FUNÇÃO GERENCIAL: UM DESAFIO PARA A VISA

No documento Vigilância Sanitária [Livro] - Biblioteca Virtual do NESCON (páginas 56-58)

A discussão do conceito de gerência é em si objeto de teses desde o advento da revolução industrial. Com a divisão social do trabalho, as propostas gerenciais vem evoluindo década a década neste fim de século. Não resta dúvida que independente do “estilo gerencial”, gerenciar em última instância refere-se a organização do processo de trabalho de uma empresa, instituição, organização, setor e/ou atividade que envolva pessoas, equipamentos, área física com vistas ao alcance de um determinado objetivo.

Na área da saúde esta discussão adquire uma série de particularidades, dentre as quais podem ser ressal- tadas: a profunda interdependência entre as diversas categorias profissionais, a dificuldade de mensuração do “produto” produzido, os aspectos da formação curricular que no mais das vezes não se enquadra às ne- cessidades do serviço, a presença das corporações fortemente organizadas, inclusive com poderes legais.

Os profissionais que atuam na VISA foram formados através da prática no serviço, capacitando-se num processo muitas vezes empírico, descontínuo e assistemático e não raro trazendo como consequên- cia um comprometimento da finalidade técnica e da eficácia de sua ação.

As iniciativas de capacitação que perduraram ao longo destes anos, partiram dos estados e municí- pios tendo como objetivo principal atender à uma demanda quase sempre imediata. Apesar disto, é importante destacar a iniciativa de Cursos de Especialização, voltados principalmente para a formação gerencial realizados em MG, MT, SP, RJ, entre outros.

É bom ressaltar iniciativas recentes como a da ANVISA, ao constituir em sua estrutura um mecanismo permanente de proposição e discussão de uma política de RH para o sistema, bem como o último Con- gresso da Abrasco (Salvador, Ago/00) que discutiu essa questão em uma oficina pré-congresso.

É consenso o fato de que para se implementar o sistema, é fundamental a definição de uma política de recursos humanos que atenda às necessidades de cada nível do governo, resguardando as especifi- cidades loco-regionais, numa vertente de promoção de processos de formação, capacitação e profissio- nalização dos técnicos de nível superior e médio, adequando-os à atender as demandas do setor.

Na prática o que se verifica, num rápido diagnóstico, é o provisionamento de recursos humanos sem estabilidade e sem as prerrogativas inerentes à função reguladora, dentre as quais cabe destacar a ina- movibilidade e a dedicação exclusiva.

A consequência mais marcante desta situação é uma alta rotatividade de profissionais gerando uma instabilidade nos quadros e uma absorção acentuada dos técnicos mais qualificados pelo setor privado, mais competitivo e atraente.

É freqüente a ausência de retaguarda de infra-estrutura para o funcionamento da VISA, seja pela falta de recursos materiais (veículos para execuções das ações, suporte de informática, aparelhos e equipa- mentos específicos) seja pela falta de recursos financeiros destinados a sua continuidade.

Promover a constante melhoria da qualidade da prestação dos serviços quer pela inovação, quer pela atuação de seus recursos humanos, quer pela renovação de seus processos de trabalho, constitui-se no principal desafio para a administração pública, principalmente na sua função regulatória na qual a VISA tem papel preponderante.

A função gerencial no setor público muitas vezes é exercida sem que o profissional passe por um processo preparatório que possibilite assumir a complexa tarefa de lidar com pessoas. Além do conhe- cimento técnico é fundamental que o gerente incorpore à sua prática mecanismos que facilitem o de- senvolvimento e o crescimento pessoal daqueles com quem trabalha, revelando-se um negociador e um administrador de conflitos inerentes ao processo de trabalho.

Faz parte da competência gerencial, além da capacidade de planejar, organizar e coordenar, o pa- pel de assumir a liderança tornando-se um facilitador, sabendo focar e motivar o grupo para alcan- çar seus objetivos, dando-lhe sustentação e sendo de tal forma flexível para permitir mudanças ne- cessárias de rota.

Antes de se implantar qualquer estratégia é importante conhecer para onde aponta a cultura da or- ganização. O conhecimento da existência dessa cultura não significa aceitá-la como é, mas apenas com- preendê-la antes de se iniciar qualquer ação de intervenção ou mudança.

Há que se reconhecer que sua caracterização na VISA não é assim tão simples. Inicialmente porque ela sofre muita pressão do ambiente externo, seja política, seja da sociedade que já criou muitos para- digmas a respeito do que são e como funcionam as organizações públicas. Também porque a descon- tinuidade administrativa determina avanços e retrocessos nesta estrutura modificando o seu desenvolvi- mento normal.

Propor, e mais do que isto alcançar a inovação passa por fatores:

4 Sociais – mudança de valores e normas de cultura organizacional, padrões de comportamento administrativo, percepções dos indivíduos;

4 Técnicos – mudanças na tecnologia utilizada, novos processos de trabalho;

4 Gerenciais – mudanças no processo decisório, melhor alocação de recursos, maior sensibili- dade e capacitação para atender as demandas.

São fundamentais neste processo de mudança:

4 compromisso da alta direção, (secretário, coordenador, etc.)

4 a integração dos atores organizacionais, esforço coletivo de reconstrução ou reelaboração da realidade organizacional

4 desenvolvimento dos recursos humanos através de um processo continuo de formação, capa- citação, etc.

Trabalhar com pessoas, formar grupos com a finalidade de desempenharem as tarefas específicas vi- sivelmente relacionadas com a missão da Vigilância Sanitária é uma ação estratégica. É fundamental que a Vigilância Sanitária aponte quais as respostas tem dado e quais as que ainda precisa dar à sociedade. A mudança de postura dos componentes destes grupos é prioritária para que a Vigilância Sanitária se consolide de vez. Isto significa,entre outros aspectos, o domínio do conhecimento técnico dos pro- cessos de produção/fornecimento de produtos e serviços. Este profissional precisa atuar, perante esses setores, como um “consultor/assessor”, nesse processo de trabalho prioritariamente pedagógico, de ori- entação e discussão de normas e procedimentos, visando com isso responder também à sociedade con- sumidora destes serviços/produtos que espera segurança, qualidade, eficácia dos mesmos.

Vale ressaltar que alguns componentes são fundamentais para o alcance de uma melhor atu- ação gerencial nos serviços de Vigilância Sanitária. São eles:

4 Autonomia para assegurar a eficiência e a racionalização do uso de recursos disponibilizados para o setor;

4 Capacidade de articulação política para lutar por maior afluxo de recursos (humanos, materiais e financeiros) para a Vigilância Sanitária;

4 Definição de uma política salarial que considere as especificidades do trabalho destes profissi- onais, cujas características de atuação são incompatíveis com qualquer atividade externa. 4 Profissionalização não só do gerente, explorando suas habilidades pessoais de liderança, não

necessariamente natas, provendo-o de informações necessárias a função tais como: capacitação para negociar, buscar inovações, ser um educador, entre outras, como também do técnico ca- pacitando-o com o conteúdo necessário para acompanhar o desenvolvimento tecnológico do setor produtivo/fornecedor.

Outro aspecto que deve ser enfatizado é o de publicidade e do controle da sociedade das ações desenvolvida pela Vigilância Sanitária, elemento estratégico para que a gestão dos seus serviços tenha êxito.

Os mecanismos de controle social, formais no SUS (conselhos, comissões inter-gestoras), na sua mai- oria, discutem questões referentes à Vigilância Sanitária somente através de demandas pontuais, geral- mente em momentos de crise.. Iniciativas de consolidação de fóruns de discussão do tema dentro des- tas estruturas, muitas vezes se restringem a grupamentos técnicos sem maior envolvimento de segmen- tos como usuários, prestadores, etc.

A criação de canais de difusão de informações, dinâmicos, de fácil acesso, horizontalizados captando a realidade do cidadão em seu espaço social e suprindo-o de informações necessárias para torná-lo ativo, constitue-se em instrumento que promoverá a legitimidade dos serviços da Vigilância Sanitária.

No documento Vigilância Sanitária [Livro] - Biblioteca Virtual do NESCON (páginas 56-58)