedente na lição de José Rogério Cruz e Tucci88:

[...] sobretudo no ambiente de uma experiência jurídica dominada pelo case law, exige do órgão judicial uma carga de argumentação que supõe não apenas a explicação ordinária das razões de fato e de direito que fundamentam a decisão, mas, ainda, justificação complementar. Essa imposição natural é geralmente esclarecida pelo denominado princípio da inércia, segundo o qual a orientação já adotada em várias oportunidades deve ser mantida no futuro (por ser presumivelmente correta, pelo desejo de coerência e pela força do hábito). Não pode, pois, ser desprezada sem uma motivação satisfatória.

Em arremate, insta salientar que tais mudanças são mais frequentes na jurisprudência estadunidense do que na inglesa, o que é explicado pela própria complexidade da sociedade americana e seu sistema jurídico, já que, nesse ponto, como informa André Gustavo Corrêa de Andrade:

Os Estados Unidos, diferentemente da Inglaterra, possuem uma Constituição escrita, datada de 1787 e acrescida de diversas emendas. Muitas de suas disposições sofreram importantes mudanças de interpretação ao longo dos anos, para adaptá-las à evolução social. Além disso, cada um dos cinquenta estados americanos goza de relativa autonomia e possui sua própria Constituição.89