11. Interpretação Constitucional 1 Identidade própria.
11.5. Princípios interpretativos da Constituição.
Afirmado o paradigma de autonomia da interpretação constitucional, passemos ao estudo dos princípios que a orientam. Tais princípios interpretativos são proposições destituídas de cunho material, ao contrário dos princípios constitucionais substantivos, como o princípio da igualdade, por exemplo. Os princípios de interpretação constitucional, na verdade, surgem com o intuito de oferecer elementos para o deslinde do sentido constitucional.
Partindo de uma postura hermenêutico-concretizante, Canotilho enuncia aqueles que denomina princípios tópicos de interpretação constitucional. São os seguintes: a) Princípio da unidade da Constituição, que tem por objeto evitar antinomias e espaços de tensão entre as normas constitucionais, sendo tal propósito de harmonização realizado mediante a estruturação interpretativa de um sistema unitário interno de regras e princípios; b) Princípio do efeito integrador, que busca favorecer, na solução dos problemas constitucionais, a integração social e o reforço da unidade política; c) Princípio da máxima efetividade, que consiste em viabilizar a maior eficácia possível da norma constitucional, por meio da sua interpretação. Tem especial aplicação no terreno concernente aos direitos fundamentais; d) Princípio da conformidade funcional, cujo fito é impedir alterações que perturbem a repartição de funções estabelecida pela Constituição; e) Princípio da concordância prática, voltado à coordenação interpretativa das normas constitucionais, de modo a minimizar o sacrifício do conteúdo de cada uma delas, assim como dos bens que protegem. Também goza de peculiar influência na interpretação dos direitos fundamentais; f) Princípio da força normativa da Constituição, pelo qual deve-se dar preferência à interpretação concretizadora e atualizadora das normas, que lhes confira, portanto, uma eficácia ótima nas condições históricas dadas; e g) Princípio da interpretação das leis conforme a Constituição, que postula, no caso de normas polissêmicas ou plurissignificativas, dar-se a elas uma interpretação em conformidade com a Constituição. Este princípio será objeto de particular análise mais adiante (Capítulo 3, item 22)352.
No que concerne à interpretação dos direitos fundamentais, a questão se apresenta de modo a equilibrar uma equação na qual se encontram, de uma parte, o princípio da máxima efetividade, e de outra, o princípio da concordância prática. Face ao sentido fundamental dos direitos em questão, o propósito do intérprete terá que privilegiar, tanto quanto possível, a realização do seu conteúdo. Todavia, consistindo o procedimento em cotejar normas constitucionais em choque, emerge a necessidade de afetar no menor grau possível a preservação da integridade e a eficácia da norma contrastante com o direito fundamental em jogo. E se a hipótese for de colisão de direitos fundamentais, maior razão haverá para perseguir a concordância prática, sem prejuízo da maior efetividade cabível.
Dirigindo o nosso estudo ao âmbito dos direitos fundamentais de índole social, encontramos na doutrina de Manoel Jorge e Silva Neto a idéia segundo a qual o princípio da
352
CANOTILHO, José Joaquim Gomes. Direito Constitucional e Teoria da Constituição. 4. ed. Coimbra: Almedina, p. 1186-1189, 2000; Aludem à mesma classificação, no Brasil, Inocêncio Mártires Coelho e Manoel
Peixinho. (COELHO, Inocêncio Mártires. Interpretação Constitucional. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris
Editor, p. 91-92, 1997; PEIXINHO, Manoel Messias. A Interpretação da Constituição e os Princípios
máxima efetividade deve, em especial, atuar no sentido de conduzir à concretização de tais direitos. Isto porque, segundo ele, superado o constitucionalismo clássico, a Constituição abandonou a neutralidade frente à desigualdade social, materializando princípios contrários à desproporcional divisão de riquezas. E tais princípios substantivos, que vieram a constituir os chamados direitos sociais, precisam da chancela interpretativa da presunção da máxima efetividade, para que não sucumbam à ineficácia de uma programaticidade vazia353.
Consta na Constituição brasileira de 1988 um dispositivo que estimula a interpretação de direitos fundamentais fulcrada na máxima efetividade. Trata-se do artigo 5º, parágrafo 1º, cuja redação é a seguinte: “As normas definidoras dos direitos e garantias fundamentais têm aplicação imediata”. Ao contrário do que pode aparentar, seu conteúdo não apenas impõe a imediatidade temporal da aplicação dos direitos fundamentais, como também impulsiona a intensidade de sua eficácia. Assim pensa, aliás, Ingo Sarlet, que escreve: “a melhor exegese da norma contida no art. 5º, § 1º, de nossa Constituição é a que parte da premissa de que se trata de norma de cunho inequivocamente principiológico, considerando- a, portanto, uma espécie de mandado de otimização (ou maximização), isto é, estabelecendo aos órgãos estatais a tarefa de reconhecerem a maior eficácia possível aos direitos fundamentais, entendimento este sustentado por Gomes Canotilho e compartilhado, entre nós, por Flávia Piovesan”354.
Essa concepção, ora construída em defesa dos direitos fundamentais, encontra a sua origem teórica na tese de Konrad Hesse de que a interpretação constitucional está submetida ao princípio da ótima concretização da norma. Preocupado com a integridade da força normativa da Constituição, ele propõe uma interpretação otimizadora, mas que não menospreze as condicionantes sociológicas, visando à plena eficácia constitucional. Eis o seu pronunciamento: “Finalmente, a interpretação tem significado decisivo para a consolidação e preservação da força normativa da Constituição. A interpretação constitucional está submetida ao princípio da ótima concretização da norma (Gebot optimaler Verwirklichung der Norm). Evidentemente, esse princípio não pode ser aplicado com base nos meios fornecidos pela subsunção lógica e pela construção conceitual. Se o direito e, sobretudo, a Constituição, têm a sua eficácia condicionada pelos fatos concretos da vida, não se afigura possível que a interpretação faça deles tábula rasa. Ela há de contemplar essas condicionantes, correlacionando-as com as proposições normativas da Constituição. A interpretação adequada é aquela que consegue concretizar de forma excelente, o sentido (Sinn) da proposição normativa dentro das condições reais dominantes numa determinada situação”355.
O princípio da otimização dos direitos fundamentais encontra óbvio apoio na doutrina de Alexy, na medida em que este apresenta o seu conceito de princípio como mandado de otimização, ou seja, como ordem de realização de um determinado conteúdo, na maior intensidade possível, dentro das possibilidades jurídicas e reais existentes356. Diante disto, a exortação de Bidart Campos quanto aos direitos humanos torna-se não apenas compreensível, como bem alicerçada: “hay que acudir a la regla de optimización o
353
SILVA NETO, Manoel Jorge e. O Princípio da Máxima Efetividade e a Interpretação Constitucional. São Paulo: LTr, p. 61, 1999.
354
SARLET, Ingo Wolfgang. A Eficácia dos Direitos Fundamentais. 2. ed. Porto Alegre: Livraria do Advogado, p. 249, 2001.
355
HESSE, Konrad. A Força Normativa da Constituição. Porto Alegre: Sérgio Antonio Fabris, p. 22-23, 1991.
356
ALEXY, Robert. Teoria de los Derechos Fundamentales. Madrid: Centro de Estudios Constitucionales, p. 86, 1997.
maximización de los derechos, de modo que su efectividad y eficacia generales tengan fuerza difusora y expansiva em toda la sociedad” 357.
11.6. Tópica.
Obscurecida durante largo tempo pela prevalência da perspectiva sistemática, a tópica experimentou um processo de recuperação para a ciência do direito a partir da teorização desenvolvida por Viehweg, que a considera “uma técnica de pensar por problemas, desenvolvida pela retórica”358. Pois bem, essa técnica de análise, originária da antiguidade clássica, estava praticamente esquecida, especialmente no campo do direito. Coube a Viehweg, valendo-se do trabalho precursor de Gian Battista Vico, trazê-la à reflexão contemporânea, suscitando daí em diante uma efetiva contribuição, que vem influenciando bastante os enfoques da hermenêutica jurídica. A ampliação dos horizontes da interpretação constitucional permitiu a utilização de recursos da tópica para a dilucidação de questões polêmicas.
O raciocínio por problemas constitui o âmago da tópica, numa clara contraposição à proposta do pensamento sistêmico359. Este seria um pensamento dedutivo, ao contrário da tópica, de natureza indutiva360. Na verdade, a tópica instaura, a partir da noção de problema, um processo de argumentação. Como o objetivo é enfrentar o problema, antes de qualquer consideração do ponto de vista sistemático, o intérprete da tópica lança mão de pontos de vista prévios, denominados topoi, para tentar alcançar uma solução361.
Essa postura revela uma idéia de primazia do problema sobre a norma jurídica e sobre o sistema362. Problema, na acepção de Viehweg, é “toda questão que aparentemente permite mais de uma resposta e que requer necessariamente um entendimento preliminar, de acordo com o qual toma o aspecto de questão que há que levar a sério e para a qual há de buscar uma resposta como solução”363.
O privilégio à pergunta, como método de investigação, descortina, do ponto de vista teórico, uma abordagem zetética do direito, que se estrutura pela constante perquirição, “pretendendo descobrir como é um ser, uma coisa”, conforme esclarece Paulo Pimenta. Nesse, sentido, distingue-se da dogmática, na qual a resposta assume a preponderância364.
O procedimento tópico opera-se mediante a busca de premissas, “adequadas e fecundas”, segundo Viehweg, visando a conseqüências iluminadoras, resultantes da elaboração lógica posterior. A função dos topoi, assinala, “consiste em servir a uma discussão de problemas”365.
357
CAMPOS, Germán J. Bidart. Teoría General de los Derechos Humanos. Buenos Aires: Astrea, p. 64, 1991.
358
VIEHWEG, Theodor. Tópica e Jurisprudência. Brasília: Editora Universidade de Brasília, p. 17, 1979.
359
VIEHWEG, Theodor. Tópica e Jurisprudência. Brasília: Editora Universidade de Brasília, p. 33, 1979; SALDANHA, Nelson. Filosofia do Direito. Rio de Janeiro: Renovar, p. 193, 1998.
360
BONAVIDES, Paulo. Curso de Direito Constitucional. 7. ed. São Paulo: Malheiros, p. 448, 1998.
361
PEIXINHO, Manoel Messias. A Interpretação da Constituição e os Princípios Fundamentais. 2. Ed. Rio de Janeiro: Lumen Juris, p. 75, 2000.
362
BARROSO, Luís Roberto. Interpretação e Aplicação da Constituição. 3. ed. São Paulo: Saraiva, p. 5, 1999.
363
VIEHWEG, Theodor. Tópica e Jurisprudência. Brasília: Editora Universidade de Brasília, p. 34, 1979.
364
PIMENTA, Paulo Roberto Lyrio. Eficácia e Aplicabilidade das Normas Constitucionais Programáticas. São Paulo: Max Limonad, p. 56-57, 1999.
365
Uma das premissas mais distintivas da tópica é a admissibilidade de mais de uma resposta ao problema apresentado366. A fórmula sugerida para identificar a melhor solução reside no emprego da retórica como modo de utilização da palavra, associada à argumentação como técnica de convencimento367.
O interesse despertado para a retórica no século XX, segundo Nelson Saldanha, pode ter vários significados, dentre eles a saturação das teorias políticas que questionam a relação entre a ordem jurídica e a ordem estatal, ou o retorno da análise discursiva, para desvendar as relações entre pensar e transmitir368. Seja como for, a recepção dos conceitos da tópica pelos juristas contemporâneos, especialmente os constitucionalistas, ainda que parcial, ou combinada com outros elementos, de certa forma materializa a constatação de Viehweg, de que a tópica se infiltra no sistema jurídico por meio da interpretação369.
Comprova essa tendência a opinião de Bonavides, para quem “A Constituição representa pois o campo ideal de intervenção ou aplicação do método tópico em virtude de constituir na sociedade dinâmica uma ‘estrutura aberta’ e tomar, pelos seus valores pluralistas, um certo teor de indeterminação. Dificilmente uma Constituição preenche aquela função de ordem e unidade, que faz possível o sistema se revelar compatível com o dedutivismo metodológico. Diante desses obstáculos, só a tópica, como hermenêutica específica, estaria adequada metodologicamente a resolver dificuldades inerentes à Constituição nos seus fundamentos”370.
Numa síntese feliz, Plauto Azevedo, sem menosprezar a subsistência da idéia de sistema, que em sua opinião deve ser cultivada, louva a mensagem da tópica, por atender uma necessidade do direito contemporâneo de repensar a si mesmo, a partir do seu componente hermenêutico371.