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4 A REGRA-MATRIZ DE INCIDÊNCIA DO IPI SOBRE A IMPORTAÇÃO

4.4 Critério Pessoal

4.4.2 Sujeito passivo: a figura do importador e as indevidas equiparações e o

4.4.2.1 O importador como equiparado a industrial quando der saída do produto

Já o dissemos oportunamente, no capítulo terceiro, que as equiparações que condizem com as demais normas do sistema e, portanto, permitidas pelo Direito, são aquelas realizadas a partir da possibilidade de encontrar elementos que denotem semelhanças, elos, algo em situações ou pessoas que permite haver uma equiparação.

Na equiparação a importador, deve ser tomado eventual sujeito que venha a apresentar semelhanças que permitam o equiparar a importador, conquanto que, para isso, possa ter relação com a materialidade importar produtos industrializados. Afora isso, não teremos equiparação, mas ficção legal, ou seja, “criação” na figura de um sujeito que efetivamente não se vincula à materialidade importar produtos industrializados.

O CTN trata o importador e o equiparado como contribuintes de IPI. O art. 4º da Lei nº 4.502/64 equipara ao estabelecimento produtor os importadores de produtos de

procedência estrangeira167. Até aqui o sujeito passivo corresponde à materialidade de importar produtos industrializados.

Ocorre que o Decreto, ao regulamentar a Lei nº 4.502/64 e estabelecer a equiparação ao estabelecimento industrial, dispôs “os estabelecimentos importadores de produtos de procedência estrangeira, que derem saída a esses produtos”.168

O importador, além de recolher o imposto no momento do desembaraço aduaneiro, passou a ser obrigado a recolher o IPI também quando desse saída dos produtos do seu estabelecimento importador, em decorrência do disposto no referido diploma legal que o equipara a estabelecimento industrial169.

A hipótese tributária do IPI na importação de produtos industrializados já vimos ser inteiramente possível, perfazendo-se numa faixa autônoma de incidência. O que se pode questionar é a incidência do referido tributo nas operações de saídas subsequentes à importação, pois, além de efetivar o pagamento do IPI no desembaraço aduaneiro, o importador está sendo impingido a pagar quando der saída do produto de seu estabelecimento, mas, agora, pela saída do estabelecimento como equiparado à industrial.

O Decreto impropriamente fez acrescer nova exigência ao importador, seja porque não pode inovar ao disposto na lei, seja porque o importador, ao dar saída do produto, não guarda qualquer identificação com a figura do estabelecimento industrial, já que nada industrializou.

O estabelecimento industrial ou não que importe produtos industrializados pagando o respectivo IPI no desembaraço aduaneiro e que, posteriormente, coloque-os à comercialização não pode se sujeitar novamente à incidência do IPI, eis que não realizou qualquer industrialização.

167 Art. 4º Equiparam-se a estabelecimento produtor, para todos os efeitos desta Lei:

I - os importadores e os arrematantes de produtos de procedência estrangeira; […]

(BRASIL. Presidência da República. Lei nº 4.502 de 30 de novembro de 1964. Dispõe Sôbre o Impôsto de Consumo e reorganiza a Diretoria de Rendas Internas. Brasília, 16 jul. 1965).

168 Art. 9º, I (grifo nosso).

(Id. Presidência da República. Decreto nº 7.212, de 15 de junho de 2010. Regulamenta a cobrança, fiscalização, arrecadação e administração do Imposto sobre Produtos Industrializados - IPI. Brasília, 15 jun. 2010).

169 Art. 9o Equiparam-se a estabelecimento industrial:

I - os estabelecimentos importadores de produtos de procedência estrangeira, que derem saída a esses produtos; […] (Ibid.).

Deveras, quando o importador simplesmente der saída do produto, não realiza a hipótese abstratamente prevista como ensejadora do IPI, ou seja, não pratica qualquer conduta atinente à “industrializar produtos”, não podendo ser submetido ao pagamento do IPI.

Algumas equiparações que são verdadeiras ficções legais, como já discorremos quando abordamos o sujeito passivo da hipótese tributária que tem como materialidade industrializar produtos, foram realizadas impropriamente pelo Decreto; eis que se inovou a ordem jurídica por instrumento não competente, já que a eleição dos critérios da regra padrão de incidência estão submetidos à lei. Por sua vez, a lei criou equiparações dissonantes com a referida materialidade que elegeu, qual seja, industrializar produtos.

Além disso, também destacamos, ao tratar do sujeito passivo dos produtos da indústria, que, embora o direito cria suas próprias realidades, essas possuem limites dentro do próprio sistema jurídico, ou seja, o sujeito passivo eleito somente pode ser escolhido dentre aqueles que realizam a hipótese prevista no critério material ou tenham vínculo com ele.

Não foi o que aconteceu no caso. Os produtos importados e postos à comercialização não passaram por qualquer procedimento de industrialização, não havendo subsunção do fato à norma, como nos ensina Paulo de Barros Carvalho, pois, se os critérios materiais eleitos se perfazem em industrializar produtos e importar produtos industrializados, tendo esse ocorrido, as operações subsequentes na hipótese industrializar produtos só pode ocorrer se industrialização houver.

A incidência somente se perfaz quando houver concreção do fato previsto na hipótese. São as lições de Paulo de Barros Carvalho:

Mas esse quadramento do fato à hipótese normativa tem de ser completo, para que e dê, verdadeiramente, a subsunção. É aquilo que se tem por tipicidade, que no Direito Tributário, assim como no Direito Penal, adquire transcendental importância. Para que seja tido como fato jurídico tributário, a ocorrência da vida real, descrita no suposto da norma individual e concreta expedida pelo órgão competente, tem de satisfazer a todos os critérios identificadores tipificados na hipótese da norma geral e abstrata170.

Se a hipótese abstratamente prevista é “industrializar produtos”, o fato relevante a produzir efeitos jurídicos somente poderá ser aquele que realizar tal hipótese, ou seja, que se caracterize num efetivo processo de industrialização, pois quanto à hipótese importar produtos industrializados, já se realizou com a importação e no momento do desembaraço aduaneiro.

Ademais, se a hipótese tributária de incidência do IPI sobre os produtos industrializados importados tem o condão de salvaguardar a indústria nacional, mantendo uma igualdade entre o produto nacional e o importado, a carga incidente quando da importação já realizou tal intento. Legítima, portanto, a exigência do IPI do importador de produtos industrializados.

Destarte, não se pode considerar o importador como sujeito passivo do IPI nas operações internas de revenda ou transferência dos produtos que importou, a título de ser equiparado a industrial, sendo um despropósito tributar os atos subsequentes por meio do IPI, pois que efetivamente nesse momento o importador não realiza a conduta “industrializar produtos”.

Roque Antonio Carrazza e Eduardo Domingos Bottallo afirmam que, no caso, não se fazem presentes os pontos de aproximação necessários entre o comerciante- importador e o industrial, capazes de justificar uma equiparação e submeter a tributação por meio do IPI:

Portanto, não estão reunidos os elementos necessários e suficientes para que ocorra a equiparação, único fenômeno jurídico que pode render ensejo à tributação por meio de IPI, a quem, no rigor dos fatos, não é industrial.

O que há, sim, é uma ficção, inidônea a possibilitar a incidência de IPI, para quem, não sendo industrial (nem validamente a ele equiparado), revende ou transfere produtos importados.

Considerar tal ficção, modalidade de equiparação autorizada pelo CTN, implica atribuir tratamento igual a situações diferentes, levando em conta apenas semelhanças secundárias que elas eventualmente possam apresentar171.

171 CARRAZZA, Roque Antonio; BOTTALLO, Eduardo Domingos. A não-incidência do IPI nas operações

internas com mercadorias importadas por comerciantes (um falso caso de equiparação legal). Revista

O produto importado nem sempre será submetido a algum outro processo de industrialização, criando a lei, então, ficção jurídica, ao determinar que a saída do produto do estabelecimento do importador deve incidir IPI e também cria obrigação indevida para a figura do comerciante que importou produtos para revendê-los no mercado interno, já que efetivamente não realiza operação que possa caracterizar industrialização. Deveras, a sua incidência já ocorreu no desembaraço aduaneiro.

Entretanto, pelo atual regulamento do IPI, mesmo que o importador não venha a industrializar os produtos que importou, tem que proceder ao pagamento de IPI em dois momentos, sendo o primeiro no desembaraço aduaneiro e o segundo quando esse importador der saída do produto importado no mercado interno (equipara-se a industrial).

Ainda nas lições de Roque Antonio Carrazza e Eduardo Domingos Bottallo:

[…] a conclusão a que chegamos é que a potencialização da eficácia arrecadatória não tem força bastante para justificar o uso indiscriminado de equiparações e ficções legais no campo tributário, especialmente quando isso põe em risco os direitos constitucionais dos contribuintes172.

O Superior Tribunal de Justiça posicionou-se no sentido de haver realmente duplicidade de incidência do imposto, afastando aquele incidente na saída do estabelecimento do importador por inexistirem atos de industrialização. Parece-nos guardar plena razão o Tribunal Superior. Vejamos ementa:

EMPRESA IMPORTADORA. FATO GERADOR DO IPI. DESEMBARAÇO ADUANEIRO.

I - O fato gerador do IPI, nos termos do artigo 46 do CTN, ocorre alternativamente na saída do produto do estabelecimento; no desembaraço aduaneiro ou na arrematação em leilão.

II - Tratando-se de empresa importadora o fato gerador ocorre no desembaraço aduaneiro, não sendo viável nova cobrança do IPI na saída do produto quando de sua comercialização, ante a vedação ao fenômeno da bitributação.

III - Recurso especial provido173.

172 CARRAZZA, Roque Antonio; BOTTALLO, Eduardo Domingos. A não-incidência do IPI nas operações

internas com mercadorias importadas por comerciantes (um falso caso de equiparação legal). Revista

Dialética de Direito Tributário. São Paulo, n. 140, 2007, p. 98.

173 BRASIL. Superior Tribunal de Justiça. Recurso Especial nº 841.269/BA. Relator: Ministro Francisco

O Ministro Francisco Falcão, em seu voto, esclareceu que devem se tomar diferentemente as equiparações, já que consubstanciadas nas hipóteses tributárias distintas (inciso I e II):

O recorrente é comerciante e importador de tapetes, conforme reconhecido no acórdão recorrido.

Ao importar os produtos industrializados e desembaraçá-los na aduana, o contribuinte, nos termos do artigo 46, I, do CTN, fez nascer o fato gerador do IPI, o que impõe o pagamento da exação.

O referido dispositivo legal apresenta três hipóteses de incidência tributária, quais sejam: a) o desembaraço aduaneiro, quando o produto tem procedência estrangeira; b) a saída do produto dos estabelecimentos a que se refere o parágrafo único do artigo 51; e c) a arrematação dos produtos, quando apreendidos ou abandonados e levados a leilão.

As diferentes operações encimadas explicitam em que hipóteses alternativas deverá recair o IPI.

Ao explicitar que incidirá imposto sobre produtos industrializados na operação de saída do produto nos estabelecimentos a que se referem o parágrafo único do artigo 51 do CTN, o legislador indicou qualquer estabelecimento importador, industrial, comerciante ou arrematante, para consignar que a hipótese de incidência do IPI é a realização de operações com produtos industrializados, sejam os contribuintes importadores, industriais, comerciantes ou ainda arrematantes em leilão.

A indicação constante da parte final do inciso II do artigo 46 do CTN não atinge, como é curial, a hipótese descrita no inciso I, do mesmo regramento, uma vez que este inciso traz situação dirigida ao produto de procedência estrangeira.

Permitir a dupla incidência do mesmo tributo (IPI), primeiro no desembaraço aduaneiro, depois na saída da mercadoria do estabelecimento importador, seria praticar a bitributação e, mais, malferir o princípio da isonomia e da competência tributária onerando ilegalmente o estabelecimento importador, o qual já sofre

bis in idem na entrada da mercadoria, com o recolhimento de Imposto Sobre Produtos Industrializados e Imposto de Importação. (grifos nossos).

Os Tribunais Regionais também tem seguido a orientação da Superior Tribunal de Justiça, conforme decisão do Tribunal Regional Federal da Quarta Região:

TRIBUTÁRIO. EMPRESA IMPORTADORA. FATO GERADOR DO IPI. DESEMBARAÇO ADUANEIRO.

I - O fato gerador do IPI, nos termos do artigo 46 do CTN, ocorre alternativamente na saída do produto do estabelecimento; no desembaraço aduaneiro ou na arrematação em leilão.

II - Tratando-se de empresa importadora o fato gerador ocorre no desembaraço aduaneiro, não sendo viável nova cobrança do IPI na saída

do produto quando de sua comercialização, ante a vedação ao fenômeno da bitributação174.

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TRIBUTÁRIO. EMPRESA IMPORTADORA. FATO GERADOR DO IPI. DESEMBARAÇO ADUANEIRO. COMERCIANTE DE