2 REDUCIONISMO E VISÃO INTEGRAL NA HISTÓRIA DO MUNDO
3.2 O PARADIGMA DA COMPLEXIDADE: A MULTIDIMENSIONALIDADE DO
3.2.1 O simples e o complexo
O problema da complexidade engloba uma gama de paradigmas14, respectivamente representados por antinomias. Essas antinomias assumem função didática, em que alguns conceitos implicam outros, num movimento de antagonismo, porém, necessário para a compreensão do sistema complexo. Entre as antinomias muito presentes neste sistema, podemos considerar: simples e complexo, ordem e desordem, organização e desorganização, ação e retroação, uno e múltiplo, regeneração e degeneração, etc.
Simples e complexo correspondem a uma das antinomias sobre as quais se focam
alguns questionamentos: o que chamamos de simples? O que chamamos de complexo? Há um
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O conceito clássico de Paradigma está pautado na definição de Thomas Kuhn, na obra “A estrutura das
revoluções científicas” (1998), e de Edgar Morin, nas obras “O problema epistemológico da complexidade” (1996) e “Introdução ao pensamento complexo (2003). Em primeiro lugar, assim se expressa Thomas Kuhn:
“Considero „paradigmas‟ as realizações científicas universalmente reconhecidas que, durante algum tempo, fornecem problemas e soluções modelares para uma comunidade de praticantes de uma ciência (p. 13) Para ser aceita como paradigma, uma teoria deve parecer melhor que suas competidoras, mas não precisa (e de fato isso nunca acontece) explicar todos os fatos com os quais pode ser confrontada (p. 38) Um paradigma é aquilo que os membros de uma comunidade partilham e, inversamente, uma comunidade científica consiste em homens que partilham um paradigma (...) As comunidade podem e devem ser isoladas sem recurso prévio aos paradigmas; em seguida esses podem ser descobertos através do escrutínio do comportamento dos membros de uma comunidade dada” (p.219-220). Edgar Morin, por sua vez, assim se expressa: “(...) Dou uma definição diferente da de Kuhn, que me parece hesitante e incerta. Dei uma definição que aparentemente se situa entre a definição da linguística estrutural e a definição vulgática, à Kuhn: um paradigma é um tipo de relação (inclusão, conjunção, disjunção, rejeição) entre um certo número de noções ou categorias mestras. Este tipo de relação, de facto, são relações lógicas, mas um paradigma privilegia alguma delas em detrimento de outras e é por isso que um paradigma controla a lógica do discurso. O paradigma é uma forma de controlar ao mesmo tempo o lógico e o semântico” (1996, p.109-110). E acrescente em outra oportunidade definidora: “A palavra paradigma é empregada frequentemente. Na nossa concepção, um paradigma é constituído por um certo tipo de relação lógica extremamente forte entre noções mestras, noções chave princípios chave. Esta relação e estes princípios vão comandar todos os propósitos que obedecem inconscientemente ao seu império” (2003, p. 85).
ponto tênue que garante a existência dos dois em forma de independência, ou se trata de uma antinomia potencial, capaz de gerar a complementaridade à luz do antagonismo? Trata-se de uma antinomia da razão científica ou de um caminho necessário para se compreender a racionalidade complexa? Como pensar o simples sem o complexo, e como pensar o complexo sem o simples? Será essa antinomia apenas um estereótipo linguístico?
Se pensarmos o simples e o complexo na sua forma usual, são respectivamente assim definidos:
Simples é o que não é composto, múltiplo ou desdobrado em partes; que é feito de um elemento básico, que não se compõe de partes ou substâncias diferentes (HOUAISS, p. 2574).
Complexo, tomado como um todo mais ou menos coerente, cujos componentes funcionam entre si em numerosas relações de interdependência ou de subordinação, de apreensão muitas vezes difícil pelo intelecto e que geralmente apresentam diversos aspectos (Ibid., p. 776).
O simples assume uma conjectura de tudo aquilo que não é composto. Refere-se àquilo que é gerado sem muita complicação e que substancialmente está ligado à clarividência e à facilidade de manipulação. O conhecimento científico acaba por representar o simples como paradigma da particularidade em que a objetividade dos enunciados está ligada diretamente às verificações empíricas que, por sua vez, se acham no direito de justificar a coerência lógica dos axiomas que se fundam nos dados objetivos.
O simples não pode ser fundamentado no simplismo. Se assim o faz acaba por tornar simplificadora, mutiladora e reducionista a experiência dos diferentes fenômenos, seja no campo do conhecimento seja no campo da convivência humana. O simples, reclama para si a postura de paradigma, de tal forma que não se pode falar de uma teoria do simples, mas de um paradigma da simplicidade. Trata-se de um paradigma que supera a dicotomia reducionista da desordem e propõe a ordem no universo: “A simplicidade vê que o Uno pode ser ao mesmo tempo Múltiplo. O princípio da simplicidade quer separar o que está ligado (disjunção), quer unificar o que está disperso (redução)” (MORIN, 2003d, p. 86). As diferentes experiências do universo se rebelam contra o projeto simplificador da ciência. A particularidade das experiências não se sustenta sozinha. As diferentes dimensões de um mesmo fenômeno do universo revelam a simplicidade não apenas como decantação empírica e experimental, mas como irrupção do desordenamento que gera ordem.
Mais do que uma estruturação linguística, o paradigma da simplicidade lança à compreensão do paradigma da complexidade. Um sem o outro inexiste. Assim como a simplicidade opõe-se ao simplismo da particularidade, a complexidade opõe-se à totalidade da
completude. “O pensamento complexo integra os modos de pensar, opondo-se aos mecanismos reducionistas (...) Enfatiza o problema, não a solução” (PETRAGLIA, 2001b, p. 23). A complexidade evoca o paradoxo do uno e do múltiplo, a convivência com a ambivalência. O que antes se afirmava como imperativo de busca e resolução objetiva, devido aos seus aspectos ambivalentes e turvos, agora é assumido como elemento necessário para se atingir a profundidade. Não há univocidade na tradução da realidade tal como ela é. A equivocidade das diferenças torna-se complexa justamente por não serem expressão da completude, mas da problematização ao invés da simplificação.
Na visão clássica, quando aparece uma contradição num raciocínio, é um sinal de erro (...) Ora, na visão complexa, quando se chega por vias empírico- racionais às contradições, isto significa não um erro, mas o atingir de uma camada profunda da realidade que, justamente porque é profunda, não pode ser traduzida para a nossa lógica. Por isso, a complexidade é diferente da completude (MORIN, 2003d, p. 99).
A complexidade, ao contrário da visão simplificadora, acredita que não é possível isolar os objetos uns dos outros. Tudo é solidário. Complexidade e solidariedade caminham juntas pela via da multidimensionalidade, que liga e religa as diferentes dimensões dos objetos e que, por assim se apresentar, acaba sendo confundida com a completude, como diz Morin: “A aspiração à complexidade traz nela a aspiração à completude (...) Mas, num outro sentido, a consciência da complexidade faz-nos compreender que não poderemos nunca escapar à incerteza e que não poderemos nunca ter um saber total. «A totalidade é a não verdade»” (2003d, p. 100).
Nesse sentido, a complexidade apresentada é vista como uma filosofia da ciência e da vida (PETRAGLIA, 2001b, p. 21). O próprio Edgar Morin apresenta a complexidade numa perspectiva plural, tratando-se mais de um paradigma epistemológico para a vida do que propriamente um caminho estanque a ser seguido. Trata-se de um caminho que inclui
„complexidades‟, ao invés de uma „complexidade‟ específica. Para tanto, é importante tratar a
complexidade mais como um caminho a ser trilhado, apresentando-se na sua forma diversificada de aprimoramento que, à medida que se desenvolve, também se recria.
A complexidade para Morin (2005), portanto, compreende algumas „avenidas‟ que se abrem e dão corpo à ideia de que a complexidade é um desafio a ser enfrentado, enquanto ponto de partida e ponto de chegada. Para isto, é necessário trilhar um itinerário próprio que se configura como busca. Esse itinerário é apresentado na obra “Ciência com consciência” a partir de oito considerações necessárias e que são de suma importância para a compreensão do paradigma da complexidade.
Estudar a complexidade é entender o desenvolvimento dessas oito avenidas, assim chamadas por Edgar Morin (2005, p. 177-185). A primeira avenida é o caminho da irredutibilidade do acaso e da ordem; a segunda avenida, é a avenida da transgressão, nas ciências naturais, dos limites do universalismo abstrato que elimina a singularidade, a localidade e a temporalidade; a terceira avenida é a da complicação, que considera um número incalculável de interações e inter-retroações; a quarta avenida foi aberta pela percepção da relação misteriosa entre as noções de ordem, de desordem e de organização (relações complementares e logicamente antagonistas); a quinta avenida da complexidade é a da organização que inclui um sistema a partir de elementos diferentes; a sexta avenida tem como ponto de partida o princípio hologramático, que vê o todo nas partes e as partes no todo, e o princípio da organização recursiva, cujos efeitos e produtos são necessários a sua própria causação e a sua produção; a sétima avenida se refere à crise dos conceitos fechados e claros, isto é, a crise da clareza e da separação nas explicações; a oitava avenida, por fim, é a volta do observador na sua observação.
Vê-se, portanto, que as avenidas da complexidade abarcam os diferentes elementos do universo em que o microcosmo e o macrocosmo se completam e inter-retroagem. Trata-se de um processo epistemológico sustentado nas vivências dos seres vivos que habitam o cosmos. Neste sentido, é importante o estudo desse processo sabendo que o ponto inicial incide no ponto final que, por sua vez, está imbricado numa complexidade que se afirma na interligação de todas as vias, evocando, sobretudo, a compreensão do seu processo de ordem, desordem e organização, muito presente no contexto compreensivo da complexidade.