6 Coisa julgada e seu objeto (Coisa julgada sobre o que?)
6.7 Limites objetivos da coisa julgada
6.7.4 Limites objetivos e eficácia preclusiva da coisa julgada
O derradeiro aspecto relacionado aos limites objetivos da coisa julgada que merece nossa atenção diz respeito ao seu modo de relacionamento com o que se denomina eficácia preclusiva400.
Já foi visto que a coisa julgada constitui a qualidade de tornar indiscutível a norma jurídica concreta que emana da parte dispositiva da decisão judicial. Para a criação de tal norma, deverá o magistrado se manifestar sobre o mérito da demanda, ou seja, sobre a relação jurídica substancial deduzida em juízo, delimitada objetivamente pela causa de pedir e pelo pedido formulados pelo autor.
Segundo o art. 468 do CPC, a sentença terá força de lei “nos limites da lide e das questões decididas”, ou seja, a força normativa da decisão judicial incidirá de forma restrita sobre o mérito da demanda (lide) e sobre as questões efetivamente decididas pelo magistrado. Não incidirá, portanto, em relação ao que, apesar de poder ter sido alegado pelas partes, não o foi, sendo vedados no ordenamento jurídico brasileiro julgamentos implícitos.401
400 Também conhecido como efeito de extensão, efeito de exclusão ou julgamento implícito. (MITIDIERO,
Daniel. Coisa julgada, limites objetivos e eficácia preclusiva. Introdução ao Estudo do Processo Civil... p. 205).
401
O fenômeno tratado é conhecido pela doutrina francesa como “julgamento implícito”, porém não se pode admitir no direito brasileiro tal possibilidade, em respeito ao devido processo legal, especialmente no tocante ao contraditório, ampla defesa e dever de motivação das decisões judiciais. (MITIDIERO, Daniel e OLIVEIRA, Carlos Alberto Alvaro de. MITIDIERO, Daniel e OLIVEIRA, Carlos Alberto Alvaro de. Curso de processo
Diante disso, apresenta-se a questão de como se tornará indiscutível a decisão se os limites objetivos da coisa julgada só incidirão sobre o que foi efetivamente decidido pelo juiz. É justamente para tapar essa aparente lacuna no sistema processual que aparece como relevante instrumento a eficácia preclusiva da coisa julgada. “Aquilo que não foi decidido não é alcançado pela coisa julgada. Necessário então um instituto complementar para abarcar as situações que não foram decididas, mas poderiam ter sido se a parte houvesse deduzido tais matérias.”402
É que, não obstante alguns argumentos eventualmente não tenham sido apresentados e, portanto, decididos pelo juiz, com a formação da coisa julgada, reputam-se “deduzidas e repelidas todas as alegações e defesas, que a parte poderia opor assim ao acolhimento como à rejeição do pedido” (art. 474 do CPC). O efeito preclusivo atua, portanto, fora dos limites objetivos da coisa julgada, manifestando um âmbito de incidência suplementar.403
Trata-se de enxergar, nesse momento, a coisa julgada como fato jurídico propulsor de efeitos, dentre os quais o de tornar preclusas quaisquer alegações que poderiam ter sido feitas, mas não o foram oportunamente.404 Dentre os diversos efeitos produzidos pela coisa julgada, um deles é o preclusivo.405 Assim, esse efeito da coisa julgada faz com que, após o trânsito em julgado, não se possa mais questionar a correção da decisão proferida, apesar de não ter havido pronunciamento sobre todos os argumentos possíveis a respeito do mérito da demanda. As questões não trazidas à apreciação se tornam irrelevantes juridicamente em relação à decisão proferida.406
Mas se faz necessário destacar que, se o julgamento do magistrado está limitado aos contornos da relação jurídica exposta em juízo (causa de pedir e pedido), devendo o pedido ser apreciado apenas em relação à causa de pedir declinada como seu fundamento, com muito mais razão a eficácia preclusiva da coisa julgada limitar-se-á à presunção do deduzido e repelido apenas em relação ao objeto litigioso sob julgamento, não abarcando quaisquer fatos jurídicos distintos da relação substancial apreciada.
402 SÁ, Renato Montans de. Eficácia preclusiva da coisa julgada. São Paulo: Saraiva, 2011, p. 215.
403 GUIMARÃES, Luiz Machado. Preclusão, coisa julgada, efeito preclusivo. Estudos de Direito Processual Civil. Rio de Janeiro, 1969, p. 32.
404
BARBOSA MOREIRA, José Carlos. A eficácia preclusiva da coisa julgada material no sistema do processo civil brasileiro. Revista dos Tribunais. São Paulo, v. 441, p. 14-23, 1992.
405 SÁ, Renato Montans de. Eficácia preclusiva da coisa julgada. São Paulo: Saraiva, 2011, p. 205.
406 BARBOSA MOREIRA, José Carlos. A eficácia preclusiva da coisa julgada material no sistema do processo
Frise-se, sendo diversa a lide conduzida à apreciação do Poder Judiciário, seja porque o seu objeto é distinto, seja em razão da modificação dos fatos jurídicos que justificam o pedido, nem sequer se pode cogitar em aplicação daquela decisão antes proferida a essa nova relação jurídica. Se isso é verdade, a eficácia preclusiva da coisa julgada formada não impedirá que outra demanda seja proposta sobre a nova relação jurídica, sem qualquer limitação cognitiva decorrente da decisão antes proferida.
Assim, para se fazer presente o pressuposto processual negativo da coisa julgada (tríplice identidade – partes, causa de pedir e pedido), é necessário que a lide objeto da segunda demanda (objeto litigioso do processo) seja exatamente a mesma apreciada na primeira, compondo o seu mérito, portanto, os mesmos fatos jurídicos e objeto já analisados. Caso não haja essa rigorosa identidade objetiva (e subjetiva) entre as duas demandas, não estará configurada a inviabilidade de processamento da segunda, bem como impensável qualquer tipo de aplicação da eficácia preclusiva da coisa julgada em relação aos fatos jurídicos diversos daqueles apreciados.407
A referência a fatos jurídicos diversos está estreitamente ligada ao quanto antes exposto a respeito da causa de pedir, sendo esta composta pelos fatos essenciais, abstraídos os fatos secundários e a fundamentação legal. Apresentados novamente os mesmos fatos essenciais, a identidade da demanda estará configurada, ainda que revestidos de nova configuração jurídica408 ou enriquecidos por diversos fatos secundários. Meros argumentos fáticos ou jurídicos relacionados à causa de pedir apreciada não são aptos a modificar a demanda e, assim, afastar o óbice da coisa julgada.
Sendo assim, na hipótese de improcedência do pedido veiculado em um processo judicial, nada obsta que o mesmo pedido seja novamente apresentado no bojo de nova demanda, desde que baseado em causa de pedir diversa, pois o objeto litigioso do segundo processo será distinto daquele apreciado no primeiro. Se o fato jurídico propulsor do pedido muda, o mérito da demanda também se altera, não alcançando a eficácia preclusiva da coisa julgada causas de pedir que não foram veiculadas no primeiro processo.409
407
“Afirma-se tradicionalmente que, sendo alterado o pedido, ainda que mantida a causa de pedir, estará afastada a identidade, e, portanto, a nova ação estará alheia aos limites objetivos da coisa julgada”. (TALAMINI, Eduardo. Coisa julgada e sua revisão. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2005, p. 69).
408 SÁ, Renato Montans de. Eficácia preclusiva da coisa julgada. São Paulo: Saraiva, 2011, p. 120. 409
Da mesma forma, na hipótese de uma sentença de procedência, não se pode cogitar que tal decisão gere efeitos sobre relações jurídicas por ela não apreciadas, de maneira que, caso ocorram fatos jurídicos diversos daqueles, objeto da primeira demanda, simplesmente se estará diante de uma nova lide, sobre a qual não há qualquer norma jurídica concreta judicial apta a regê-la.
Por fim, uma última observação merece ser feita. Em consonância com o ordenamento processual brasileiro, os motivos, as razões de fato e as questões prejudiciais analisadas pelo magistrado para fundamentar a sua decisão sobre o objeto litigioso do processo não são alcançados pela autoridade da coisa julgada. Isso significa que, não obstante as conclusões alcançadas sobre tais temas em determinado processo, poderão ser livremente discutidas em futura demanda. Se isso é verdade, não se pode afirmar que os argumentos e fundamentos para o acolhimento ou rejeição do pedido sejam alcançados pela indiscutibilidade inerente à coisa julgada. Apenas não poderão ser veiculados para questionar aquela específica norma jurídica concreta antes definida e que se tornou indiscutível.410