Júlio César Martins Siqueira

No documento Vigilância Sanitária [Livro] - Biblioteca Virtual do NESCON (páginas 53-56)

Especialista em Saúde Pública Superintendente de Vigilância Sanitária da Secretaria Estadual de Saúde de Minas Gerais

INTRODUÇÃO

A discussão do papel gerencial para as atividades atinentes ao campo da Vigilância Sanitária neces- sita de uma breve contextualização do processo de evolução da condução política nesta área.

A Vigilância Sanitária - VISA constitui-se em um importante espaço de intervenção na saúde das populações. Suas funções e seus instrumentos lhe conferem a propriedade de trabalhar no sentido de adequar o sistema produtivo de bens de interesse sanitário às demandas sociais de saúde e às necessi- dades do Sistema Único de Saúde.

Por ser uma área crítica das relações Estado e Sociedade a Vigilância Sanitária lida com grandes conflitos de interesses econômicos e políticos. Sua tarefa de mediador do interesse de certos seg- mentos sociais e o interesse coletivo a leva a intervenções, não só na área de saúde pública, mas também na área econômica ao auditar a qualidade de serviços de saúde, produtos, ambiente e rela- ções de trabalho.

A elaboração de uma política de Vigilância Sanitária baseia-se em dois princípios básicos: o reconhe- cimento do direito inalienável que têm todas as pessoas à saúde e a obrigação inarredável do Estado frente a este direito.

A partir da Lei Orgânica da Saúde e criação do Sistema Único de Saúde- SUS, uma mudança de rumo significativa é destinada a VISA dentro do setor saúde. Modifica-se sua conceituação e consequente- mente seu universo de atuação, incorporando-se o desenvolvimento de ações sobre meio ambiente e saúde do trabalhador

Incorporam-se novos elementos que passam à balizar o trabalho tendo com base os enfoques: 4 Epidemiológico: quando insere à sua prática a identificação de pontos críticos de controle, ava-

liação de riscos e agravos (da notificação à inspeção).

4 Programático: objetiva um trabalho sistematizado com o estabelecimento de rotinas que priori- zam ações de qualidade, eficiência e eficácia, mensuradas pelo impacto das mesmas.

Isto vem requerendo um grande esforço e constitui-se num enorme desafio para os serviços de VISA até então instalados.

Os Serviços de VISA tem uma marcante característica que é um conjunto de ações (autorizações de funcionamento, alvará, fiscalização de produtos e outros) com forte componente cartorial, amparado por uma estrutura historicamente deficiente para atender a demanda do setor produtivo, o que a torna mais vulnerável ao clientelismo e a corrupção. Na atualidade duas grandes questões devem se tornam refe- rencia para qualquer discussão gerencial:

a - A evolução do processo de Reforma do Estado que em última instância propõe a eliminação e/ou racionalização de normas, portarias, decretos e leis, apontando para o que se chama de “re-regulação”;

b - A crescente tomada de consciência da sociedade consumidora de seus direitos, exigindo res- postas mais eficazes desta estrutura.

A fragilidade no contexto administrativo, tradicional neste setor de conflitos, é devida muitas vezes ao não entendimento ou comprometimento dos gestores do sistema, (proporcional nos 3 níveis de Go- verno), quanto a inserção destas ações na definição de um espaço nas políticas de saúde.

Até o advento da Norma Operacional Básica- NOB de 1996, a sistemática de financiamento do sis- tema contemplava o pagamento por produção de procedimentos, o que levou a agudização da fragili- dade da VISA, que neste rol aparecia timidamente como uma atividade básica de baixa remuneração. Este mecanismo serviu para reforçar este afastamento da VISA refletindo, ainda, o visível “incômodo” que esta atividade trazia aos gestores.

A falência deste sistema de financiamento por produção, fez com que a nova NOB/96 contemplasse uma outra sistemática de pagamento, resultado das gestões dos Estados e Municípios.

delo de atenção à saúde, reforçando a direção única e os papéis de cada esfera de governo, alerta que para se efetivar esta reordenação há que se contemplar:

“todo o espectro de ações compreendidas nos chamados níveis de atenção à saúde, representados pela promoção, pela proteção e pela recuperação, nos quais deve ser sempre priorizado o caráter preven- tivo... constituídos por uma agregação simultânea de ações próprias do campo da assistência e de al- gumas próprias do campo das intervenções ambientais, de que são partes importantes as atividades de vigilância epidemiológica e de vigilância sanitária” (NOB 96).

Ao mesmo tempo salienta como condição de gestão dos municípios e estados a comprovada capa- cidade para o desenvolvimento de ações de VISA, agrupadas por nível de complexidade associando-se responsabilidade ao tipo de habilitação assumida.

Contudo,do ponto de vista do financiamento ficam asseguradas apenas as ações básicas, através de um irrisório PAB/VISA destinado ao custeio desta atividade.

A Lei Orgânica da Saúde 8080/90 ao definir competências para as três esferas de governo aponta para a configuração de um Sistema Nacional de VISA. Esta Lei destina à estrutura federal a competência prin- cipal de coordenar esse sistema, traçando as políticas e diretrizes para o seu funcionamento.

O movimento de modernização do Estado em curso neste momento, resulta numa discussão da ne- cessidade de revisão estrutural. Essa discussão, seguindo o fluxo da reforma, evolui após sucessivas pro- postas para a criação e instalação da ANVISA

Demonstrando a falta de articulação entre a antiga Secretaria Nacional de Vigilância Sanitária - SNVS e demais instâncias de governo, em paralelo a esta discussão algumas vigilâncias estaduais desenvolve- ram modelos e metodologias de funcionamento, regulamentação e parcerias no sentido de viabilizarem seu funcionamento.

Convém salientar que o quadro evidenciado neste processo de implantação e implementação do SUS, levou em alguns momentos a uma “crise de identidade” das VISAS estaduais, forçando a um processo de reordenação e readequação frente às suas novas funções de gestor do sistema. Esta “crise” teve re- percussões no trabalho de coordenação das ações desenvolvidas pelos municípios, bem como nas ati- vidades de execução direta, em caráter complementar, das ações não executadas pelos municípios.

Em relação aos municípios é possível observar que, na grande maioria, a implantação de serviços avança ou retrocede ao sabor das condições políticas. Se por um lado aproximar esta atividade da po- pulação, possibilitando um controle mais próximo e mais passível da intervenção, constitui-se no obje- tivo da descentralização da VISA, por outro torna-a mais vulnerável à pressões econômicas e políticas.

Os serviços muitas vezes se organizaram a partir de demandas e pressões pontuais, sem planeja- mento, infra-estrutura adequada e com recursos humanos improvisados. A maioria dos municípios re- duzem suas atividades ao controle de alimentos basicamente no comercio, ao controle de animais no domicilio e peri-domicilio e a algumas ações relativas ao meio ambiente.

No documento Vigilância Sanitária [Livro] - Biblioteca Virtual do NESCON (páginas 53-56)