4. O PRINCÍPIO DA SOLIDARIEDADE
4.2. PRINCÍPIO DA SOLIDARIEDADE E OS DIREITOS HUMANOS
Questiona-se se o princípio da solidariedade, o direito/dever de solidariedade, está abrangido nas dimensões dos direitos humanos. A resposta é sim.
215Idem, Ibidem. p. 281. 216Ibidem, p. 278.
217 DONNINI, Rogério Ferraz. Responsabilidade pós-contratual no novo Código Civil e no Código de
Defesa do Consumidor. São Paulo: Saraiva, 2004, p. 107.
Observe-se que os direitos humanos se inter-relacionam, se complementam, independentemente do momento histórico-social em que são reconhecidos e assegurados e, por isso, pode-se afirmar que o princípio (direito/dever) da solidariedade é um supremo direito da humanidade.
Todavia, como tudo adquire significado em relação a determinado contexto, importante indagar em que momento da história humana surgiu a preocupação com o princípio da solidariedade.
Primeiramente, consigne-se que se utilizará, neste trabalho, a expressão
“dimensões” de direitos fundamentais, e não “gerações”, porque mais adequada
segundo alguns doutrinadores, como, por exemplo, Paulo Bonavides e Jorge Miranda.
Neste sentido, a lição de Paulo Bonavides219:
Força é dirimir, a esta altura, um eventual equívoco de linguagem: o vocábulo "dimensão" substitui, com vantagem lógica e qualitativa, o termo "geração", caso este último venha a induzir apenas sucessão cronológica e, portanto, suposta caducidade dos direitos das gerações antecedentes, o que não é verdade. Ao contrário, os direitos da primeira geração, direitos individuais, os da segunda, direitos sociais, e os da terceira, direitos ao desenvolvimento, ao meio-ambiente, à paz e à fraternidade, permanecem eficazes, são infra-estruturas, formam a pirâmide cujo ápice é o direito à democracia...
Igual crítica é feita por Jorge Miranda220:
Conquanto esta maneira de ver possa ajudar a apreender os diferentes momentos históricos de aparecimento dos direitos, o termo geração, geração de direitos, afigura-se enganador por sugerir uma sucessão de categorias de direitos, umas substituindo-se às outras – quando, pelo contrário, o que se verifica em Estado social de direito é o enriquecimento crescente em resposta às novas exigências das pessoas e das sociedades. Nem se trata de um mero somatório, mas sim de uma interpretação mútua, com a conseqüente necessidade de harmonia e concordância prática.
Realmente, assim que novas prerrogativas são reconhecidas aos indivíduos, estas, longe de excluírem, complementam as demais prerrogativas já conquistadas. Todas as dimensões coexistem. Mais que isso, mantêm entre si
219 BONAVIDES, Paulo. Curso de Direito Constitucional. 12ª ed., São Paulo: Malheiros Editores Ltda,
2002, p.525.
uma relação de recíproca interação, influenciando-se mutuamente e fazendo com que o entendimento de cada um dos direitos fundamentais seja sempre interpretado em conformidade com o contexto global da totalidade das dimensões de direitos já reconhecidas.
Certo é que, como adverte Norberto Bobbio221 em sua obra “A Era dos
Direitos”, os direitos humanos não nascem todos de uma vez, eles são históricos
e se formularam quando e como as circunstâncias sócio-histórico-políticas eram propícias.
A história dos direitos humanos fundamentais se inicia com as liberdades públicas, que têm suas raízes na luta contra o absolutismo e a conseqüente afirmação de direitos oponíveis ao Poder Estatal.
Com efeito, o Estado de Direito surge com os direitos de liberdade, ou seja, garantia à vida privada e à liberdade individual, proibindo a arbitrária intervenção do poder estatal. Engloba, do mesmo modo, a liberdade espiritual, ideológica, religiosa, de expressão, abrangendo, também, o direito à segurança pessoal, à escolha da profissão e à propriedade. Ademais, a limitação e harmonia entre os Poderes, bem como a legitimidade do sistema representativo, são, igualmente, valores básicos do Estado Liberal. 222
E essas características são decorrentes dos pensamentos iluministas 223 de Locke224, Montesquieu225, Rousseau226 e outros.
Daisaku Ikeda diz:
221BOBBIO, Norberto. A Era dos Direitos. Rio de Janeiro: Campus, 1992, p. 48.
222"Toda a ‘primeira geração’ de direitos humanos, nos documentos normativos produzidos pelos Estados
Unidos recém independentes, ou pela Revolução Francesa, foi composta de direitos que protegiam as liberdades civis e políticas dos cidadãos, contra a prepotência dos órgãos estatais.” COMPARATO, Fábio Konder. A afirmação histórica dos direitos humanos. 2ª ed., São Paulo: Saraiva, 2001.
223 Iluminismo: doutrina baseada na razão humana surgida na Europa por volta dos séculos XVII e XVIII;
buscava a auto-restrição do homem sustentada em sua razão. Criticou os excessos praticados pela Igreja Católica e a filosofia escolástica.
224 John Locke (1632-1704) – Filósofo inglês, deu destaque ao empirismo em detrimento do idealismo.
Politicamente, considerou ser a liberdade individual um direito fundamental do homem, pregando a Teoria de Estado desse ponto de vista.
225 Montesquieu (1689-1755) – Historiador e pensador político francês, sucessor dos pensamentos de Locke.
Criou a base da política moderna estabelecendo o princípio da separação dos poderes. O Espírito da Lei é uma de suas principais obras.
226 Jean Jacques Rousseau (1712-1778): Escritor e filósofo suíço de língua francesa. Escreveu Do Contrato
Social, no qual propôs um sistema de governo republicano cujo poder emanava do povo, criou o conceito de vontade geral e exerceu grande influência na Revolução Francesa.
Essa corrente afastou-se da teologia da Idade Média e fundamentou-se no homem, não em Deus, e procurou evitar o excessivo centralismo no Criador ou no ser absoluto que transcendia a inteligência humana.
Na Idade Média, a devoção a Deus transformou-se gradativamente numa submissão cega à Igreja, que se autoqualificou como representante de Deus, o que veio a provocar a degeneração do poder da Igreja. Na Idade Moderna, os reis, com poderes maiores do que os da Igreja, projetaram-se como monarcas com poderes divinos. Tendo Deus como estudo, transformaram-se em senhores absolutos e violaram os direitos da pessoa a fim de ampliar e assegurar sua autoridade. A Revolução Americana pela independência e a Revolução Francesa conquistaram a liberdade física e espiritual livrando o homem do autoritarismo religioso e mundano, o que transformou no principal núcleo da luta pelos direitos humanos. Essa luta foi sustentada pelas ideologias pós-Iluminismo. 227
Todavia, na dinâmica da evolução social, evidencia-se a compreensão de uma crescente desigualdade perante os fatos sociais. Por conseguinte, uma nova ordem jurídica começa, lentamente, a evoluir. Surgem os direitos sociais, pertencentes à segunda dimensão de direitos humanos. São os direitos conferidos a todos os membros de uma sociedade, a fim de superar os problemas sociais que surgiram do desenvolvimento da economia capitalista, tais como desemprego e baixo padrão econômico, para garantir a efetiva igualdade e liberdade. São os direitos à instrução, ao trabalho etc.228
Como se depreende, o centro de gravidade da ordem jurídica caminhou do individual para o social. O Estado, agora chamado Estado de Direito Social, é chamado a dirimir conflitos entre as forças do capital e do trabalho, a conter os excessos do liberalismo e da propriedade privada, submetendo-os ao bem comum e à justiça social.
Em consonância com o explicitado, incensuráveis são as palavras de Vieira de Andrade229:
(...) as idéias de igualdade e de fraternidade, em parte significativa introduzidas na luta histórica pela crítica marxista e socialista do regime
227 ATHAYDE, Austregésilo de. Diálogo: direitos humanos no Século XXI – Austregésilo de Athayde e
Daisaku Ikeda; tradução de Masato Ninomiya. Rio de Janeiro: Record, 2000, p. 105.
228 Alexandre de Morais, citando Themístocles Brandão Cavalcanti, assevera que “o começo no nosso século
viu a inclusão de uma nova categoria de direitos nas declarações e, ainda mais recentemente, nos princípios garantidores da liberdade das nações e das normas da convivência internacional. Entre os direitos chamados sociais, incluem-se aqueles relacionados com o trabalho, o seguro social, a subsistência, o amparo à doença, à velhice, etc.” MORAES, Alexandre de. Direitos fundamentais: teoria geral, comentários aos arts. 1º a 5º da Constituição da República Federativa do Brasil, doutrina e jurisprudência. 1ª ed., São Paulo: Ed. , 1998 (Coleção Temas Jurídicos).
229 VIEIRA DE ANDRADE, José Carlos. Os Direitos Fundamentais na Constituição Portuguesa de 1976.
econômico e social do capitalismo e pelo pensamento social cristão, desenvolveram-se, impuseram-se e, harmonizadas com a liberdade fundamental, deram origem a uma ‘concepção liberal moderna’ ou concepção social dos direitos fundamentais, que corresponde à realidade vigente na generalidade dos países da Europa Ocidental, a que se convencionou chamar ‘Estado-de-Direito Social’.
Toda uma nova gama de direitos humanos incorpora-se aos tradicionais: direito ao trabalho (direito de sindicalização, greve e co-gestão da empresa), direito à saúde e à habitação, proteção à família, assistência ao menor e ao adolescente, direito à segurança social.
As novas Constituições introduzem, então, capítulos pertinentes aos direitos econômicos e sociais, tão importantes quanto os direitos civis e políticos,
v.g. Constituição do México (1917) e Constituição de Weimar (1919).
Contudo, os direitos humanos não ficam adstritos aos direitos individuais ou sociais. Uma nova tendência começou a se desenhar nas últimas décadas. Esses novos direitos fundamentais, denominados de terceira dimensão, são os responsáveis pela vida comunitária estável e sadia. Os valores sociais, a serem juridicamente protegidos, são, ao mesmo tempo, peculiares a todo um grupo social e a cada um de seus participantes. Consagrou-se o qualificativo direitos difusos, que reclamam proteção da lei.
Indubitável é que os direitos humanos são universais e, cada vez mais, se projetam no sentido do alargamento. São históricos, mas não definitivos, exigindo a todo instante instrumentos de resguardo e efetivação. Os direitos humanos se difundem, ou seja, da primeira dimensão com caráter individual passam, nas últimas dimensões, a transcender o indivíduo como sujeito dos interesses reconhecidos, sem, contudo, desconsiderá-lo.
Sobre a terceira dimensão de direitos humanos, observa Manuel Gonçalves Ferreira Filho que o reconhecimento dos direitos sociais não pôs termo à ampliação do campo dos direitos fundamentais. Ao contrário, a consciência de novos desafios, não mais à vida e à liberdade, mas especialmente à qualidade de vida e à solidariedade entre os seres humanos de todas as raças ou nações,
redundou no surgimento de uma nova dimensão, a terceira dos direitos fundamentais, denominados de direitos de solidariedade ou fraternidade. 230
Por sua vez, Jeanne da Silva Machado231 doutrina:
Fundada na evolução dos direitos humanos, que passou a reconhecer os direitos de liberdade, de igualdade e de solidariedade, conhecidos como direitos de terceira geração ou de terceira dimensão, a solidariedade assegura o direito ao desenvolvimento e ao patrimônio comum da humanidade. (grifos do próprio autor)
E, na importante lição de Canotilho232,
(...) a radicação (sic) da idéia da necessidade de garantir o homem no plano econômico, social e cultural, de forma a alcançar um fundamento existencial-material, humanamente digno, passou a fazer parte do patrimônio da humanidade.
Oportuno se torna dizer que a evolução dos direitos humanos não parou nos assegurados na terceira dimensão. Com efeito, há quem pregue o surgimento de uma quarta dimensão, que, conforme Paulo Bonavides 233, seria "o direito à
democracia, o direito à informação, e o direito ao pluralismo".
Mas não é só. A ética moral contemporânea, cultivando a paz, impulsionada pelo sentimento humanista, elevou o direito à paz ao grau de direito fundamental de quinta dimensão, na visão desse mesmo jurista. 234
Quais seriam os direitos da solidariedade? Estariam esses direitos protegidos ou abrangidos pelo princípio da solidariedade? Seriam direitos individuais, coletivos ou difusos? Pertenceriam a qual dimensão dos direitos humanos?
Maria Cláudia Bucchiareri Pinheiro235, em estudo sobre a Constituição do
México de 1917, afirma que a solidariedade prevista no artigo 3º do referido
230 FERREIRA FILHO, Manoel Gonçalves. Direitos humanos fundamentais. 5ª ed. São Paulo: Saraiva, 2002. 231 MACHADO, Jeanne da Silva. A solidariedade social na responsabilidade ambiental”. Rio de Janeiro:
Editora Lumen Júris, 2006, p.113.
232 CANOTILHO, José Joaquim Gomes. Direito Constitucional e teoria da constituição, 5ª ed. Coimbra:
Almedina, 2002, p. 384.
233 HUMENHUK, HEWERSTTON. A teoria dos direitos fundamentais. Disponível em:
http://www.jusvi.com. Acesso em 14 de out. 2005.
234 BONAVIDES. PAULO. O direito à paz. in Folha de São Paulo – Caderno Opinião – A 3, São Paulo. 3
diploma é, sem dúvida, referência ao princípio inspirador dos direitos de terceira dimensão. Igualmente, Guido Alpa236, jurista italiano, na sua obra “I principi nella
prospettiva constituzionale”, se refere à solidariedade prevista na Constituição
Italiana de 1947-1948 como um direito/dever humano fundamental.
Independentemente do momento em que a história dos direitos humanos passou a reconhecer os direitos alicerçados no princípio da solidariedade, o fato é que eles precisam ser protegidos.
Vale reiterar que querer classificar determinados direitos como se eles fizessem parte de uma dada dimensão, sem atentar para o aspecto da indivisibilidade dos direitos fundamentais, é um equívoco. Os direitos humanos fundamentais fazem parte de uma mesma realidade dinâmica.
Em resumo, o ideal é sopesar que todos os direitos fundamentais podem ser analisados e compreendidos em múltiplas dimensões, na dimensão individual- liberal (primeira dimensão), na dimensão social (segunda dimensão), na dimensão de solidariedade (terceira dimensão) e na dimensão democrática (quarta dimensão).
A propósito, a lição de Flávia Piovesan:
[...] adota-se o entendimento de que uma geração de direitos não substitui a outra, mas com ela interage. Isto é, afasta-se a idéia da sucessão "geracional" de direitos, na medida em que acolhe a idéia da expansão, cumulação e fortalecimento dos direitos humanos consagrados, todos essencialmente complementares e em constante dinâmica de interação. Logo, apresentando os direitos humanos uma unidade indivisível, revela-se esvaziado o direito à liberdade, quando não assegurado o direito à igualdade e, por sua vez, esvaziado revela-se o direito à igualdade, quando não assegurada a liberdade. 237
Hoje, nas constituições sociais, é extraído dos direitos de primeira dimensão (tradicionalmente concebidos como direitos de índole negativa) um viés positivo que impõe ao Poder Público não apenas o dever de abstenção, mas,
235 BUCCHIANERI PINHEIRO, Maria Cláudia. A Constituição de Weimar e os direitos fundamentais
sociais: a preponderância da Constituição da República Alemã de 1919 na inauguração do constitucionalismo social, à luz da Constituição mexicana de 1917. Disponível em: http://jus2.uol.com.br/doutrina/asp?id=9014 Acesso em: 27 de jan. 2000.
236 ALPA, Guido. Il principi nella prospettiva constituzionale.2ª ed. Milão: Giuffrè, 2006, p. 393. 237 PIOVESAN, Flavia. Temas de direitos humanos. 1ª ed., São Paulo: Max Limonad, 1998.
também, uma obrigação de fazer. À guisa de exemplo, pode-se dizer que do direito à vida (direito de primeira dimensão) deriva, hoje, interpretando-se o direito à vida, o direito a uma existência digna, o direito à saúde, à assistência social e ao lazer (direitos de segunda dimensão) e, também, o direito a um meio ambiente ecologicamente equilibrado (terceira dimensão), o direito de viver em uma sociedade plural e democrática (quarta dimensão)..
Em última análise, repita-se, os direitos humanos fundamentais se inter- relacionam, se complementam, independentemente do momento histórico-social em que são reconhecidos e assegurados e, por isso, pode-se afirmar que o princípio (direito/dever) da solidariedade é um supremo direito da humanidade. Mas não é só. O princípio da solidariedade se dá tanto em nível interpessoal como coletivo.
5. O PRINCÍPIO DA SOLIDARIEDADE NO DIREITO CONSTITUCIONAL