CAPÍTULO IV – O “CONDOMÍNIO PORTO RICO”
4.3 Origem e Situação da Fazenda Santa Maria, o Sítio que Abriga o CPR
4.3.1 O espaço urbano, as demandas judiciais e a propriedade ocupada pelo CPR
Visando à proteção ao direito de propriedade dos herdeiros, foram instauradas cerca de 2.500 ações individuais na Justiça do DF, sendo autores os espólios que representavam os
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O formal de partilha contemplou 375 herdeiros colaterais, um cessionário por ter adquirido por ato de vontade três quotas dos herdeiros legítimos, bem ainda mais três credores do monte-mor, totalizando assim 379 condôminos contemplados (R-1/42.569, 5.º RI/DF).
herdeiros102 e, como réus, cada um dos ocupantes informais do CPR. Tais demandas experimentaram sentenças judiciais que não adotavam a mesma linha de entendimento hermenêutico, obviamente sem uniformidade no resultado. Apenas a título de ilustração, determinados entendimentos judiciais calcificaram-se na formalidade do não cabimento de pedido reivindicatório contra o ocupante individualmente considerado, posto que não existiam ―lotes‖ formais constituídos segundo o regramento da lei. Nessa linha de entendimento, sem a existência da res formal criada segundo a lei, não há sequer o que ser reivindicado, faltando assim pressupondo basilar do procedimento da denominada Ação Reivindicatória103. Outros entendimentos julgavam improcedentes os pedidos autônomos, por razões igualmente variadas. Porém, noutra direção, outros pedidos reivindicatórios eram reconhecidos legítimos na subjetividade hermenêutica, segundo os diferentes órgãos judicantes que respondiam a essas demandas.
Com efeito, a recuperação da posse pretendida pelos herdeiros somente se tornava mais incerta, dispendiosa e traumática. Pelas divergências de entendimentos entre os diversos juízes aos quais eram distribuídas as demandas do conflito possessório multitudinário, não obstante a essência do fato e das normas legais fossem as mesmas nas repetidas relações jurídicas que se formavam no mesmo espaço-tempo, porém, experimentavam a incongruência da possível desocupação forçada de uns terrenos e não de outros, até mesmo lado a lado. Isso se deve a efeito que as dissidentes correntes de pensamento jurídico produzem, como já fo i ressaltado alhures.
Era imprescindível que o conflito fosse unificado na competência e hermenêutica de um só órgão jurisdicional. Até certo ponto, isso foi alcançado com a criação da Vara de Meio Ambiente, Desenvolvimento Urbano e Fundiário do Distrito Federal – VMADUF/DF, quando a lei lhe deu competência material exclusiva para dirimir os conflitos coletivos pela terra em todo o DF. Com isso, os processos que ainda estavam pendentes de julgamento foram redistribuídos à VMADUF/DF. Contudo, mesmo assim não se teve conforto na medida em que persistiram os dissidentes entendimentos materiais e formais manifestados nos julgamentos dos recursos levados à instância colegiada, locus em que os seus órgãos jurisdicionais autônomos também tinham dissidências hermenêuticas, circunstância que fazia
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CPC, art. 12: ―Serão representados em juízo, ativa e passivamente: [...] V – o espólio, pelo inventariante; [...].‖
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O direito de reivindicar é decorrente do exercício do direito real de propriedade (CC, art. 1.225, I) pelo que poderá sujeitar-se ao direito de sequela (art. 1.228): ―O proprietário tem a faculdade de usar, gozar e dispor da coisa, e o direito de reavê-la do poder de quem quer que injustamente a possua ou detenha.‖ E o direito de propriedade só se reconhece a partir do registro do correspondente título aquisitivo, conforme arts. 1.227 e 1.245 do C. Civil.
persistirem as dificuldades de execução dos julgados não uniformes, pela radical diferença de conteúdo. A isso se misturavam algumas situações que, vencendo o filtro recursal, chegaram a receber julgamento de mérito no Superior Tribunal de Justiça. Em outras, simplesmente persistia a força da coisa julgada, que foi alcançada nos casos decididos definitivamente antes da criação da VMADUF/DF.
A babel do discurso jurídico tem o poder de produzir situações fabulosas como esta. Deixa perplexo o próprio jurista e, muito mais, o jurisdicionado. Mas é daí que, como um lampejo, vem a consciência da anomalia de Khun (2009), para no instante seguinte sugerir a ação totalizante na lida com a realidade maior que a ação particularista fragmentou sem produzir respostas aceitáveis pela comunidade. Afinal, não era uma simples questão de escolha sobre qual o modelo de sentença adotar, seja qual fosse o sentido de composição que continha em seu bojo, para resolver os conflitos individualizados. Para o jurista atento, sabe ele que existe enorme diferença entre a ação que simplesmente resolve o processo104-105, e a ação que produz solução ao problema que subjaz ao processo. Ora, ―resolver o processo‖ poderá ou não ―resolver‖ a lide, o conflito. Mas, se o conflito for resolvido, por via de consequência o ―processo‖ estará automaticamente ―resolvido‖, eis que este tem no ―objeto‖, necessariamente, um dos seus elementos constitutivos. Somente resta consignar que a ação racional não se dirige teleologicamente à resolução de processos, mas à resolução do conflito, tornando assim o processo uma questão secundária e, por isso, pouco interessante na perspectiva do resultado.
É dever do Estado, por seus poderes constituídos, governar, fazer e distribuir justiça. E o poder cabe aos mandatários da nação. São eles os ―magistrados‖106
em sentido amplo, independentemente de qualquer cisão tripartite que leve um poder a escudar-se na ação ou na omissão do outro. Tampouco constitui escusa justa do Estado a ineficiência de seus próprios instrumentos procedimentais forjados para dirimir as contendas. Afinal, paira sobre o Estado a suprema contingência para compor os conflitos internos, eis que se constitui em mediador institucional monolítico. Cumpre-lhe, por isso, o ônus irrecusável de mediar, direta ou indiretamente, os dissensos do corpo social por meio de processos comunicativos ou políticas públicas que produzam a pacificação social, isto é, mediação lato sensu.
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CPC, art. 267: ―Extingue-se o processo, sem resolução do mérito: [...].‖ 105
CPC, art. 269: ―Haverá resolução do mérito:
I – quando o juiz acolher ou rejeitar o pedido do autor; [...].‖ 106
―Magistrado: [...] 1. Indivíduo investido de múmus público, i. é, delegatário de poderes da nação ou do poder central, para governar ou distribuir justiça.‖ [...] (FERREIRA, 1986, mesmo verbete).
Essa perspectiva é a que então atua na concepção da consciência da complexidade do objeto. Por isso, é de se registrar de modo complementar que os espólios representantes dos herdeiros intentaram indenizações na via judicial pelas áreas desapropriadas, ou simplesmente tomadas por apossamento administrativo107 caracterizado no abandono estatal pela conclusão do projeto desapropriatório formal, embora mantida a ocupação pública de fato. Os decretos de desapropriação caducaram pela falta de ação que lhes dessem vigor final.
Assim, todos os personagens da trama tecida pela história, pela política e pelo produto social, econômico e jurídico, predominantemente, se encontravam presos ao mesmo espaço- tempo e nele não divisavam as possibilidades do equacionamento geral de seus respectivos interesses em conflito, mormente na limitada e tímida ferramenta da sentença judicial, sobretudo na evidenciada desatualização do seu método científico. Nesse quadro, os proprietários-herdeiros se viam frustrados pelas descomunais dificuldades práticas para ver realizado em seu proveito o direito de propriedade. De sua vez, os ocupantes (de certa parte da cidade de Santa Maria) e os moradores do CPR também se viam longe da solução de problemas fundiários antigos e intrincados, sem perspectivas de se verem atendidos na dimensão do respectivo direito social de moradia. Quanto ao Estado, não obstante cumprirem- lhe as prerrogativas de organizar as funções sociais da cidade e empreender as políticas públicas inerentes à regularização fundiária, pouco poderia fazer se não tivesse disponibilidade para agir nessas mesmas terras e sujeitá-las à sua ação concreta, nem mesmo em relação às áreas que pretendeu desapropriar e em relação às quais situava apenas uma parte do problema, ou em relação à área do CPR propriamente, que jamais fora declarada de interesse social para fins de desapropriação. Por fim, o interesse difuso concernente à ordem urbanística e ambiental, os mais negligenciados, porquanto secundários nos campos das batalhas sociais, igualmente estavam fora de cogitação para o respectivo equacionamento ante a responsabilidade de pessoas indeterminadas ou sem respaldo técnico e econômico para fazer frente aos correspondentes ônus.
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―Apossamento administrativo é o fato administrativo pelo qual o Poder Público assume a posse efetiva de determinado bem. Guarda semelhança com a desapropriação indireta, mas, enquanto essa atinge o direito do proprietário, acarretando a perda direta do próprio domínio em virtude da ocupação do bem pelo Estado, no apossamento administrativo a ação estatal investe mais diretamente contra o indivíduo que tem a posse de determinado bem, geralmente imóvel.‖ (CARVALHO FILHO, 2012, p. 871)
4.3.2 O espaço-tempo e os interesses em conflito: propriedade, moradia, ordem urbanística e proteção ambiental no CPR
É nesse espaço geográfico que, desde a implantação do CPR, interagem diversos interesses conflitantes: os da classe dos proprietários-herdeiros, visando ao provimento que lhes garanta os direitos que a retomada propicia no longo horizonte da tutela constitucional à propriedade; os da classe dos ocupantes, pelo desejo de concretude do seu direito social à moradia; os do Estado, consoante suas políticas públicas e prerrogativas de organizar e executar o pleno desenvolvimento das funções sociais da cidade; os da classe dos interessados difusos, isto é, a comunidade dos indivíduos indeterminados a quem a restauração e a manutenção da ordem urbanística e a proteção ao meio ambiente ecologicamente equilibrado108 constituem direitos indeclináveis.
O espaço de comunicação desses respectivos interesses esteve sobremaneira limitado, quando não estagnado, pelo formalismo das leis processuais, pelos ânimos dos espíritos exaltados, reforçando tudo isso a situação de inércia estrutural que não permitia ao sistema judicial clássico de solução de conflitos atuar de modo mais abrangente e eficiente em relação a todos.