• Nenhum resultado encontrado

Capítulo II Enquadramento teórico-metodológico de base sociolinguística

IV. van Coetsem (1988)

2.2.2. Tipos de contacto e fatores intervenientes

Para Weinreich (1953:1), se duas ou mais línguas estiverem em contacto e forem usadas alternadamente pelos falantes, têm muitas hipóteses de se influenciarem reciprocamente, independentemente das suas diferenças genéticas ou tipológicas, ou ainda da distância espacial que as separam. Dependendo de fatores extralinguísticos envolventes e de fatores linguísticos, a transferência de traços pode ser mais ou menos facilitada (há evidências de que línguas geneticamente muito próximas têm maiores probabilidades de transferência de traços, mas esta é também possível entre línguas tipologicamente afastadas, desde que haja condições sociológicas propícias, como se verifica no caso angolano).

Se o contacto linguístico está condicionado pela interação de duas ou mais línguas em presença, implicando “o contacto social dos respectivos falantes, enquadrados em situações de comunicação de ordem diversa” (Mota 1996:507), é evidente que a este facto subjazem fatores estruturais e não estruturais. O contacto entre sistemas linguísticos diferentes, propiciado por vários fatores desses dois tipos, tem consequências traduzidas em fenómenos linguísticos de diversa natureza (cf. 2.2.3).

Os fatores estruturais, específicos ao sistema de cada uma das línguas envolvidas, podem relacionar-se com as restrições gramaticais decorrentes da tipologia das línguas; como já brevemente focado, é geralmente defendido que há maiores probabilidades de integração de elementos entre línguas tipologicamente semelhantes, resultando frequentemente em convergência de formas de palavras ou estruturas. São exemplos disso os casos de empréstimo de palavras entre muitas línguas europeias, em que a adoção é muito fácil. No caso de línguas estruturalmente diferentes, pode haver dificuldades na transposição de elementos de uma língua para outra, como ocorre entre línguas bantas e línguas europeias: os domínios fonológico, morfológico e sintático são aqueles que maior resistência oferecem a empréstimos.

Como já referido na Introdução, o empréstimo lexical antecede o empréstimo estrutural e é considerado um pré-requisito para o segundo tipo. Enquanto o empréstimo lexical pode decorrer de um nível de contacto leve, e até mesmo do contacto indireto, o empréstimo estrutural situa-se num nível de contacto sociocultural intenso e prolongado, em conformidade com a escala de empréstimo de Thomason e Kaufman (1988) e Thomason (2001) também. Há, assim, maior resistência ao empréstimo dos domínios

58

fortemente regulados (fonologia, morfologia e sintaxe), apesar de ser possível escalonar essa resistência, como é proposto na referida escala. Mas, sendo o léxico um ponto de confluência da fonologia e da morfologia, o mesmo não está isento de ser alvo de resistências ou restrições vindas desses domínios (cf. 1.3.3, acima). Por exemplo, a mudança de um segmento fonológico na estrutura de dada palavra ou a adoção de um afixo que não faz parte da sua morfologia pode produzir tensão interna na língua-alvo, facilitando ou dificultando a integração de um dado item lexical (van Coetsem 1988:80). Este aspeto é particularmente importante, quando se lida com empréstimos das línguas bantas no POL (p.e., os empréstimos com consoantes prenasalizadas, tratados mais abaixo, em 5.1.1.2 e 5.2.2.1). Essas palavras estão sujeitas, muitas vezes, a uma restruturação, no processo de adaptação à nova língua, ao mesmo tempo que ela se reorganiza para acolher os novos elementos (Haugen 1950b:225-226). De facto, a presença de novos elementos pode levar ao reajustamento do sistema da própria LA, quando, por exemplo, se trata de traços morfossintáticos (flexão nominal e verbal, com consequências nos padrões de concordância57) ou fonológicos (inserção e/ou substituição

de fonemas da LO na LA), como se discute no último capítulo desta tese. O fenómeno da ressilabificação atestada em algumas estruturas silábicas dos empréstimos é um exemplo claro do reajustamento estrutural dessas palavras ao sistema da nova língua.

Tal como já referido acima, em situações de contacto entre línguas, é o falante bilingue a fonte do empréstimo, tanto lexical como estrutural, o qual incorpora no seu repertório novos elementos linguísticos, usados em situações comunicativas apropriadas e/ou consoante as motivações discursivas. É o falante que está habilitado a empregar adequadamente as palavras e as estruturas gramaticais das duas línguas em contextos de comunicação apropriados (Matras 2014:4). Por consequência, evidencia-se a possibilidade de qualquer aspeto linguístico ser “emprestável”, desde que as necessidades comunicativas o requeiram, dependendo das condições externas.

Os fatores não estruturais, também designados por fatores extralinguísticos, envolvem aspetos externos à língua, sociais e psicológicos, como teorizou Weinreich (1953), já atrás referido. A seguir, passamos a apresentar alguns desses fatores, cuja descrição constitui a síntese de vários textos consultados, embora não possamos referir todos os autores:

57 Sobre esta questão da concordância, particularmente nas variedades do português falado nas antigas colónias portuguesa, em África, ver a bibliografia referida na nota 143, mais abaixo.

59

(i) Fatores socioculturais e políticos: têm a ver com as relações de poder e prestígio e traduzem-se na pressão social, cultural e política de um grupo forte sobre outro menos forte, levando, muitas vezes, a influenciar a língua deste último. Este facto pode decorrer, por exemplo, do contexto de conquista e dominação. Normalmente, o grupo dominado pode sofrer uma forte pressão cultural e política dos dominadores, que afeta a própria língua, a ponto de provocar alterações ou mudanças.

(ii) Fatores migratórios: estão ligados à mobilidade das populações, quer por razões económicas quer por razões de segurança. Ilustram-nos os vários casos já estudados como os de grupos de imigrantes na América (Herzog 1941; Reed 1948; Pap 1949; Haugen 1953; Poplack, Sankoff e Miller 1988; Poplack e Sankoff 1988); Thomason 2001; Sankoff 2001; Lipsik 1985, 2014), ou dos portugueses em França (Mota 1990, por exemplo); a livre circulação no espaço da UE, que tem provocado a instalação de cidadãos comunitários em novas comunidades; e o atual fluxo migratório de vários pontos do mundo para a Europa, sobretudo, por causa das guerras, fome e pobreza nos países de origem. Estes dois últimos fenómenos podem ditar novas situações de contacto dos quais resultarão consequentemente outros produtos linguísticos.

(iii) Fatores económicos e de desenvolvimento científico e tecnológico: decorrem sobretudo de trocas comerciais ou de hegemonia económica. Geralmente, economias mais fortes ou desenvolvidas tendem a influenciar as mais fracas e, por consequência, pode haver transposição de elementos de uma língua para outra, sobretudo o léxico ligado a designações de produtos e de tecnologias ou afins. Por exemplo atualmente no domínio das novas tecnologias de informação e comunicação, termos do inglês estão presentes em quase todas as línguas do mundo, dado o desenvolvimento científico de países anglófonos, com destaque para os E.U.A. Hoje, reconhece-se que os variados recursos de informação e comunicação, como a Internet, as redes sociais, os sítios, os blogues, os chats e outras ferramentas digitais, constituem novos meios de contacto linguístico, mesmo à distância, numa interação mais intensa e dinâmica58.

58 Ver abordagem de Matras (2013:9), sobre este fator, realçando-se o facto de, cada vez mais, se verificar certa crise na lealdade linguística grupal, por causa desses meios, num mundo globalizado.

60

(iv) Fatores demográficos: estão relacionados com o tamanho dos grupos envolvidos, e em geral grupos populacionalmente maioritários tendem a influenciar os grupos minoritários. Por outras palavras, comunidades com número reduzido de falantes inseridos numa comunidade mais numerosa acabam, na maioria das situações, por serem absorvidas por esta última, adotando a língua da maioria (e podendo perder a de origem, havendo então “mudança de língua” – language shift). Geralmente, essa mudança pode resultar da pressão política ou sociocultural de um grupo maioritário ou forte, em situações de acolhimento ou dominação, nas quais o grupo minoritário ou dominado muda para a língua local ou do grupo dominador, abandonando a sua língua de origem. Como consequência disso, os falantes da LO (shifting population) tornam-se bilingues numa primeira fase, mais ou menos longa, enquanto os detentores da LA continuarão monolingues, embora possam ser afectados pelas interferências da LO. Por outro lado, os novos falantes da LA podem abandonar bruscamente a sua LO, provocando o desaparecimento ou a morte dessa mesma língua.

(v) Fator atitudes perante a nova língua: em situações de contacto, sobretudo de grau intenso, a manutenção da língua de origem (LO) ou a mudança para a língua- alvo (LA) dependerá também da atitude que o falante possa ter em relação a esta última, se de hostilidade ou de simpatia. A primeira atitude leva geralmente a conservação da LO, enquanto a segunda facilita a aquisição e/ou a transição para a LA. Por exemplo, quando um grupo de imigrantes é bem acolhido numa nova comunidade tende a adotar voluntária e facilmente a língua local, por razões de integração social. Mas se for hostilizado, então oferece resistência à língua local (cuja aquisição será mais uma obrigação por razões de sobrevivência), conservando a LO, que funciona como símbolo de autoafirmação e distanciamento em relação à comunidade de acolhimento59.

(vi) Fator lealdade linguística: um fator que está subjacente ao anterior, o sentimento de lealdade à língua do grupo, por razões culturais e identitárias, constitui um elemento importante na conservação ou mudança da língua, em

59 A questão referente a “atitudes linguísticas” tem merecido muita atenção, a julgar pelos vários autores que lhe dedicam bastante espaço nos seus trabalhos, sob diversas perspetivas (cf. Fasold 2004; Garmadi 1983; Lima 2000; Lopes 2011; Martínez 2008; Milroy e Gordon 2003; Moreno-Fernández 1990, 1998; Thomason 2001; Vala 1986).

61

situações de contacto. Mesmo até a incorporação de empréstimos lexicais ou estruturais pode estar condicionada a este fator e, no caso do POL, parece evidente a lealdade às línguas bantas locais. Há casos em que, através de medidas políticas ou legislativas e linguísticas, se tenta restringir a introdução de termos exógenos numa língua: por exemplo, a França, relativamente a empréstimos do inglês (Winford 2005:40-41), ou o Brasil, onde, em 2001, a Câmara dos Deputados aprovou um projeto-lei que restringia o uso de estrangeirismos, levado ao Senado Federal, “onde foi aperfeiçoado” (Júnior 2007:18)60.

(vii) Fator padrões de interação dos grupos: definidos dentro duma comunidade de fala, são um aspeto que se deve ter em conta já que os mesmos fazem parte da interação social dentro do grupo e permitem então a difusão de práticas culturais e linguísticas. Esses padrões podem facilitar ou condicionar o contacto da língua da comunidade com outra(s), porque a comunicação em ambientes multingues depende também das normas sociais às quais se está vinculado (Matras 2009:4).

Em suma, sobre o que motiva o empréstimo lexical, a pergunta de investigação é esta: por que razão são acolhidas palavras exógenas, quando as línguas ou já dispõem de léxico equivalente ou, não sendo o caso, possuem processos para formar novas palavras, se há a necessidade de designar novas realidades? Sabe-se que, no processo de contacto, estabelecem-se relações de força e de equilíbrio entre as línguas envolvidas; o estatuto das línguas em cena joga um papel crucial na adoção de empréstimos lexicais, da língua forte “High language (H)” para a língua fraca “Low language (L)”, sobretudo em situações de bilinguismo desigual. Muitos autores apontam a necessidade e o prestígio como as duas motivações sociais promotoras de empréstimos lexicais (cf. Weinreich 1953:56, van Coetsem 1988:13-14; Winford 2005:37-39). Estas duas motivações dão lugar aos chamados “empréstimos culturais” (cultural loans) e “empréstimos de prestígio” (prestige loans). Os empréstimos culturais, como “preenchedores de lacunas lexicais” (lexical gap-fillers), decorrem de necessidades designativas. São “rótulos” que assinalam as novas atividades sociais e aquisições culturais, referindo, às vezes, funções comunitárias e institucionais. Os empréstimos de prestígio, que frequentemente

60 Até à data da publicação do texto de Júnior, o referido projeto-lei ainda não tinha sido aprovado pelo Senado brasileirio. A bibliografia consultada (na Internet) não nos permitiu saber se o documento chegou a ser aprovado ou não por aquela alta instância do Parlamento brasileiro. Ver também em http://www.comciencia.br/reportagens/linguagem/ling04.htm (acesso: 24.11.2016).

62

coexistem paralelamente com palavras vernáculas, são mais adotados por razões de afirmação sociais, pois os falantes imitam geralmente elementos do discurso duma comunidade dominante, socialmente mais forte, com o propósito de aprovação e estatuto social (Winford 2005:38-39; Matras 2009:150-151).

Haspelmath (2009:46-50), analisando largamente esta questão, aponta fatores sociais e comportamentais (como o prestígio da língua doadora vs. as atitudes puristas dos recetores, que recusam a adoção de empréstimos), mas também fatores gramaticais ligados à restrição de empréstimo de certas classes de palavras ou do chamado “vocabulário de base/nuclear” (core vocabulary). Este autor aponta ainda um terceiro tipo de fatores que tem a ver com razões “terapêuticas”, visando substituir as chamadas “palavras tabus”, proibidas em algumas línguas, por razões culturais, ou traços estigmatizados, ou com vista a evitar casos de homonímia (recorrendo-se, então, a léxico de uma outra língua). Ambos os tipos de motivação para os empréstimos estão presentes no quotidiano de quase todas as comunidades.

A este conjunto de elementos acrescem outros que, uma vez criada e estabilizada a situação de contacto, são determinantes para a sua implementação e caracterização:

(i) Fator grau de bilinguismo/multilinguismo: quanto maior for o nível de bilinguismo ou de multilinguismo, marcado por relações socioculturais intensas e permanentes entre os membros das comunidades envolvidas, maior também será a permeabilidade entre línguas.

(ii) Fator duração e intensidade de contacto: uma duração breve de contacto gera resultados diferentes de uma situação prolongada. No primeiro caso, podem registar-se empréstimos lexicais, mas no segundo são possíveis empréstimos estruturais. Quanto maior for o tempo de contacto maior poderá ser a intensidade desse contacto e poderá chegar-se ao extremo da mudança de língua (abandono da LO). A pressão social, cultural e política associa-se à existência de grupos numerosos de falantes da LA e ao tempo de contacto.

(iii) Fator aquisição de uma língua segunda (L2) ou estrangeira (LE): havendo escolarização na L2/LE, há também forte possibilidade de um aprendente incorporar na sua língua materna elementos lexicais e estruturais da L2/LE, sendo que o contrário também é possível. Trata-se aqui de um contacto indireto, através

63

da interação com o professor e o acesso à escrita nessa língua: manuais escolares, dicionários, textos religiosos e outros meios didáticos de aquisição da nova língua.

A partir desta descrição sumária, podemos concluir que os resultados do contacto determinados pela história das relações sociais entre as populações, propiciada principalmente por fatores económicos, políticos e demográficos (Sankoff 2001:3), constitui uma vertente de análise importante para se enquadrarem situações concretas e as definir. Winford (2005:25) enfatiza que a compreensão das situações de contacto passa por uma explicação clara da história e das dinâmicas sociais do grupo afetado e Thomason (2010:32-33), definindo o “contacto” como uma fonte de mudança linguística, reconhece que, apesar do progresso considerável na busca das causas da mudança linguística, ainda não é possível explicar todos os casos atestados. A autora insiste na necessidade do estudo e da compreensão das situações e dos resultados do contacto linguístico a partir da combinação de fatores estruturais e não-estruturais. De facto, o percurso seguido pelas línguas está intrinsecamente ligado ao percurso sócio-histórico dos seus falantes e das comunidades a que pertencem, de cujas relações resultam diferentes situações (Mota 1996:508-509). Com base em estudos multidisciplinares, procura-se identificar as regularidades e irregularidades subjacentes aos diferentes processos de contacto. É assim que linguistas históricos, linguistas de contacto, linguistas variacionistas, dialetólogos, sociólogos, teóricos da comunicação e do discurso e outros estão envolvidos neste grande desafio, buscando as causas internas e externas do contacto linguístico, enriquecendo, cada vez mais, este domínio do conhecimento linguístico.

Sublinhe-se, no entanto, que nem sempre existe uma relação intrínseca entre as causas e as consequências do contacto; ou seja, nem sempre é fácil predizer um resultado do contacto a partir de uma determinada causa, daí o apelo para um estudo articulado dos fatores internos e externos, como a melhor forma de se compreender cada tipo de resultado específico. Note-se que algumas causas são gerais, isto é, transversais a todo o resultado, enquanto outras são específicas a cada tipo desse mesmo resultado. Note-se também finalmente que, estruturalmente, certos componentes ou domínios da língua são mais estáveis e mais resistentes à mudança do que outros, como já referido anteriormente. Antes de apontarmos alguns resultados do contacto linguístico, consideremos ainda um aspeto essencial que tem a ver com as relações entre as línguas em contacto. Conforme reconhecido por alguns autores, numa situação de contacto linguístico, as línguas em

64

presença estabelecem relações de força ou de equilíbrio, que determinam as tendências e a direção desse contacto; ou seja, seja qual for o resultado do contacto, é preciso determinar o ponto de partida desse processo, ajudando a compreender os fenómenos resultantes, o que passa pela necessidade de identificar a língua de origem (LO) e a língua- alvo (LA). Sendo assim,

Língua-alvo (LA) será aquela para a apropriação da qual tende uma comunidade cuja língua de origem (LO) pode ser substituída pela LA ou simplesmente modificada, por adopção de características dessa outra língua, podendo ser esta última igualmente afectada pela LO. O percurso e o resultado do contacto entre elas dependem fundamentalmente do tipo de relação que as respectivas comunidades estabelecem e do tempo durante o qual a mantêm. Se a LO desaparece rapidamente, por submissão total à LA, e sobretudo se tal processo tiver tido lugar há séculos, torna-se difícil ter acesso ao percurso da mudança linguística que terá ocorrido na língua que desapareceu. De facto, nos casos de substituição abrupta de uma ou mais línguas por outra, que se sobrepõe, interessará mais analisar o resultado final e as condições que o provocaram do que o curto processo de transformação que se operou (Mota 1996:510).

Olhando para a situação sociolinguística de Angola, à luz deste postulado e em stricto sensu, isto é, considerando apenas a questão do contacto entre as LBA e o português, que é o foco da nossa abordagem, podemos considerar como as LO as línguas africanas e como a LA o português, na sua variedade local.