3.4 Os observat´orios portugueses: 1860–1869
3.4.1 Observat´orio Astron´omico da Universidade
No relat´orio da sua viagem Sousa Pinto descreveu os observat´orios de Madrid, Paris, Bruxe- las e Greenwich n˜ao referindo nenhum dos observat´orios privados ou universit´arios existentes na altura, por exemplo, no Reino Unido. Esta op¸c˜ao de Sousa Pinto, ´e pensamos n´os, in- dicativa da sua opini˜ao sobre qual deveria ser o papel futuro do Observat´orio Astron´omico de Coimbra no panorama nacional. A tabela 3.15 compara o n´umero e categoria do pessoal cient´ıfico de alguns dos observat´orios universit´arios britˆanicos com o seu cong´enere de Coim- bra.223 Verifica-se que o quadro de pessoal do Observat´orio de Coimbra ´e significativamente maior do que o dos outros estabelecimentos. Esta incongruˆencia justifica-se pelo facto da institui¸c˜ao coimbr˜a ter a seu cargo a publica¸c˜ao das efem´erides, um trabalho exigente como se pode deduzir analisando o n´umero de colaboradores do Connaissance des Temps ou do
222
Pinto, Rodrigo Ribeiro de Sousa: Relatorio sobre a visita dos observatorios de Madrid, Paris, Bruxellas e Greenwich. Coimbra: Imprensa da Universidade. 1861c.
223
Andre, C. L. F. e Rayet, G. A. P.: L’astronomie pratique et les observatoires en Europe et en Amerique: Angleterre. Paris, Gauthier Villars. 1874.
Radclife Trinity Coimbra Categoria Oxford Cambridge Durham Oficial 1860
Director 1 (p) 1 (p) 1 1
Astr´onomo/Observador 1 1 3 3
Assistentes 2 2 4 2
Calculadores 2 (*) 1 Ext
Total 4 5 2 8 6
Tabela 3.15: Quadro do pessoal de alguns observat´orios universit´arios. A letra p indica que a posi¸c˜ao ´e ocupada por um professor. A sigla Ext que o calculador ´e extraordin´ario. O asterisco, *, indica que os calculadores foram contratados em 1860
Nautical Almanac (tabela 3.13). O Observat´orio de Coimbra encontrava-se, assim, a meio
termo entre um observat´orio universit´ario, ao qual equivalia em termos instrumentais, e as responsabilidades de uma institui¸c˜ao muito maior de ˆambito nacional.
O relat´orio apresentado por Sousa Pinto n˜ao teve qualquer impacto imediato na altera¸c˜ao do quadro de pessoal, instrumentos ou organiza¸c˜ao do Observat´orio Astron´omico da Uni- versidade. A viagem ao estrangeiro permitiu, no entanto, ao observat´orio adquirir alguma bibliografia (tabela 3.16), e a Sousa Pinto contactar, pessoalmente, com colegas estrangeiros
Observat´orio Documentos
Madrid “doze bons desenhos [...] pelos quaes se p´ode fazer uma ideia exacta do edificio e perten¸cas do Observatorio, e dos instrumentos
astronomicos, que nelle actualmente ha”
Memorias da Academia Real das Sciencias de Madrid, Actas e Revista Mensal
Bruxelas Plantas e vistas do edif´ıcio contendo a descri¸c˜ao dos instrumentos Greenwich 12 volumes das observa¸c˜oes de Greenwich e a promessa de serem
enviados os que faltam para completar a colec¸c˜ao
27 folhas de tipos para lan¸car as observa¸c˜oes feitas com diversos instrumentos
Regulamento do Observat´orio
Tabela 3.16: Ofertas para o Observat´orio Astron´omico da Universidade de Coimbra obtidas em con- sequˆencia da viagem de Sousa Pinto
e examinar in loco algumas melhorias instrumentais e/ou instrumentos sobre os quais possu´ıa apenas um conhecimento livresco. De facto, pensamos que as modestas melhorias instrumen- tais sofridas pelo observat´orio de Coimbra nos anos seguintes s˜ao consequˆencia desta viagem. O artista do observat´orio, Jos´e Francisco Miranda, construiu um aparelho de invers˜ao para o c´ırculo meridiano de Troughton & Simms semelhante ao de Madrid. E, em 1869, adquiriu-se um instrumento de passagens de Repsold, de novo semelhante ao de Madrid, com vista a ser utilizado como instrumento de passagens no primeiro vertical.
A n´ıvel cient´ıfico o ano de 1860 foi pouco afortunado para se efectuar uma viagem ci- ent´ıfica ao estrangeiro. O artigo de Kirchhoff sobre a an´alise espectral que marca o in´ıcio da astrof´ısica tinha sido publicado em 1859 e, por isso, todos os observat´orios astron´omicos visitados dedicavam-se ainda aos estudos astrom´etricos. Os observat´orios tradicionais foram,
ali´as, lentos a adoptar, se o chegaram mesmo a fazer, este novo ramo de estudos.224
Durante a discuss˜ao do or¸camento nacional para o ano de 1860-61 o deputado Luiz Al- bano, professor da Faculdade de Matem´atica, propˆos um aumento de 400$000 R´eis na dota¸c˜ao do Observat´orio Astron´omico “para a reforma das ephemerides astronomicas, e mais expedi- ente”. A proposta foi contudo recusada.225
Em 1861, foi publicado na revista O Instituto um pequeno artigo intitulado “Progresso da Astronomia na America”. A primeira parte do artigo, traduzida da revista Cosmos, referia os maiores telesc´opios equatoriais e c´ırculos meridianos existentes nos Estados Unidos da Am´erica. Na segunda parte o autor an´onimo aproveita para lan¸car uma farpa `as autoridades competentes,
Ora comparem o que aho vae de riqueza e de progresso pelo novo mundo, com o atrazo d’algumas velhas na¸c˜oes da Europa, que, apesar de terem dentro de casa, ou logo ´a porta, os melhores elementos para se desinvolverem, cruzam os bra¸cos e dormem descuidosas sˆobre os louros j´a murchos de antigas glorias. A objectiva do melhor oculo do observatorio de Coimbra (o equatorial construido por Troghton e Simms) ten de abertura 0m,135 (5,3 poll. ingl.). Entrou no observatorio em 9 de abril de 1854; e ´e o unico de tal abertura.226
Ao longo da d´ecada o observat´orio adquiriu pequenos instrumentos, tais como, cron´ome- tros, um colimador, e o material telegr´afico necess´ario para a realiza¸c˜ao das determina¸c˜oes da diferen¸ca de longitude entre os observat´orios de Coimbra e da Marinha de Lisboa que, contudo, n˜ao alteraram significativamente as condi¸c˜oes materiais do observat´orio. Conse- quentemente, os dois maiores esfor¸cos cient´ıficos do observat´orio corresponderam a projectos de continuidade: terminar a determina¸c˜ao das coordenadas geogr´aficas, iniciada no fim dos anos 50 (sec¸c˜ao 3.5) e melhorar a publica¸c˜ao das efem´erides astron´omicas (sec¸c˜ao 5.1). Para al´em disso, existem registos de observa¸c˜oes pontuais de alguns eventos celestes, como o grande cometa de 1861,227 o cometa de Swift-Tuttle,228 e o eclipse solar anular de 6 de Mar¸co de 1867, observado como parcial em Coimbra. Dos dados obtidos, Sousa Pinto determinou os parˆametros orbitais dos cometas e confirmou os valores obtidos para as diferen¸cas de lon- gitude entre Coimbra e Greenwich, Coimbra e Lisboa, bem como a necessidade de aplicar pequenas correc¸c˜oes aos valores tabelados dos semi-diˆametros do Sol e da Lua.229 Em 1869 foi encomendado a Repsold um novo instrumento de passagens que foi instalado no observat´orio em Agosto de 1870, tendo-se a partir dessa data procedido ao seu estudo.230
3.4.2 Observat´orio da Marinha de Lisboa
No in´ıcio dos anos 60 instalaram-se os mais importantes instrumentos adquiridos por in- fluˆencia do director do observat´orio, Filippe Folque. Em 1862 instalou-se o telesc´opio pa- ral´actico de Repsold, com 0,165 m de abertura e 2,61 m de distˆancia focal 2,61m. Por fim, em Dezembro de 1863, instalou-se o c´ırculo meridiano de Repsold com 0,10 m de abertura
224
Maunder, E. Walter: The Royal Greenwich Observatory a glance at its history and work . http://atschool.eduweb.co.uk/bookman/library/ROG/INDEX.HTM. 2000, Cap´ıtulo 11.
225
Portugal. Cˆamara dos Deputados: Sess˜ao de 20 de Julho de 1860. Di´ario da Cˆamara dos Deputados [1860].
226
An´onimo: Progresso da Astronomia na America. O Instituto, Jornal Scientifico e Litterario, 10 1861.
227
Cometa C/1861 J1 ou cometa de Tebbutt.
228
Cometa 109P/1862 O1.
229
Pinto, Rodrigo Ribeiro de Sousa: Observa¸c˜ao do cometa. O Instituto, Jornal Scientifico e Litterario, 10 1861a; Pinto, Rodrigo Ribeiro de Sousa: Observa¸c˜ao do cometa. O Instituto, Jornal Scientifico e Litterario, 10 1862; Pinto, Rodrigo Ribeiro de Sousa: Sess˜ao de 22 de Mar¸co de 1867. Di´ario da Cˆamara dos Pares, [1867e].
230
Pinto, Rodrigo Ribeiro de Sousa: Uso do instrumento de passagens. Imprensa da Universidade de Coimbra. 1870d.
e 1,36 m distˆancia focal.231 Ambos eram bons instrumentos mas de classe mediana e de di-
mens˜oes compar´aveis aos de Coimbra, como vimos anteriormente (tabelas 2.13 e 2.14, p´agina 59). N˜ao ser´a, por isso, surpreendente que as observa¸c˜oes efectuadas nos dois observat´orios tenham sido similares: determina¸c˜ao das coordenadas geogr´aficas e observa¸c˜ao de alguns eventos astron´omicos como, por exemplo, o eclipse solar anular de 6 de Mar¸co, observado como parcial em Lisboa.232 O pr´oprio Folque reconhecia, no seu relat´orio de 28 de Mar¸co de 1866, que os
trabalhos do Observatorio ´e preciso dizel-o com toda a franqueza, tem sido na maior parte estudos praticos astronomicos; nem outra couza se devia esperar nos primeiros annos depois da conclus˜ao das obras e arranjos e da reforma deste estabelecimento.233
No fim desse ano, no entanto, o capit˜ao de corveta Francisco Mesquita234 aproveitou a oposi¸c˜ao de Marte e a disponibilidade do novo circulo meridiano para tentar determinar a paralaxe do planeta, ou seja, o valor da unidade astron´omica. Em 26 noites de observa¸c˜ao, distribu´ıdas entre 7 de Dezembro de 1866 e 12 de Mar¸co de 1867, Mesquita mediu o instante em que o centro de Marte transitava o meridiano do lugar. Os valores obtidos foram publica- dos na revista Astronomische Nachritchen.235 N˜ao encontramos, no entanto, registo de que estes tenham sido utilizados na determina¸c˜ao da paralaxe de Marte. Um resultado inespe- rado do artigo foi a inclus˜ao do Observat´orio da Marinha de Lisboa na lista dos observat´orios publicada anualmente no Nautical Almanac.
Dois anos mais tarde, o c´ırculo meridiano teve de ser desmontado e encaixotado por motivos de seguran¸ca. Um terramoto, ocorrido em Novembro de 1858, danificou parte do edif´ıcio do observat´orio. Os danos estruturais foram aumentando com o passar dos anos e, em 1869, o estado degradado do edif´ıcio precisava de ser estudado para se efectuarem obras de recupera¸c˜ao. Contudo, no ano anterior o governo tinha considerado as vantagens econ´omicas de diminuir o quadro de pessoal e a actividade cient´ıfica a ser desenvolvida pelo Observat´orio da Marinha, tendo em conta a breve conclus˜ao do novo Observat´orio da Tapada da Ajuda. Apesar do parecer contr´ario de Folque, o processo arrastou-se ao longo de v´arios anos vindo o observat´orio a ser, finalmente, extinto pela Carta de Lei de 15 de Abril de 1874.236
3.5
Determina¸c˜ao das coordenadas geogr´aficas
Os Observat´orios da Universidade de Coimbra e da Marinha, em Lisboa, completaram, du- rante os anos 60, a determina¸c˜ao das suas coordenadas geogr´aficas que tinham iniciado, em 1856 e 1858, respectivamente.
3.5.1 Latitude
Como j´a vimos, a latitude do Observat´orio da Marinha, obtida atrav´es de observa¸c˜oes da estrela polar realizadas entre Janeiro de 1859 e Junho de 1860, foi publicada em 1866 (ver 2.6.1).237 A an´alise das passagens meridianas de estrelas medidas no Observat´orio da Uni- versidade, entre Maio de 1856 e o fim de 1859, tinha permitido obter, em 1860, a latitude
231
Folque, Fillipe: Relat´orio. Di´ario de Lisboa, 1866, Nr. 195.
232
Folque, Fillipe: Observatoire astronomique de la Marine `a Lisbonne. Observations de la Plan`ete Mars, communiqu´ees par M. F. Folque, Directeur de l’Observatoire. Astronomische Nachrichten, 69 1867.
233
Folque, Fillipe: Relat´orio. Di´ario de Lisboa, 1866, Nr. 195.
234
Francisco de Paula Ferreira de Mesquita (1821–1892).
235
Folque, Fillipe: Observatoire astronomique de la Marine `a Lisbonne. Observations de la Plan`ete Mars, communiqu´ees par M. F. Folque, Directeur de l’Observatoire. Astronomische Nachrichten, 69 1867.
236
Reis, Ant´onio Luciano Est´acio dos: Observat´orio Real da Marinha. CTT Correios de Portugal. 2009.
237
do mesmo.238 Com o objectivo de se verificar este ´ultimo resultado iniciou-se, em Fevereiro
de 1865, um novo conjunto de observa¸c˜oes que se prolongou at´e Junho de 1867, ao longo de 76 noites. O valor obtido pela an´alise desta s´erie apareceu, em 1867, na publica¸c˜ao de Sousa Pinto, intitulada Posi¸c˜ao Geographica do Observatorio Astronomico da Universidade de Coimbra,239
ϕ= 40◦ 12′ 25, 72′′±0, 12′′
A n˜ao discrimina¸c˜ao das estrelas utilizadas e dos detalhes das observa¸c˜oes impossibilitam, na ausˆencia dos livros de registos originais, qualquer compara¸c˜ao entre este novo valor e o obtido anteriormente. Segundo Sousa Pinto a m´edia ponderada de todos os valores obtidos entre 1856 e 1867 ´e igual a
ϕ= 40◦ 12′ 25, 794′′±0, 058′′
A tabela 3.17 resume as v´arias determina¸c˜oes da latitude, publicadas ao longo dos primeiros 70 anos de vida do Observat´orio da Universidade de Coimbra, acompanhadas pela diferen¸ca entre os v´arios valores e a primeira determina¸c˜ao obtida por Monteiro da Rocha, em 1798.
Data ϕ(′′) Erro m´edio (′′) Dif. (′′) Referˆencia
1798 29,6 Ephemerides de Coimbra para o ano de 1804
1857 26,2 0,8 −3,4 Ephemerides de Coimbra para o ano de 1858
1860 25,82 0,13 −3,8 Instituto, vol. 9, 1860
1867 25,794 0,058 −3,81 Posi¸c˜ao Geographica do Obs. Astronomico
Tabela 3.17: Latitude, 40o
12′+ ϕ′′, determinada para o observat´orio do p´atio das escolas da Uni-
versidade de Coimbra em diferentes datas segundo as referˆencias citadas. A coluna intitulada Dif. corresponde `a diferen¸ca entre as latitudes obtidas e o valor de 1798