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Os temas

No documento Castigar a rir. Vol. I (páginas 52-58)

CAPÍTULO I. À DESCOBERTA DO OUTRO NO ALMOCREVE DE PETAS

I.4. Os temas

As festas e respetivos protagonistas – mulheres e homens mundanos,

«margalhudos apaixonados […] cujas cabeças são mais tabuletas de modas que estantes

de livros» (II, p. 3) – são temas favoritos do humor do periódico. Uma dessas festas,

tendo por cenário o bairro lisboeta da Mouraria, é pretexto para uma crónica exemplar

na utilização de diferentes recursos estilísticos, como a hipérbole, o contraste, a

metáfora, o disfemismo, a associação depreciativa, a litotes hiperbólica, a sinestesia, a

aliteração, a zoossemia e o provérbio

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, com o objetivo de enfatizar a ironia, o

sarcasmo e a sátira:

Moiraria 24 de Fevereiro. Hontem á noite hia aqui succedendo huma desgraça formidável; juntárão-se em huma casa varios ranchos de Senhoras, para fazerem as comadres, havião alguns Margalhudos apaixonados, destes que campão pelos cabedaes, e nao pela sciencia, cujas cabeças são mais tabuletas de modas, que estantes de livros, e tomarão á sua conta a despeza de toda a cêa; mandarão ao Pasteleiro fazer com arroz hum gordo peru, em quanto o Padre Lyeu os ajudava, e lhes apanhava os cavaquinhos, para fazerem filhozes: houverao empadas de pimentão, coscorões de estopa, e outras muitas peças, que a alegria Bacchanal lhes suggerio; chegárão-se as horas da cêa, e mandarão hum galucho, criado de hum Morgado do rancho, buscar a merendolla, eis que dous maganões sem casca (porque erao descascados) atracão o Galego, para lhe tirar o alguidar que levava o arroz, e o peru; e não obstante os gritos do mesmo Galego, elles mais espertos tiverão léo de lhe tirar o peru, e metter em seu lugar enterrado pelo arroz dentro hum gato morto, que acharão na rua: o Galego não via esta substituição, e mui lampeiro foi para casa poz-se a meza, veio sellada, azeitonas, vinhos, &c., e o esperado peru, para que todos tinhão a guella aparelhada; foi o Morgado, amo do Galego, o eleito trinchante que entrou a talhar as pernas do gato, que estava encoberto no arroz, e as Senhoras, que comião, pasmavao, dizendo, que inda não tinhão visto perus calçudos, foi o trinchante abrindo a praça no referido alguidar, e ao mesmo tempo, descubrindo o corpo do pasmoso gato, que por estar ainda fresco, não deixava de fazer apetite; porém Senhoras, que quasi todas são de má boca, humas cuspião fora, outras tapavão o nariz com os lenços, a isto se ouvirão os apaixonados, café para a Senhora D. Fulana, licor á Senhora D. Sicrana, fumaças a humas, ventosas a outras, foi tal o labyrintho, que a bulha dos vómitos, e a bulha que fízerão os que acudírão, transtornou a casa da Assembléa em enfermaria de doidos porque de ordinário nas afílicções faz mais bulha quem acode, que quem padece; os visinhos de baixo, não

128 ARAÚJO, Luiz – Novo Almocreve das Petas. Livro alegre e folgazão no gosto do antigo Almocreve

das Petas do célebre José Daniel Rodrigues da Costa. Lisboa: Joaquim José Bordalo, 1871 (2ª edição 1879).

129 PAIVA, Maria Helena Novais – Contribuição para uma Estilística da Ironia. Lisboa: Centro de

32 sabendo do estratagema, já se achavão roucos de gritar pelos chuços, porém os filhos da chuxa não quizerão sahir, por se não constiparem; e como em casa onde não ha pão, todos ralhão, ninguem tem razão, brigárão as comadres, descobrírão-se as verdades, e aqui temos nova bulha; porque hum dos meus Senhores da função, por tolo, cahio em descobrir ser elle hum dos que vendêrão gato por lebre, de que se seguio miarem-lhe todos, e ficar muito bem arranhado de pescoções; e he para acreditar, que não tornará a ser inventor de peças, porque gato escaldado, &c. (II, p. 3-4)130.

A moda nas suas mais diversas manifestações é um topos omnipresente nas

páginas do Almocreve. A crítica de José Daniel Rodrigues da Costa tanto incide sobre o

vestuário como sobre a linguagem, pondo a ridículo os novos costumes e sublinhando o

contraste com os usos antigos de uma «idade de ouro», obviamente idealizada, sem

relação factual com a realidade histórica. Um bom exemplo é este texto em que,

recorrendo à literalização da metáfora

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, à ironia e sobretudo à antropomorfização (da

língua portuguesa, do galicismo, do sal ático) satiriza a decadência do português

corrompido por barbarismos:

Lisboa 12 de Março. A Maior parte dos Sabios desta Capital lamentão quasi sem remedio a grande perdição a que chegou a Senhora D. Lingua Portugueza; esta nobre Senhora, que já não tem nada de menina, enviuvou de hum Cavalheiro chamado Sal Attico, desconhecido de muitos, e presado por poucos; esta boa Viuva por morte de seu Marido ficou totalmente desamparada, pois tudo quanto tinha de melhor, andava por mãos alheias, e tão pouco seguras, que a tudo lhe dérão fim; passado algum tempo, vários Cavalheiros modernos, que a tomarão á sua conta, concorrendo-lhe com tudo, vestirão-na toda de escuro, como pedia o seu miserável estado, fizerão- lhe hum vestido de Nigri mestos, e pelentifes crepes; dérão-lhe huns brincos de trimilumes espelhantes chapas; não lhe faltando fumos para ornatos na cabeça, cujos enfeites, ainda que fúnebres, a tem feito á primeira vista muito formosa, e Mr. Gallecismo tem com ella despendido grandes sommas; além deste beneficio, alguns Estrangeiros mais lhe tem consignado duzias, e duzias de palavras par a sua sustentação; caridade esta, que a vai arruinando de todo; porque mais não cuidará em resarcir o perdido, fiada no que lhe tem consignado; porém a pezar de tantos socorros, todos a estranhão pela melancolia em que se acha, quando inda há bem poucos annos se azia celebre, pelos seus bons ditos, graça, e descrição (V, p.1-2).

Associada à modernidade, a moda tem sempre uma conotação negativa e, por

isso, é ridicularizada: «Rua direita dos Paulistas 20 de Outubro. Tem chegado a

multidão das modas no presente seculo ao ponto de desordenar a maior parte das casas;

falta-se a tudo, que he de mais precisão, e não se falta á moda; aonde hirá isto dar

ninguem atina […]» (CXXVII, p. 1).

130A propósito deste episódio escreveu Bocage o soneto «Ao machucho poetarrão». Ver acima, p. 30,

nota 125.

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Um exemplo de como o Almocreve apresenta a moda masculina, numa noite de

S. Pedro, num dos locais mais concorridos de Lisboa:

Passeio Público 29 de Junho. …tres rapazolas, rodeados de sectarios da escóla moderna, a quem não tinha mordido a pulga, por ser esta huma das noites em que ninguem vai á cama, como o tem mostrado a experiencia em todos os seculos: elles estavão vestidos não só ao gosto estrangeiro, como ao desafogo de fóra da terra, chapéos redondos, e na frente, em lugar de fivela, que aperta a cópa, medalhas com os retratos das suas Cloris de cachimbo, por elles serem de sigarro; çapatinhos de ponta de passador, com seus laços de fitas de côres, argolas nas orelhas, signal para serem achados, no caso de se perderem (CXI, p. 2).

A moda «à francesa» é visada com frequência, tanto nas «petas», a zona

noticiosa do periódico, como nas secções do Almocreve, por exemplo nas glosas.

Glosa. Entre madrinha, e afilhada

Madrinha: Amesendada á janella,/ Toda engomada e brunida,/ De Tafula fazes vida? […]/ Haja ou não haja despeza,/ Trajas á moda Franceza;/ Andas louca por costume;/ Isto só faz, quem presume/ De que tem rara belleza.// Afilhada: Madrinha, ouvio, se está tonta,/ Não estou para a soffrer,/ Quero andar, como eu quizer,/ Que não he da sua conta:/ Anda comigo de ponta,/ Por eu á moda me pôr;/ Inda que seja uma flor,/ Qualquer menina d’agora,/ Se he Jarreta, e não namora,/ Fica perdendo o valor.//

Madrinha: Que feia tafularia,/ Cabellos desgadelhados!/ Traje, qual o de enforcados,/ E há quem se case hoje em dia!/ Já ser firme he grifaria!/ Vestir à séria he pobreza!//

Afilh: Madrinha, tenha a certeza,/ Que Amante a nenhuma falha,/ Se vestir bem á bandalha,/ Se for falta de firmeza (XXXI, p. 6-7).

De destacar a diferença de idades entre as participantes no diálogo (madrinha e

afilhada) e a classificação da jovem como «tafula», isto é, seguidora da moda. Do ponto

de vista da própria, o antónimo de tafula é «jarreta» – e a consequência de não andar à

moda é ser ostracizada: «não namora» e, em resultado disso, «fica perdendo o valor». A

madrinha antiquada bem pode acusar a afilhada de trazer os cabelos «desgadelhados» e

lamentar-se de que «vestir à séria é pobreza». A jovem remata com um argumento

irrespondível: «Amante a nenhuma falha, se vestir bem à bandalha».

O tema do amor faz algumas incursões no Almocreve. Numa delas, datada do

«Chafariz de Dentro, 1 de Junho», ao comentar a natureza daquele sentimento, José

Daniel não atribui autoria aos versos que cita, do padre, poeta e músico brasileiro

Domingos Caldas Barbosa, então figura grada da sociedade lisboeta. A propósito de um

taful que se apaixonara por uma peixeira, o redactor põe-se a filosofar sobre o amor,

acerca do qual «os maiores Doutores tem balbuceado no discernimento» e «tem-se-lhe

chamado muito nome». Sublinha os efeitos contraditórios do amor, tema tão em voga

«que até produziu uma modinha»: «Ninguem sabe, ninguem sabe/ Ninguem sabe o que

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he Amor»

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. À sua maneira peculiar, José Daniel remata a questão com uma lição de

moral sustentada na vox populi

:

Porém o que nós todos sabemos he, que por Amor, o rico se faz pobre, o pobre se faz rico: graças aos velhos forretas, que passão mal, e enthesourão para o genro depois andar de cavallo; o certo he, que quem diz Amor, diz Loucura, porque ha pedaço de affecto, que he mesmo huma dor de alma, ver aonde se dirige, a que muitos respondem o adagio vulgar, que quem o feio ama, bonito lhe parece (LIX, p. 1).

O Almocreve gosta de estatísticas, que apresenta sob a forma de listas

(«cálculos»), com intuitos pedagógicos e também satíricos. O «Cálculo da despeza de

um Taful» aponta os gastos de um figurão «que não tendo três réis de seu», para

cumprir os ditames da moda e os protocolos sociais a ela associados, empresta, dá

esmola, repara estragos, paga almoços, ceias, café, licor e rapé, além de sustentar criado

e contratar fretes com galegos. Pelas contas do autor, a diária não ficava abaixo de 6.580

réis.

Por piedade omittimos, ou mettemos no escuro a Sege de aluguer, a Tarde dos Touros, a Platea na Opera, a perda do Jogo, a despeza em huma Feira com Madamas, e quando Deos quer como debaixo dos pés se levantão os… tanto de Sala livre, tanto de Carceragem, Mandarins , etc. que tudo está muito caro; e todas estas despezas juntas com as da casa se ha familia, he necessário para a sua sustentação tres mil Cruzados de renda; com tudo ha laberco, que não tendo tres reis de seu, não falta a nada disto; assentão os Politicos que como o Cavalheiro Pinete andou por este mundo, deitou tantos Discipulos, quantos são os Pelotiqueiros que sem nada fazem tanto (XXXVII, pp. 3-5).

Já o «Calculo certo da despeza, que faz huma Senhora para se pôr na rua com a

moda, desde os bicos dos pés até á cabeça, na função para que foi convidada, dos

annos da Prima» demonstra que ser fashion victim e ir a uma festa de aniversário no

limiar do século XIX não custava menos de 76.700 réis, sobretudo em vestidos, rendas,

fitas, jóias, acessórios e cosméticos. Conclui José Daniel: «Ou ha grande multidão de

calotes, ou anda pelo mundo occulta a varinha de condão, com que minha Avó me

embalou» (LXIV, pp. 2-4).

Outra lista enumera o «Calculo da despeza da guerra dos Calotes, que tem

havido em Lisboa, e seu Termo, segundo a variedade do modo de os pregar; e isto

desde Janeiro de 1798 até 30 de Dezembro de 1799», subdivididos em «calotes

políticos» e «calotes descarados», onde arrola diversas formas de burla, incluindo o

132 TINHORÃO, José Ramos – Domingos Caldas Barbosa: o poeta da viola, da modinha e do lundu

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«gato por lebre» e os empréstimos sobre penhores em que «quem conta hum conto, que

sempre lhe acrescenta hum ponto», encarecendo o preço do resgate (CXXXIII, pp. 1-3).

Mais curta é a lista que escarnece de um dos mais respeitados protocolos sociais

da época – as visitas – no «Calculo do tempo que gastão as Senhoras nas despedidas das

suas amigas».

[...] prepárão-se para a visita toda a tarde, sahirão ás seis, chegárão a casa das amigas ás sete, levantárão-se para se despedirem ás nove, descêrão pela escada ás onze; e chegárão a casa á meia noite; e ainda pelo caminho algumas disserão mal á sua vida por lhe ter esquecido certas cousinhas, que inda lá tinhão que dizer (XCIX, p. 4).

A educação é um tema particularmente sensível, dada a sua vulnerabilidade à

ofensiva das modas e da inovação. O avanço da modernidade provoca um desabafo ao

autor:

Rua de S. Vicente 14 de Novembro […] eu vejo-me doido! isto então crianças que ainda o outro dia cheiravão aos coeiros, e hoje estão dando Leis, e razões que só ellas entendem; em fim saber, e ver até morrer […] he verdade que as filhas erão menos prendadas nisto de cantarolas, e danças altas, mas assim mesmo bixos do mato, sabia o Noivo o que levava em matéria de governo; porém hoje já [os pais] as vão criando [as filhas] á moderna, mettendo a sua colherada em tudo que se falla, mas sem saberem caiar huma casa, nem desmanchar hum porco […] nem sabem para si, nem para ensinar ás criadas quando chegão a ser Senhoras do seu nariz […] finalmente ha muitas que nem sabem fazer huma camisa, porque os Pais só as vão emestrando em calculos, e multiplicações geograficas, cousinhas que lhes fazem andar a cabeça á roda; no cabo em se pilhando sabias, entrão a dissertar nos secantes, e tangentes, sem que se lhe seque a prosa, e tangendo bem com engano aquelles, que por infelicidade lhes cahirão nas unhas (CXXX, p. 1-2).

Sinal da importância que lhe é reconhecida, o tema é desenvolvido em

sucessivos folhetos do periódico.

Exame critico feito no modo com que presentemente se cria huma Menina em todas as idades, de sorte que vem a ser depois o chefe das invenções, e denguices […] mudão-se os tempos, mudão-se os costumes, e por consequência temos novas educações […] Logo que a Senhora se desmama, ou começa a fallar, já a Mãi, ou a sua Aia, lhe principia a inspirar toda a espécie de melindres […] quando a menina sente de noite cães na rua a ladrar, se lhe diz que he o papão […] a menina fica no costume de ter medo de tudo […] de criança se vai costumando a queixar-se toda a sua vida […] chovem os desdens ao fallar, as invenções ao comer, as nequices ao vestir, as impertinencias ao pentear, os medos ao sahir fóra, e finalmente os montões de exquisitices em todas as suas acções: se lhe vão á mão á sua vontade, he logo surprendida de letargos, convulsões, e desesperos […] se chega a desposar-se trata o bem aventurado com hum génio de velublidade, trata-o de resto, só cuida nos próprios enfeites, e mostra huma total desplicencia para os trastes do Marido […] e no fim do mez manda-lhe hum rol de alto abaixo da divida do Capellista, e Mercador: se acaso ha filhos, já a Senhora lhe não pega ao colo, por se não amarrotar, nem os leva comsigo fora, por se

36 não dizer, que já he Mãi de filhos; que esta he agora a ultima moda: na idade avançada fica atreita a flatos, e erzipula, que nunca se lhe despede, e tão rabugenta de genio, que ninguém a póde aturar, até que Deos compadecido de nós a leva para si, ficando o mundo livre de mais este flagello (CXXXVII, p. 5-7).

Até na medicina as modas são factor de perturbação – «o curativo vai por

modas» –, conforme testemunha a resposta de um doente ao médico que lhe receitara

um purgante, incluída na secção de Anedotas:

Senhor Licenciado, como ainda espero que venha tempo, em que este purgante se não approve, quero-me já prevenir em o não tomar. Respondeo- lhe o Cirurgião; hui, Senhor, pois V. m. duvida do meu curativo? Disse-lheo enfermo, duvido, sim senhor, assim como Vv. mm. outros duvidão do curativo daquelles, que erão tidos por grandes homens nesta matéria, e fundo-me em que algum dia negavão ao malignado huma sede d’agoa, hoje quanta o enfermo possa beber; prohibião-se laranjas á noite hoje mandão que se coma a toda a hora. Em cima da lagosta, camarão, pepino, melancia, e ovos mandavão fugir d’agoa, como o demo da Cruz, hoje applica-se-lhe agoa, e mais agoa. Os banhos sempre forão de agoa morna, hoje so se querem d’agoa fria; algum dia sangrava-se muito, hoje não se sangra ninguem; nestes termos meu amigo, como o curativo vai por modas, aqui conservarei o purgante até vêr em que ellas párão (LXXXII, p. 7).

Espaço ainda para a crítica à superstição, denotando da parte de José Daniel uma

preocupação pedagógica ao usar a ironia para afastar os leitores da crendice e de bruxas,

duendes, vampiros, etc.: «São certíssimos; o que tem é que nunca aparecem se não a

pessoas de poucos estudos e alguma coisa fanáticas».

Alfama 29 de Abril. Não querem crer que ha Bruxas, ha, e mais que ha; que importa que estes Senhores modernos com as suas modernas filosofias filosofando á moderna, se fação todos pirrónicos, duvidando de tudo, se a experiencia, e a tradicção dos nossos velhos conscriptos nos mostrão o contrario? Quem poderá negar, que a minha Avó quando era pequena vio hum negrinho de mão furada, com o seu barrete encarnado, sahir-lhe debaixo da chaminé bailando as chigansas? […] Os Duendes, ou Vampiros são certíssimos; o que tem he que nunca apparecem se não a pessoas de poucos estudos, e alguma cousa fanáticas; mas isto mesmo he gyria nos taes Vampiros, por se livrarem de argumentos, porque se apparecessem a algum sábio, este lhe provaria, que elles não existião, e que era só hum delirio da imaginação dos que os vião (CII, p. 1).

O auto-elogio, por vezes irónico

133

, é constante no Almocreve de Petas, como

aliás em todos os periódicos de José Daniel Rodrigues da Costa

134

. Além dos constantes

apelos à compra dos folhetos e à angariação de assinaturas, passando pela publicação de

cartas e a invenção de correspondentes em diferentes cidades do reino e do império

133 PAIVA – Op. cit., p. 196.

134 SANTOS, Maria do Carmo dos, BARBOSA, Socorro de Fátima Pacífico – «A Sátira e a técnicas

retóricas nas cartas jocosas de O Almocreve de Petas (1798-1799)», Cadernos Literários. Vol. 23, n. 1, 2015, p. 60-84.

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(designadamente do Brasil) e ainda pelas polémicas com a concorrência, sobretudo o

Retorno do Almocreve de Petas e o Café Jocoso, sucedem-se as «falas» aos leitores. A

«Falla de despedida do Editor desta Obra» é apenas um exemplo:

Presadissimos Portuguezes, antigos, e modernos, masculinos, e femininos, tenho a honra de lhes fazer ver, que finalisa neste anno o decimo oitavo seculo, que he o mesmo que mil e oitocentos, assim no presente mez as Petas do meu Almocreve, que pouco mais ou menos andarão pela mesma conta, podem agora botar as linguas de remolho para outra occasião, os immensos inimigos que tiverão as pobres petas, desde que vierão á luz em onze de Janeiro de 1797 que á maneira dos pintos tiverão a felicidade de ir com a mãi ao poleiro: louvado Deos! Confesso que me custou muito enxotar os milhafres, que de longe, e de perto as accommettião, porque os maganões descascados, e os de casca tão dura que nada lhes entra […] não cessavão de abocanhar o miseravel almocreve […] fazião tal mixordia de criticas, que elles mesmos se não entendião; o certo he, que alguma razão tiverão em satyrisarem estes folhetos, pois fui tão louco, que devendo-lhes chamar correio das verdades, lhe puz Almocreve de Petas; mas fica-me a gloria de não ter esperdiçado o meu tempo, porque se não compuz huma Obra pensamenteada, sublime, energica, e grandiloca, onde a imaginação vôe, e o discurso se extasie […] ao menos compuz hum papel, que me aquentou a algibeira, e arranjou alguns negalhos, que me fez huma arrumação como lhe não sei dizer; além disso o meu alfaiate, o meu çapateiro, o meu barbeiro, o galucho que serve a casa, que tambem sabe ler, sendo todos cabisbaixos, sorumbaticos, e tristes como o noite bó, divertirão-se tanto, que lhe servirão estes folhetos de agua de cerejas pretas contra os flatos hipicondriacos; e elles mesmos me confessárão, que já estavão enjoados de ler Carlos Magno135 […] e como não ha cousa que deixe de valer sempre alguma cousa, por isso lhe puz o preço de quarenta réis, que á vista da carestia a que chegou a bala de papel, foi o mais pequeno balasio que lhe pude arrumar: agora só me resta pedir perdão ás Senhoras do pouco que fallei nellas em toda a Obra […] devo igualmente bemquistar-me com os meus Leitores, dando-lhe a entender, que terei o maior gosto em que algum delles continue

No documento Castigar a rir. Vol. I (páginas 52-58)