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O encontro com a capoeira e o despontar do cuidado

No documento O corpo em movimento na capoeira (páginas 165-169)

Aluno III: Faz uns 15 anos.

I – O SUJEITO ÉTICO NA CAPOEIRA

2. O encontro com a capoeira e o despontar do cuidado

Assumir a capoeira como prática da existência não significa tomar partido pela Angola ou pela Regional. Trata-se muito mais de uma questão de escolha que leva o sujeito a lapidar o seu viver, valendo-se destas ou daquelas qualidades expressivas, na busca de certo éthos que quer tomar para si.

Lembrando das palavras de professor Minhoca: “o gosto deve ser soberano”

(Entrevista realizada em 11/08/2009), como vimos, é o gosto, portanto, que move a prática deste ou daquele estilo: só aquilo que sensibiliza o sujeito o conduz à face das profundidades e ao intenso das intensidades porvir nas relações em que se envolve junto à capoeira.

Este “gosto” vai além da superficialidade, portanto, não é patrimônio exclusivo deste ou daquele estilo, pois, antes, aponta a irredutibilidade de um sujeito que escolhe seguir os rumos de um imperativo essencialmente corporal que, literal e metaforicamente o põe em movimento.

Tudo começa com um encontro que coloca o sujeito frente à capoeira. Algo neste encontro instiga à prática, chamando o sujeito a se implicar com ela. Ao serem perguntados sobre este encontro primeiro com a capoeira, os mestres e professores entrevistados assim registraram suas impressões:

nunca tinha visto capoeira na vida... Aí na praça um dia eu vi uma roda de capoeira. Já tinha ouvido falar de capoeira, alguma coisa, mas nunca tinha visto. Na hora que eu vi ali e aquele ritmo, aquela energia, os movimentos

[...] aí eu não sei rapaz... aquilo tudo me deixou impressionado. Digo assim:

“mas que coisa rapaz! Que negócio mais descontraído aí!”... (Entrevista

com mestre Marcial, realizada em 01/11/2008).

o primeiro contato que eu tive com a capoeira foi aos seis anos de idade, numa viagem que eu fiz com minha mãe pra... Se não me falha a memória, para Pirapora. E foi aonde eu vi pessoas na rua jogando Capoeira e na hora que eu bati o olho naquelas pessoas que estavam praticando aquilo lá, foi que eu vi [e pensei] é isto que eu quero pra mim! [...] Quando eu vi aquilo eu me encantei... entrou no meu coração e tudo... (Entrevista com contramestre

Buda, realizada em 31/10/2008).

um dia, em fevereiro, carnaval de rua, a gente sentado lá na calçada, assistindo o desfile de carnaval [...] Aí quando eu olho vinha a capoeira na frente da escola de samba... Aí eu já fiquei doido. Levantei e a galera atrás de mim gritava: “senta aí! senta aí!”, aí eu disse: “sentar que nada! Eu vou atrás da capoeira, isto sim!”, aí eu fui entrando e fui perguntando, e os caras disseram: “fulano é o mestre e tal...fazemos aula em tal lugar”... Aí eu fui atrás... Fui, comecei a treinar, isto no final de 1977, início de 1978 e não parei nunca mais... (Entrevista com mestre Zequinha, realizada em

20/03/2009).

Observe-se nos fragmentos acima que o encontro com a capoeira mexeu com a sensibilidade dos capoeiristas. Algo neste encontro relembrado se abre em profundidade, revelando as intensidades que atravessam a relação dos sujeitos com a capoeira.

O encontro de professor Minhoca com a capoeira foi tão intenso que ele se ocupou com ela implicando-a no seu viver. Assim relata:

quando eu comecei eu treinava o dia inteiro... [...] Eu passava o dia inteiro fazendo capoeira [...] eu só jogava capoeira [...] Esta é a história da minha vida cara... Eu só fiz isto na verdade... Eu só fui atrás de capoeira... eu vivi capoeira, eu só quis saber de capoeira... (Entrevista realizada 11/08/2009).

A experiência do encontro de mestre Brasília com a capoeira traz também a face de um drama e as mobilizações que a partir daí apontam:

eu trabalhava como carregador de água.... Aí, um dia, eu tinha acho que uns 15 anos... Eu tinha um amigo... [...] chamado “Toró”... Ele era bem fortinho...[...] Nós tivemos uma discussão [...] E aí nós saímos na mão [...] ele me deu tanto tombo... Onde eu ia ele me jogava no chão [...] Eu não me conformava com aquilo, porque eu sabia me defender, eu, modéstia à parte briguei muito e sabia brigar, sabia me defender e até hoje, como capoeirista eu sei me defender [...] Eu quis saber porque que ele me bateu, [...] porque eu não entendia, a gente brigava frente a frente e eu ia pra cima dele e, quando via, ele já tava atrás de mim, já me jogava, dava uma rasteira, uma

pernada... metia o pé no meu peito e eu caia... e eu perdi a cabeça quando eu vi ele me batendo [...] E aí, quando outro cara nos separou eu perguntei: “o que você faz?” Aí ele disse: “eu faço capoeira”... “Ah, você faz capoeira? Então eu digo: “vou aprender capoeira!” (Entrevista realizada em

02/12/2008).

No momento de uma briga de rua, mestre Brasília descobriu a capoeira. A briga com o amigo o colocou em desassossego, fazendo despontar uma vontade: “vou aprender capoeira”.

A fala de mestre Plínio ajuda a compor esta ideia sintonizada com o despontar de uma vontade. Assim registra: “o aprendizado, ele vem com a intensidade do seu querer” (Entrevista realizada em 26/03/2009). Observe-se que o intenso mais uma vez insiste; é ele que coloca o aprendiz em desassossego, fazendo-o voltar os olhos para o seu querer.

O capoeirista sente o chamado de uma vontade nele emersa quando volta o olhar sobre si mesmo e se ocupa consigo. No caso de mestre Brasília, esta conversão do olhar foi levada por uma incompreensão: “eu não me conformava com aquilo”. Ao se sentir inconformado, o mestre foi atraído pelo despontar de um querer: a capoeira. Como desdobramento, mestre Brasília mergulhou numa experiência de cultivo, seguindo os rastros daquele despontar desejante que o chamava à essa prática.

Observe-se como mestre Plínio foi trilhando a experiência de cultivo, ao seguir os rastros daquilo que aguçava sua vontade de aprender:

[meu mestre] tinha um método todo peculiar porque ele chegava na

academia e dizia: “rapaz, eu lembrei um toque hoje, mas este toque ninguém sabe”. De repente ele afinava o berimbau e ia fazer este toque, então, aquilo mexia comigo. Eu falava: “tenho que aprender este toque”. Então ele agitava a minha curiosidade e eu ficava ligado pra aprender o toque. Muitas vezes, quando o mestre parava de tocar eu ia embora repetindo o toque na boca pra chegar em casa e fazer no berimbau... (Entrevista realizada em

26/03/2009).

A lembrança sobre os métodos usados pelo mestre faz com que Plínio busque na memória os imperativos que o mobilizaram ao aprendizado da capoeira. Seu mestre atiçava a sua vontade de aprender quando conseguia agitar sua curiosidade. Lá, quando “aquilo mexia

comigo”, o aprendiz operava uma conversão do olhar: dos outros, do mundo, para ele próprio,

e neste movimento “ia embora repetindo o toque”, elaborando-o para si, segundo suas próprias potencialidades e capacidades.

Todavia, nem todos alcançam as intensidades daquilo que toca a vontade de aprender. Mestre Plínio pontua: “o mestre dava a mesma aula para dez alunos, destes dez, talvez dois pegavam o que ele queria passar” (Entrevista realizada em 26/03/2009). A fala de mestre

Brasília ajuda a desdobrar esta ideia: “a pessoa que quer entender alguma coisa tem que ter

um momento pra ouvir e ele tem que saber o que quer” (Entrevista realizada em 02/12/2008).

Nem sempre é uma tarefa fácil saber aquilo que se quer. Muitos se perdem pelo caminho, abandonam a prática da capoeira, ou a levam consigo como uma mera e superficial atividade física. Romper com esta superficialidade é tarefa do aprendiz, pois só cabe a ele desbravar os caminhos na busca deste querer, isto é, na busca daquilo que o afeta em profundidade. A fala de mestre Plínio soma a esta ideia. Quando perguntado sobre a aprendizagem do aprendiz, assim pontuou:

então isto depende muito do aluno: o aluno querer, o aluno buscar, é isto que torna um aluno bom. Por mais que um mestre tenha muito conhecimento, muitas vezes é o aluno que não está interessado, então é o aluno que tem que querer aprender. (Entrevista realizada em 26/03/2009).

Mestre Plínio apresenta outras pistas sobre o que ajuda o aprendiz a romper com esta superficialidade na prática da capoeira:

o capoeirista precisa aprender sua própria capoeira. Eu sempre falo para meus alunos que eles precisam treinar sozinhos. Tem este treino aqui que a gente faz com os amigos e companheiros, mas o treino que é fundamental é você com a cadeira, você com a árvore, é você com um bloco, passando por cima, passando por baixo, porque quando você faz este tipo de treinamento você olha pra dentro de você e percebe as suas necessidades e quando você está fazendo o treino em duplas é muito bom porque você tem noção de distância, de direção, enfim, então um treino complementa o outro...

(Entrevista realizada em 26/03/2009).

Ao demarcar a necessidade do treino como espaço potencial para se desbravar as intensidades do aprender, o mestre chama a atenção para o deslocamento de um olhar que olha para si mesmo antes de pensar na relação com o outro. Deste espaço de intimidade consigo, o sujeito vai trilhando seu caminho junto à capoeira, investindo em um movimento de invenção de si, mobilizado por um exercício que permite não abrir mão de si mesmo, ao se implicar com esta prática.

A leitura de Silva (2008a) sobre o processo de aprendizagem na capoeira corrobora esta ideia. Assim salienta:

O que se busca na capoeira [...] é uma vivência em que o aprendizado ocorra pelo autoconhecimento do corpo, deflagrado de dentro para fora, inversamente ao que propõem as técnicas aplicadas através dos métodos de exposição-reprodução. Estas se caracterizam pela repetição dos exercícios demonstrados pelos professores, visando à sua perfeita reprodução. (SILVA, 2008a, p. 21).

Para que o “autoconhecimento” ocorra é preciso, primeiramente ocupar-se consigo,

isto é, voltar os olhos sobre si, pois sem este deslocamento não há possibilidade de medir em que ponto está este “autoconhecimento”. Nestes termos, aquilo que Silva designa como “autoconhecimento”, aproxima-se da noção de cuidado de si mesmo.

Como já observado no primeiro capítulo, de modo geral o cuidado de si mesmo é uma atitude que mobiliza o sujeito à invenção de si. Nesta invenção, o sujeito lapida a si mesmo, como uma obra de arte. Assim, o cuidado de si é também a prática – o conjunto de ocupações – que faz do sujeito um artesão da beleza de seu viver (FOUCAULT, 2006a).

Partindo deste referencial, atento a si mesmo, a aprendizagem é deflagrada de dentro para fora, como projeção orgânica, isto é, como prática de cultivo. Assim como uma semente germina a aprendizagem se enraíza no corpo e, como que de uma imanência térrea, impele ao broto, a partir do qual cresce e se desenvolve.

No documento O corpo em movimento na capoeira (páginas 165-169)

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