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O PRINCÍPIO DA SOLIDARIEDADE E O BEM DE FAMÍLIA

8. O PRINCÍPIO DA SOLIDARIEDADE NA FAMÍLIA CONSAGRADA NO NOVO CÓDIGO CIVIL

8.4. O PRINCÍPIO DA SOLIDARIEDADE E O BEM DE FAMÍLIA

Com relação ao bem de família, é preciso lembrar que o artigo 6º da Constituição Federal elevou a moradia a status de direito constitucional. Isso ocorreu a partir da Emenda Constitucional nº 26/2002 e provocou profunda repercussão no ordenamento jurídico e, principalmente, nos tribunais, que passaram a rejeitar diversos tipos de penhora em bens de família. Aliás, ampliou o conceito de família, com fulcro na proteção da moradia enquanto direito social constitucionalmente protegido, como adiante se verá.

Nas palavras do Desembargador Lecir Manoel da Luz,

(...) sem a moradia, o indivíduo perde a identidade indispensável ao desenvolvimento de suas atividades, enquanto ente social e produtivo, se empobrece e se marginaliza, empobrecendo, invariavelmente a Nação.398

Em consonância com o acatado, convém transcrever trecho do voto proferido pela então juíza Rosa Maria de Andrade Nery, que se reporta à lição do ilustre Professor Rui Geraldo Camargo Viana, mencionado em outra obra deste autor:

Da mesma forma, como lembra Rui Geraldo de Camargo Viana, quando o Constituinte fez acrescentar o termo moradia dentro dos direitos sociais, não quis lhe dar a natureza meramente programática, como a primeira vista possa ter parecido. Se foi com esse pensamento que se promulgou a Emenda, se foi com propósitos meramente retóricos, de proposta de intenções programáticas e ideológicas, o Congresso enredou-se num cipoal intransponível, direito humano rotulado de direito social, como se quis qualificar o instituto, inserindo-se no art. 6º da Constituição, como se de menor extensão fosse do que os elencados no artigo 5º, sua relevância, entretanto, o qualifica como imprescritível, irrenunciável, inviolável, universal e, sobretudo, dotado de efetividade (...) Incontroverso que as normas definidoras dos direitos e garantias individuais têm aplicação imediata, a teor da regra do §1º do art. 5º da Magna Carta, não se pode olvidar que ‘direito à moradia’, por antes já inscrito em Tratados internacionais subscritos pelo Brasil e, agora, alçado à dignidade de direito social constitucional, beneficia-se dessa regra de aplicação imediata. (Revista de Direito Privado, 2/10-11)399

398 Agravo de Instrumento 20000020030532 – AGI DF – Relator Lecir Manoel da Luz – 4ª Turma Cível –

TJ/DF – 13.11.2000.

A impenhorabilidade do bem de família retira sua força do dispositivo constitucional acima, bem como do artigo 226 da Constituição Federal, sendo que o bem de família convencional está disciplinado nos artigos 1.711 a 1.722 do Código Civil vigente e o bem de família legal, previsto na Lei nº 8.009/90.

Como já visto anteriormente, atualmente a família não é mais a que resulta do matrimônio. Consagrou-se o pluralismo familiar, ou seja, a proteção de todas as formas familiares. Mas não é só. A proteção estatal não é mais dada apenas à instituição da família, mas à pessoa de cada um dos que a integram (art. 226, §8º CF/88).

Conseqüentemente, a leitura conjugada e sistêmica dos dispositivos constitucionais (art. 1º, inciso III, art. 3º inciso I, art. 6º, art. 226), bem como da Lei nº 8.009/90, e, ainda, dos artigos do Código Civil que disciplinam a questão, permite a conclusão de que o bem de família passe a ser o bem de qualquer morador, solitário ou vivendo em família, porque o que se protege é o direito à moradia, à cidadania e à dignidade humana.

É preciso insistir, ainda, no fato de que não só a família resultante do casamento, da união estável ou família monoparental (pai ou mãe com filhos) merece a proteção da lei com relação ao bem de família, mas também outros grupos familiares, v.g., irmãos com irmãos, netos com avós, tios com sobrinhos.

Os julgados abaixo colacionados demonstram que o Poder Judiciário acatou a mudança constitucional e legislativa fortalecendo e estendendo, por conseguinte, o instituto do bem de família, visando a efetiva proteção da moradia.

A interpretação teleológica do art. 1º (da 8.009/90) revela que a norma não se limita ao resguardo da família. Seu escopo definitivo é a proteção de um direito fundamental da pessoa humana: direito à moradia. Se assim, ocorre, não faz sentido proteger quem vive em grupo e abandonar o indivíduo que sofre o mais doloroso dos sentimentos: a solidão.

Incluída a moradia como direito social, tem-se como impenhorável o imóvel residencial da pessoa solteira, tal como assegurado na Lei 8.009/90.400

A Lei nº 8009/90, o art. 1º precisa ser interpretado consoante o sentido social do texto. Estabelece limitação à regra draconiana de o patrimônio do devedor responder por suas obrigações patrimoniais. O incentivo à casa própria busca proteger as pessoas, garantindo-lhes o lugar para

morar. Família, no contexto, significa instituição social de pessoas que se agrupam, normalmente por laços de casamento, união estável ou descendência. Não se olvidem ainda os ascendentes. Seja o parentesco civil, ou natural. Compreende ainda família substitutiva. Nessa linha, conservada a teleologia da norma, o solteiro deve receber o mesmo tratamento. Também o celibatário é digno desta proteção. E mais. Também o viúvo, ainda que seus descendentes hajam constituído outras famílias e, como, normalmente acontece, passam a residir em outras casas. Data vênia, a Lei 8.009/90 não está dirigida a número de pessoas. Ao contrário, à pessoa. Solteira, casada, viúva, desquitada, divorciada, pouco importa. O sentido social da norma busca garantir um teto para cada pessoa. Só essa finalidade, data vênia põe sobre a mesa a exata extensão da lei. Caso contrário, sacrificar-se-á a interpretação teleológica para prevalecer a insuficiente interpretação literal.”401

Os irmãos solteiros que residem no imóvel comum constituem uma entidade familiar e por isso o apartamento onde moram goza da proteção da impenhorabilidade, prevista na Lei 8009/90, não podendo ser penhorado na execução de dívida assumida por um deles”. 402

Devedora viúva que reside sozinha em seu único imóvel deve estar amparada pelo contido no art. 1º da Lei 8009/90. A interpretação da referida lei deve buscar a vontade do legislador que objetivou amparar essa pessoa realmente necessitada do imóvel para morar, assegurando a impenhorabilidade do bem de família.403

Em resumo, convivem hoje, harmoniosamente, o direito constitucional à moradia, o bem de família legal (Lei 8.009/90) e o previsto no novo Código Civil.

8.5. O PRINCÍPIO DA SOLIDARIEDADE E O DEVER DE PRESTAR