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Capítulo I Questões introdutórias ao estudo

1. Alguns conceitos de base e especificação do objeto de estudo

1.3. O léxico como material de partida

1.3.1. Notas sobre o conceito de léxico

Para Vilela (1995:13), do ponto de vista cognitivo-representativo e comunicativo, o léxico codifica o saber extralinguístico interiorizado pela comunidade e permite que os membros dessa comunidade comuniquem entre si. O léxico de uma língua é, assim, o material linguístico através do qual se interpreta e expressa a conceção que se tem do mundo, a partir de uma determinada realidade cultural, conceção esta partilhada por muitos autores. Assim, tendo em conta a função representativa da linguagem, é o léxico que nos permite configurar a realidade extralinguística (Vilela 1979:10). Colocando no centro da discussão a ideia de que a própria civilização humana é produto das diferentes relações que se estabelecem através da linguagem, é sobretudo por meio do léxico que se manifestam as diferentes conceções do mundo sobre as quais se fundam as distintas matrizes civilizacionais, como podemos depreender do seguinte:

Na história das diferentes civilizações a palavra sempre foi mensageira de valores pessoais e sociais que traduzem a visão de mundo do homem enquanto ser social; valendo-se dela o homem nomeia e caracteriza o mundo que o rodeia, exerce seu poder sobre o universo natural e antropocultural, registra e perpetua a cultura. Assim, o léxico como repertório de

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palavras das línguas naturais traduz o pensamento das diferentes sociedades no decurso da história, razão por que estudar o léxico implica também resgatar a cultura. A palavra favorece a transfiguração da experiência num universo de discurso e, consequentemente, assume diferentes dimensões dependendo da natureza desse discurso (Isquerdo e Krieger 2004:11-12).

Do ponto de vista da sua constituição, o léxico “é entendido, de forma genérica, como o conjunto de todas as palavras que dela [da língua] fazem parte” (Correia e Lemos 2005:7), como o “conjunto de palavras de uma língua” (Villalva 2008:47), como o “dicionário ideal de uma língua” (Vilela 1994:10). Para além dessas definições, muito gerais (como reconhecido pelos autores citados), o léxico é mais adequadamente definido como o “dicionário mental” (Chaves 2013:187), apontando esta última designação para a natureza do léxico, para o facto de que o léxico é um dos módulos do conhecimento linguístico dos falantes, onde estão armazenadas as unidades lexicais da língua e onde serão acolhidas as unidades possíveis de formar ou de adotar.

A noção de léxico remete, assim, para o conhecimento lexical, na medida em que o falante conhece uma dada quantidade de palavras da sua língua assim como as propriedades lexicais que lhes estão associadas, no seu saber interiorizado (Anderson 1992:182-183; Chaves 2013:185-212; Duarte 2000:51; Vilela 1994:10): as propriedades fonológicas, morfológicas, sintáticas, semânticas e pragmáticas que as palavras apresentam, numa rede de interfaces (1.3.3.). Neste sentido, o léxico é entendido como o módulo da gramática onde estão registadas as palavras com as suas propriedades, com os diferentes tipos de informação nelas codificadas (Akmajian et al. 1992:11-13) necessários à produção e compreensão correta das mesmas pelo falante-ouvinte (Lowie 1998:1, 9). Em suma, o léxico mental preserva toda a informação sobre os aspetos gramaticais e semânticos das palavras (Al-Dala‘ien, Mudhsh e Al-Takhayinh 2015:1; Babin 2000:1; Lieber 2009:15), sob forma de uma matriz de traços associada inerentemente a cada item.

Ao contrário do modo como vem estruturado nos dicionários (físicos e virtuais), o léxico não é, portanto, uma mera “enumeração das palavras que o compõem” (Villalva 2008:47), ordenadas alfabeticamente, mas um subsistema organizado nos planos gramatical e semântico (Lehmann e Martin-Berthet 2003:xii), formado de unidades significativas (Costa 2015:33). Neste dicionário interiorizado, as palavras estão organizadas de forma complexa, em torno de relações abstratas que implicam operações mentais de categorização em redes semânticas estruturadas e categorizadas em função do

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contexto cultural civilizacional (Chaves 2013:186). Assim, diferenciando-se de indivíduo para indivíduo,

The mental lexicon is not a collection of words, it also deals with how those words are stored, activated, processed and retrieved by a speaker whenever he/she wants. An individual’s mental lexicon is not perpetual; it is always developing and growing as new words are learned (Al-Dala‘ien, Mudhsh e Al-Takhayinh 2015:1)9.

A noção do léxico é distinta da noção de “vocabulário”, apesar de serem dois aspetos da mesma realidade: o léxico constitui o conjunto (virtual) de todas as palavras de uma língua; o vocabulário é particular, traduzindo-se num conjunto de palavras usadas por uma determinada pessoa, em dada área do saber ou escola de pensamento (Vilela 1995:13; Correia e Lemos 2005:9; Hatch e Brown 1995:1, apud Leiria 2006:15). Na prática, se não é possível determinar o léxico de uma língua, pode-se, pelo menos, delimitar o vocabulário de uma área de conhecimento específica, de uma disciplina, de um campo profissional, ou até de um falante10.

Por outro lado, e fazendo abstração da distinção acima evocada, é importante distinguir o léxico geral, de uso comum, do léxico de especialidade, pertencente a linguagens específicas das diferentes áreas científicas, técnicas ou de diferentes setores de atividade e que constitui o objeto da Terminologia11. Pelo facto de o léxico ser o material linguístico primário dos textos orais e escritos, o seu estudo também interessa as áreas da análise textual, da análise do discurso e da estilística. Num mundo fortemente marcado pela tecnologia, o léxico, como componente essencial das línguas, tem a atenção das disciplinas que se ocupam das tecnologias da linguagem, como, por exemplo, a Linguística computacional (Amaro e Mendes 2016:178).

Retomando a ideia de Lowie (1998:1), já referida anteriormente, o léxico constitui o elemento essencial no processamento da linguagem, cuja compreensão depende do

9 Considere-se também a seguinte definição formulada no âmbito da Psicologia cognitiva: “o léxico mental corresponde ao conjunto de representações formais que permitem ligar as entradas de uma sequência gráfica às representações fonológica, semântica e conceptual da memória.” (Babin 2000:2, t.n.).

10 O léxico, como o vocabulário, pode ainda considerar-se enquanto conhecimento ativo e passivo. Como geralmente aceite, a relação entre o “léxico passivo” e o “léxico ativo” é assimétrica. O léxico passivo (o número de palavras que um falante é capaz de compreender) é sempre superior ao léxico ativo (número de palavras que usa). É também geralmente referido que o léxico pode considerar-se na sua vertente atual e potencial.

11 Sem desenvolver a questão, referimos, apenas, que a Lexicologia, a Lexicografia e a Terminologia são três disciplinas linguísticas diretamente envolvidas no estudo do léxico.

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conhecimento que se tem das palavras. Para que o processamento seja possível, as palavras integram-se em estruturas frásicas, de forma organizada e de acordo com as suas características. Assumem funções específicas e ocupam determinada posição na frase, tendo em conta a sua natureza categorial. Para tal, o léxico é estruturado em diferentes classes de palavras, pertencendo cada palavra a uma determinada classe, também chamada categoria gramatical12.