• Nenhum resultado encontrado

3.5 – Os significantes formais e sua interpretação

No documento ELEMENTOS PARA UMA CLÍNICA DO CONTINENTE (páginas 78-84)

Segundo Green (s. d.), todo o desenvolvimento teórico de Anzieu foi elaborado a partir da clínica, e retorna a esta; ele era um clínico de seu tempo (Green, 2007/2008), tocado pela “mudança na natureza do sofrimento dos pacientes”,

Na verdade, estes doentes sofrem de uma falta de limites: incertezas entre as fronteiras entre o Eu psíquico e o Eu corporal, entre o Eu realidade e o eu ideal, entre o que depende do Self e o que depende do outro, bruscas flutuações destas fronteiras, confusão, acompanhadas de quedas da depressão indiferenciação das zonas erógenas, confusão das experiências agradáveis e dolorosas , não distinção funcional que faz sentir a emergência de uma pulsão como violência e não como desejo, [...] vulnerabilidade à ferida narcísica,... (Anzieu, 1985/2000: 22)

Anzieu apresenta um amplo quadro de doentes das fronteiras, de situações clínicas que implicam sofrimento das fronteiras; fronteira como limite, fronteira como aspecto de uma estrutura continente, e que nascem, saudáveis, nas relações de intersubjetividade primária, continentes. Essas dores, ao mesmo tempo localizadas e difusas, uma vez que atingem o ambiente narcísico, sede do sentimento de existência, nos dizem respeito como Clínica do Continente.

Para acolher esses sofrimentos que se fazem vivos nos encontros clínicos, e seguir os movimentos de seus pacientes na expressão das carências de suas deformações narcísicas, Anzieu sentiu necessidade de complementar o pensamento metapsicológico psicanalítico, elementos de sua teoria que viemos pondo em destaque. Resume Roussillon (2007/2008), que suas contribuições, sobretudo clínicas, desenvolveram o pensamento psicanalítico em torno das “problemáticas narcísico-identitárias” (Roussillon) e da capacidade de síntese do Eu. Sua preocupação expressa a respeito da questão dos limites amplia sua abrangência além dos processos de diferenciação Eu/não Eu para incluir os limites intrapsíquicos, não só entre as instâncias, mas também interior ao próprio Eu, entre seus envoltórios. Questões caras a qualquer clínica que se atente aos continentes psíquicos.

No texto “A Medicina como Modelo”, Bion (1970) diz:

O tema do pré-verbal que o psicanalista investiga sem dúvida elucida a dificuldade de comunicação que experimenta. Sua aptidão para o uso de pontos, linhas e espaço importa na compreensão do ‘espaço emocional’, no continuar o trabalho e evitar a condição de duas personalidades desarticuladas incapazes de libertar-se dos grilhões do mutismo. (Bion,1970/1991: 25).

É essa mesma sensibilização que encontramos em Anzieu. Quando ele, hipoteticamente, se pergunta como a função continente é exercida, seu pensamento se faz figurativo na busca das marcas deixadas pelos processos constitutivos e de um afinamento da escuta analítica às transformações do espaço psíquico. Para ele, frente ao material clínico, o psicanalista deve

considerar três coisas: o discurso, o afeto e as sensações primitivas, e as formas elementares do espaço psíquico. Dizendo de outro modo, o representante-coisa, o representante-palavra, estes, já distinguidos por Freud, mas também o “representante de forma” (Golse, 2007/2008). Nesse contexto é que nasce o conceito de significante formal como mais um dos elementos de seu pensamento criativo.

A atenção aos “significantes arcaicos” (Golse, 2007/2008) como protorrepresentação de experiências extremamente primitivas, de origem, mobiliza vários autores na psicanálise (e Golse apresenta uma lista de nove). Por perspectivas mais ou menos diferentes, esses autores, em seus conceitos, buscam formular a expressão mais genuína e arcaica que o psiquismo faz de si mesmo. Ainda segundo Golse, Piera Aulagnier teria insistido que desde o início o psiquismo tem por tarefa dar a si mesmo uma representação de seu próprio funcionamento (Golse, 2007/2008).

O significante formal, de acordo com Anzieu “se inscreve nesse contexto de uma exigência fantasmática originária” (Anzieu, 1987/2003: 32) e constitui uma primeira etapa da simbolização dos pictogramas (Anzieu, 1987/2003). Ou seja, os significantes formais não possuem apenas valor clínico; eles são constitutivos do espaço psíquico, isto é, dão forma, constituem e representam o espaço psíquico: “Os significantes formais se relacionam a modificações do espaço e possuem um papel fundamental na constituição dos envoltórios psíquicos.” (Anzieu citado por Golse, 2007/2008: 111).

Concepção semelhante encontramos sob a noção de forma-sensação elaborada por Tustin para se referir a uma primeira experiência de organização como rudimentos de uma plástica pessoal.

Diferente da representação-coisa e da representação-palavra, o significante formal tem, como essencial, a dimensão espacial. O espaço será o continente de todas as coisas, mas no estado de origem, o espaço é indissociável dos objetos que o ocupam. Poder representar, por exemplo, a ausência do objeto, implica poder representar o espaço vazio; o objeto se afasta e o espaço permanece em sua estrutura continente. A indiscriminação entre objeto e o lugar ocupado por ele no espaço, pode ser causa de uma das angústias mais arcaicas, exemplifica Anzieu: “... a angústia de ver o objeto que

se mexe arrancar o lugar do espaço no qual ele se encontra, carregá-lo com ele, atravessar outros objetos aos quais ele se bate destruindo seu lugar.” (Anzieu, 1987/2003: 25)

Nesse sentido, “buraco negro”, expressão de um dos pequenos autistas tratados por Frances Tustin para se referir ao vazio de espaço experimentado quando do afastamento de seu objeto primário, é um significante formal.

Os significantes formais são principalmente representações do continente psíquico, de seus esquemas e transformações. Não são figuras que se destacam sobre um fundo; são representantes psíquicos das formas de organização do Eu.

Os significantes formais são ilimitados em sua variedade, mas restritos no que diz respeito a determina pessoa e, propõe Anzieu, quando se fazem presentes na cena clínica, devem constituir objeto de investigação, uma vez que muito representam da constituição narcísica.

Acompanharemos, por exemplo, a partir de recortes que apresentaremos do processo terapêutico da paciente Eurídice (Capítulo IV), a transformação de seus significantes formais: torrentes de água, enchente, casas que desabam e esmagam, significantes formais frequentes em sonhos no início de seu tratamento, com os quais expressava seu sentimento de existência e a extrema precariedade de seu continente psíquico: matéria e espaço indissociados. Eurídice não se sentia como em uma torrente d’água; ela era a torrente, ela era a casa que desabava. Posteriormente, ela vai sonhar com casas onde pode se abrigar, embora com portas caídas, madeiras presas à porta para fechar os buracos. Estes representam uma estrutura continente mais bem constituída, embora ainda deformada e frágil.

Anzieu diferencia os significantes formais das fantasias:

O cenário fantasmático é construído sobre o modelo da frase, que ele coloca em imagens essencialmente visuais, logo – no sentido freudiano do termo – ele é posterior à aquisição da linguagem, pois consiste de um sujeito, um verbo e um complemento de objeto... Geralmente a isso se junta um espectador da ação que representa o sujeito da enunciação enquanto distinto do sujeito do enunciado. (Anzieu citado por Golse, 2007/2008: 112)

Os significantes formais se limitam a um sintagma verbal, isto é, sujeito e verbo sem complemento; são geralmente constituídos de imagens proprioceptivas, táteis, cinestésicas, posturais, de equilíbrio, sensações que

não se referem aos órgãos do sentido à distância, como a visão e a audição. Geralmente não são cenas, no sentido teatral do termo; antes representam transformação de uma característica geométrica, ou física, de um corpo ou pedaço do espaço. Resume Kaës:

...se os significantes verbais são úteis para trabalhar em termos econômicos, os significantes formais são necessários para trabalhar em termos topográficos. E especialmente para poder descrever o Eu, seus níveis de organizações, e as falhas de suas funções. (Kaës, in Anzieu, 1980/2009: 391)

Anzieu, em seu artigo “Les signifiants formels et Le Moi-peau” (1987/2003), apresenta algumas classificações dos significantes formais e, nelas, o que nos chama atenção é a abstração com que ele é interpretado, isto é, esvaziado do conteúdo do objeto que lhe dá suporte; o que importa a Anzieu é a lógica formal, transformacional do espaço continente.

Entendo “forma” no primeiro sentido do termo: “um conjunto de contornos de um objeto, resultado da organização de suas partes”, isto é, configuração, figura. O adjetivo “formal” se relaciona à forma assim definida, por exemplo, no sentido da lógica formal que estuda as formas dos raciocínios sem considerar a matéria sobre a qual eles se efetuam. (Anzieu, 1987/2003: 20).

Por exemplo, se a paciente sonha com casa que esmaga, Anzieu talvez o interpretasse como volume que se achata; torrentes de água, como corpo líquido que escorre; outros exemplos: um eixo vertical se inverte, um corpo gasoso explode, um orifício abre e fecha, um objeto que se afasta me abandona (este, já esboçando uma passagem para os cenários fantasísticos que se apoiam sobre a linguagem) .

A interpretação dos significantes formais se integra no movimento interpretativo da clínica psicanalítica e, neste sentido, o objeto que lhe serve de suporte deve ser integrado. Mas o que nos parece relevante na proposição de Anzieu, é que nos remete à interpretação dos envoltórios psíquicos – à relação entre força e forma – e suas deformações e más-formações, à perspectiva predominantemente topológica; ao “uso de pontos, linhas e espaços”, a que se referiu Bion a propósito do acolhimento na clinica do “espaço emocional”. Por exemplo, em movimento reflexivo, ele se pergunta a respeito de uma paciente que traz em cena o significante formal de uma pele que encolhe: “... qual distorção do Eu se traduz por esta deformação subjetiva da pele?” (Anzieu, 1987/2003: 21).

Entende também que as distorções do enquadre clínico propiciado pelo paciente, são também reveladoras da organização dos envoltórios psíquicos. Ele segue Bleger que primeiro sugere, embora em outros termos, que o enquadre clínico é suporte para a transferência dos continentes psíquicos primariamente constituídos.

A concepção do Eu como estrutura continente já estava elaborada por Freud, embora sem consequências clínicas. Bion introduz o tema do continente no universo clínico da psicanálise, sob a perspectiva de uma continência ativa: uma continência psíquica mental, isto é, pela função transformadora do pensar. Anzieu inclui o corpo como estrutura para falar da estrutura continente; mas também o corpo como fundamento; em termos de origem, a continência psíquica corporalmente vivida. Ele se interessa pela constituição e sustentação narcísica e, sobretudo, pela pessoalidade da estrutura continente.

A nosso ver, esta é a grande intuição de Anzieu; talvez sua maior contribuição a uma clínica que se interesse pelas estruturas continentes. Questões que se colocam no aqui e agora da transferência e na “consideração do corpo do paciente e de sua representação do espaço analítico no interior do dispositivo analítico.” (Anzieu, 1985/2000: 27).

Anzieu, reiteradas vezes compartilha com o leitor sua motivação clínica: pacientes em processo de reanálise que apresentavam o “paradoxo” de estar cientes do que agia em profundidade (a pulsão) e inconscientes do que agia na superfície (o continente psíquico) (Anzieu, 1985/2000:231). A respeito de um de seus pacientes que já estava havia algum tempo em processo de análise, comenta:

Sua situação profissional melhorava. Seu relacionamento com uma francesa se consolidava. Eles tiveram um filho desejado (do qual só me falara quando nasceu). Mas estes eram efeitos mais terapêuticos que psicanalíticos... (Anzieu, 1985/2000: 226)

Para Anzieu, um processo psicanalítico precisa estar disponível para acolher os fenômenos de superfície.

No documento ELEMENTOS PARA UMA CLÍNICA DO CONTINENTE (páginas 78-84)