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O Amigo Importuno

No documento Parabolas de Jesus Completo Kistemaker (páginas 154-158)

Ez 23.41; Am 6.6 Daniel-Rops, Palestine, p 208.

26. O Amigo Importuno

Lucas 11.5-8 “Disse-lhes ainda Jesus: Qual dentre vós, tendo um amigo, e este for procurá-lo à meia-noite e lhe disser: Amigo, empresta-me três pães, pois um meu amigo, chegando de viagem, procurou-me, e eu nada tenho que lhe oferecer. E o outro lhe responda lá de dentro, dizendo: Não me importunes; a porta já está fechada, e os meus filhos comigo também já estão deitados. Não posso levantar-me para tos dar; digo-vos que, se não se levantar para dar-lhos por ser seu amigo, todavia, o fará por causa da importunação e lhe dará tudo o de que tiver necessidade”.

Lucas registra o Pai Nosso de forma mais breve que a encontrada no Evangelho de Mateus. Ele continua a oração não com uma exortação aos homens para que se amem uns aos outros, mas com uma parábola na qual Jesus ensina àquele que pede, que seja persistente. O ensino da parábola sobre o amigo importuno é reproduzido sucintamente na exortação do apóstolo: “Orai sem cessar” (1 Ts 5.17). Apenas Lucas menciona a parábola do amigo que vem à meia-noite. Em poucas e expressivas palavras, ele descreve o quadro de um homem que não tinha pão — provavelmente usara o último pedaço no jantar — e, então, recebe um amigo que chega de

viagem, à meia-noite334. A cidade era pequena e não era possível

obter pão, àquela hora, a menos que procurasse um vizinho de boa vontade que lhe emprestasse alguns.

O viajante chegou à meia-noite, talvez para evitar o calor do dia335. Cansado e com fome, procurou a hospitalidade do amigo. Mas,

pelo inconveniente da hora, pôs seu hospedeiro numa situação embaraçosa: ou se recusava a hospedá-lo, porque não tinha pão, ou ia procurar o vizinho para pedir alguns pães. Que situação! Se recusasse a alimentar seu amigo viajante, faltaria às normas do bom receber; e se fosse procurar seu vizinho, provavelmente o incomodaria.

A história contada por Jesus talvez se baseasse em um fato real e podia ser classificada entre aquelas que se iniciam sempre com a pergunta: “Sabe o que aconteceu...?” Fez sorrir discretamente todos aqueles que a ouviam porque era tão igual à própria vida. Todos queriam saber como a história ia acabar.

As casas em Israel, especialmente nas áreas rurais, eram pequenas consistindo de apenas um cômodo usado como sala de jantar e dormitório336. A casa tinha uma porta que permanecia aberta

durante todo o dia. Mas, ao anoitecer, quando o sol se punha, o chefe da família fechava a porta e fazia correr uma tranca de maneira que se prendia nas laterais da porta, mantendo-a fechada para evitar os intrusos337. Esteiras eram espalhadas e usadas como camas, nas

quais a família toda dormia. Em tais circunstâncias, era muito difícil levantar no escuro e procurar algo.

O hospedeiro, desejando cumprir as normas de hospitalidade, caminhou até à casa de seu vizinho e despertou-o, pedindo-lhe: “Amigo, empresta-me três pães, pois um meu amigo, chegando de viagem, procurou-me, e eu nada tenho que lhe oferecer”. Ele chamou o vizinho de amigo, provavelmente para desencorajar qualquer resposta zangada, embora não fosse próprio de um amigo acordar o outro no meio da noite. A questão é saber quem merece o nome de “amigo”. Aquele que foi prestativo com seu vizinho ou o que veio acordá-lo pensando em seu hóspede?

334 Traduções de Lc 11.5 diferem na maneira de considerar a palavra amigo. A

versão NIV traduz: “Suponhamos que um de vós tenha um amigo e vá procurá-lo à meia-noite...” Mas a versão NEB diz o seguinte: “Suponhamos que um de vós tenha um amigo que vem procurá-lo no meio da noite...” O amigo é o vizinho que empresta o pão, ou o viajante faminto? Quem é amigo de quem?

335 As viagens à noite eram comuns, nos dias de Jesus; as pessoas prudentes

viajavam à noite, como fez José com Maria e o menino Jesus (veja-se Mt 2.9,14).

336 A cozinha ficava, comumente, do lado de fora, ou sob um telheiro. Veja-se

Daniel-Rops, Palestine, p. 220.

337 Dalman, Arbeit und Sitte VII:70-72, 178-79; Armstrong, Parables, p. 80; e

Um pão, naqueles dias, não era maior que uma pedra que se pudesse segurar com uma das mãos. Assim, Mateus, no contexto paralelo registra: “Ou qual dentre vós é o homem que, se porventura o filho lhe pedir pão, lhe dará pedra?” (Mt 7.9). Três desses pães eram refeição suficiente para uma pessoa. A longa explicação do que pedia emprestado era uma tentativa de descrever ao vizinho a situação embaraçosa em que se achava e revela a esperança de que o amigo o compreendesse. Naturalmente, o hospedeiro estava perfeitamente ciente do problema que seu pedido causaria. Mesmo assim, ele pediu, sabendo que era a única maneira de conseguir pão para oferecer a seu amigo cansado e faminto.

Emprestar pão a um vizinho, cujo suprimento se esgotara, era costume comum em Israel. Pela manhã, quando o pão fresco fosse assado, o que fora emprestado era devolvido. O problema não era a quantidade emprestada; era a hora.

A voz do vizinho estava longe de agradar. Numa reação bem humana, de alguém cujo sono foi perturbado, ele respondeu: “Não me importunes: a porta já está fechada e os meus filhos comigo também já estão deitados. Não posso levantar-me para tos dar”. Ele mostrou má vontade, não falta de condições para atender o pedido. Ele teria que se levantar, acordar os filhos ao acender a lâmpada, achar o pão, e retirar a tranca para abrir a porta. Seria muito mais fácil se o vizinho desaparecesse na escuridão.

Mas o vizinho não lhe deu descanso nem o deixou dormir. Não podia voltar para casa, onde seu amigo estava esperando, com as mãos vazias. Continuou pedindo até que seu vizinho se levantou, acendeu a lâmpada, removeu a tranca, abriu a porta e lhe entregou os pães. O vizinho não fez isto por causa da amizade, mas por causa da insistência daquele que estava pedindo.

A palavra insistência é a palavra-chave na conclusão da parábola338. Ela retrata a atitude de um homem que se vê obrigado a

mostrar hospitalidade a um amigo que o procurou à meia-noite. No contexto de sua cultura, ele sai de seus hábitos para providenciar alimento para suprir as necessidades de seu amigo. Está disposto a sacrificar a amizade com seu vizinho, a fim de se mostrar um bom hospedeiro. Ele insiste. Sabe que seu pedido receberá resposta apesar das circunstâncias adversas.

Nesta parábola, Jesus aplica claramente a regra judaica dos

338 Em todo o Novo Testamento, a palavra anaideia ocorre apenas aqui. Pode ser

traduzida como “falta de vergonha” para descrever a impertinência do homem que acordou o vizinho. Jeremias, Parables, p. 158, e Marshall, Luke, p. 465, admitem que a falta de vergonha pode ser atribuída, também, ao vizinho que se recusou a atender o pedido do amigo. A palavra exprime, então, o sentido de “manter a aparência”. O vizinho, portanto, atendeu o pedido, porque não queria trazer vergonha para sua casa, com sua recusa.

contrastes339. E uma norma que destaca o maior ensinando o menor.

Nesse exemplo, chamando atenção para a insistência do hospedeiro, que tem certeza de que o amigo lhe emprestará os pães, Jesus ensina que podemos procurar Deus em oração, sabendo que ele vai nos atender. “Digo-vos que, se não se levantar.., por ser seu amigo... o fará por causa da importunação, e lhe dará tudo o de que tiver necessidade. Por isso vos digo: Pedi, e dar-se-vos-á; buscai, e achareis; batei, e abrir-se-vos-á” (Lc 11.8,9). Se o vizinho acorda à meia-noite e se levanta para emprestar os pães a seu amigo, muito mais fará Deus, o Pai, respondendo à oração de seu filho, que o procura em necessidade!

O que a parábola ensina? Não ensina que, como o vizinho despertado do sono, Deus não gosta de ser importunado. Antes, ela transmite a idéia de que, como o hospedeiro continuou a pedir, sabendo que seu vizinho lhe abriria a porta e lhe daria pão, assim o cristão deve continuar diligentemente em oração. Pela fé, ele sabe que Deus atenderá seus pedidos, e lhe dará muito mais do que necessita. Deus atende às orações em resposta à fé manifestada pelo crente. Por isso, o cristão termina suas orações repetindo a palavra amém. Nas palavras de um catecismo do século dezesseis, a respeito do Pai Nosso:

Amém significa,

Assim será, com toda a certeza! É muito mais certo

Que Deus ouça minha oração,

Do que eu estar realmente desejando Aquilo pelo qual estou orando340.

339 Esta regra, chamada Kal Wa-homer (do menos importante para o mais

importante), era uma das sete regras de hermenêutica compiladas pelo Rabino HilIel (60 A.C. a 20 DC.) H. L. Strack, Introduction to the Talinud and Midrash (New York: Meridian Books, 1969), pp. 93-94.

No documento Parabolas de Jesus Completo Kistemaker (páginas 154-158)