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Lei (nº 5/2013) do Estatuto do Jornalista

6 Liberdade de expressão e de comunicação social no sistema jurídico guineense

6.1 Proteção material

6.1.2 Legislação complementar

6.1.2.2 Lei (nº 5/2013) do Estatuto do Jornalista

O poder legislativo guineense, tendo bastante preocupação com o jornalismo independente, fez questão de editar uma lei intitulada Estatuto do Jornalista, que explica quais são critérios necessários para que um sujeito humano seja classificado como jornalista; em outras passagens reservou também alguns artigos sobre os direitos e deveres de um profissional de comunicação social. Na realidade, esta lei veio substituir a outra lei até então existente (Lei nº 5/91). A lei atual de 2013, logo no seu preâmbulo, traz uma redação muito importante e factual para a maioria das democracias existentes8, tendo a comunicação social como quarto poder na escala dos poderes do Estado guineense.

Nesse contesto, selecionar-se-ão alguns artigos9 mais destacados e de interesse à presente pesquisa. Começando com o artigo 2º, que fala sobre o conceito de jornalista

8 Realça ainda que, a esse desiderato, visa atingir o papel e as atribuições a que a Comunicação Social foi

reservada, enquanto quarto poder por um lado, e, por outro, os direitos e regalias que aos seus profissionais são devidos.

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Artigo 2º (Jornalistas profissionais) 1. Para o efeito de presente diploma consideram-se jornalistas aqueles que, como ocupação principal, permanente e remunerada, exercem funções de pesquisa, recolha, selecção e tratamentos de factos, notíciais ou opiniões, através de texto, imagem ou som, destinados a divulgação informativa pela imprensa, por agência noticiosa, pela rádio, pela televisão ou por outra forma de difusão eletrônica. 2. São ainda equiparados a jornalista profissional todos aqueles que, com observância das condições de ocupação previstas no número interior: a) Desempenham a função de correspondente, em território nacional, de órgãos de comunicação social nacionais ou estrangeiros, ou, no estrangeiro, de órgãos de comunicação social nacional. Artigo 3º (Capacidade e acesso à profissão) 1. É jornalista todo o indivíduo maior com a formação em comunicação social ou equivalente e que se encontre no pleno gozo dos seus direitos civis e políticos. 2. A profissão de jornalista inicia-se com um estágio obrigatório, a concluir com aproveitamento: a) Com a duração de 18 meses em caso de habilitação com curso superior; b) Com a duração de 12 meses em caso de licenciatura na área de comunicação social ou de habilitação com curso equivalente, reconhecido pela Comissão de Carteira Profissional de Jornalista. Artigo 5º (Obrigatoriedade de título profissional) 1. Só podem exercer a profissão de jornalista, sendo obrigados pelos direitos e deveres contemplados no presente diploma, os indivíduos habilitados com a correspondente carteira profissional. 2. Nenhum órgão de comunicação social

profissional, para esta lei o jornalista profissional seria exclusivamente aquele que desempenha a função de jornalismo como meio de pesquisa, para recolher informação, selecionar fatos ocorridos na sociedade, procurar notícias e/ou opiniões de seu interesse, o que pode ocorrer por intermédio de um texto, uma imagem ou som, com o objetivo de divulgá-las através de meios de comunicação social (imprensa escrita, rádio, televisão ou internet) à sociedade local e ao mundo como um todo. Essa atividade deve ser remunerada; permanente ou estável, “não necessariamente perpétua” ao indivíduo atuante. Os instrumentos indispensáveis ao exercício de atividade jornalística são extensivamente igualados a jornalistas profissionais; e aquelas pessoas que exercem a atividade de correspondentes dos órgãos midiáticos guineenses ou estrangeiros são equiparados, legalmente, a jornalistas profissionais.

Outro item que, também, merece destaque neste trabalho é o artigo 3º, que fala sobre as condições e capacidades para ser um jornalista profissional, assim somente seriam profissionalmente considerados jornalistas os indivíduos humanos maiores de idade, devidamente formados na área de comunicação social ou em qualquer área análoga, e que pode admitir ou manter ao seu serviço, na qualidade de jornalista profissional, qualquer indivíduo que não disponha do título mencionado no número antecedente. Artigo 8º (Direitos do jornalista) 1. São direitos do jornalista: [...] d) A salvaguarda da sua independência; e) A livre utilização de equipamentos e demais material afeto ao exercício da sua profissão, o qual só poderá ser apreendido ou exigido por força de mandado judicial expresso [...] Artigo 9º (Liberdade de expressão e de criação) 1. A liberdade de expressão e de criação dos jornalistas não está sujeita a impedimentos ou discriminações nem subordinada a qualquer forma de censura. 2. Os jornalistas têm o direito de assinar, ou fazer identificar com o respectivo nome profissional, os trabalhos da sua criação individual ou em que tenham participado. 3. Os jornalistas têm o direito à procteção dos textos, imagens, sons ou desenhos resultantes do exercício da liberdade de expressão e criação, nos termos das condições legais aplicáveis. Artigo 10º (Direitos de acesso a fontes oficiais de informação) 1. É assegurado aos jornalistas o direito de acesso às fontes de informação: b) Pelas empresas de capitais total ou maioritariamente públicos, pelas empresas controladas pelo Estado, pelas empresas concessionárias de serviço público ou do uso privativo ou exploração do domínio público e ainda por quaisquer entidades privadas que exercem poderes públicos ou prossigam interesses públicos, quando o acesso pretendido respeite a actividades reguladas pelo direito administrativo [...] 3. A recusa do acesso às fontes de informação por parte de algum dos orgãos ou entidades referidos no n.º 1 deve ser fundamentada e contra ela podem ser utilizados os meios administrativos ou contenciosos que no caso couberem. Artigo 11º (Cláusula de consciência) 1. Os jornalistas não podem ser forçados a exprimir opinião ou praticar actos profissionais contrários à sua consciência e ao estatuto editorial do órgão em que prestem funções. 2. Em caso de alteração notória e relevante da linha de orientação do órgão de comunicação social a que se encontre vinculado devidamente confirmada pelo Conselho Nacional de Comunicação Social, o jornalista pode rescindir unilateralmente o respectivo contrato de trabalho, sem aviso prévio, tendo direito à indenização prevista pela lei geral em caso de despedimento sem justa causa. 3. O direito de rescisão previsto neste artigo deve ser exercido, sob pena de caducidade, nos trinta dias subsequentes ao reconhecimento da confirmação a que se refere o n.º 2. Artigo 26º (Multas) A violação do dispositivo no n.º do artigo 5º [...] é punida com multa cujos valores são fixados anualmente por despacho do Ministro da tutela de acordo com a taxa oficial de inflação.

estão no exercício dos seus direitos civis e políticos; para esta lei, na prática, a carreira de jornalista deve ser começada com um estágio obrigatório preliminar: aos portadores do título de um curso superior, o lapso temporal obrigatório é de um ano e seis meses; já os portadores do diploma (de ensino superior) em comunicação social (independendo da especialidade: rádio; televisão; ou imprensa escrita), o lapso temporal seria apenas de um ano de estágio obrigatório, estão incluídos nesse intervalo temporal aqueles que têm uma formação similar reconhecida pela categoria da área profissional de comunicação social, isto é, pela Comissão da Carteira Profissional de Jornalismo.

Prosseguindo com os nossos comentários de anotações, o artigo 5º explana sobre a obrigatoriedade de título profissional. Automaticamente só é jornalista de profissão quem é portador desse título profissional, o que é devidamente comprovado através de uma carteira emitida pela categoria profissional, e somente estes podem desempenhar profissionalmente o jornalismo. As instituições de mídia guineense têm o dever de não contratar como jornalista profissional, muito menos de manter dentro das suas instalações, como jornalistas, os indivíduos que não têm essas habilitações.

Quem está fora dessas qualificações, legalmente, não pode ser considerado jornalista, e muito menos exercer atividade jornalística, caso contrário arcará com as consequências no limite das legislações guineenses. Resta saber se, nos órgão de comunicação social desse país, todos os que desempenham atividade de jornalista se encontram enquadrados dentro dessas qualificações e se há punições em caso de violações dessas qualificações. Os próprios atuantes da área jornalística já responderam a essas perguntas ao longo da pesquisa de campo que fizemos na Guiné sobre esse tema, as quais serão apresentadas no momento apropriado.

O capítulo II é reservado aos direitos e deveres dos jornalistas, e no seu artigo 8º aborda assuntos sobre direitos dos jornalistas, determinando que constituam os direitos dos jornalistas, entre outros, a preservação da sua independência, do seu bem-estar e da sua autonomia, tarefa essa atribuída não só ao jornalista profissional, mas também à sociedade na sua totalidade, e o poder público deve sempre atuar no sentido de salvaguardar a liberdade de comunicação social; os aparelhos fundamentais aos serviços do jornalismo só podem ser apreendidos por um ato expresso da magistratura judicial, nenhuma outra instituição pública tem competência similar.

O artigo 9º se debruça sobre a liberdade de expressão e de criação dos jornalistas, garantindo, assim, que aos profissionais desta área devem ser dadas as suas liberdades de expressar, e devem ser afastadas todas as possibilidades que impeçam ou discriminem tais

liberdades, e não devem ser sujeitos a censura; quanto aos trabalhos de criação e de sua autoria (que pode ser uma produção intelectual, ou investigativa, entre outras), o profissional tem direito de registrá-los em seu nome, o mesmo acontece caso haja coautoria; nestes termos, observando os dispositivos legais, têm também o direito à proteção e/ou de prevenirem-se contra quaisquer danos às suas produções (textos, imagens, sons ou desenhos) decorrentes de exercício dos seus direitos de expressão.

Indo mais além, o artigo 10º aborda assuntos ligados ao direito de acesso a fontes oficiais de informação, alegando que é um direito dos profissionais de comunicação social ter acesso a fontes de informações das entidades empresariais geridas totalmente por recursos de capitais públicos, e esse direito se estende às empresas cuja maioria dos recursos é gerida por bens público; àquelas empresas sob controle do Estado; àquelas empresas outorgadas a explorar quaisquer serviços públicos ou de interesse público; àquelas empresas privadas que exercem atividades de poderes públicos, isto é, grosso modo, todas as empresas públicas ou privadas que mexem com bens e erários públicos, independendo da percentagem dos erários, são obrigadas, no limite da lei, a fornecer as informações desejadas pelos profissionais de comunicação social. A criação de obstáculos para estes terem acesso a tais fontes informativas, por parte dessas entidades empresarias públicas e/ou privadas de concessão pública, ou exclusivamente privadas mas que mexem com erários públicos, deve ser devidamente justificada, caso contrário e/ou mesmo se as justificativas foram infundadas, essa rejeição pode transformar-se em um processo administrativo ou mesmo judicial contra a referida empresa. Na realidade, este item se direciona ao que mais se chama de jornalismo investigativo.

O artigo 11º fala sobre a liberdade de consciência dos profissionais de comunicação social, que nesta lei foi garantida aos jornalistas, certificando que estes não podem sofrer constrangimentos para expressar suas opiniões ou para executar ações profissionais que estejam em desacordo com a sua consciência, como também com o estatuto editorial que regula a própria instituição de comunicação social onde jornalista exerce a sua função. Após devidamente confirmado pelo CNCS, o jornalista em causa terá o direito e a liberdade, unilateralmente, de rescindir o contrato de trabalho firmado junto ao órgão, em caso de desvio visível na linha de orientação ou de alteração perversa de condutas do próprio órgão de comunicação social, com desnecessária apresentação do aviso prévio por parte do jornalista, que ainda terá direito, nos termos da lei, a uma indenização por parte do patrão, em caso de demissão injusta. Esse direito de rescisão deve obedecer a um prazo de um mês contado a

partir da data de confirmação do fato por parte do CNCS; ultrapassando-se esse prazo, tal direito extingue-se.

O teor do artigo 15º versa sobre direitos e deveres, onde se descreve que são os deveres dos jornalistas: levar em consideração os princípios editoriais e as orientações da instituição midiática a que está vinculado; tratar com seriedade e imparcialidade a informação a ser veiculada; reconhecer e respeitar as restrições e os limites postos ao exercício da liberdade de comunicação social; nas suas atuações profissionais, abdicar de princípios e comportamentos não éticos – os princípios éticos devem ser formalizados através de um Código Deontológico elaborado pela própria associação da categoria dos profissionais de comunicação social.

E, por fim, terminando de comentar esta lei, seu artigo 26º baliza as formas como as penas devem ser aplicadas em casos de violações deste Estatuto de Jornalista, que se limitam exclusivamente a multas. Este artigo determina que, em caso de violações das obrigações estipuladas no inciso segundo (e no artigo 24º, que não citamos neste trabalho porque não é de interesse do nosso estudo) do artigo 5º da presente lei, o violador será punido com multas fixadas, respeitadas as inflações, a cada ano, através de um despacho do ministro da área, que no caso, seria do Ministério da Comunicação Social. Ao terminar as anotações feitas sobre a lei que regula este Estatuto, agora faremos uma análise da lei que cuida especificamente das rádios na Guiné-Bissau.

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