O desemprego e a premente necessidade de combatê-lo têm sido a marca registrada do panorama social resultante da globalização econômica. Alguma margem de desemprego sempre foi algo assimilado pelo sistema capitalista, até mesmo para deixar em disponibilidade um contingente de reserva de mão-de-obra. Todavia, agora, as circunstâncias de eclosão dramática do desemprego têm um caráter absolutamente diverso. Não se trata mais de um componente de rotatividade da mão-de-obra ou de mão-de-obra excedente. Estamos diante do desemprego endêmico, causado pela eliminação definitiva de postos de trabalho, sem a perspectiva de reposição de vagas em outros setores da economia.
Não serve, pois, para enfrentar o problema atual, recorrer a soluções pensadas para atenuar os efeitos do desemprego sazonal (que decorre de variações esperadas e passageiras), tampouco do desemprego conjuntural (que decorre de instabilidade nas vendas ou de restrições à produção de determinado setor, resultantes de crises econômicas conjunturais) 656.
652
CATHARINO, José Martins. El Rebrote de la Doctrina Liberal y los Modelos Flexibilizadores. In: Evolucion del Pensamiento Juslaboralista. Estudios en Homenaje al Prof. Héctor-Hugo Barbagelata. Montevideo: FCU, p. 114, 1997.
653
PASTORE, José. A Agonia do Emprego: Investimentos de Menos e Regulamentos de Mais. In: Revista LTr, São Paulo: LTr, ano 60, nº 01, jan. p. 20, 1996.
654
JAVILLIER, Jean-Claude. Hacia un Nuevo Derecho del Trabajo. In: Evolucion del Pensamiento Juslaboralista. Estudios en Homenaje al Prof. Héctor-Hugo Barbagelata. Montevideo: FCU, p. 223, 1997.
655
MENEZES, Mauro de Azevedo. Os efeitos das Novas Tecnologias no Direito do Trabalho. In: ERGON – Órgão do Instituto Bahiano de Direito do Trabalho. Salvador: IBDT, Ano XLV, Volume XLV, p. 184, 2000.
656
PASTORE, José. A Agonia do Emprego: Investimentos de Menos e Regulamentos de Mais. In: Revista LTr, São Paulo: LTr, ano 60, nº 01, jan. p. 18, 1996; CORDEIRO, Wolney de Macedo. A Regulamentação das
A mudança radical dos processos de produção e de administração, causadas pela intensa incidência da tecnologia, tornando desnecessários os postos de trabalho anteriormente existentes, configura um fenômeno classificado como desemprego estrutural. “Ao contrário do desemprego conjuntural, relativo ao metabolismo regular da economia”, esclarece Ianni, “o desemprego estrutural, ou tecnológico, implica expulsão mais ou menos permanente das atividades produtivas. Decorre principalmente da contínua e generalizada tecnificação dos processos de trabalho e produção”657. Acrescentaríamos que a concentração do capital em escala mundial, incrementada pelos freqüentes processos de fusões e aquisições, também exercem papel fundamental no incentivo ao descarte de mão-de-obra.
Em certo sentido, escrevíamos, o desemprego estrutural pode ser caracterizado como efeito colateral da evolução tecnológica658, mas também, como salienta Wolney Cordeiro, deve-se ao elevado corte de gastos em busca de competitividade internacional659. Outro aspecto essencial nessa receita consiste na superação do modelo fordista de produção660.
26.2. Efeitos do desemprego estrutural.
Segundo Amauri Mascaro Nacimento, o desemprego estrutural, uma vez
instaurado, importa o comprometimento de princípios fundamentais do Estado do bem-estar social, tais como o valor social do trabalho, a dignidade da pessoa humana, a erradicação da pobreza e a redução das desigualdades sociais661. Não se trata apenas de negar a inserção social e o sustento, mas também de afetar as estruturas valorativas da coletividade. Daí porque Blanpain o estima como um dos grandes desastres sociais que golpeia as sociedades contemporâneas. O trabalho, diz ele, é o melhor caminho para lograr um sentido para a vida, não só abrindo a porta ao mercado de bens e serviços, mas sobretudo oferecendo a possibilidade de uma contribuição positiva do trabalhador para sua própria família e para a sociedade. E arremata: “El trabajo usualmente conduce a enriquecer los vínculos humanos; contribuye al desarollo de la personalidad humana y de la cultura. Por el contrario, el desempleo conduce a la marginación y a la exclusión”662.
O quadro crônico de desemprego estrutural implica a migração massiva de trabalhadores para o setor informal da economia, como válvula de escape, segundo dados da Organização Internacional do Trabalho (OIT), citados por Wolney Cordeiro. Na lúcida observação deste autor, é um paradoxo que tantos trabalhadores sejam atirados à desproteção da informalidade, quando os avanços materiais proporcionados pela tecnologia são tão expressivos663.
657
IANNI, Octavio. A Era do Globalismo. 4. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, p. 225, 1999.
658
MENEZES, Mauro de Azevedo. Os efeitos das Novas Tecnologias no Direito do Trabalho. In: ERGON – Órgão do Instituto Bahiano de Direito do Trabalho. Salvador: IBDT, Ano XLV, Volume XLV, p. 177, 2000.
659
CORDEIRO, Wolney de Macedo. A Regulamentação das Relações de Trabalho Individuais e Coletivas no
Âmbito do Mercosul. São Paulo: LTr, p. 49, 2000. 660
IANNI, Octavio. A Era do Globalismo. 4. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, p. 135, 1999.
661
NASCIMENTO, Amauri Mascaro. Novas Formas Contratuais de Relação de Trabalho. In: OLIVEIRA, Antonio Carlos de, PAMPLONA FILHO, Rodolfo (Coord.). Estudos de Direito. São Paulo: LTr, p. 148, 1998.
662
BLANPAIN, Roger. Europa: Politicas Laborales e de Empleo. In: Evolucion del Pensamiento Juslaboralista. Estudios en Homenaje al Prof. Héctor-Hugo Barbagelata. Montevideo: FCU, p. 61, 1997.
663
CORDEIRO, Wolney de Macedo. A Regulamentação das Relações de Trabalho Individuais e Coletivas no
Por outro lado, verifica-se que o esta modalidade de desemprego provoca a queda de qualidade dos empregos mantidos. Muitos trabalhadores são instados a negociarem a sua permanência nos empregos, mediante a cessão de boa parte dos direitos e vantagens que gozavam quando o emprego era abundante. O custo da contraprestação trabalhista vai sendo erodido, paulatinamente, em troca da permanência do vínculo empregatício.
Tal debilitação da qualidade dos empregos mantidos, sob a ameaça do desemprego estrutural, não se expressa somente pela redução formal do rol de direitos atribuídos ao empregado, mas também conspira contra o cumprimento e aplicação efetiva destes. Invocamos a lição de Plá Rodriguez para aclarar essa questão: “Ocurre que cuando la desocupación crece, se produce un clima de temor a la pérdida del empleo que lleva a muchos trabajadores a consentir o tolerar atrasos, incumplimientos, interpretaciones inaceptables. Antes de perder la fuente de ocupación, el trabajador que ve peligrarla prefiere conservar el puesto, aun cuando el cumplimiento de las normas laborales sea defectuoso, incompleto o impontual”664.
26.3. Estratégias de combate ao desemprego.
No plano da administração do trabalho e das políticas de emprego, curiosamente, o que vem sucedendo é uma cômoda atitude de alegar que a ocorrência de um problema ajuda a resolver um outro. Em outras palavras: a desvalorização da qualidade do emprego, gerada, como vimos, pelo encolhimento dos direitos trabalhistas e pela queda da efetividade dos ainda existentes, em vez de ser encarada como um autêntico problema, passa a ser vislumbrada como a solução para o drama do incontrolável quadro de desemprego.
Na definição de Ney Prado, “aos poucos, a preocupação com o empregado cede lugar à preocupação com o emprego. Com isso, os objetivos passam a ser a eliminação do desemprego e a absorção do trabalho informal aos sistemas de produção”665. Como veremos mais adiante, o direito do trabalho começa a ser considerado um estorvo à dinâmica do sistema econômico e ao próprio trabalhador, que vive sob a constante e ameaçadora sombra do desemprego. O mote dessa linha de raciocínio consiste em postular a prevalência do direito ao trabalho sobre o direito do trabalho.
Não causa espécie que, nesse contexto, o direito do trabalho venha a ser acusado de provocar desemprego. Justifica-se tal imprecação a partir das íntimas relações entre economia e direito do trabalho, e da supervalorização da influência das regras trabalhistas sobre a dinâmica do mercado de trabalho666.
Disso resultam as condições para a multiplicação das formas de contratação do trabalho, todas buscando adaptar-se à progressiva lista de conveniências empresariais, motivadas pela fé na redução de custos e no estímulo à competitividade. Isso leva Ximena Gutierrez Rosa a constatar que hoje não existe mais um trabalhador único, com características fixas. Está em crise o modelo de trabalhador que exerce suas atividades dentro da empresa,
664
RODRÍGUEZ, Americo Plá. La Actual Coyuntura del Derecho Laboral. In: Evolucion del Pensamiento Juslaboralista. Estudios en Homenaje al Prof. Héctor-Hugo Barbagelata. Montevideo: FCU, p. 386-387, 1997; CORDEIRO, Wolney de Macedo. A Regulamentação das Relações de Trabalho Individuais e Coletivas no
Âmbito do Mercosul. São Paulo: LTr, p. 49, 2000. 665
PRADO, Ney. Relações Trabalhistas no Brasil. In: PRADO, Ney (Coord.). Reforma Trabalhista: Direito do Trabalho ou Direito ao Trabalho? São Paulo: LTr, p. 24, 2001.
666
BARROS, Cássio Mesquita. O Futuro do Direito do Trabalho. In: Revista LTr, São Paulo: LTr, ano 66, nº 05, p. 527, maio, 2002.
em jornada de trabalho integral, com contrato por tempo indeterminado, sob subordinação clássica ao empregador e com tarefas claras e determinadas. A noção que se propaga é a da empregabilidade, seja a que custo for667.
Posto nessa perspectiva, o drama do desemprego estrutural estimula a rediscussão dos princípios específicos do direito do trabalho668, seja para que se proponha a sua reformulação (considerando superada a idéia de proteção ao obreiro), seja para resgatar o seu sentido original (considerando a necessidade de reafirmar a proteção ao obreiro).
A endemia do desemprego, ademais, costuma afugentar soluções negociadas e equilibradas para o seu tratamento. Isto acontece porque a atividade sindical, método consagrado como forma de compor de maneira autônoma, ponderada e saudável os conflitos trabalhistas, sofre sério enfraquecimento quando os postos de trabalho estão em perigo. Numa semelhante circunstância, conforme ensina Plá Rodriguez, normalmente ocorre o distanciamento dos trabalhadores do seu sindicato representativo, ante o receio da perda do emprego caso as reivindicações recrudesçam669. Ocorre o predomínio do individualismo, dos projetos pessoais, em prejuízo da conscientização coletiva dos trabalhadores, que traduz a base filosófica do movimento sindical670. Todavia, apesar dos obstáculos interpostos frente aos sindicatos, paradoxalmente é deles o principal papel no esforço para restabelecer o equilíbrio afetado pela crise do desemprego estrutural671.
27. Crise do Modelo de Proteção Social.