Capítulo II Enquadramento teórico-metodológico de base sociolinguística
IV. van Coetsem (1988)
2.2.3. Processos e produtos linguísticos do contacto
2.2.3.1. Processos e produtos linguísticos do contacto aplicados a Luanda
No âmbito do nosso trabalho, podemos considerar alguns tipos claros de consequências do contacto linguístico, na cidade de Luanda, tendo como pano de fundo que o bilinguismo está globalmente associado a variação e a mudança linguística:
(i) o contacto deu origem a uma variedade nativizada do português, o PA;
(ii) existe manutenção das línguas bantas, o que propicia a situação (a manutenção) de bilinguismo. A definição de Jaspert e Kroon (1993) citada em (iii), acima, é aquela que mais se aproxima da situação de Luanda, em que o uso das línguas bantas, embora regrida paulatinamente face ao português, se mantém ainda presente;
(iii) as escolhas dos falantes determinam, pelo menos parcialmente, a manutenção ou não das línguas em contacto, no decurso das gerações, como também ilustrado em Habtoor (2012);
(iv) os falantes bilingues estão sujeitos a sofrer um processo lento de mudança de língua, em prol do português, entre outras causas pela coexistência geográfica de diferentes línguas bantas nem sempre intercompreensíveis, pelo aumento da escolarização, por o português ser língua oficial, de prestígio e de comunicação nacional (veicular);
(v) essa mudança pode resultar na morte de uma ou mais línguas africanas na comunidade urbana de Luanda, a médio ou longo prazo;
(vi) o bilinguismo acarreta diglossia (Ferguson 1959);
(vii) ocorrem variedades deficitárias, associáveis à formação de pidgins e crioulos e talvez à “mistura de códigos” (codemixing)63, em comunidades mais coesas e fechadas (cf. redes sociais, em 2.1.2.), menos escolarizadas ou que acederam ao português por transmissão linguística irregular de tipo leve (Lucchesi e Baxter
63 As chamadas “línguas mistas” ou “línguas mistas bilingues” (Winford 2005) caracterizam-se como línguas híbridas, constituídas por elementos das línguas envolvidas, dando lugar, em algumas comunidades, ao chamado bilinguismo “indigenado”, resultante da mistura entre traços das línguas europeias (léxico) e das línguas indígenas (morfologia e sintaxe). Como exemplo, é avançado o caso do Caló, um dialeto do Romani, formado pela mistura de Espanhol e Romani, falado pelos ciganos em Espanha, ou a Lengua Media do Equador, formada de vocabulário do Espanhol e estrutura gramatical quase inalterada do Quechua. Matras (2009:8) defende que, no âmbito da interação comunicativa, línguas mistas (bilingues) são o resultado da capacidade criativa e inovadora dos falantes, que conscientemente recorrem aos seus recursos gramaticais em situações de contacto. Por isso, estas línguas são o produto de uma negociação propositada, consciente e deliberada do repertório multilingue num conjunto limitado de contextos de interação, que envolvem geralmente reafirmação identitária do grupo.
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2009) – ou seja, como consequência de “a língua do grupo dominante [ser] imposta aos grupos dominados, (…) sua aquisição é defectiva, pois ocorre em condições adversas, por indivíduos em sua maioria já adultos” (Lucchesi 2012:53); “o grau de reestruturação gramatical ocorrido nos processos de transmissão linguística irregular é proporcional aos valores de certas variáveis sócio-demográficas que determinam, em cada caso histórico específico, o grau de acesso dos falantes do grupo dominado e seus descendentes aos modelos gramaticais da língua do grupo dominante (idem:56);
(viii) o bilinguismo acarreta interferências em particular empréstimos lexicais.
A seguir, centramo-nos na discussão mais pormenorizada de cada um desses resultados. Esta discussão apoia-se, sobretudo, nos trabalhos que nos têm servido de referência, principalmente Weinreich (1953), Thomason e Kaufman (1988), Winford (2005) e Matras (2009). Por isso, alguns deles só são referidos especificamente em situações pontuais.
Quando faixas da sociedade, ou a sociedade como um todo, incluem no seu conhecimento linguístico novos elementos, exógenos, num único ou em alguns domínios específicos dessa mesma língua, e se estes não substituirem os equivalentes pré- existentes, desencadeia-se uma situação de variação interna à língua recetora.
Essa variação nem sempre implica mudança estrutural (induzida por contacto), como no caso da situação que se analisa no presente trabalho; ou seja, a presença de empréstimos lexicais bantos no POL não afetou necessariamente a estrutura gramatical dessa subvariedade do português, a ponto de implicar rutura com o sistema de origem, mas limitou-se a enriquecer e alargar o seu léxico. Em situações deste tipo, acabam por coexistir gramáticas ligeiramente diferenciadas, no interior de um sistema mais amplo (Lightfoot 1999:79-80). Tomada no seu todo, pode assim dizer-se que a situação angolana inclui, a par das línguas nacionais e das respetivas variedades, uma variedade vernácula do português, subvariedades diversas do português vernáculo, entre as quais o POL, e que este conjunto, por sua vez, coexiste com a variedade formal, próxima do PE, como referido preliminarmente na Introdução, e descrito em 3.2.2.
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Em casos de o bilinguismo ser funcional (extensivo a toda a sociedade ou afetando apenas parte dela), estamos perante a possibilidade de haver diglossia. O conceito de “diglossia” foi introduzido inicialmente por Ferguson (1959) e posteriormente foi retomado e ampliado por Fishman (1967), que mostrou que a diglossia pode acontecer com línguas não relacionadas, ao contrário do seu antecessor. No sentido clássico do termo, a diglossia insere-se numa situação de bilinguismo; as duas línguas são usadas em contextos diferentes e desempenham funções também diferentes, sendo que, em geral, uma das línguas ou variedades tem prestígio alto (High language) e a outra língua ou variedade tem prestígio baixo (Low language), na sociedade (Meyerhoff 2006:103; Holmes 2013:27)64. Em Angola, existe diglossia: a variedade de uso corrente do PA, na
qual se inclui o POL, está presente nos contextos informais, e a variedade de prestígio, mais próxima do PE, é apenas de uso formal (cf. 3.3.2.1). Veja-se, também, a situação de Cabo Verde, onde o crioulo se usa em contextos informais e o português nativizado (PCV), em contextos formais, podendo haver falantes com uma variedade próxima da do PE, globalmente (cf. Lopes 2011).
Parte dos falantes de POL adquiriram o português por transmissão linguística irregular, estando nesse caso indivíduos não escolarizados, pertencentes a comunidades desfavorecidas, descendentes de famílias rurais ou que exerciam profissões não prestigiadas na sociedade colonial. Essa população apresenta traços linguísticos, em português, que revelam essa “transmissão deficitária”, que se pode associar a uma L2 com características de crioulização (cf. situação brasileira, em Lucchesi e Baxter 2009).
Concentrando-nos agora na questão do empréstimo (termo já definido em 1.1., no âmbito da criação neológica, e em 2.2.3, no domínio do contacto linguístico), central no nosso estudo, distinguimo-lo de alguns outros produtos do contacto linguístico, como “imposição” e “code-switching”.
64 Em situações de multilinguismo, haverá” poliglossia”, em casos de uma sociedade dispor de mais de uma língua ou variedade para funções diversas (Holmes 2013:32). Por exemplo, há comunidades onde se usam uma língua para o meio familiar, outra para contexto informal, de interação quotidiana (língua veicular) e outra ainda para uso formal, nas instituições de estado. A poliglossia é própria de sociedades bastante complexas, com uma elevada diversidade cultural e etnolinguística (o caso de Angola). O termo “poliglossia” foi usado pela primeira vez em 1970, no Academic Journal International Migration Review, (cf. https://en.wikipedia.org/wiki/Polyglossia; acesso: 04.11.2016).
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• Empréstimo e imposição: dois produtos diversos
Os conceitos de “empréstimo” e de “imposição” têm um uso não consensual, enquanto produtos do contacto linguístico. Os comentários seguintes apoiam-se fundamentalmente em van Coetsem (1988:2-3), talvez o trabalho no qual essa questão é discutida mais clara e longamente. Segundo o autor, a explicação das noções de empréstimo e de imposição devem considerar o traço de agentividade do falante bilingue, aspeto não inerentemente presente em “transferência” e “interferência”. Quer dizer, em situações de comunicação bilingue, é a ação do falante que determina a direção da mudança e consequentemente o tipo de resultado linguístico. Pressupõe-se, então, que o empréstimo e a imposição são dois tipos distintos de transferência, que podem ser caracterizados nos seguintes moldes:
(i) Trata-se de empréstimo se o agente é falante da língua destinatária, transferindo material linguístico de uma outra língua (source language / LO) para a sua língua (recipient language / LA). Por outras palavras, toma elementos de outra língua para a sua língua nativa. Por exemplo, na situação particular do POL, um falante luandense, que tem o português como LM (neste caso, a LA), usa as palavras de uma LB local (a LO), enquanto fala a sua língua nativa.
(ii) A imposição ocorre em caso de o locutor de dada língua ser o agente que transfere elementos da sua língua nativa para a língua destinatária. Ao contrário da situação descrita anteriormente, aqui podemos ter o exemplo de um falante do POL, cuja LM é uma língua banta, que usa os seus hábitos articulatórios da LO (sua língua nativa), quando está a falar o português.
Na situação de empréstimo, o locutor da língua destinatária, como agente, tem tendência natural de preservar os aspetos fonológicos da sua língua, ao mesmo tempo que aceita as palavras da outra língua. Em caso de imposição, sendo o locutor da língua de origem o agente, tenderá naturalmente a preservar, de igual modo, a fonologia da sua língua, concretamente os seus hábitos articulatórios, procurando impô-los à língua destinatária. Em função dessa explicação, depreende-se que o empréstimo consiste na transferência do material de domínios menos estáveis da língua, enquanto a imposição tem a ver com a transferência dos elementos de domínios mais estáveis da língua.
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Em Hickey (2010:18-19), empréstimo é definido, em termos muito simples, como o item / a estrutura copiada da língua X para a língua Y, mas sem os falantes de Y mudarem para X, resultante do contacto cultural (p. e., o contacto entre o inglês e outras línguas); enquanto isso, a imposição pode verificar-se numa situação em que, numa comunidade bilingue, o grupo minoritário, com alto estatuto social, adota a língua do grupo maioritário, de baixo status social, mas esta é afetada pela língua do primeiro grupo (mais prestigiado).
• Empréstimo e code-switching
A distinção entre os dois conceitos é uma das questões incontornáveis e amplamente discutidas no domínio do contacto entre línguas, a julgar pelo número de autores que se debruçaram sobre o assunto65. A abordagem contrastiva que se segue
enquadra-se globalmente no âmbito das questões do contacto linguístico.
Apesar de, em termos gerais, serem marcados pela combinação de elementos de duas línguas diferentes, empréstimo e code-switching (‘alternância de códigos’) devem ser concebidos como fenómenos potencialmente diferentes, orientados por dinâmicas separadas (Winford 2005:42), pois se traduzem em processos distintos: no empréstimo (principalmente o lexical), as palavras adotadas instalam-se definitivamente como material da LA e são caracterizadas como “empréstimos permanentes”; no caso de code- switching, verifica-se uma acomodação provisória do material de uma língua noutra; ou então, há uma inserção momentânea de palavras ou expressões de uma língua no sistema da outra, dando lugar aos chamados “empréstimos ocasionais” (nonce borrowings)66.
O empréstimo é um processo diacrónico através do qual as línguas se enriquecem lexical e estruturalmente, enquanto o code-switching se traduz na alternância linguística espontânea, na conversa/discurso de falantes bilingues (Matras 2009:106). Mais especificamente, code-switching é um produto do contacto linguístico, que resulta de situações de manutenção da língua em comunidades bilingues mais ou menos estáveis, sendo de uso normal e quotidiano nas comunidades, na decorrência de enquadramentos
65 São os casos de Pfaff (1979), Poplack (1980, 2001), Treffers-Daller (1991) Myers-Scotton (1993b), Winford (2005), Matras (2009), Haspelmath (2009), Sankoff (2001), entre vários outros.
66 Um nonce borrowing é globalmente uma “nonce word”, definida como uma palavra inventada apenas para uma única ocasião; i.e., palavra ocasional num determinado contexto comunicativo. Para uma noção mais aprofundada sobre o referido termo, concretamente em contacto linguístico, ver particularmente os trabalhos de Haspelmath (2009) e Poplack (2001).
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sócio-históricos favorecedores67. Conforme Mota (1996:522, que se apoia em Poplack 1980, 1983 e Sankoff e Poplack 1981), este processo pode assim definir-se:
[O]s falantes que utilizam alternância de códigos recorrem a um processo linguístico a que têm acesso por distinguirem os sistemas das duas línguas em contacto sem cruzarem traços de uma e de outra. Teoricamente, e apesar de poderem alternar dentro da mesma frase elementos das duas línguas, não violam as regras morfológicas, sintácticas e, eventualmente, fonológicas de nenhuma delas. Esta possibilidade tem relação directa com um estado de bilinguismo avançado ou total.
A título de ilustração, consideremos apenas os casos em (1), retomados de Poplack (1983:104), que traduzem os diferentes tipos de estrutura de code-switching espanhol- inglês, com os elementos de inglês em itálico e mantendo o texto original68:
(1) a. Cambio tipo «etiqueta» (mudança de apenas um termo ou expressão dentro da mesma oração ou frase):
Ave María, which english? (08/436) «Ave María, ¿qué inglés?»
b. Cambio oracional (mudança ocorre em diferentes orações ou frases diferentes – o mesmo que “alternância interfrásica”, acima):
It’s on the radio. A mí se me olvida la estación. I’m gonna serve you another one, rigth?
(08/187) «Está en la radio. A mi se me olvida la estación. Te voy a servir otra, ¿vale?» c. Cambio intra-oracional (mudança que ocorre alternadamente dentro da mesma oração ou frase):
Si tú eres puertorriqueño, your father’s a Puerto Rican, you should at least, de vez en cuando, you know, hablar español. (34/25) «Si tú eres puertorriqueño, tu padre es puertorriqueño, deberías al menos de vez en cuando, sabes, hablar español.».
Apesar das diferentes perspetivas de análise, o facto é que, conforme se verifica nestes exemplos, a alternância pode ocorrer entre frases, no interior de uma frase ou corresponder apenas à inserção de um ou outro item lexical da outra língua na frase (cf.
67 Liberman (2008) mostra que o code-switching é geralmente usado para se referir a escolha que os falantes fazem entre línguas numa situação bilingue/multilingue, embora também entre variedades da mesma língua. No entanto, desde a sua origem, este termo não define se essa escolha é feita conscientemente. Para Haspelmath (2009:40), este fenómeno não implica a existência de um “código misto”, mas sim “enunciados mistos”, que incluem elementos de ambos os códigos.
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Winford 2005:101). Basicamente, code-switching é a alternância de palavras, sintagmas, orações ou frases de línguas diferentes no mesmo enunciado discursivo.
Nem sempre é fácil determinar a diferença entre empréstimo e code-switching, sobretudo quando um enunciado apresenta apenas uma única palavra estranha no seio das palavras da outra língua. Assim, propõem-se vários critérios de distinção, de entre os quais se destacam dois principais (cf. Haspelmath 2009:40; Matras 2009:102-106; Winford 2005:39-41; 107-108):
(i) “grau de uso por falantes monolingues” – de acordo com este critério, o empréstimo caracteriza-se como material permanente (já estabelecido na LA) e usado comummente por falantes monolingues e bilingues, enquanto code-switching define-se como material transitório, que se restringe ao discurso dos bilingues, a quem se exige competência/especialização para o uso alternado dos elementos de dois códigos diferentes num único enunciado. Neste âmbito, o empréstimo situa-se no domínio da gramática da língua partilhada pela comunidade e o code-switching faz parte do uso individual de um locutor bilingue, sendo um fenómeno discursivo; (ii) “grau de integração morfofonémica”: trata-se do critério que permite distinguir estes dois processos pela integração estrutural (fonológica e/ou morfológica) dos elementos linguísticos em causa69. Os empréstimos integram-se na LA (com maior ou menor grau de adaptação), mas as inserções de code-switching no discurso dos falantes não estão sujeitas a qualquer tipo de adaptação.
Winford (2005:101-102) aponta diferentes contextos sociolinguísticos, políticos e históricos, favorecedores de code-switching. Aqui, interessa-nos enfatizar, apenas, aquele que é paradigmático ao caso de Angola e de muitos outros países africanos:situações de colonização europeia, em várias partes do mundo, mas com maior incidência na África, no sudeste Asiático, nas Caraíbas e na América do Sul, onde as línguas da colonização foram introduzidas na administração, escola, etc., e, em muitos casos, adotadas como línguas oficiais, após as independências das antigas colónias.
69 A relação entre empréstimo e code-switching enquadra-se num continuum, baseado no grau de integração ou assimilação de elementos de uma LO na LA, sob responsabilidade inicial de um falante bilingue. Estes elementos começam como code-switching e, com o tempo e uso regular, tornam-se empréstimos, uma vez apropriados pelos falantes monolingues (ver Matras 2009:110-114).
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2.3. Metodologia sociolinguística: constituição da amostra, recolha de dados e